A mesa de aço se estendia por metros, fria como cadáver, coberta de mapas militares que ninguém consultava e caixas de munição que serviam mais de apoio para copos de café do que para qualquer coisa bélica. Três chefes ocupavam as cadeiras do fundo, fumando devagar, vozes graves que ecoavam no galpão vazio. Luz fria caía de luminárias penduradas por fios grossos, criando sombras duras nos rostos.
O galpão ficava onde Curitiba terminava. Ou começava. Jota nunca tinha certeza de nada ali.
Ele estava de pé, camiseta regata vinho colada no corpo pelo suor, mochila laranja aos pés, caderno marrom aberto na mão esquerda. Anotava tudo. Sempre anotava. Mesmo quando não fazia sentido.
E essa missão definitivamente não fazia sentido.
— Cinco tanques alinhados lá fora — disse o chefe do meio, barba grisalha, cicatriz atravessando a sobrancelha. — Você cuida deles. Sabe disso.
Jota assentiu. Cuidava. Não sabia exatamente como nem por quê, mas cuidava. Os cinco blindados estavam enfileirados no pátio de areia, canos apontados para o horizonte vazio, motor desligado, esperando.
— A missão é simples — continuou o chefe. — Levar chocolates até o outro lado da linha.
Jota parou de escrever. Olhou para cima.
— Chocolates?
— Chocolates. — O chefe deu uma tragada longa, soltou a fumaça devagar. — Vital.
Jota escreveu no caderno: “Missão: chocolate. Vital???”
O chefe da direita, mais novo, cabelo raspado, jogou quatro barras grossas de chocolate embrulhadas em papel dourado sobre a mesa. O barulho foi pesado, sólido. Não parecia chocolate. Parecia tijolo.
— Quatro pessoas. Cada um carrega uma barra. — Ele apontou para a porta. — Saem em dez minutos.
O chefe da esquerda, mais velho, olhos fundos, acrescentou:
— Eles vão te reconhecer lá. Não pergunta por quê. Só aceita.
Jota fechou o caderno, enfiou na mochila laranja junto com o isqueiro amarelo que ele tinha usado pra acender os cigarros dos três chefes. Tic nervoso. Sempre oferecia fogo. Sempre acendia na primeira. O isqueiro sobrevivia a tudo.
Saíram em quatro.
Jota, Beagá, Rand Oliveira, e Little Boobs.
Beagá era alto, ombros largos, uniforme cáqui justo no peito. Rand Oliveira era magro, mais baixo, óculos escuros mesmo sem sol, jeito de quem sabia de tudo mas não dizia nada. Os dois pareciam saber exatamente o que estavam fazendo, o que era mais do que Jota podia dizer.
Little Boobs, tatuagens expostas no braço, cabelo ruivo amarrado no alto, body preto justo, e aquele sorriso de quem achava tudo aquilo a coisa mais engraçada do mundo.
— Sério que a missão é chocolate? — ela perguntou, pegando uma das barras. — Tipo, chocolate de verdade?
— Parece. — Jota segurava a própria barra. Pesava mais de um quilo, fácil. O papel dourado já começava a amolecer no calor.
O deserto ao redor era plano, sem fim, areia cor de osso, sol caindo vertical. Cada passo afundava. O calor subia do chão em ondas visíveis, distorcendo a visão.
E o chocolate derretia.
Devagar no começo. Depois mais rápido. O papel dourado ficou encharcado, pegajoso. Jota rasgou a beirada. A massa dentro era vermelha. Não marrom. Vermelha como sangue doce.
Little soltou uma risada, lambuzada até o cotovelo.
— Isso é ridículo.
— É missão vital — Jota respondeu, sério, mas sem conseguir segurar o sorriso.
A guarita apareceu do nada. Estrutura de madeira podre, teto de zinco, cerca de arame farpado dos dois lados. E dentro, sentado numa cadeira que parecia prestes a desmoronar sob o peso, estava o homem.
Leandro Costa.
Danny Trejo, todo mundo chamava. Cicatrizes fundas cortando o rosto todo, olhos de pedra, bigode grosso. Macacão azul surrado, cabelo desgrenhado, cigarro apagado pendurado no canto da boca. Braços cobertos de tatuagens desbotadas.
Leandro se levantou devagar, mão enorme estendida.
— Vocês que pegaram o chocolate. — A voz saiu rouca, arrastada.
Jota parou. Beagá e Rand pararam. Little continuou andando, passou direto por ele, acenando com a barra derretida.
— Oi, tio! Tá calor, né?
Leandro a seguiu com os olhos, mas não se moveu. Voltou a olhar para Jota.
— O controle.
Jota deu um passo à frente.
— Desculpe?
Leandro não respondeu. Só esperou, mão estendida.
Beagá deu um passo à frente, voz baixa.
— Deixa comigo.
Beagá pegou algo do bolso de Jota — um papel, talvez — abriu e entregou.
Mas o movimento desafiava física e lógica. Para Jota, Beagá tinha enfiado a mão em seu peito — que agora era feito de chocolate líquido, quente, pulsando — e virado o mundo do avesso.
Jota sentiu o chocolate quente envolvendo o corpo todo, puxando para dentro, escuridão pegajosa e doce, cheiro sufocante. Não conseguia respirar. Não conseguia pensar. Só o doce sufocando, quente, descendo goela abaixo onde não deveria descer.
Durou um segundo. Talvez menos.
Chegaram no veículo.
Piso metálico. Cheiro de óleo queimado e metal aquecido. Interior de tanque. Little caiu ao lado dele, rindo, lambuzada de chocolate vermelho dos pés à cabeça.
— Isso foi INSANO!
Jota se levantou, limpando o rosto com a camiseta regata vinho, que agora estava mais marrom-avermelhada que vinho. A mochila laranja tinha sobrevivido, ainda nas costas.
Beagá e Rand já estavam lá, em pé, como se tivessem chegado horas antes. Beagá apontou para a escotilha.
— Bem-vindo ao outro lado.
O campo de tanques era infinito.
Dezenas. Talvez centenas. Metal enfileirado até onde a vista alcançava, canos apontados para o céu, motores desligados, esperando. E entre eles, gente.
Muita gente.
Todos olhando para Jota.
O primeiro se aproximou correndo, uniforme sujo, rosto suado, sorriso largo demais. Olhos brilhando como se tivesse visto um santo.
— COMANDANTE JOTA! — Ele quase tropeçou, parou a meio metro de distância, respiração ofegante. — Finalmente! A gente esperou tanto!
Jota piscou.
— Oi? — Olhou ao redor, procurando o comandante que eles esperavam. — Eu só… cuido dos tanques.
Outros vieram. Dez. Vinte. Todos falando ao mesmo tempo, vozes sobrepostas, mãos estendidas querendo tocar nele, rostos iluminados por devoção que não fazia o menor sentido. Ou será que eram somente os três multiplicados?
— Comandante!
— Você voltou!
— A gente sabia que ia voltar!
— Pode contar com a gente!
Little deu uma cotovelada no braço dele.
— Jota, você é tipo… o Jesus da multiplicação do chocolate?
— Não sei. — Jota tentou recuar, mas os aliados continuavam chegando, cercando, esperando ordem. — Eu só… trouxe chocolate?
Um deles, mais velho, cabelo branco, caiu de joelhos.
— Obrigado, Comandante. Obrigado por voltar.
Jota olhou para Beagá e Rand. Beagá deu de ombros.
— Eles são assim mesmo. Vai acostumando.
Os aliados começaram a entrar nos tanques. Um por um. Ocupando posições. Motores ligaram, ronco profundo que fazia o chão vibrar. Little subiu num deles, acenou lá de cima.
— Vem, Jota! Esse aqui tem ar-condicionado!
Não tinha. Mas ela riu mesmo assim.
Pois tanque, assim como o seu Gol Bolinha, não tinha ar-condicionado.
Mas foram.
Jota ao sentar, se sentiu numa cama estreita, lençol fino colado no corpo pelo suor. Não era mais tanque, não era mais Gol. Reconheceu o teto: casa da Little, no Alto da XV, Curitiba. Quarto pequeno, pôster de banda na parede, cheiro de incenso apagado.
Ela estava virada para a parede, respiração lenta.
A porta rangeu.
Rosquinha entrou. Porque claro que entrou. Rosquinha sempre entrava. Casaco molhado de chuva, cabelo bagunçado, sorriso no rosto.
— Chô! Acorda! — Ele bateu palma duas vezes. — Vamos comprar lasanha, o mercado do Parolito fecha em vinte minutos!
Jota se sentou na cama, confuso. Olhou para Little. Ela virou, meio acordada.
— Sério que vocês vão comprar lasanha agora?
— Fome não espera, amor. — Rosquinha puxou Jota pelo braço. — Bora, Chô!
Desceram as escadas. Little veio atrás, reclamando baixo, mas veio. Entraram no carro do Rosquinha, um Corsa velho que cheirava a cigarro e chiclete de menta. O rádio tocava baixo, alguma música pop dos anos 2000.
Little sentou no banco de trás. E parou.
— Gente. Que. Porra. É. Isso?
Jota virou.
O banco traseiro estava cheio de caixas de chocolate. Vermelhas. Sem rótulo. Sem marca. Só um símbolo pequeno estampado na embalagem: dois irmãos caçadores, lado a lado, rifles nas mãos.
— Que chocolate feio — Little pegou uma caixa, cheirou. — Compra Lacta, vai.
Rosquinha olhou pelo retrovisor, franzindo a testa.
— Chô, de onde saiu isso?
Jota não sabia. Só sabia que o chocolate estava lá. E que precisava chegar em algum lugar.
Cada um provou um pouco do chocolate que ainda tinha ali, deram de ombros, não entenderam nada.
— Depois a gente vê o que é — Rosquinha disse, virando na Marechal Deodoro. — Agora é lasanha.
Mas não foi lasanha.
O carro virou na esquina, e o horizonte mudou. O deserto voltou. Os tanques voltaram. Faróis acesos na distância, motores roncando, esperando.
Little apontou pela janela.
— Jota. Olha.
Os aliados estavam lá. Alinhados. Sorrisos largos. Mãos acenando.
O chocolate no banco traseiro começou a derreter. Escorria vermelho pelo estofado, pingava no chão do carro, cheiro doce e pesado invadindo tudo.
Jota abriu a mochila laranja. Caderno marrom, isqueiro amarelo, camiseta regata vinho extra (sempre tinha uma extra). Tudo ainda lá. Tudo real.
Rosquinha estacionou na frente da mesa de aço.
Os três chefes estavam lá. Fumando. Esperando.
Jota, Rosquinha e Little carregaram as caixas de chocolate vermelho. Little reclamou o tempo todo.
— Isso é trabalho escravo disfarçado de missão secreta, tá ligado?
Os chefes abriram as caixas. Conferiram. Acenaram satisfeitos.
— Ótimo trabalho, soldado.
Jota olhou para a mochila laranja. Abriu. Pegou o caderno marrom.
Abriu numa página aleatória.
Onde deveria estar escrito “Bergen”, havia apenas um desenho infantil de um tanque feito com chocolate derretido.
Virou a página.
“Liverpool” — LASANHA escrito em letras garrafais vermelhas, repetido trinta vezes até rasgar o papel.
Virou outra.
Uma mancha marrom que cheirava a sangue doce. A árvore. Os cachorros. Tudo apodrecido em tinta e açúcar.
Virou mais páginas, rápido, procurando. Ele LEMBRAVA de escrever. Sentia o peso da caneta, a mão cansada, as palavras saindo. Mas o papel não lembrava de nada. Só lembrava errado.
Fechou o caderno devagar. Mãos tremendo um pouco.
— Tá tudo bem, Jota? — Little olhou preocupada.
— Tá. — Ele guardou de volta, devagar. — Tá.
Um dos chefes acendeu outro cigarro. Jota ofereceu o isqueiro amarelo. Acendeu na primeira.
— Amanhã tem mais — o chefe disse, soltando fumaça. — Cinco caixas. Sabor morango.
Rosquinha riu, jogando o braço no ombro de Jota.
— Chô, a gente vai precisar de um carro maior.
Little cruzou os braços.
— Eu não vou de novo se não tiver ar-condicionado.
Rosquinha parou, olhou pros dois.
— Espera. A gente AINDA não comeu lasanha.
Lá fora, os tanques ronronavam. Os aliados cultistas acenavam da distância, sorrisos largos, devoção inabalável. Um deles gritou:
— ATÉ AMANHÃ, COMANDANTE!
Jota guardou o caderno na mochila laranja. Fechou o zíper. Olhou para os três chefes, para Rosquinha, para Little, para os tanques.
Missão cumprida.
Seja lá o que isso signifique.
E amanhã tem mais.
Sempre tem mais.
