Jota senta ao lado de Dona Turquinha na cozinha, camiseta regata vinho colada nas costas pelo calor de Curitiba que não dá trégua, mochila laranja jogada no canto onde deixou ao chegar. Tênis surrados largados na porta, cadarço direito solto como sempre. O caderno marrom dela está aberto na mesa de fórmica, páginas cheias de números, nomes, valores que somam uma fortuna em dívidas alheias. Isqueiro amarelo segurando uma pilha de folhas soltas pra não voarem com o ventilador. Ela empurra o lápis para ele com calma de quem já decidiu tudo.
— Anota aí o que o Fabiano Rabino deve: oito mil, nove cento e cinquenta.
Ele escreve 8950,00 em letra grande, caprichada, e sem que ela precise pedir, acrescenta ao lado o código secreto que só a família entende: 8901. Meia-entrada eterna no cinema, cortesia da dívida alheia.
Jota conhece o esquema. Sempre conheceu. O Seu Jorge do cinema deve pra Dona Tude desde 2003. Muito. O suficiente pra garantir meia-entrada pra família inteira até 2050. Cada novo devedor que entra no caderno marrom vira código novo. Cada código vira benefício eterno. Simples assim.
Do outro lado da linha, Fabiano aparece na tela do celular de Dona Turquesa, suado, dentro de um quarto de hotel apertado. Crianças pulando na cama de trás — gritando algo sobre piscina. Mulher dele aparece no fundo, carregando protetor solar e boia de braço.
Fabiano fala rápido, voz embolada de quem já gastou até o troco do pão.
— Dona Gertrudes, eu queria levar eles no parque aquático, depois no bondinho, ainda tem o museu de cera… mas a carteira tá chorando.
Dona Tudinha sorri de canto, olho brilhando com aquele brilho de quem sabe exatamente o que está fazendo.
— Tranquilo, querido. Quando voltar, a gente acerta.
Jota vira o caderno marrom para a câmera, mostra o número grande e o código mágico logo abaixo. Fabiano lê, entende na hora, solta uma gargalhada que faz a criança parar de pular e olhar pra ele com cara de espanto.
— Caralho, 8901… isso é ingresso vitalício, né?
— Meia pra vida inteira — Jota responde, já rindo também, enquanto Dona Tude balança a cabeça concordando.
Atrás de Fabiano, a mulher aparece no quadro, ajustando a alça da boia no braço da criança.
— Amor, então conseguiu? A gente pode ir no parque?
Fabiano olha pra ela, olha pra tela, olha pro teto do quarto de hotel como se estivesse calculando quantos parques aquáticos, bondinhos e museus de cera cabem dentro de oito mil novecentos e cinquenta reais.
— Consegui — ele responde, sorriso aliviado. — Pode marcar tudo.
Uma das crianças grita “IHUUUUL!” e volta a pular, agora com dobro de energia. O outro imita o irmão, pulando torto, quase caindo da cama.
Dona Turquesa fecha o caderno marrom com estalo seco, satisfeita.
— Pode gastar à vontade aí, filho. Aqui o cinema já tá pago.
E desliga antes que ele consiga agradecer.
Jota olha pra ela, ainda rindo.
— Mãe, um dia esse caderno vai valer uma fortuna.
— Já vale — ela responde, abrindo o caderno de novo, folheando as páginas antigas como quem folheia álbum de família. — Cada código desse aqui é patrimônio.
Jota estica o pescoço, olha as páginas passando. Nomes. Valores. Códigos. Alguns riscados (quitados? mortos? sumiram?), outros destacados em vermelho (prioritários? perigosos?).
E então vê.
Uma página antiga, papel já amarelado, letra caprichada da mãe de anos atrás:
Rand Oliveira – 2.340,00 – Código: 14
Jota congela.
— Mãe.
Ela não olha. Continua folheando.
— Hm?
— Tu conhece o Rand?
Dona Tude para. Olha pra página. Olha pro filho. Sorri daquele jeito que significa “sei de coisas que você não sabe e não vou contar”.
— Conheço muita gente, filho.
— Não, mas o Rand… o Rand Oliveira. Macacão azul, aparece e some, sempre ajuda quando preciso…
— Esse mesmo.
Jota sente o chão sumindo embaixo dos pés.
— Desde quando?
— Desde sempre.
— Como assim desde sempre?
Dona Turquinha fecha o caderno devagar, coloca na pilha de folhas, prende tudo com o isqueiro amarelo em cima.
— Rand sempre aparece quando precisa, né? — Ela fala como se fosse óbvio. — Pra você. Pra mim. Pra todo mundo. Faz parte.
— Mas ele te devia? Dois mil e trezentos?
— Devia. — Ela se levanta, pega o caderno, guarda na gaveta ao lado de escrituras antigas, certidões, fotos de casamento. — Pagou. Faz tempo. Código 14 virou outra coisa.
— Que outra coisa?
Ela olha pra ele, sorriso de canto.
— Pergunta pro Rand.
E sai da cozinha antes que ele consiga insistir.
Jota fica ali, sentado, olhando a gaveta fechada. Rand no caderno da mãe. Código 14. Pagou. Virou outra coisa.
Que outra coisa?
Lá fora, o Gol Bolinha espera no sol, janelas abertas, lataria brilhando fraco. Ele pega a mochila laranja do canto, joga no ombro, levanta.
Vai perguntar pro Rand.
Mas sabe que Rand não vai responder.
Rand nunca responde.
Só aparece. Ajuda. Some.
Como sempre fez.
Desde sempre.
Jota sai da cozinha ainda processando. Dona Tude já está na sala, celular na mão, atendendo outra ligação.
— Alô? Ah, oi querido. Tá precisando de quanto?
Ela já pega o caderno marrom de volta, abre numa página em branco, caneta na mão.
— Certo. Anota aí: sete mil e duzentos. Código… — Ela pensa, olha pro teto como se calculasse. — Código 9102. Esse aqui te dá desconto eterno na farmácia. Serve?
Do outro lado, a pessoa deve ter concordado, porque Dona Turquesa sorri satisfeita.
— Ótimo. Quando voltar, a gente acerta.
Jota passa por ela, acena, vai em direção à porta. Ela cobre o celular com a mão, sussurra:
— Não esquece que você também me deve, viu?
Jota congela na porta.
— Eu sei, mãe.
— Código seu tá guardado. Quando precisar, eu cobro.
Ele ri, nervoso.
— Que código eu tenho?
Ela pisca, misteriosa.
— Pergunta pro Rand.
E volta pra ligação antes que ele consiga responder.
Jota sai, fecha a porta, desce pro Gol.
Código 14.
Código dele.
Rand no caderno da mãe.
A vida ficando mais estranha a cada dia.
Mas pelo menos o cinema tá pago.
Meia-entrada eterna.
Patrimônio da família.
Conquistado com paciência, anotação caprichada e videochamada de um comediante endividado em perrengue de viagem com as crianças pulando na cama.
Jota entra no Gol, liga o motor, sai devagar.
E o caderno marrom da Dona Tude volta pra gaveta.
Esperando o próximo devedor.
O próximo código.
A próxima meia-entrada eterna.
Sempre tem mais um.
Sempre.
