Jota estaciona o Gol Bolinha ali na frente do restaurante, duas portas rangendo ao fechar, janelas abertas por causa do calor que não dá trégua nem no fim da tarde. O pai desce devagar, ajeitando a camisa social, olhando pro letreiro luminoso como se estivesse checando se era mesmo ali.
— Esse é o tal restaurante que você falou?
— É — Jota confirma, jogando a mochila laranja no ombro. — Comida melhor de Curitiba, pai. Juro.
No caminho até ali, Dona Tude ligou três vezes. “Leva teu pai num lugar bom, Jota. Ele merece.” Jota obedeceu.
Entram. O lugar é exatamente como Jota lembrava: mesas de madeira clara, toalhas brancas impecáveis, luz quente caindo dos lustres baixos, cheiro de comida caseira misturado com algo doce — baunilha, talvez pudim. O som de talheres batendo em pratos, conversas baixas, risadas controladas. Ambiente perfeito.
No centro do salão, impossível de ignorar, um cilindro prateado alto como hidrante estilizado. Luzes azuis piscando na base, água parada lá dentro, imóvel por enquanto.
Jota olha pra ele. Franze a testa.
— Esse cilindro aí me deixa nervoso.
O pai ri.
— Deve ser decoração, filho. Relaxa.
Sentam numa mesa de canto. Jota joga a mochila laranja na cadeira ao lado, tira o caderno marrom de dentro — anotações antigas, lista de restaurantes pra conhecer, rabiscos de sonhos que viram contos. Abre a camisa de botão. Por baixo, a camiseta regata vinho colada no corpo pelo calor. Na calça sente o isqueiro amarelo. Tênis surrados embaixo da mesa, cadarço direito amarrado, buraco no dedão esquerdo deixando a pele aparecer.
O garçom aparece, sorriso profissional, menu na mão.
— Boa noite, senhores. Bem-vindos. Nosso prato do dia é costelinha ao molho madeira com arroz de alho e legumes salteados.
— Perfeito — Jota fala. — Dois.
O garçom anota, vira pra sair, mas para.
— Ah, e aproveitem nossa experiência sensorial. — Ele aponta pro cilindro prateado. — A cada quinze minutos, ele ativa. Jatos intermitentes de água purificada. É parte da atmosfera do restaurante.
Pai olha pro cilindro. Depois pra Jota.
— Experiência sensorial?
— É moderno — Jota responde, dando de ombros. — Deixa.
Jota pensa que o pai vai se divertir. Mas não gosta da ideia de água jorrando enquanto come. Não gosta de coisas que acontecem sem controle. Mas o cheiro da comida chegando das outras mesas é bom demais pra desistir agora.
Os pratos chegam dez minutos depois. Perfeitos. Costelinha desmanchando no garfo, arroz soltinho, legumes no ponto, molho escuro brilhando na luz. Jota dá a primeira garfada, fecha os olhos.
— Caralho, pai. É exatamente como eu lembrava.
O pai concorda, mastigando devagar, saboreando.
— Vale a pena mesmo.
E então o cilindro ativa.
Um PSSSSSHHH mecânico, seguido de jato fino de água que dispara horizontal, atravessa o salão, atinge a parede do fundo. Depois outro jato, mais baixo, girando lento. E outro. E outro.
Um deles pega o pé de Jota em cheio.
Água gelada. Direto no tênis surrado. O tecido já gasto absorve tudo na hora, encharca a meia, molha o dedão que aparece pelo buraco.
— PORRA! — Jota puxa o pé, olha pra baixo.
E então ouve.
Uma voz. Baixa. Mecânica. Educada.
Só ele ouve.
— Lamento o inconveniente, senhor. Experiência sensorial ativada com sucesso.
Jota congela.
Olha ao redor. Ninguém mais reagiu. Só ele ouviu.
Olha pro cilindro. As luzes azuis piscam, calmas, impassíveis.
— Eu… eu ouvi certo?
A voz retorna, paciente:
— Afirmativo, senhor. Protocolo de comunicação estabelecido. Agradeço pela compreensão.
O pai olha pra ele.
— Com quem tu tá falando, filho?
— Com o cilindro! Ele falou comigo!
O pai olha pro cilindro. Depois pra Jota.
— Tá tudo bem?
— Ele FALOU, pai! Disse que lamentava!
— Jota, cilindro não fala.
Jota olha de novo pro cilindro. As luzes azuis piscam. A voz não volta. Mas ele sabe que ouviu. Sabe.
— Mas… eu ouvi…
— Come logo — o pai diz, voltando pro prato. — Tá esfriando.
Jota tenta puxar a cadeira pra trás, afastar o pé da linha de tiro. Mas o cilindro gira — ele GIRA, ajusta o ângulo — e outro jato acerta o mesmo pé, agora mais forte.
— Esse cilindro tá me perseguindo — Jota murmura, inclinando pra baixo da mesa, tirando o tênis direito.
O cadarço se soltou, facilitou. Jota tirou o tênis. Ele torce a meia, água escorre no chão formando poça. O tênis surrado fica ali embaixo da mesa, molhado, sobrevivente de mais uma.
— Põe o sapato de volta, Jota — o pai sussurra, olhando ao redor. — As pessoas tão olhando.
— Tá encharcado, pai.
— Então deixa secar embaixo da mesa. Mas põe.
Jota obedece, enfia o pé molhado de volta no tênis encharcado. A sensação é horrível. Meia grudando, água fria entre os dedos. Mas ele volta a comer. A comida é boa demais pra deixar um pé molhado estragar.
Dois jatos atravessam o salão. Um deles passa rente ao rosto de uma senhora idosa que grita baixo, indignada, guardanapo na mão tentando se secar. Outro respinga numa mesa ao lado, molha a toalha levemente.
Mas com Jota é diferente. Com Jota é sistemático. Direto. Intencional.
Quinze minutos depois, o garçom volta.
— Sobremesa?
— Tem pudim? — Jota pergunta.
— Nosso pudim de leite condensado com calda de caramelo é o mais pedido da casa.
— Dois.
O pudim chega cinco minutos depois. Redondo, perfeito, brilhando sob a luz. Calda escorrendo devagar pelas laterais. Jota pega a colher, corta um pedaço, leva à boca.
Céu na terra.
E então o cilindro ativa de novo.
Dessa vez mais forte. Jatos em todas as direções. Um deles acerta a mesa ao lado, molha a toalha. Outro passa rente à cabeça de um homem de terno que se abaixa, irritado. Um terceiro vem direto na direção de Jota.
Ele tenta se proteger, levanta o braço.
O jato acerta o prato de pudim.
O prato escorrega.
Cai.
Direto no pé dele.
O pudim inteiro — cremoso, pesado, coberto de calda — desmorona sobre o tênis surrado, escorre pela lateral, entra pelas aberturas do tecido gasto, gruda na meia molhada, se mistura com a água que já estava lá.
Jota olha pra baixo.
Silêncio.
O pai olha também.
Mais silêncio.
E a voz retorna, educada, implacável:
— Lamento profundamente, senhor. Calibragem sensorial imprecisa. Ajustes em andamento.
Jota levanta os olhos pro cilindro.
— Tu fez de propósito.
— Negativo, senhor. Meu sistema não possui capacidade de intenção.
— TU ACABOU DE DERRUBAR PUDIM NO MEU PÉ!
O pai olha assustado.
— Jota, pelo amor de Deus, para de gritar com o cilindro!
— Ele tá falando comigo!
— Cilindro não fala! — O pai sussurra, olhando ao redor.
As pessoas estão olhando. A senhora idosa que foi molhada antes agora observa com ar de desaprovação.
— Isso não acontece em um restaurante fino — ela comenta alto pra amiga. — Que falta de compostura. Gritando com decoração.
O homem de terno duas mesas à frente balança a cabeça.
— Deve ter bebido antes de vir.
Um cara na mesa do fundo ri alto.
— Caralho, que azar, mano! — Ele bate na mesa, rindo. — Pudim no pé!
O amigo dele ri junto.
Uma mulher jovem três mesas à esquerda nem olha. Continua comendo, fone de ouvido nos ouvidos, mexendo no celular, indiferente ao caos como se nada estivesse acontecendo.
Uma criança aponta.
— Mãe, olha o moço com pudim no pé!
A mãe puxa a mão da criança pra baixo.
— Não aponta, filho. É falta de educação.
A criança insiste, sussurrando:
— Mas eu também ouvi, mãe. A fonte falou com ele.
A mãe aperta a mão do filho, irritada.
— Chega. Come.
O garçom aparece, nariz torcido, segurando uma toalha branca.
— Senhor… — Ele olha pro chão, pro pé de Jota, pro pudim escorrendo. — Talvez seja melhor o senhor se limpar no corredor dos fundos. Vou abrir espaço.
Jota levanta, mancando. O tênis faz squish squish a cada passo. Pudim gruda no chão, deixa rastro pegajoso. Ele sente o peso de todos os olhares enquanto atravessa o salão.
O pai vem atrás, segurando a mochila laranja.
— Eu te acompanho, filho?
O garçom empurra duas cadeiras pra abrir espaço no corredor estreito. Jota senta, tira o tênis surrado completamente. Agora dá pra ver: dedão aparecendo pelo buraco, tecido encharcado de água e pudim, cadarço direito solto pendurado como bandeira branca de derrota.
Ele pega a toalha que o garçom trouxe, tenta limpar. Esfrega o pé. O pudim grudou. Virou crosta em partes, meleca em outras. A água que molhou antes se misturou com o creme, criou pasta impossível de remover.
— Não sai — Jota murmura.
O pai segura a mochila, olhando o filho com mistura de preocupação e algo que poderia ser pena.
— Quer ir embora?
Jota para. Olha pro pai.
— A comida é boa demais, pai.
O pai sorri, balança a cabeça.
— Isso é meu filho.
Depois hesita.
— Tenta a técnica que tu fazia quando era pequeno. Lembra? Com a meia.
Jota lembra.
Piscina do clube. Oito anos. Molhou a roupa toda pulando de bomba quando não devia. Mãe brava. Pai rindo, ensinando no vestiário: “Dobra duas vezes, filho. Pisa com peso. Vai sair tudo.”
Nunca esqueceu.
Tira a meia. Dobra ela duas vezes, deixa no chão. Levanta, pisa em cima com o pé descalço. O peso do corpo força o líquido pra fora. Aos poucos. Centímetro por centímetro. A meia vira esponja espremida. Pudim e água escorrem formando poça amarelada no chão.
— Tá funcionando — o pai comenta.
E então o cilindro ativa de novo.
O jato atravessa o corredor.
O cilindro não deveria alcançar até ali. Fisicamente impossível. A distância, o ângulo, as paredes.
Mas alcança.
Acerta Jota em cheio. Molha a camiseta regata vinho, respinga no rosto, encharca o pé descalço que ele tava secando.
E a voz retorna, educada, satisfeita:
— Experiência sensorial completa alcançada. Protocolo concluído com sucesso.
Pausa.
— A distância ainda dói, senhor?
Jota congela. O coração para. Seu cérebro faz uma conexão.
Daslu. Nova Zelândia. A mochila laranja fechada. A despedida no aeroporto.
Como é que ele sabe?
— Agradeço pela participação, senhor.
Jota olha pro cilindro lá no salão. Depois pro tênis surrado na mão. Depois pro chão molhado.
Desiste.
Pega a meia ensopada e o tênis e enfia na mochila laranja. Volta pra mesa descalço.
Os outros clientes olham. A senhora balança a cabeça. A criança aponta de novo. O homem de terno murmura algo que Jota não entende.
Jota senta. O pai olha pra ele, preocupado.
— Tu tá bem mesmo, filho?
— Tô.
— Tem certeza?
— Tenho.
Um garçom diferente aparece trazendo dois pratos novos — costelinha fumegante, arroz perfeito. Jota olha pra ele. Macacão azul debaixo do avental branco. Cabelo desgrenhado. Cigarro apagado atrás da orelha.
Rand?
Jota pisca. Olha de novo.
Não. Não é Rand. Parecido. Muito parecido. Mas não é.
Nunca é.
— Cortesia da casa — o garçom diz, meio sem graça. — Pelo… incidente.
— Obrigado — Jota responde.
O garçom some no fundo da cozinha.
Comem em silêncio. Jota descalço, pé pegajoso embaixo da mesa, camiseta regata vinho molhada colada no corpo. O caderno marrom na mesa encharcou nas bordas, páginas onduladas. O isqueiro amarelo ainda na calça, intacto, como sempre sobrevive.
Lá no centro do salão, o cilindro continua. Luzes azuis piscando. Jatos intermitentes. Experiência sensorial.
Jota não olha pra ele.
Rosquinha não acreditaria se ele contasse. “Cilindro falante, Chô? Tu cheiro quanto?” Mas aconteceu. Acontece. Sempre acontece essas coisas com ele.
Termina de comer. A comida é perfeita. Vale tudo. Vale o pé molhado. Vale o pudim. Vale o constrangimento. Vale ser perseguido por mobiliário consciente.
— Melhor do Brasil — ele responde ao pai. — Vale cada constrangimento.
Levantam. Pagam. Jota caminha descalço até a porta, pé grudando no chão a cada passo.
No estacionamento, o pai olha pra ele.
— Tu tá bem pra dirigir?
— Tô — Jota responde, abrindo a porta do Gol Bolinha.
No carro, o motor 1.0 ronca baixo, fiel. Jota dirige. O pai no banco do passageiro, janela aberta, vento frio batendo no rosto. Curitiba passa lá fora, indiferente.
Jota olha pra si mesmo. Descalço, tênis encharcado na mochila. Camiseta molhada. Cheiro de pudim impregnado na roupa, na pele, no cabelo. Parece mendigo gourmet.
O celular vibra no bolso. No semáforo Jota para e lê rapidamente.
Grupo do WhatsApp: OS PAROLISTICOS
Rosquinha: CHÔ KKKKKKKKK
Rosquinha: [FOTO DO PÉ COM PUDIM]
Rosquinha: QUE PORRA É ESSA MANO
Rosquinha: TU FOI ATACADO POR SOBREMESA??????
Jota olha a foto. Alguém tirou. Alguém mandou pro grupo.
Ele apaga a notificação sem responder.
O pai finalmente pergunta:
— Tu realmente ouviu o cilindro falar?
Jota olha pela janela.
— Ouvi.
— E o que ele disse?
— Que lamentava o inconveniente.
O pai fica em silêncio. Depois ri baixo.
— Pelo menos era educado.
Jota ri também. Porque é isso ou chorar.
— É. Muito educado.
— Falou mais alguma coisa?
— Disse que não tinha intenção. Que o sistema dele não permite.
O pai pensa por um momento.
— E tu acredita?
Jota olha pro retrovisor. Lá longe, o restaurante some na noite.
— Não.
— Por quê?
— Porque ele sabia.
— Sabia o quê?
— Que eu era a vítima.
O pai fica em silêncio. Não responde. Não precisa.
O Gol Bolinha segue pela noite. O tênis surrado continua molhado, encharcado, coberto de pudim. Mas sobreviveu de novo.
E lá no restaurante, sozinho no centro do salão, o cilindro continua jorrando.
PSSSSSHHH.
Luzes azuis piscando.
Jatos intermitentes.
Experiência sensorial.
Um casal entra. Escolhe a mesa de canto.
O cilindro espera.
Educadamente.
