A rua está escura, luzes de poste piscando fraco, algumas queimadas de vez. O asfalto ainda guarda calor do dia, vapor subindo onde choveu de tarde. Curitiba à noite, cidade silenciosa, som distante de cachorro latindo e carro passando na avenida principal.
Jota sai do boteco com Little ao lado. Onze e meia, curtição boa, papo melhor. Ela já pega o celular, abre o app antes mesmo de perguntar.
— Vou pedir um Uber — ela diz, dedo no botão de confirmar.
Jota balança a cabeça, tira a chave do bolso, faz o alarme do Gol Bolinha apitar duas vezes. Estacionado na rua. As luzes piscam lá no fundo, lataria cinza fosca brilhando fraco sob o poste.
— Não precisa. Tô com o carro.
Little olha. Depois sorri de canto, guarda o celular de volta no bolso.
— Sempre estou com ele, você sabe.
— Eu sei, só estava fazendo uma ceninha, esperando você me convidar.
Jota ri.
— Até parece que ia deixar você fugir com outro.
Caminham até o Gol. Duas portas, lataria cinza com alguns arranhões, modelo 2003, Urban 1.0, etanol. Sem ar-condicionado, vidro elétrico. O tênis surrado de Jota arrasta no chão, cadarço direito solto. Ele nem percebe. Nada acontece. Só um cadarço frouxo. Normal.
Little vai abrir a porta do passageiro quando escuta vozes do outro lado da rua.
— Espera — ela diz. — É a Larissa.
Jota olha. Duas figuras encostadas numa mureta baixa, iluminadas pela luz azul dos celulares. Rosquinha e Larissa, dedos deslizando nas telas, esperando.
Larissa encostada na mureta. Cabelo solto caindo no ombro, blusa justa, postura cansada mas bonita. Jota olha. Little percebe que ele olhou. Sorri de canto, mas não diz nada.
— Eles também estavam no boteco? — Jota pergunta.
— Não vi eles por lá, devem estar vindo de outro aqui perto.
Eles se aproximam. Rosquinha olha pra cima rápido demais, como se já soubesse que eles estavam ali.
— Chô! — ele quase grita, aliviado. — Esses apps tão de sacanagem hoje.
Jota olha por cima do ombro dele. A tela do celular mostra:
Procurando motorista…
O mapa gira. O círculo de loading pulsa. Nada acontece.
— Faz quanto tempo? — Jota pergunta.
— Uns quinze minutos — Larissa responde, cansada. — Já cancelou três vezes. Agora tá procurando de novo.
Enquanto ela fala, a tela de Rosquinha atualiza:
Motorista encontrado! Chegando em 12 minutos.
Mas Rosquinha cancela imediatamente. Vai aproveitar a boa vontade do amigo.
— Dá uma carona pra gente, Chô! Faz um tempão que estamos procurando e nada.
Jota gira a chave no dedo.
— Claro. Vamos nessa.
Larissa olha pro próprio celular. Também pediu. Também espera.
Procurando motorista…
O dela ainda nem achou.
A tela atualiza sozinha:
Motorista chegando em 15 minutos.
— Ó — Larissa aponta. — Encontrou.
Rosquinha franze a testa.
— Como assim?
Espera mais um minuto. A tela atualiza de novo:
Motorista chegando em 18 minutos.
— Filho da puta — Rosquinha murmura, já feliz por ter cancelado antes.
O mapa mostra o carrinho no app. Alguns quilômetros de distância. Não se move. Só o tempo está aumentando.
Larissa senta na mureta, desistindo de ficar em pé. Cancela também.
Jota gira a chave do Gol no dedo.
— Eu tô oferecendo carona de graça. Carro tá ali. Vocês querem esperar quanto tempo ainda?
Rosquinha já está indo. Little gesticula “vamo logo”.
— Vamos Larissa — Rosquinha diz, guardando o celular.
Os quatro caminham até o Gol. Destrava as portas. Jota abre a porta do motorista. Little abre a porta e puxa o banco pra frente pra Rosquinha e Larissa entrarem atrás.
— Tem espaço pra nós? — Larissa pergunta.
— Tem, sim — Jota responde, pegando a mochila laranja que tava no banco de passageiro e jogando no fundo do carro.
— Não, só… sei lá.
— É igual mãe, sempre cabe mais um. Melhor que esperando meia hora no escuro — Little diz, empurrando o banco.
Rosquinha entra primeiro. Larissa entra depois. Little entra e fecha a porta.
Jota liga o motor. O ronco do 1.0 etanol corta o silêncio da rua. Familiar. Confiável. O caderno marrom que tava no painel escorrega, cai no colo de Little. Ela pega, coloca de volta.
— Isso é diário? — ela pergunta.
— Anotações — Jota responde, engatando a marcha. — Sonhos, ideias, essas coisas. Sempre te falo que tenho sonhos bons.
Jota pega o caderno e pede a mochila pra Larissa, que entrega. Os dedos dela roçam no ombro dele quando passa a alça. Jota guarda o caderno e devolve a mochila pra ela colocar no fundo novamente.
Little vê. Não diz nada.
Nisso o isqueiro amarelo cai com o movimento. Little pega, olha.
— Esse aqui é o famoso?
— O sobrevivente.
— Sempre salvando a pátria.
Jota sorri.
— Sempre.
Ela devolve o isqueiro. Jota coloca na porta lateral do motorista.
O Gol sai devagar, janelas abertas, vento frio da noite entrando. A camiseta regata vinho de Jota gruda nas costas do banco. Ele ajusta o retrovisor, vê Rosquinha e Larissa atrás, tranquilos.
— Pra onde? — ele pergunta.
— Centro, Praça Osório — Rosquinha responde.
— Eu também — Larissa confirma. — Moro ali perto.
— E tu? — Jota olha pra Little.
— Região do Xaxim. — Ela segura o olhar dele por um segundo a mais. — Mas deixa eles primeiro. Eu vou por último.
Jota olha pra ela.
— Vai pra casa mesmo?
— Sim. — Ela não desvia os olhos. — E não tenho pressa.
— Fechado.
O Gol segue pela avenida, pouco movimento, semáforos verdes, Curitiba dormindo aos poucos. O ronco do motor é constante, confortável. Ninguém fala por alguns minutos. Só o som do vento, do motor, da cidade lá fora.
Então Larissa quebra o silêncio, voz arrastada de quem bebeu mais que deveria.
— Então você é o Jota que a Little tanto fala?
Little congela. Vira pra trás, olhos arregalados.
— Larissa…
— O quê? — Larissa sorri, inocente demais. — É verdade. Vive falando de você.
Rosquinha ri baixo. Jota olha pelo retrovisor, encontra os olhos de Little. Ela desvia rápido, mexe no celular como se tivesse recebido mensagem urgente.
— Calada! — ela quase grita, mais alto do que pretendia.
O carro fica em silêncio por um segundo.
Larissa ri, encosta a cabeça no ombro de Rosquinha.
— Tá nervosa por quê? Falei mentira?
Little não responde. Só olha pela janela, braços cruzados.
Jota sorri de canto, volta a prestar atenção na rua. Mas o silêncio agora é diferente. Carregado.
Então o celular de Rosquinha vibra.
Ele pega, olha, ri alto.
— O que foi? — Little pergunta, virando.
— O app — Rosquinha mostra a tela. — Diz que meu motorista chegou no local de partida.
Jota olha pelo retrovisor, como se pudesse ver a rua dali. Três, quatro quarteirões atrás. Vazio. Escuro.
— Sério? — Larissa pega o próprio celular. — O meu tinha cancelado.
Rosquinha mexe no celular, incrédulo.
— Agora tá pedindo pra eu avaliar a corrida.
— Que corrida? — Little pergunta.
— Exatamente. — Ele digita, ri. — Pronto. Uma estrela. “Motorista fantasma.”
Todos riem.
— Filho da puta — Rosquinha murmura, fechando o app de vez.
— Ainda bem que cancelei — Larissa diz.
— Ainda bem que o Chô tem esse Golzinho — Rosquinha completa, batendo no teto do carro com carinho.
— Sempre à disposição — Jota fala, meio sério, meio rindo. — Um clássico.
— Clássico — Little repete, irônica. — Sem ar-condicionado é clássico agora?
— É sustentável — Jota responde. — Janela aberta, vento natural.
— E quando tá chovendo? — Larissa pergunta, se inclinando pra frente, apoiando a mão no encosto do banco do motorista. Quase toca no ombro de Jota de novo.
— Aí eu fecho a janela e uso o ar ventilador.
Larissa ri alto, a mão escorrega, roça no ombro dele por um segundo.
Todos riem.
Little puxa o banco pra trás com força. Mais do que precisava.
O semáforo fica vermelho na XV de Novembro. Jota para. Uma moto passa barulhenta. Um ônibus vazio segue em direção à rodoviária. A cidade respira devagar.
Rosquinha pega o celular de novo, manda mensagem em algum grupo. Depois de alguns segundos, olha as respostas, ri.
— Mandei mensagem avisando que chego mais cedo. — Ele guarda o celular. — Na verdade era pra um peguete. Vou aproveitar a noite curitibana.
Jota ri.
— Fazendo o possível.
— Sério — Rosquinha diz. — Valeu pela carona, Chô. A gente tava há tempos esperando aquele app de merda.
— Imagina — Jota responde. — Pra que serve amigo senão pra dar carona às onze da noite?
— Amigo com carro — Little corrige.
— Amigo com Gol Bolinha cinza 2003 — Larissa especifica.
— O melhor tipo de amigo — Rosquinha conclui.
O sinal abre. O Gol segue.
Mais cinco minutos, chegam ao primeiro destino. Rosquinha aponta um local na Praça Osório. Jota encosta. Larissa desce primeira, depois Rosquinha, os dois se espremendo pra sair pela porta de duas folhas.
Rosquinha bate no teto do Gol antes de se afastar.
— Valeu, Golzinho. Feio mas gente boa.
Jota balança a cabeça, rindo.
— Semana que vem eu pago — Rosquinha promete. — Levo um parolito.
Jota ri.
— Fechou.
Little ri também.
— Valeu mesmo — Larissa acrescenta, já na calçada.
— Nada — Jota responde.
Rosquinha e Larissa acenam e somem pela praça. Jota segue.
Agora só ele e Little. Ela solta o ar devagar, como se tivesse segurado por cinco minutos inteiros. Puxa o banco pra trás, se ajeita melhor, mais espaço. Encosta a cabeça no encosto, olha pra ele.
— Teu carro é meio apertado, sabia?
— É um Gol 2003, não uma limousine.
— Podia ser.
— Podia — Jota concorda. — Mas não é.
Silêncio confortável. O Gol vira à esquerda, segue em direção a região do Xaxim. Avenida vazia, árvores dos dois lados, vento entrando pelas janelas abertas. O frio da noite gruda na pele.
— Tu não bebeu nada no boteco — Little comenta, casual.
— Nunca bebo. Tu sabe.
— Sei. — Ela sorri. — Mas sempre tem uma buchinha aí, né?
— Se não tenho, sei onde encontrar.
Pausa. Ela olha pela janela, depois de volta pra ele.
— Tu sempre dirige? Tipo, sempre?
— Sempre. — Jota muda de marcha. — App cancela, Gol não.
Ela ri. Encosta a cabeça no banco, olha pra ele com aquele olhar.
— Gosto de homem que tem as próprias chaves.
Jota sorri, sem tirar os olhos da rua.
— É?
— É. — Ela pensa. — Mostra autonomia.
— Só isso?
— E outras coisas.
O Gol para num sinal vermelho. Jota olha pra ela. Little segura o olhar. O vento frio entra pela janela, bagunça o cabelo dela. Ela não arruma.
O sinal abre. Jota volta a dirigir.
Mais alguns minutos. Chegam no bairro dela. Jota encosta. Ela não desce imediatamente. Fica ali, olhando pela janela, pensando.
— Valeu — ela diz, finalmente. — Pela carona.
— Imagina.
Ela abre a porta, desce, se inclina de volta pra dentro.
— Da próxima vez eu pago teu combustível.
Jota olha pra ela, sorri de canto.
— Ou tu pode pagar de outro jeito.
Little sorri também, segurando a porta.
— Que jeito?
— Tenho uma ideia — e olha para o porta-luvas.
Ela hesita, então fecha a porta devagar. Fica do lado de fora, braços cruzados, sorrindo.
— Ou a gente para de enrolar e vai logo pro Parola.
Jota fica em silêncio por um segundo. Olha pra ela. Little não desvia os olhos.
— Tem um motel ali perto — ela continua. — A gente pode esticar a noite um pouco.
Jota desliga o motor. Sai do carro. Contorna até o lado dela.
— Entra de novo — ele diz, abrindo a porta do passageiro.
Little entra, sorrindo. Jota volta pro banco do motorista. O motor ronca baixo, fiel como sempre.
Para num sinal. Abre o porta-luvas. A buchinha do Parola está ali, no canto, onde sempre deixa.
Little procura o caderno marrom para esticar um tirinho ali na capa dura.
E a noite ainda é jovem: parolito no carro, chaves na mão e calcinha no chão.
