O ônibus desce a serra rangendo como se fosse morrer na próxima curva.
Motor diesel tossindo, suspensão gasta batendo em cada buraco, cheiro de óleo queimado, suor e desespero misturados no ar quente.
Jota tá sentado no banco 27, lado direito, corpo de 110 kg espremido no assento que parece feito pra criança.
Mochila laranja no chão entre os pés, zíper meio aberto, canto do caderno capa dura marrom aparecendo — ímã cinza fosco do Posto Esso colado na capa, beiradas descascando, logo quase apagado.
Camiseta regata vinho encharcada nas costas, short de moletom cinza, tênis surrado com cadarço direito solto arrastando no chão, dedão quase aparecendo pelo buraco.
Barba cheia, cabelo bagunçado, olhos vermelhos de quem não dorme há três dias.
No colo dele, o cooler azul.
Plástico rígido, tampa com presilhas de metal.
Dentro: três garrafas d’água de meio litro, duas barras de cereal, um pacote de cream cracker.
É tudo que sobrou.
Daslu tá ao lado, encostada no vidro.
Vestido de verão florido, fino demais pro frio que vem depois da serra, alças escorregando nos ombros.
Sem sutiã.
Peitos siliconados marcando o tecido, mamilos duros de frio e medo.
Cabelo loiro platinado preso num coque frouxo, raiz escura aparecendo, mechas grudadas na testa.
Pernas longas cruzadas, pés descalços — perdeu as sandálias na fuga.
Dois bancos à frente, a menina dorme.
Pele negra, cabelo crespo com elástico rosa, vestido branco sujo de terra.
Cabeça encostada no vidro, boca entreaberta, respira fundo.
Jota olha pra ela de vez em quando.
Depois olha pra Daslu.
Depois olha pro cooler azul no colo.
Seis horas na estrada.
Seis horas desde que ele invadiu a casa abandonada, pegou as duas e saiu correndo.
Seis horas de estrada de terra, bloqueios improvisados, tiros que não acertaram por sorte.
Daslu não fala desde que entraram no ônibus.
Só olha pela janela, olhos âmbar vermelhos, úmidos.
O cooler balança a cada curva.
Jota segura firme.
Porque é o que tem.
E porque, de algum jeito que ele não explica, o cooler azul é a única coisa que ainda parece normal nesse inferno todo.
O ônibus para num ponto de estrada poeirento.
Posto abandonado, bomba enferrujada, caixa eletrônico encostado na parede.
— Vou sacar dinheiro — Jota diz.
Daslu assente sem olhar.
Ele deixa o cooler no banco, pega a mochila laranja do chão, pendura no ombro.
Desce.
O cadarço direito solta de vez.
Arrasta no asfalto quente.
Jota para, olha pra baixo.
Amarra rápido.
Caminha até o caixa.
Cartão. Senha.
Dois mil. Mais mil e quinhentos. Mais oitocentos.
O que o caixa deixa tirar.
E pra Daslu, ele daria tudo.
Guarda as notas amassadas no bolso e as novas dentro da mochila.
Volta pro ônibus.
O banco tá vazio.
O cooler azul não tá mais lá.
Daslu olha pra frente, imóvel.
— Vendi — diz, voz baixa, sem olhar pra ele.
— Precisava do dinheiro.
Jota senta.
Olha pro banco vazio.
Olha pra ela.
— Tudo bem.
Ela vira o rosto devagar.
Olhos cheios de lágrimas que ainda não caíram.
— Desculpa.
— Não precisa.
— Era teu.
— O que importa é você.
Tu tá aqui.
Daslu morde o lábio.
A primeira lágrima cai.
O ônibus arranca de novo.
E a serra continua descendo.
O ônibus continua rangendo serra abaixo.
O sol já se pôs, mas o calor não foi embora. O ar dentro tá grosso, pesado, cheira a suor de gente que não toma banho há dias.
Daslu olha pro banco vazio onde o cooler tava.
Olha pras mãos vazias.
Olha pra menina dormindo dois bancos à frente.
Tira um maço de cigarro amassado do decote, coloca um na boca.
— Tem fogo, Jota?
Ele abre a mochila laranja no colo, afasta o caderno capa dura marrom.
O ímã cinza fosco do Posto Esso tá colado na capa.
Beiradas descascando, logo quase apagado.
Jota olha pra ele por dois segundos.
Lembra da casa de antes.
Da geladeira.
Do ímã segurando recado da mãe.
De quando tudo era normal.
Afasta o ímã com o polegar, acha o isqueiro amarelo escondido entre as páginas do caderno e o dinheiro.
Riscou uma vez.
Chama perfeita.
Ela se inclina, acende o cigarro, dá uma tragada longa.
Ele guarda de volta entre as páginas do caderno e o dinheiro, ajusta o ímã na capa, fecha o zíper.
Ela desaba.
Primeiro é só um tremor nos ombros.
Depois um soluço baixo.
Depois o choro vem inteiro.
— Eu não vou ter dinheiro pra nada…
pra nada…
nem pra ela…
nem pra comer…
nem pra porra nenhuma…
A voz sai rouca, quebrada, cada palavra um soco.
Jota vira o corpo inteiro no banco estreito, os 110 kg forçando o encosto.
— Ei…
Dinheiro não é problema.
Daslu balança a cabeça, lágrimas caindo no colo do vestido fino.
— Você não entende…
eu não tenho nada…
nada…
eu prometi pra ela, a menina, que ia cuidar e eu não tenho nada…
Jota pega a mão dela.
Pequena.
Gelada.
Tremendo.
— Eu tenho.
Abre a mochila e pega um dos maços.
Dois mil.
Coloca na palma dela.
— Toma.
Ela olha pro dinheiro como se fosse mentira.
— Jota…
— Toma.
Ela não pega.
Ele pega a mão dela, abre, coloca as notas, fecha os dedos dela em cima.
— É suficiente?
Daslu conta com os olhos.
Balança a cabeça.
Mais lágrimas.
Jota tira mais dois mil da mochila.
— Agora é.
Coloca em cima.
— É o que tenho agora.
Vai ter mais.
Daslu olha pra ele.
Olhos âmbar cheios d’água.
E se joga no peito dele.
Abraço inteiro.
Corpo contra corpo.
Peito dela apertado contra o peito dele.
Barriga colada.
Pernas dela em cima das pernas dele no banco estreito.
O vestido fino não esconde nada.
O calor do corpo dela queima.
O cheiro — perfume velho, suor, medo, cigarro — entra no nariz do Jota como faca.
Ele abraça de volta.
Mãos grossas nas costas dela, sentindo cada osso, cada tremor.
E o pau endurece.
Rápido.
Duro.
Impossível de esconder.
Contra a coxa dela.
Jota fecha os olhos.
Não tem tempo pra isso.
Não tem espaço pra isso.
Precisa tirá-la daqui.
Precisa que tudo saia certo.
Lembra da Daslu de antes.
Sentando no colo dele no banco do carona do Gol Bolinha Cinza Urban.
Vidro embaçado, cheiro de perfume caro, ela rebolando em cima dele, gemendo no ouvido.
Banco do motorista afundado pelos 110 kg, banco do carona afundado por ela.
Isso foi em outro mundo.
Em outra vida.
Mas o corpo lembra.
E o pau endurece mais.
Ela sente.
Claro que sente.
O corpo dela trava por meio segundo.
Jota trava inteiro.
Ele tenta afastar o quadril.
Não tem espaço.
Daslu não se afasta.
Só chora mais alto contra o peito dele.
Mãozinha apertando a camiseta vinho.
A menina continua dormindo.
O ônibus continua descendo.
E Jota fica ali.
Abraçando a mulher que salvou.
A mulher pela qual fez o que fez.
Dando todo o dinheiro que tem.
E com o pau duro porque o corpo não entende urgência.
Porque o corpo lembra de quando ela sentava no colo dele no Gol Bolinha.
Lembra de quando ela gemia no ouvido dele.
Lembra de quando ela era a Daslu que ele amava.
E agora tá aqui.
Quebrada.
Desesperada.
Mas viva.
E ele vai tirá-la daqui.
Custe o que custar.
Daslu chora até cansar.
Depois fica quieta, cabeça no peito dele, respiração pesada.
Jota continua abraçando.
O pau ainda duro.
A urgência ainda queimando.
Mas não solta.
Porque ela tá aqui.
E ele tem uma chance.
Só uma.
O ônibus para com um solavanco que acorda quem ainda dormia.
Motor desliga. Silêncio pesado.
Portão de concreto à frente.
Muros altos. Arame farpado. Torres com holofotes.
Guardas de uniforme cinza, coletes à prova de balas, rifles pendurados no ombro.
Fila de veículos.
Ônibus, caminhonetes, carros velhos lotados.
O motorista abre a porta pneumática.
— Documentos na mão. Todo mundo desce.
Jota solta Daslu devagar.
Ela se afasta, limpa o rosto com as costas da mão.
Jota entrega a mochila laranja pra ela.
— Fica com ela.
Dentro tem o documento. O passe.
A única coisa que importa agora.
O papel que custou tudo.
Só pega o caderno marrom e o isqueiro amarelo.
Dobra o caderno e coloca no bolso.
A menina já tá de pé no corredor, olhos arregalados, mãozinha procurando a de Daslu.
Daslu pega.
— Fica comigo.
Jota desce primeiro.
Perna ainda tremendo um pouco.
O cadarço direito solto de novo.
Ele para no último degrau, olha pra baixo.
O cadarço arrastando.
Se ele tropeçar agora, vai cair na frente de todo mundo.
Vai atrasar a fila.
Vai chamar atenção.
E não pode chamar atenção.
Não agora.
Não quando tá tão perto.
Abaixa, amarra rápido.
Quando levanta, vê:
Uma guarda olhando direto pra Daslu.
Olhos estreitos.
Mão no rádio.
Jota sente o estômago apertar.
Dá três passos rápidos, fica na frente da Daslu.
Bloqueia a visão da guarda.
A guarda olha pra ele.
Reconhece.
O rosto dela muda.
Ela franze a testa, olha pro tablet, olha pro rádio.
Depois solta.
— Próximo.
Fila indiana no asfalto quente.
Daslu e a menina na frente dele.
Ele atrás, perto o suficiente pra sentir o cheiro dela, longe o suficiente pra não tocar.
Perto o suficiente pra intervir se algo der errado.
Primeiro guarda revista bolsas.
Daslu mostra o passe.
O guarda se assusta.
Olha pro papel.
Olha pra ela.
Olha pra Jota.
Não questiona.
Segundo guarda faz perguntas.
— Nome?
— Daslu.
— Acompanhada?
— Sim. Ela. — aponta pra menina.
— Parentesco?
— Tutora temporária.
— Responsável?
Daslu aponta para Jota.
O guarda olha.
Entende tudo sem precisar perguntar.
Digita no tablet.
Espera.
Assente.
— Próxima mesa.
Caminham.
O calor é de rachar.
O vestido da Daslu gruda no corpo inteiro.
Transparente de suor.
Contorno dos peitos, dos mamilos, da calcinha fio dental.
Jota não olha.
Não pode olhar.
Não pode se distrair.
Tem que funcionar.
Tem que dar certo.
O pau reage mesmo assim.
Devagar.
Mas reage.
A menina começa a virar o rosto, olhando pra trás.
Daslu percebe.
Rápido.
Puxa a menina pela mão, vira ela pra frente, aponta pro céu.
— Olha o avião, pequena.
A menina olha pra cima.
Daslu olha pro Jota por cima da cabeça da menina.
Olhos âmbar encontram os dele.
Ela vê tudo.
A tensão.
A urgência.
O medo de que algo dê errado.
Não diz nada.
Só aperta a mão da menina e continua andando.
Terceira mesa.
— Recursos financeiros?
Daslu tira as quatro mil da mochila.
Mostra junto com o papel que Jota entregou.
O guarda conta rápido.
Vê o papel.
Para de contar.
— Com esse documento você tem direito a auxílio e moradia. Comparecer no banco em até dois dias.
Daslu assente.
Quarta mesa.
Biometria.
Foto.
Impressão digital.
A menina aperta a mão da Daslu mais forte.
Jota fica sempre perto.
Mas não muito.
O suficiente pra proteger.
Não o suficiente pra comprometer.
O guarda olha pra ele.
— Agente.
Não é pergunta.
É reconhecimento.
Jota mostra a identificação.
O guarda assente.
— Pode passar.
A cancela abre.
Do outro lado: asfalto limpo, tendas brancas, cheiro de comida, crianças correndo, água corrente.
Daslu atravessa primeiro, puxando a menina.
Jota vai atrás.
Os olhos dele fixos nelas.
Certificando que cruzam.
Que chegam do outro lado.
Que estão salvas.
Daslu para.
Vira.
Olha pra ele.
A menina ao lado, mãozinha ainda agarrada.
Jota para do outro lado da cancela.
Não cruza.
Daslu entende.
Claro que entende.
Daslu já tá na tenda de cadastro, preenchendo os últimos papéis.
A menina sentada do lado, balançando as pernas.
Jota fica na entrada.
Braços cruzados.
Olhando.
Certificando.
A tenda de cadastro é branca, limpa demais pro mundo que ficou lá fora.
Ventilador de teto girando lento, cheiro de álcool gel e papel novo.
Daslu termina de preencher o formulário.
Assina com letra tremida.
Entrega pro atendente.
A menina tá sentada numa cadeira de plástico, pernas balançando, olhando tudo com olhos grandes.
O atendente carimba o papel, entrega uma pulseira plástica pra cada uma.
— Dormitório 7. Refeição às 19h. Banho liberado até 21h.
Daslu assente.
Levanta.
Pega a mão da menina.
Vira pra Jota.
Os olhos âmbar ainda vermelhos, mas agora diferentes.
Firmes.
Gratos.
Tristes.
— Obrigada.
— De nada.
Silêncio.
Ela dá um passo na direção dele.
A menina fica parada, olhando.
Daslu chega perto.
Cheiro dela — suor, perfume velho, lágrimas secas.
Ela se inclina.
Beija o rosto dele.
Depois beija a boca dele.
Rápido.
Quente.
Desesperado.
Passa a mão na barba por um segundo.
— Tu é um cara bom, Jota.
Ele não responde.
Porque não é.
Ela sabe.
Ele sabe.
Mas ela diz mesmo assim.
— Obrigada por tudo.
Ela se afasta.
A menina olha pra ele uma última vez.
Dá um aceno pequeno com a mãozinha.
Depois as duas viram as costas.
Caminham pro dormitório 7.
Daslu não olha pra trás.
A menina olha uma vez.
E somem entre as tendas brancas.
Jota fica parado ali.
Ela tá salva.
Finalmente.
Depois de tudo.
Depois do que ele fez pra conseguir aquele papel.
Depois do que vai ter que fazer pra pagar por ter usado ele.
Mas ela tá salva.
E isso é o que importa.
Ele vira.
Sai da tenda.
O ônibus ainda tá lá, motor ligado, motorista esperando.
Jota sobe.
Senta no mesmo banco.
Lado direito.
O banco ao lado vazio.
Sem cooler azul.
Sem Daslu.
Sem menina.
Só ele.
O motorista olha pelo retrovisor.
— Vai voltar?
— Vou.
— Próximo sai em uma hora.
— Tá bom.
Jota encosta a cabeça no vidro.
Olha pro checkpoint.
Olha pro lado de lá onde ela tá agora.
Salva.
Livre.
Viva.
Olha pro lado de cá.
Onde ele tá.
Onde sempre vai estar.
Porque é o preço.
Fez o que tinha que fazer.
Salvou quem precisava salvar.
Agora é hora de pagar.
O ônibus arranca.
Serra acima.
Rumo ao território ocupado.
Rumo ao que vem depois.
Jota fecha os olhos.
O gosto do beijo ainda na boca.
O cheiro dela ainda na camiseta.
E a certeza de que fez a escolha certa.
Mesmo sabendo o que custa.
Mesmo sabendo que não volta.
Ela tá salva.
É o que importa.
O resto é só consequência.
