Capa do Capítulo

Jipe Desgovernado

Extensão: 1.787 palavras | Leitura: 9 min

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Rua do Professor, Capão da Imbuia, meio-dia de um dia que parecia castigo de Deus.

O asfalto estava tão quente que dava pra fritar ovo. O gramadão na frente do sobrado brilhava verde, mas o ar tremia de calor. Dois carros estacionados lado a lado, capôs abertos, motores ainda ticando como relógios nervosos.

À esquerda, o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 de Jota.

Porta do motorista aberta, chave no contato, rádio chiando “Fio de Cabelo” em volume baixo. Regata vinho rasgada pendurada no retrovisor, mochila laranja no banco do passageiro, caderno marrom escapando. Ímã Posto Esso colado torto no painel, cinza fosco, quase apagado.

À direita, o jipe Willys 1951 do Popó.

Capô levantado, Popó debruçado no motor, camiseta suada, xingando o carburador em três línguas diferentes.

— Filho da puta desse gicleur, eu te mato hoje!

Dona Turquinha observava os adolescentes brincarem. Sheldon e Enaldinho, filhos do Popó, quatorze e doze anos, calção do Brasil, rindo alto enquanto fugiam entre as rodas dos dois carros.

Jota estava encostado no para-lama do Gol, braços cruzados, tênis surrado, dedão aparecendo pelo buraco. Não bebia, não fumava, só cheirava o calor do etanol queimado que saía do escapamento e pensava na vida.

Foi quando Rand Oliveira surgiu do nada ao lado do portão, cooler na mão, macacão azul impecável apesar do calor dos infernos.

— Trouxe cerveja — anunciou, abrindo o cooler. Só latas quentes.

Popó nem olhou.

— Tu é um gênio, Rand.

Rand entregou uma lata pra cada um, menos pra Jota, que negou com a cabeça.

— O bicho vai pegar hoje — Rand disse, piscou, deu um passo pra trás e sumiu. Literalmente. Virou fumaça de óleo.

Dona Turquinha riu nervosa.

— Esse homem é doido.

Sheldon e Enaldinho começaram a chutar uma bola vermelha pelo gramado.

Um deles chutou forte. A bola bateu na parede e ricocheteou para dentro do jipe.

Bateu na alavanca do jipe do Popó.

Câmbio pulou pra ré.

O motor do Willys rugiu sozinho.

ALTO.

Como se alguém tivesse pisado fundo com raiva.

O jipe deu um tranco pra trás.

Popó virou a cabeça a tempo de ver o próprio carro saindo de ré, capô ainda aberto, quebrando o portão como se fosse papel.

— Puta que pariu, meu jipe!

O Willys ganhou velocidade, desceu o gramado, atravessou a calçada, entrou na rua.

Jota tinha ido até a caixa de ferramentas entre os dois carros quando o cadarço direito desamarrou sozinho, enrolou no pé esquerdo e travou ele no lugar exatamente quando o jipe passou.

Jota então decidiu ir desligar o Gol Bolinha antes de qualquer outro evento.

Correu para o carro, tentou girar a chave e não conseguia. A chave resistia, como se algo a segurasse travada.

Enquanto isso, o jipe avançava pela rua, rugindo cada vez mais alto.

O ímã Posto Esso no painel brilhava azul forte, quase queimando o plástico, vibrando contra o painel.

O jipe do Popó desceu a rua como se tivesse raiva de todo mundo.

Ganhou velocidade rápido, capô aberto batendo, depois acelerando sozinho, motor rugindo alto, pneus chiando no asfalto quente. Quebrou o portão de um vizinho que estava aberto, passou pelo canteiro de outros, passou por cima de um carrinho de mão, entrou na rua lateral, mas diminuindo a velocidade.

Popó correu atrás, camiseta esvoaçando, xingando o mundo:

— Para com isso, seu filho da puta! Para!

Inútil.

A dona Turquinha abraçava o Sheldon e Enaldinho, os meninos rindo e apontando.

Popó corria atrás do jipe, gritando.

Na esquina, Rosquinha apareceu de bicicleta, freou derrapando, celular na mão, já ao vivo:

— Galera, olha isso aqui! O jipe do Popó virou o Tinhoso! Eu avisei que o carburador tava possuído!

Jota olhou pro ímã. Brilhava azul, queimando. Colocou a mão em cima, pressionou forte contra o painel, sentiu o calor atravessar a palma.

O ímã parou de brilhar.

No mesmo segundo, a chave girou.

O Gol desligou.

De repente, silêncio total.

Finalmente o motor do jipe morreu, ao mesmo tempo que o motor do Gol Bolinha tinha sido desligado.

O Willys foi parando até encostar num poste, capô fumegando.

Popó, ofegante no meio da rua:

— Como assim, caralho?!

Dona Turquinha, abraçando Sheldon:

— Meu Deus do céu!

Rosquinha, ainda ao vivo:

— Vocês viram isso?! O jipe morreu do nada! Que bruxaria curitibana é essa?!

Rand Oliveira reapareceu do nada ao lado do portão quebrado, celular na mão, filmando.

— Conteúdo ouro — disse, piscou e sumiu de novo.

Jota saiu do Gol.

O cadarço direito ainda solto.

O ímã parou de brilhar.

O jipe ainda fumegava.

Mas o bairro inteiro respirava de novo.

O silêncio durou três segundos.

Depois veio o caos curitibano.

Popó chegou bufando, cara vermelha, camiseta rasgada no ombro.

— Meu jipe, porra! Acabou de vir do martelinho de ouro e olha isso!

Dona Turquinha desceu com Sheldon e Enaldinho, os meninos ainda rindo e apontando, mas preocupados com o que aprontaram.

Rosquinha já estava no meio da rua, narrando ao vivo:

— Galera, o demônio foi exorcizado!

Jota não ouvia ninguém.

Ajoelhou no asfalto quente, começou a catar pedaços.

Primeiro o retrovisor do jipe do Popó, pendurado por um fio, espelho rachado mostrando o céu partido ao meio.

Levou até o Gol, abriu o porta-malas, colocou com cuidado.

Depois a grade do radiador, torta, ainda quente.

Colocou do lado.

Pedaço de para-choque verde, farol estourado, pedaço de lanterna traseira, calota que voou até o meio fio.

Cada peça que pegava, levava pro porta-malas do Gol.

Popó parou do lado, ofegante.

— Mano… tu tá reconstruindo meu jipe dentro do porta-malas do teu Gol?

Jota não respondeu.

Só continuava.

Rosquinha filmava de perto:

— Olha isso, chat! Estão fazendo um ritual satânico com peças de carro! Isso vai dar ban com certeza!

Rand Oliveira reapareceu do nada, celular na mão, filmando em silêncio.

Piscou pra câmera, sumiu de novo.

Sheldon e Enaldinho chegaram.

— Pai, foi sem querer.

Popó respondeu:

—O importante é que ninguém se machucou.

Jota pegou o último pedaço visível.

Carregou até o Gol, colocou em cima de tudo, bem no meio do porta-malas.

O ímã Posto Esso, que tinha brilhado azul forte minutos antes, agora estava cinza fosco de novo.

Jota fechou o porta-malas devagar.

O porta-malas resistiu. Não fechou direito. Como se faltasse algo.

Jota olhou em volta. No meio-fio, quase escondida, uma última peça: pedaço pequeno de lanterna traseira.

Pegou, voltou, colocou dentro.

Agora sim.

O porta-malas fechou suave.

CLUNK.

Silêncio.

Como quem diz: relaxa, eu cuido disso.

Popó olhou pro irmão.

— Ainda bem que ele desligou sozinho.

Jota limpou as mãos na regata vinho, olhou pro jipe morto no poste, depois pro Gol cheio de pedaços.

— Não sei se você reparou, mas quando desliguei o Gol… o mundo parou. Uns dois segundos de silêncio total. Como se tudo estivesse esperando eu desligar. Aí o jipe morreu.

Rosquinha gritou pro celular:

— Olha so o ritual, Jota pensa que o Gol Bolinha desligou via Wifi o Jipe Willys… ou será que começou?

Juntaram tudo na rua, falaram com os vizinhos, se comprometendo a arrumar tudo o mais rápido possível.

Voltaram para casa.

O sol já estava quase se escondendo atrás do sobrado quando encontraram mais uma peça, possivelmente a última.

Popó coçava a cabeça, olhando pro jipe morto lá já na garagem de casa, tinha empurrado ele para lá.

— Foi tudo muito estranho. Bola engatar marcha, acontece. Mas o jipe acelerando sozinho daquele jeito…

Dona Turquinha estava com os adolescentes Sheldon e Enaldinho.

Rosquinha ainda narrava, voz rouca de tanto gritar:

— Chat, se alguém duvidar que Curitiba tem bruxaria, manda esse vídeo. Eu vi com esses olhos que a terra há de comer.

Rand Oliveira apareceu pela última vez, encostado no portão quebrado, cooler vazio na mão.

— Da próxima eu trago gelo — disse, sorriu, virou fumaça.

Ninguém nem se espantou mais.

Jota encostou no capô do Gol Bolinha.

Mão no metal quente.

Sentiu o cheiro de etanol velho, cloro de piscina, testosterona pura.

O ímã Posto Esso, cinza fosco, parecia mais pesado que nunca.

De repente, o Gol deu um ronco baixo.

Não era motor ligando.

Era algo mais fundo.

Quase um latido de cachorro velho que reconhece o dono.

Rrrrrrrrm.

Popó arregalou os olhos.

— Tu ouviu isso?

Dona Turquinha, Sheldon e Enaldinho também ouviram.

Rosquinha parou de filmar.

Algo bateu dentro do carro. Um som surdo vindo do porta-malas.

TUM.

Depois outro.

TUM.

O Gol roncou de novo.

Rrrrrrrrm.

Mais forte.

Como agradecimento.

Jota foi até a traseira, abriu o porta-malas devagar.

Olhou pra dentro.

Algo estava diferente.

As peças quebradas não estavam mais espalhadas. Estavam… organizadas. Encaixadas.

O retrovisor, antes rachado mostrando o céu partido ao meio, agora refletia inteiro. O espelho liso, sem uma marca.

A grade do radiador, que tinha chegado torta e quente, estava reta. Perfeitamente alinhada.

O para-choque verde, antes em três pedaços, agora era um só.

E o farol — o farol estourado, vidro em cacos — brilhava suave. Aceso. Mesmo sem energia nenhuma ligada.

O Gol Bolinha Cinza Urban 2003, duas portas, sem ar, sem direção, sem som, agora brilhava.

A lataria cinza parecia mais nova. O cromo refletia luz que não existia.

Jota viu, de relance, o ímã Posto Esso no painel. Tinha parado de brilhar. Cinza fosco de novo.

Mas algo tinha mudado.

Jota sorriu de canto.

Popó chegou perto, voz baixa:

— Mano… essas peças tavam destruídas. Eu vi. Todo mundo viu. E agora tão perfeitas. Isso não é possível. Não é normal.

Jota não respondeu.

Só entrou, girou a chave.

O motor pegou na primeira.

Rrrrrrrrm.

Saúde.

Ele olhou pro espelho retrovisor.

O ímã Posto Esso estava frio.

O bairro inteiro olhava.

Rosquinha sussurrou pro celular, já com 300 mil views:

— Jota jura que desligou o Gol e o jipe morreu junto… será que foi WiFi de carro possuído? Curitiba é bruxaria, galera!

Jota engatou a ré, deu seta (mesmo sem ninguém pra ver), saiu devagar.

O jipe do Popó continuou morto na garagem

Mas o Gol Bolinha seguiu rua abaixo, cheio de pedaços que não eram dele.

E de vez em quando, até hoje, quando ninguém tá olhando, ele dá um ronco baixo.

Rrrrrrrrm.

Como quem diz:

eu lembro.

E isso basta.

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Sinopse Narrativa:

Meio-dia na Rua do Professor. Uma bola chutada engata a marcha do jipe Willys 1951 do Popó, que sai desgovernado pela rua. O ímã Posto Esso no Gol de Jota brilha azul forte, travando a chave. Quando Jota pressiona o ímã e desliga o Gol, o jipe morre também. Jota recolhe os pedaços quebrados do jipe no porta-malas do Gol, e misteriosamente as peças se reconstroem perfeitamente.

Gênero Realismo Mágico
Tom Caótico, Cotidiano, Sobrenatural
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Evento sobrenatural no bairro
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Conexão sobrenatural entre carros, Proteção, Reconstituição mágica
Locais Capão da Imbuia, Garagem, Gramadão, Rua do Professor
Palavras-Chave cadarço trava Jota, Gol desliga e jipe morre, ímã brilha azul, Jipe desgovernado, peças se reconstroem, porta-malas mágico, WiFi de carro possuído
Jipe Willys 1951 do Popó com capô aberto. Bola vermelha chutada engata marcha ré. Silêncio total de dois segundos quando Gol desliga. Peças quebradas do jipe (retrovisor rachado, grade torta, para-choque verde em três pedaços, farol estourado) se reconstituem perfeitamente no porta-malas do Gol. Gol ronca sozinho como agradecimento. Rádio tocando "Fio de Cabelo". Rosquinha filma com 300 mil views.
 

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