O Gol Bolinha cinza 2003 tá estacionado duas casas depois da alvo, meio escondido entre uma Saveiro e um Palio velho. Motor frio, vidro embaçado, banco do carona ainda com o formato da bunda da última que sentou ali. Jota desligou o farol há três quarteirões, veio devagar, silencioso, até encostar no meio-fio. A aproximação tinha que ser discreta — na saída já era outra história. A mochila laranja jogada no banco de trás balança de leve com o movimento, o caderno marrom capa dura escorregando um pouco para o lado, como se soubesse que hoje as anotações seriam de vingança.
Ele desce primeiro. 1,83 m, 110 kg que chegam chegando, camiseta vinho, moletom cinza amarrado na cintura, barba cheia coçando de nervoso. Os potes de margarina Qualy de 500 g balançam na mão direita, tampa solta, já suada.
Little Boobs desce pelo lado do passageiro, 1,55 m de pura provocação, short jeans desfiado, top preto que mal segura os peitos gigantes, tatuagens dançando no braço enquanto ela ri baixo.
— Jota, tu trouxe o mais barato mesmo?
— Barato gruda mais — Jota responde, sem olhar pra trás.
Leandro Costa, vulgo Barney é o último. 1,90 m fácil, camiseta regata preta marcando cada músculo, braços grossos que parecem feitos pra levantar viatura. Ele fecha a porta do Gol com cuidado, sem bater. Olha a rua inteira antes de seguir.
São 16h42. Sol forte do fim de tarde batendo no Capão Raso, calor de 35 graus mesmo sendo outubro. A casa do policial é a terceira na quadra: muro baixo, portão de ferro azul meio torto, garagem aberta com uma Honda Falcon preta brilhando como troféu. Placa na parede: “Sorria, você está sendo filmado”. Mentira. Nem câmera existe, todo mundo sabe.
Jota para na calçada, olha pros dois. Voz baixa, séria:
— Relembrando: a gente entra, unta tudo que brilha, chama ele pra fora, espera o primeiro movimento. Se ele bater primeiro, libera geral. Se não bater, a gente sai andando. Entendido?
Little lambe o indicador e passa na tampa do pote.
— Entendido, chefe. Mas se ele encostar em mim eu arranco pedaço.
Barney só assente. Um aceno curto. Ele não precisa falar muito. O tamanho fala por ele.
Jota entrega um pote para cada e abre o portãozinho de pedestre. O trinco range. Os três entram no quintal como se fossem donos. Ninguém na rua olha. Aqui ninguém olha. Todo mundo sabe quem mora ali e prefere fingir que não viu.
Little já abre o pote, enfia dois dedos e tira uma bola de margarina amarela, brilhante, fedendo a óleo de palma barato.
— Vou começar pela moto dele. Essa Falcon é o xodó, né?
Barney vai direto pra torneira externa, enche a mão inteira de margarina e começa a passar no registro, na mangueira, na corrente do portão. Tudo que for de metal vai ficar imundo.
Jota para na porta principal. Respira fundo. O cheiro de margarina já tá impregnado nos dedos, na roupa, na barba. Ele passa a palma inteira na maçaneta, gira devagar, deixa uma camada grossa, viscosa, que escorre devagar até o chão.
Depois bate. Três pancadas secas.
— Ô de casa!
Silêncio.
Bate de novo, mais forte.
— Seu Naldo! Abre aí, é rápido!
Passos pesados lá dentro. Chão tremendo. A porta se abre de uma vez.
O policial ocupa o batente inteiro. 1,88 m, uns 120 kg de músculo e cerveja, uniforme azul-marinho da PM esticado, coturnos pretos lustrosos, cara fechada de quem já acordou puto há dez anos. Olhos injetados, barba malfeita, cheiro de cigarro e café requentado.
Ele olha pra Jota. Depois pra Little. Depois pra Barney. Os olhos param mais tempo no Barney. Calcula. Mede. Percebe que, pela primeira vez na vida, não é o maior ali.
— Que porra cês querem?
Jota levanta o pote vazio, sorri de canto.
— Vim devolver uma coisa que o senhor esqueceu na casa da Dona Marli. Lembra dela? A velhinha que o senhor foi cobrar “taxinha” semana passada?
O policial cerra os dentes.
— Sai do meu quintal.
— Calma — Jota dá um passo pro lado, abre espaço. — Só vem ver o presente que a gente trouxe.
O policial hesita meio segundo. Olha pros lados. Vê a Falcon brilhando de margarina. Vê a torneira pingando amarelo. Vê o portão que não abre mais sem escorregar.
O rosto dele vira pedra.
E dá o primeiro passo pra fora.
O policial pisa no quintal com as duas botas pesadas, o couro rangendo. O sol bate forte nas costas dele, faz o uniforme brilhar de suor. Ele fecha a porta atrás de si com um estrondo que ecoa na rua inteira. Ninguém aparece na janela. Ninguém nunca aparece.
Little dá um passo pro lado, já com o celular na mão, filmando de canto, sorriso safado no rosto.
— Olha a arte, seu Naldo. Ficou lindo.
O policial não olha pra ela. Olha direto pra Jota. Sempre o menor. Sempre o alvo mais fácil.
— Tu fez isso?
Jota abre os braços, margarina ainda brilhando nos dedos.
— Eu e meus amigos. Caprichamos. Vai durar uns dias pra limpar.
O policial respira fundo pelo nariz. A veia do pescoço pulsa.
— Tu tá fudido.
— Só se tu encostar primeiro — Jota responde, voz calma, quase divertida. — Regras são regras, né, cabo?
O policial cerra os punhos. Os nós dos dedos ficam brancos.
Barney se coloca meio de lado, ombro com ombro com Jota, 1,90 m de puro “experimenta”.
Little continua filmando, voz doce:
— Qualquer coisa eu mando pro plantão daquele programa na tv, hein.
O policial dá um passo à frente.
Outro.
Para a um metro de Jota. O cheiro de cigarro velho e raiva chega antes dele.
— Tu acha que isso aqui é brincadeira?
— Acho que tu tá devendo respeito pra meia dúzia de idosas no bairro — Jota responde, sem recuar um centímetro. — E a gente veio cobrar com juros.
O policial sorri. Um sorriso feio, torto, cheio de dente amarelado.
— Tá querendo apanhar, gordo?
— Tenta.
O chute vem rápido.
Bota preta, sola dura, direto na barriga de Jota.
Um metro e oitenta de perna levantada com força de quem já fez isso antes.
Mas Jota já estava esperando.
Ele gira o tronco no último milésimo, as duas mãos grossas fecham no tornozelo como torno.
A bota para no ar, a 20 cm do alvo.
O policial perde o equilíbrio na hora, corpo inclinado pra frente, braços abrindo pra compensar.
Jota trava.
Dedos melados de margarina agarram firme o couro, a carne, o osso.
Segura a perna no alto como se fosse troféu.
Liberação.
O policial arregala os olhos.
Primeiro de raiva.
Depois de medo.
Porque agora ele pode apanhar.
E vai.
O policial ainda tenta puxar a perna. Um puxão bruto, cheio de força, mas Jota já travou o joelho dele com o antebraço, o peso inteiro dos 110 kg apoiado na canela. A bota não desce nem um centímetro. A margarina suada na camiseta vinho de Jota deixa um rastro viscoso no couro da bota, como se o tecido rasgado estivesse marcando território.
Barney dá um passo à frente.
O primeiro soco vem de lado, um gancho seco que pega em cheio nas costelas flutuantes.
O ar sai do policial num “humpf” rouco, o corpo dobra pra frente.
O policial levanta o braço esquerdo pra bloquear o próximo golpe, mas ao fazer isso o peso vai todo pra perna de apoio.
Jota sente a mudança.
Torce o tornozelo cinco graus pra fora.
O equilíbrio vai embora de vez.
Little entra por trás, rápida, baixinha, cruel.
Soco curto, seco, direto no rim direito.
O policial grunhe alto, tenta girar o tronco pra se proteger, mas o movimento só abre o lado esquerdo.
Barney acerta outro.
Dessa vez no fígado.
O som é abafado, carne contra carne, mas o policial dobra mais, a boca aberta procurando ar que não entra.
Ele tenta chutar com a perna livre.
Jota desvia o corpo, segura firme a perna presa e gira o quadril.
O policial quase cai de cara no chão, se segura com as duas mãos no cimento quente.
— Deixa eu ir, seu filho da puta! — a voz sai fina, quebrada.
Jota fala baixo, quase carinhoso:
— Tu bateu primeiro, lembra?
O policial tenta se levantar nos braços.
Barney coloca o joelho nas costas dele, empurra pra baixo.
Little aproveita e dá um tapa aberto na nuca, daqueles que ecoam.
— Quieto, porco.
O policial tenta gritar por socorro.
A voz morre na garganta quando Barney, de alguma maneira conseguiu fecha o antebraço no pescoço dele, só o suficiente pra lembrar quem manda agora.
Jota ainda segura a perna no alto.
Os dedos melados de margarina escorregam um pouco no couro, mas ele ajusta o aperto.
Olha pro policial direto nos olhos.
— Dona Marli chorou três noites por causa da tua “taxinha”.
Torce mais cinco graus.
O policial solta um gemido que parece cachorro machucado.
— Da próxima vez que tu aparecer na casa de qualquer velhinha desse bairro, a gente volta.
Outra torção.
— E aí não vai ser margarina.
Barney solta o pescoço, dá um último tapa na cabeça, de leve, quase paternal.
— Aprende, cabo.
Jota abre as mãos.
A perna cai no chão com um baque seco.
O policial fica de quatro no quintal, respirando pesado, uniforme sujo de terra e margarina, saliva escorrendo no queixo.
Não olha pra cima.
Não fala mais nada.
Os três se afastam devagar, sem correr.
Little ainda filma tudo, sorrindo.
Barney limpa as mãos na calça como quem acabou um serviço honroso.
Jota é o último a sair pelo portão.
Para na saída, vira o rosto.
— Boa tarde, seu Naldo.
E fecha o portão com calma.
Pelo lado de dentro, o policial ainda está de quatro, cercado de gordura amarela brilhando no sol.
Pelo lado de fora, o Gol Bolinha, esperando.
O Gol Bolinha arranca com tudo agora, etanol rugindo, primeira, segunda, terceira. Jota pisa fundo — a aproximação tinha que ser silenciosa, mas a saída é rápida e barulhenta. O cheiro de margarina impregnou tudo: dedos, barba, camiseta vinho, até o estofado do carro. Little está no banco de trás, pernas cruzadas, olhando o vídeo no celular com um sorriso de quem acabou de ganhar na loteria. A mochila laranja escorrega do banco com uma curva, abrindo de leve — o caderno marrom pula pra fora, uma página solta voando contra o vidro traseiro como um lembrete místico do plano rabiscado mais cedo.
— Vou cortar o vídeo tirando nosso rosto — ela fala, voz concentrada. — Só deixa ele gemendo e a voz do gordo falando. Vai direto pro grupo do bairro.
Barney, no banco do carona, limpa as mãos na calça jeans, olha pelo retrovisor externo.
— Tá limpo atrás.
Jota assente, mas não relaxa.
Vira à direita numa rua, pega a esquerda na avenida e já estão sentido Capão da Imbuia. Trânsito por enquanto tranquilo, sol já baixo, laranja batendo no para-brisa.
Cinco minutos de silêncio gostoso.
Adrenalina baixando.
Aquele silêncio de missão cumprida.
Então o rádio da polícia chia.
Primeiro baixo, depois mais alto.
Uma viatura passa na pista do lado, devagar demais pra ser coincidência. PM 1904, prata, dois ocupantes. O passageiro vira o rosto, olha direto pro Gol Bolinha. Óculos escuros, queixo quadrado. Jota reconhece na hora: o parceiro do cabo Naldo, o que sempre anda junto, o que faz a “cobrança” quando o chefe não quer sujar a mão.
A viatura não liga giroflex.
Só acompanha na mesma velocidade, dois carros de distância.
Little percebe, guarda o celular rápido.
— Merda.
Barney se vira no banco, olha pra trás.
— Quer que eu desça e resolva?
— Ainda não — Jota responde, voz firme. — Deixa eles acharem que a gente tá com medo.
Ele mantém 60 km/h, sinaliza, entra na próxima à direita, rua residencial estreita. A viatura entra atrás. Mantém distância, mas não disfarça mais.
Jota pega o celular, liga pro número que só usa em emergência.
Três toques.
Uma voz grossa atende:
— Fala.
— Acabei de deixar o cabo Naldo de joelhos no quintal dele. Untado de margarina. Agora tem viatura no meu rabo.
Silêncio curto do outro lado.
— Onde vocês tão?
— Quase chegando no Capão da Imbuia.
— Vai pra casa e deixa o portão aberto. Eu cuido. Estou indo pra lá.
Jota desliga.
Vira à esquerda, chega no sobrado e, para o Gol na garagem aberta. Os três descem rápido.
A viatura para na esquina.
Motor ligado.
Em ponto morto.
Dentro da garagem, a porta de casa se abre.
Um cara de uns 40 anos, camisa amarela, braços tatuados, sai com um cabo de vassoura na mão como se fosse taco de beisebol. Atrás dele, mais dois amigos do bairro, um com chave de roda e outro com pedaço de cano.
A viatura fica parada mais dez segundos.
O motorista olha, calcula, vê que o jogo virou.
Engata a ré, sai cantando pneu.
Barney solta o ar que estava segurando.
Little ri alto, nervosa.
Jota entra em casa, abre a geladeira, pega três latas de Coca-Cola gelada.
— Por hoje acabou — fala, entregando uma pra cada. — Mas semana que vem ele volta. E vai trazer reforço.
Barney abre a lata, toma um gole longo.
— Quando ele voltar, a gente tá pronto.
Little encosta na parede, ainda com o celular na mão.
— E eu já tenho o vídeo pra quando ele aparecer de novo.
Jota bebe a Coca de uma vez, amassa a lata na mão.
Olha pro Gol Bolinha estacionado ali, tranquilo.
Sabe que a guerra começou.
E que margarina foi só o aperitivo.
Alguns dias depois, 21h14. O Capão da Imbuia tá quieto demais pra uma noite quente. Jota tá na sala do sobrado, luz apagada, só a TV ligada no mudo passando as notícias. Camiseta vinho trocada por uma preta lisa, calça moletom cinza, tênis surrado nos pés — dedão esquerdo espiando pelo buraco, cadarço direito frouxo como sempre, pronto pra morder em momento crítico.
O celular vibra sem parar no sofá: mensagens do grupo do bairro.
“Duas viaturas na esquina da padaria.”
“PM 1904 e mais uma.”
“Quatro caras desceram, armados.”
“Galera já tá mobilizada desde a tarde, combinamos no Whats.”
Ele já esperava.
Little tá na cozinha, shortinho jeans, top preto, cabelo preso, faca de churrasco na mão só por garantia.
Barney tá na varanda dos fundos, camisa regata, braços cruzados, olhando a rua por cima do muro.
O portão da frente range.
Alguém forçando.
Jota levanta, apaga a TV, vai até a janela lateral.
Vê o cabo Naldo na calçada, agora de civil (camisa polo azul, calça jeans), mas com o cassetete na mão. Ao lado dele, o parceiro de óculos escuros (mesmo à noite) e mais dois PMs fardados, coletes, pistolas no coldre, taser na cintura.
Naldo fala alto o suficiente pra meio bairro ouvir:
— Jota! Abre esse portão, seu filho da puta!
Jota abre a porta da casa, fica no batente, luz do poste iluminando só metade do rosto.
— Boa noite, cabo. Licença pra quê?
Naldo dá um passo à frente.
— Licença pra te levar preso por agressão a autoridade.
Little aparece atrás de Jota, celular já filmando.
— Agressão, que agressão? Temos só vídeos de um cara fardado extorquindo velhinhas.
Um dos PMs dá um passo, mão no taser.
Barney surge do lado da casa, voz calma, mas alta o suficiente:
— Tira a mão daí, soldado. Aqui é uma residência particular. Vocês sabem, precisam de um mandado ou uma desculpa.
Naldo sorri feio.
— Mandado eu trago depois. Hoje eu vim resolver do meu jeito.
Ele empurra o portão com força. O trinco cede. Os quatro entram no quintal.
Jota não recua.
— Quatro contra três, cabo? Tá com medo ainda?
Naldo avança dois passos, cassetete balançando.
— Dessa vez teu grandão não vai te salvar.
Barney já tá no quintal, descalço no chão de cimento, músculos tensos.
Little fica na porta, filmando tudo, voz firme:
— Já estou transmitindo ao vivo aqui.
Naldo para a um metro de Jota.
— De joelho, gordo.
Jota sorri de canto.
— Faz eu.
O cassetete sobe rápido.
Mas dessa vez Jota tá em casa.
E casa tem regra própria.
O cassetete desce. Pode não parecer, mas Jota sabe brigar. E em casa, conhecendo cada irregularidade do quintal, o desvio vem instintivo — gira o corpo, braço esquerdo subindo em bloco. O golpe passa raspando, o couro do cassetete roçando a barba dele. Sem aquilo, teria sido o crânio rachado; com aquilo, é só o começo da virada.
O cabo Naldo perde o impulso, o corpo vai junto.
Jota agarra o pulso fardado com as duas mãos, 110 kg girando inteiro.
O braço do cabo torce pra trás, o cassetete cai no chão com som seco.
Barney já tá em cima do parceiro de óculos.
Um soco de esquerda no estômago dobra o cara ao meio.
O segundo PM avança, taser na mão.
Little aparece do lado, baixinha, rápida, chuta a parte de trás do joelho do soldado.
O cara cai de cara no gramado, taser voando longe.
O quarto PM hesita, mão na pistola.
Olha pro celular de Little filmando.
Sabe que um tiro aqui vira o bairro inteiro.
A mão para no coldre.
Jota grita sem soltar o cabo:
— Tira a mão daí ou teu chefe sai daqui sem braço!
O cabo Naldo tenta se soltar, rosto vermelho, veia explodindo no pescoço.
Jota torce mais o braço pra cima, força o cara a ficar na ponta dos pés.
— Lembra da regra, cabo?
— Tu bateu primeiro de novo.
Barney já tá com o parceiro de óculos de joelhos, braço torcido nas costas.
Little pega o taser do chão, aponta pro PM que ainda tá de pé.
— Sempre fui curiosa em ver isso aqui funcionando?
O PM levanta as mãos, devagar.
Naldo tenta um último grito:
— Vocês tão fudidos! Eu acabo com essa porra de bairro!
Jota solta o braço de repente, dá um passo atrás e chuta com tudo a parte de trás do joelho direito do cabo.
O grandalhão desaba, joelho no chão, exatamente onde queria que Jota ficasse minutos antes.
Jota se abaixa, pega o cassetete do cabo, pesa na mão.
— Levanta.
Naldo tenta. A perna direita não obedece direito.
Jota dá um passo, coloca o pé em cima do joelho machucado, pressiona só o suficiente pra doer pra caralho.
— Olha pra mim, cabo.
Naldo levanta o rosto, ódio puro nos olhos.
Jota fala baixo, mas todo mundo ouve:
— Semana passada foi margarina. Hoje é só aviso.
Da próxima vez que tu ou qualquer fardado aparecer aqui sem mandado, melhor sem motivo, eu quebro essa perna de verdade.
E mando o vídeo pra tua mulher, pro teu comandante e pro plantão da porra de tv que for.
Entendeu?
Silêncio.
Jota pressiona mais um segundo.
O cabo solta um gemido abafado.
— Entendeu?
— …entendi.
Jota tira o pé.
Pega o celular de Little, filma o cabo de joelhos, os outros três rendidos, o quintal do sobrado como palco.
— Boa noite, autoridade.
Faz sinal pros amigos do bairro que estavam na sombra do muro, esperando desde a tarde, combinado no grupo.
Quatro caras entram, todos conhecidos, todos com celular na mão, todos filmando.
— Levem eles até o portão. Devagarinho.
Os PMs são erguidos, empurrados, conduzidos até a rua.
Ninguém corre. Ninguém precisa.
E eles vêem, o bairro todo estava ali na rua, preparados já.
Vão até as duas viaturas.
O cabo Naldo entra mancando no banco do passageiro da 1904, rosto inchado, joelho tremendo.
Antes de fechar a porta, olha uma última vez pro sobrado.
Jota tá no portão, braços cruzados, 110 kg ocupando o mundo inteiro.
Levanta a mão, faz um tchauzinho.
As viaturas saem cantando pneu, mas dessa vez pra longe.
Little encosta no ombro de Jota, voz baixa, sorrindo:
— Ele ainda não aprendeu..
Jota olha pro céu do Capão da Imbuia, lua cheia, calor de verão começando.
— Sim, não aprendeu nada.
Mas agora sabe o preço.
Barney fecha o portão.
— Se voltar, a gente tá aqui. E olha para o pessoal do bairro.
Jota entra em casa, abre a geladeira, pega mais três Coca-Colas geladas.
Entrega uma pra cada.
Brindam sem palavras.
Little pega um cigarro, mas não encontra um isqueiro. Jota saca do bolso um isqueiro amarelo, acende na primeira. Na luz breve da chama, ele vê o cassetete do cabo esquecido no chão.
Jota pega, diz para Little fazer uma pequena postagem. Com a hashtag, olha o que esqueceram. E estende pro cara da camisa amarela.
— Guarda aí. Se precisar, você sabe onde encontrar o dono.
E fecha a porta do sobrado.
Por hoje, o Capão da Imbuia dorme em paz.
Mas todo mundo sabe:
a perna ainda pode ser presa de novo.
