O deserto era linha reta de asfalto preto cortando areia branca até onde a vista alcançava.
Céu azul sem nuvem, sol branco queimando o ar.
Quarenta e dois graus à sombra — se houvesse sombra.
Jota desceu do caminhão de apoio, botas pesadas no asfalto que derretia.
44 anos, 1,83 m, 110 kg, barba por fazer, camiseta regata vinho da P. Speed colada nas costas de suor.
Óculos escuros refletindo o horizonte infinito.
Anos.
Fazia anos desde que tinha estado ali pela última vez.
Na mesma pista.
No mesmo deserto.
396 km/h.
O número que virou lenda.
Na época ninguém acreditava.
Disseram que o carro ia desintegrar.
Que ele ia morrer.
Mas Jota tinha feito os cálculos.
Tinha redesenhado tudo.
Bico alongado.
Asas retráteis.
Difusor traseiro em ângulo de dezessete graus.
Dezessete.
Não dezesseis.
Não dezoito.
Dezessete.
Quando cruzou a linha a 396 km/h, o mundo parou.
Três segundos de silêncio absoluto.
Depois explosão.
Gente gritando.
Gente chorando.
Gente dizendo que ele tinha acabado de redefinir o impossível.
E tinha.
Fundou a P. Speed logo depois.
Galpão alugado.
Três funcionários.
Protótipos montados com teimosia.
Hoje, anos depois, a P. Speed era referência mundial.
Cinquenta funcionários.
Galpão próprio.
Contratos com montadoras.
E todo mundo que quebrou recorde depois dele usava a técnica dos dezessete graus.
Copiaram.
Adaptaram.
Evoluíram.
O recorde atual era 603 km/h.
Batido dois anos atrás por uma equipe japonesa.
Usando desenho baseado no dele.
Jota nunca ficou bravo.
Ficou orgulhoso.
Porque significava que tinha criado algo maior que ele mesmo.
Mas agora…
Agora era hora de voltar ao topo.
Mesma categoria.
Anos depois.
Motor montado pra quebrar barreira.
Limite teórico: 1.000 km/h.
E Jota tinha contratado três malucos pra chegar em 1.024.
1.024 km/h.
Número escolhido porque sim.
Porque era potência de dois.
Porque soava bem.
Porque era mais que o limite.
Ele tirou do bolso o ímã do Posto Esso.
Retangular, cinza fosco, logo quase apagado.
No outro bolso, o isqueiro amarelo – o sobrevivente – roçou os dedos.
O ímã estava frio.
Morto.
Sem família por perto, não tinha razão pra brilhar.
Jota guardou os dois de volta.
Olhou pro outro lado da pista.
Lá, trezentos metros à frente, o carro.
Míssil prateado.
Motor V12, quatro turbos, injeção eletrônica customizada.
Chassi de titânio.
Vidro blindado.
E ao lado do carro, os três.
Huguinho, Zezinho e Luizinho.
Jota caminhou até eles.
Huguinho, Zezinho e Luizinho — sempre sujos de graxa no galpão — hoje estavam impecáveis.
Uniformes novos da P. Speed.
Botas limpas.
Cabelos arrumados.
Tudo tinha que estar perfeito.
Huguinho estava ajoelhado checando pressão dos pneus.
Óculos de grau embaçados, barba ruiva desgrenhada, planilha na mão esquerda, chave de torque na direita.
Tatuagem no antebraço esquerdo: dragão japonês enrolado em flores de lótus.
Exatamente como a tatuagem que Satogos Cruel tinha mostrado pra ele naquela noite.
Zezinho ajustava o ângulo do difusor traseiro.
Careca, músculos definidos, olhos frios, postura de quem não perde tempo.
Fala pouco.
Age muito.
Frieza de Maju Kuzito em forma masculina.
Luizinho conferia a eletrônica do cockpit.
Coque samurai, sorriso fácil, camiseta preta da P. Speed.
Sempre rindo.
Sempre pronto.
Os três viraram quando Jota chegou.
— Chefe — Huguinho cumprimentou, levantando.
— Não sou chefe — Jota respondeu, automático.
— Sou o cara que abriu a porta.
— E a gente entrou correndo — Zezinho completou, sem tirar os olhos do difusor.
— E não vai parar — Luizinho fechou o painel.
— Já tô pensando em 1.234.
— Barreira do som — Huguinho completou, sorrindo e fazendo um bum com as mãos.
Jota olhou pro carro.
Míssil prateado.
Nome pintado na lateral em letras discretas:
TAÇA QUEBRADA
— Nome bonito — ele disse.
— Você escolheu — Huguinho respondeu.
— Eu escolhi?
— Você falou uma vez que tudo que a gente constrói é uma taça quebrada que ainda não caiu.
A gente só acelera o processo.
Jota riu.
Baixo.
Sem humor.
— Dezessete graus? — perguntou.
Zezinho parou.
Olhou pra ele.
Sorriso pequeno.
— Dezessete vírgula três.
Jota piscou.
— Sim, novo ideal.
— Testamos mil vezes.
Dezessete vírgula três é o novo perfeito.
Pra essa velocidade.
Jota ficou olhando o difusor.
Depois os três.
— Vocês são malucos.
— Aprendemos com o melhor — Luizinho disse.
Jota olhou pro trio.
Impecáveis.
Focados.
Prontos.
Um repórter se aproximou com microfone.
— Como funciona o sistema de pilotagem tripla?
Jota virou pra ele.
— Pilotam os três juntos — explicou. — Ao mesmo tempo.
Três cérebros, três pares de mãos.
Sistema sincronizado.
— Três pilotos simultâneos no mesmo carro?
— Reação mais rápida — Zezinho completou, olhando pro repórter. — Decisão compartilhada.
Erro dividido por três.
A versão comercial vai ter opção solo com duas IAs de apoio, ou três IAs completas pro comprador comum.
Fazia sentido.
Jota acenou.
Virou.
Caminhou até o planador.
Estrutura leve de alumínio e lona, cinco metros de altura.
Vento batendo por baixo, sustentando.
Subiu a escada de metal rangente.
Chegou no topo.
Segurou o corrimão.
Dali conseguia acompanhar o carro por quilômetros.
Mesmo quando virasse ponto no horizonte.
Olhou pra pista.
O carro estava pronto.
A lenda estava pronta pra ser superada.
E pela primeira vez na vida,
Jota não ia pilotar.
Ia só assistir.
O silêncio antes da largada era absoluto.
Nem vento.
Nem som de motor.
Só o calor subindo do asfalto em ondas visíveis.
Huguinho, Zezinho e Luizinho já estavam dentro da Taça Quebrada.
Capacetes fechados.
Cintos apertados.
Mãos nos controles.
Jota no planador, cinco metros acima do chão, segurando o corrimão com força.
Marcas nas palmas queimando como ferro em brasa.
Ímã no bolso.
O sinal.
Verde.
O carro desapareceu.
Zero a cem em 1,2 segundo.
Zero a quinhentos em oito.
Zero a mil em dezenove.
O som chegou depois.
Trovão contínuo, grave, que fez o planador tremer, o peito de Jota vibrar, o deserto inteiro parecer encolher.
O míssil prateado era um borrão.
Uma linha de luz rasgando o asfalto.
Mil e vinte.
Mil e vinte e dois.
Mil e vinte e três.
Jota apertou o corrimão.
Metal quente.
Mãos sangrando de leve onde as marcas abriram de novo.
Mil e vinte e quatro.
A linha de chegada.
1.024 km/h.
Painel digital acendeu verde.
Número gigante.
Definitivo.
Três segundos de silêncio.
Depois o vendaval.
Ainda não era o vento sônico, mas em breve.
Areia levantando como tsunami horizontal.
Poeira cobrindo o sol.
Barulho de furacão engolindo tudo.
O planador balançou violento.
Parafusos gemendo.
Metal rangendo.
Jota abaixou a cabeça.
Fechou os olhos.
Sentiu o vento bater por baixo, levantar a camiseta, queimar a pele.
Durou quinze segundos.
Quando abriu os olhos, o deserto estava diferente.
Areia redistribuída.
Asfalto limpo.
Ar pesado de ozônio queimado.
O carro tinha feito a curva ampla programada — quarenta quilômetros em arco suave, voltando pelo outro lado da pista — e agora estava parado lá na frente, trezentos metros, a Taça Quebrada com as portas abrindo.
Huguinho saiu primeiro.
Cambaleando.
Rindo alto.
Capacete na mão.
Zezinho saiu depois.
Caiu de joelhos.
Olhou pro céu.
Levantou os braços.
Luizinho saiu por último.
Gritou algo que o vento levou.
Mas todo mundo entendeu.
Jota já tinha descido do planador e correi.
Tropeçou nos últimos degraus.
Caiu de joelhos na areia quente.
Os três correram até ele.
Abraço coletivo.
Suor.
Poeira.
Ninguém falou.
Só seguraram.
1.024 km/h.
Barreira quebrada.
Impossível realizado.
De novo.
Mas dessa vez não foi ele quem pilotou.
Meia hora depois, a cerimônia.
No palco.
Com toda a pompa.
Só a equipe de solo, Jota, o trio e o patrocinador que bancou tudo.
Entregaram os prêmios.
Dinheiro — muito.
Troféu — bonito.
E o um novo aparelho futurístico que o patrocinador estava desenvolvendo.
Um celular.
Exclusivo.
Só para quem pilotou e para o responsável pelo projeto.
Logo quem comprasse a Taça Quebrada (quando fosse à venda) ganharia outro.
Marketing perfeito.
Huguinho pegou o dele.
Virou de um lado pro outro.
Riu.
Zezinho segurou o dele em silêncio.
Olhou a tela apagar.
Olhou pra Jota.
Luizinho já estava filmando tudo, gritando “pra posteridade, porra!”.
Jota pegou o dele por último.
Peso perfeito na mão.
Metal frio.
Tela acesa.
Girou.
A tela de trás acendeu também.
E lembrou de uma foto antiga.
Pegou o celular antigo e viu.
Galpão, anos atrás.
Jota mais jovem, barba rala, olhos vivos.
Ao lado dele, o pai os irmãos.
Todos sorrindo.
Fundo: o primeiro protótipo, ainda sem nome, ainda sem asas, ainda sem nada.
Só um sonho de metal e esperança.
As marcas nas palmas aliviaram um pouco.
Olhou a foto mais um segundo.
Depois guardou o celular.
Rabiscou ‘1.024 – taça intacta’ no caderno marrom que tirou da mochila laranja que estava no caminhão, margem rasgada como asfalto fresco.
Huguinho chegou perto.
— Valeu, chefe.
— Não sou chefe — Jota disse, voz baixa.
— Sou só o cara que abriu a porta.
— E a gente entrou correndo — Zezinho completou.
— E não vai parar — Luizinho gritou de longe, ainda filmando.
Jota olhou pros três.
Ainda impecáveis.
Mas agora vivos.
Reais.
— Vocês vão querer 1.234 — ele disse.
— Já queremos — Huguinho respondeu.
— Barreira do som.
— E depois 1.500 — Zezinho completou.
Jota sorriu.
Com eles juntos, a chama da ambição continuava acessa.
— E quando chegarem lá, outra galera vai querer 2.000.
— E tá errado? — Luizinho perguntou.
— Tá certo pra caralho.
Silêncio.
Vento soprando areia fina.
Sol se pondo no horizonte, tingindo o deserto de laranja e sangue.
Huguinho bateu no ombro de Jota.
— Obrigado por não parar.
Jota olhou pro céu que escurecia.
— Obrigado por continuarem.
Os quatro ficaram ali até o sol sumir.
Depois desmontaram tudo.
Cobriram a Taça Quebrada.
Subiram no caminhão de apoio.
Voltaram pra Curitiba.
Voltaram pro galpão da P. Speed.
Voltaram pra planejar o próximo.
Porque 396 tinha sido o começo.
1.024 era só o meio.
E o fim?
O fim ainda não existia.
E enquanto não existisse, eles iam continuar correndo.
