O relógio digital do motel Poeme marca 4h37 quando Jota fecha os olhos pela segunda vez. Luz vermelha pulsando na mesinha de cabeceira. Números riscados no escuro como ferida aberta. Ele viu a hora. Registrou. Guardou. Ao lado do relógio, o isqueiro amarelo — o sobrevivente — descansa junto ao caderno de capa dura marrom. O ímã de geladeira cinza fosco está preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. Beiradas descascando. Algumas carreiras de pó na primeira página.
Jota deixa o corpo afundar no colchão macio demais, travesseiro frio, lençol branco que cheira a sabão industrial e sexo recente. O Gol Bolinha Cinza Urban está lá fora, estacionado no quarto 12. Tênis surrado no chão ao lado da cama. Cadarço direito solto. Sempre solto.
Little Boobs se mexe atrás dele. O colchão balança. Ela se aproxima. Corpo pequeno, quente, grudando nas costas dele. 1,55 de pura concentração. Jota sente os seios enormes pressionando contra suas costas. Impossíveis. Desproporcionais. Perfeitos. Eles se moldam ao corpo dele como se tivessem sido feitos pra isso. Pra grudar. Pra aquecer. Pra lembrar que ela existe mesmo sendo pequena.
“Gosto de dormir grudada” — foi o que ela disse antes. Rindo daquele jeito dela. Mordendo o lábio. Olhos brilhando. “Não consigo dormir longe, Jota. Desculpa.”
Ele não pediu desculpas. Só puxou ela pro peito. Transaram. Curtiram. Transaram. Descansaram. Agora ela gruda de novo.
Camisa regata vinha jogada no chão.
Ela passa o braço por baixo do dele. Palma aberta sobre o peito de Jota. Dedos finos tamborilando no peito de Jota. Ele não se mexe. Respiração lenta. Pesada. Como quem voltou a dormir depois de transar e agora só quer descansar.
Mas ele não dorme.
Ele vê.
O espelho grande está encostado na parede oposta. Guarda-roupa espelhado que reflete a cama inteira. Jota escolheu esse quarto por causa dele. Quando entraram, ele viu o espelho e pediu pra ficar desse lado da cama. Little Boobs não perguntou por quê. Apenas riu, mordeu o lábio, jogou a bolsa no chão e pulou na cama. “O que você vai fazer comigo hoje?” — foi o que ela disse. Voz rouca. Baixinha. Aquela voz que faz ele esquecer o próprio nome.
Agora ela acha que ele dorme.
E o espelho mostra tudo.
Jota mantém os olhos semicerrados. Apenas uma fresta. O suficiente pra capturar o reflexo. Pra ver ela inteira.
Cabelo ruivo avermelhado espalhado no travesseiro. Longo. Liso. Caindo sobre os ombros dela, sobre os seios que transbordavam do top preto que ela tirou. Maquiagem borrada. Delineado gatinho meio apagado. Batom vermelho manchado nos cantos da boca. Olhos grandes e expressivos fixos na nuca de Jota.
Ela acredita que ele dorme.
A mão dela desce.
Devagar. Como quem testa. Dedos roçando a barriga de Jota. Contornando. Explorando. Vão até a cintura. Hesitam ali. Param. Voltam. Sobem de novo pro peito. Tamborilam. Descem outra vez.
O reflexo mostra o rosto dela mudando. A boca se entreabre. Os olhos perdem o foco. Vidrados. Olhando pra nuca de Jota como se fosse a coisa mais linda que ela já viu. Como se apenas estar grudada nele, abraçada, fosse suficiente pra acender algo dentro dela.
Ela respira fundo pelo nariz. Solta o ar quente contra a nuca dele. Jota sente. Cada fio de ar. Cada tremor. Mas não se mexe. Qualquer movimento quebra o jogo.
A mão dela volta pra cintura. Dessa vez não hesita. Roça a pele dela. Desliza.
Little Boobs aperta o abraço. Coxa sobre coxa. Perna entrelaçada na dele. Os seios gigantes se espremem mais contra as costas de Jota. Ele sente o peso. A pressão. O calor concentrado daquele corpo miúdo que parece ocupar o espaço todo.
Ela morde o lábio inferior. A tatuagem grande na coxa esquerda dela se contrai quando ela mexe a perna. Flores pretas. Caveira delicada. Fácil de lembrar, mas Jota sempre esquece como são. A outra tatuagem, no braço dela, se move quando ela desliza a mão mais pra baixo. Clave de sol. Notas musicais. Como se o corpo dela fizesse som só de existir.
Os quadris dela começam um balanço. Quase imperceptível. Esfregando-se contra ele. Devagar. Ritmado. Como onda pequena que vai crescendo.
Jota vê tudo.
O rubor subindo no pescoço dela. Pele clara ficando rosada. Vermelha. Quente. A testa dela encostando na omoplata dele. Os olhos dela se fechando. Abrindo. Fechando de novo. Vidrados. Perdidos.
Não é só tesão. É poder. Poder de saber o que ela esconde. Poder de guardar o segredo que ela acha que não existe.
A mão dela encontra o que procura.
Se fecha.
Aperta.
Desliza.
O corpo dela treme inteiro. Um arrepio que atravessa os dois. Que passa dela pra ele como corrente elétrica. Jota sente. Tudo. Cada músculo dela se contraindo. Cada respiração ficando mais rápida. Cada movimento ficando mais urgente.
Ela solta um suspiro curto. Morre no pescoço de Jota. Não sai. Fica preso ali. Só pra ele ouvir. Só pra ele saber.
Ela não sabe que ele vê cada movimento como se fosse dele também. E ele não se mexe. Porque quebrar o jogo agora seria desperdiçar o melhor.
Little Boobs continua, mas mais intenso. Centímetro por centímetro. O dedo desliza fácil. Ela se excita vendo o próprio reflexo no espelho sem perceber. Vendo o corpo dele inerte. Entregue. Vendo a própria mão fazendo aquilo que ela acha que ele não sabe.
O espelho devolve a imagem completa: a cintura fina dela, tão fina que parece impossível segurar o resto. O quadril largo. A bunda redonda e durinha pressionada contra ele. As coxas grossas entrelaçadas na dele. O cabelo ruivo caindo sobre os ombros. O volume desproporcional dos seios se movendo com a respiração acelerada.
E o rosto.
O rosto dela é a melhor parte.
Olhos fechados. Boca entreaberta. Testa suada encostada nas costas dele. Mordendo o lábio com força agora. Não de dor. De entrega. De prazer silencioso que ela acha que é só dela.
Little Boobs acha que ele é só o cara sortudo que tá transando com ela. Mas ele guarda segredos melhores do que ela imagina. Guarda esse momento. Esse olhar. Esse tremor.
A mão dela acelera. Os quadris dela acompanham. O corpo pequeno todo balançando contra ele. Esfregando. Procurando. Encontrando.
Little Boobs respira fundo. Uma vez. Duas. Três.
O corpo dela trava.
Os dedos apertam.
Os olhos se fecham com força.
A boca se abre sem som.
Ela treme. Inteira. Do cabelo ruivo até as unhas pintadas de vermelho dos pés pequenos que se enroscam na panturrilha de Jota.
Ele sente tudo.
O tremor.
O calor.
A respiração cortada.
O suspiro que finalmente escapa.
Baixo.
Rouco.
Morrendo contra a nuca dele.
E então—
Ela abre os olhos.
De repente.
Olha pro espelho.
Direto.
Jota fecha os olhos na mesma fração de segundo. Rápido demais pra ela perceber. Coração dispara. Respiração continua lenta. Pesada. Fingida.
Sorte Little Boobs ser meio miope.
No reflexo que ele ainda captura pela fresta mínima das pálpebras, Little Boobs olha pro espelho. Pro corpo dela grudado no dele. Pras mãos ainda enfiadas entre as pernas dela.
Ela hesita.
Três segundos.
Quatro.
Olha pro rosto de Jota refletido no espelho.
Ele não se mexe. Nem um músculo. Respiração perfeita. Sono perfeito.
Ela relaxa.
Fecha os olhos de novo.
Volta a deitar a cabeça no travesseiro.
Quase quebrou o jogo.
Devagar, Little Boobs afrouxa o abraço. Como se temesse acordá-lo. Como se o jogo todo dependesse dele continuar dormindo.
Como se nada tivesse acontecido.
Volta a deitar a cabeça no travesseiro. Braço pesado sobre o peito de Jota. Perna ainda entrelaçada. Fartura concentrada dos seios ainda pressionada nas costas dele. Mas agora quieta. Respiração voltando ao normal. Lenta. Profunda.
O reflexo mostra o rosto dela relaxado. Olhos fechados agora. Boca entreaberta. Cabelo ruivo grudado na testa suada. Corpo miúdo derretido contra o dele.
Ela dorme.
De verdade dessa vez.
Jota permanece imóvel.
Conta até cem.
Devagar.
Certificando-se.
Então abre os olhos. Completamente agora. Vira a cabeça levemente. Olha pro espelho.
O reflexo mostra tudo.
Ela dormindo. Grudada nele. Inocente agora. Como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
E o espelho viu.
E Jota viu.
E guardou.
Olha pro relógio.
4h52.
Quinze minutos.
Foi isso que durou.
Passou mais algum tempo e Jota finalmente se move.
Devagar. Cuidado pra não acordá-la.
Desliza o braço de baixo dela. Senta na beirada da cama. Pés no chão frio do motel. Quase tropeça no tênis surrado. Cadarço direito solto se enrosca no tornozelo. Ele se desvencilha.
Quinze minutos de jogo silencioso onde ela achou que dominava mas ele via tudo.
Jota levanta. Caminha até a cadeira onde deixou a mochila laranja. Abre. Procura. Pega a caneta. Volta pra mesinha de cabeceira. Pega o caderno de capa dura marrom. Dá os tirinhos que ainda estavam ali. O ímã cinza fosco se solta um pouco mas continua preso. Ele abre numa página nova.
Anota:
“4h37 – motel Poeme – espelho – ela não sabia que eu via – quase me pegou mas fechei os olhos a tempo”
Fecha o caderno. Prende o ímã de volta na capa. Deixa na mesinha ao lado do isqueiro amarelo. O sobrevivente. Sempre ali. Sempre presente.
Volta pra cama.
Deita do mesmo jeito. De costas pra ela. Olhando pro espelho.
Little Boobs se mexe no sono. Braço voltando pro peito dele. Perna voltando pra dele. Seios voltando pras costas dele.
Ela murmura algo. Baixinho. Inaudível quase.
— …gostoso…
Jota congela.
Ela continua dormindo. Respiração profunda. Tranquila.
Mas ela falou.
Ele ouviu.
E guardou também.
Jota olha pro espelho.
O reflexo mostra os dois. Abraçados. Como se nada tivesse acontecido.
Ele fecha os olhos de novo.
Dessa vez certamente pra dormir e feliz.
Com o peso dela nas costas.
Com o calor dela grudado nele.
Com o segredo guardado no peito.
E o espelho testemunhando tudo.
Traidor silencioso.
Cúmplice perfeito.
Guardião do que aconteceu e do que ninguém mais vai saber.
O relógio marca 5h33.
O Gol Bolinha espera lá fora.
O isqueiro amarelo descansa na mesinha.
O ímã cinza fosco guarda a capa do caderno.
O tênis surrado repousa no chão com o cadarço direito solto.
E Jota dorme.
Com Little Boobs grudada nele.
Com o segredo mais gostoso da madrugada trancado entre quatro coisas:
Ele.
Ela.
O espelho.
E o silêncio do motel Poeme às 4h37.
