Capa do Capítulo

A Mochila Laranja

Extensão: 1.759 palavras | Leitura: 9 min

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O quarto cheirava a ansiedade.

Luz da manhã entrando pela janela entreaberta, cortando o ar em lâminas douradas. Na mesa de cabeceira: passagem impressa, código QR gigante, data de hoje, 17h40, Curitiba → Auckland via Santiago. Itinerário marcado com caneta vermelha: 28 horas de voo, duas conexões, um mundo inteiro de distância.

Jota tinha decidido. Comprou a passagem. Ia pra Auckland. Pronto.

Olhou o relógio de pulso: 10h58.

Check-in online já feito. Vacina no braço. Tudo certo.

Menos a mochila.

A mochila laranja estava aberta no chão, boca escancarada, vazia.

Totalmente vazia.

Nem uma cueca perdida.

O coração deu um soco no peito.

— Porra, Jota…

Levantou tão rápido que a cadeira caiu pra trás. 110 kg de carne em modo resolução. Camiseta regata vinho grudando nas costas, suor frio escorrendo pela nuca. O pau meio duro dentro da calça de moletom, porque fuga é isso: medo misturado com tesão de sumir.

Correu pro armário.

Abriu as portas com os dois braços. Roupas voaram: camisetas velhas, calças jeans, uma jaqueta velha de guerra que comprou em Londres, essa iria com certeza. Pegou quatro camisetas quaisquer. Jogou dentro da mochila laranja como quem joga salva-vidas.

— Mínimo. Só o essencial.

Abriu a gaveta de cuecas e meias. Pegou seis cuecas, duas meias. Jogou.

Gaveta de baixo: duas calças jeans, uma legging térmica pra quando chegar o inverno lá. Jogou.

Gaveta de documentos: passaporte, carteira de vacinação amarela, cartão de crédito reserva, três mil reais em notas de cem dobradas num clipe. Tudo dentro.

A mochila laranja já transbordava.

Correu pro banheiro.

Escova de dente, pasta pequena, desodorante, fio dental. Jogou tudo num nécessaire transparente. Fechou. Dentro da mochila.

O celular vibrou na mesa.

Tela acesa: áudio da Daslu.

18 segundos.

Clicou sem pensar.

“Jota, tô te esperando! Você vem mesmo, nem acredito! Ovelhas passando aqui. Vento frio. Tô com saudade pra caralho!”

A voz dela entrou no quarto como fumaça.

Fechou os olhos por um segundo. Imaginou o cheiro do cabelo dela, o sotaque misturado, o jeito que ela fala “tá?” no final de tudo.

O pau endureceu de vez.

Abriu os olhos. 11h14.

— Foco, porra.

Carregador de celular, cabo, adaptador universal, fone de ouvido, powerbank de 20.000 mAh. Enfiado.

Tablet com vários livros e filmes iria na abertura de fora.

A mochila laranja abarrotada.

Zíper brigando.

Ele suando em bicas.

11h27.

Apesar de tudo, da velocidade, a desorganização do quarto ficou organizada. Fechou as gavetas e colocou o não essencial no lugar. E ajoelhou o corpo grande demais tentando fechar a mochila laranja como quem tenta fechar um caixão com defunto pesado.

Zíper travando na metade.

— Porra, entra!

Forçou. Mas a mochila laranja era de guerra, aguentou o tranco e finalmente fechou. Respirou fundo três vezes. Só pra ter o que fazer com as mãos.

Ainda faltava o nécessaire e o passaporte.

Pegou o passaporte azul, beijou a capa como quem beija um santo.

— Você vai, filha da puta.

Enfiou o passaporte no bolso.

O nécessaire e tablet colocou na entrada de fora, espremidos.

CLAC.

Fechou.

Caiu sentado no chão, costas na cama, peito arfando.

A mochila laranja entre as pernas, gorda, feia, perfeita.

Cheiro de tecido velho, de ônibus noturno, de pó.

Ah sim, o pó. Foi lá e limpou tudo que poderia ter vestígios. Deu aquele banho nos cartões, na carteira e no tablet.

O celular vibrou de novo.

Foto da Daslu.

Ela na varanda, céu azul da Nova Zelândia atrás, cabelo voando, vestido novo dela. Legenda: “a casa tá silenciosa demais. falta você enchendo de barulho.”

O pau latejou tão forte que doeu.

Fechou os olhos.

11h41.

Última coisa antes de sair.

Desceu e foi até a garagem, cheiro de concreto frio e óleo velho. O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava ali, estacionado. Lataria fosca. Duas portas. Banco do motorista afundado. Cheiro de etanol velho e estofado gasto.

Encostou a mão no capó.

— Fica aqui, parceiro. Eu volto.

Ou não volto.

Mas deixar ele sozinho era pior.

Rand apareceu no portão, macacão azul, cigarro na boca, mãos nos bolsos. Sempre aparecia. Nunca perguntava como sabia.

Jota entregou as chaves. E o isqueiro amarelo.

— Cuida dos dois?

Rand pegou, guardou no bolso sem olhar.

— Quando você volta?

— Não sei.

Ele deu de ombros.

— Eles vão tá aqui.

E foi embora. Simples assim. Como sempre.

Calça jeans, tênis surrado, camiseta limpa.

A mochila laranja nas costas. Peso bom, familiar, como se ele tivesse nascido com ela grudada.

Última volta no quarto.

Apagou a luz do abajur.

Apagou a luz grande.

Fechou a porta.

Corredor escuro.

Chave na mão.

Trancou.

Deu uma última olhada no reflexo ao passar pelo Gol Bolinha.

Que devolveu a imagem: cara suado, barba de três dias, olhos arregalados, mochila laranja gigante nas costas de um homem grande demais pra fugir e pequeno demais pra ficar.

O portão abriu.

Vento frio, o Uber já estava lá, pisca-alerta ligado.

Jota só entrou.

— Aeroporto Afonso Pena?

— Sim.

A mochila laranja no colo, abraçada como criança.

O carro arrancou.

Pensou em mandar parar. Desistir.

Mas já tinha decidido.

Pela janela, Curitiba passando rápido: Cajuru, Jardim das Américas, Uberaba, placas, viadutos.

Não olhou pra trás.

O carro entrou na BR.

14h12.

Música baixa no rádio.

O motorista calado.

Abriu o WhatsApp.

Digitou pra ela:

“to indo. mochila laranja fechada. chego quarta 11h20. te amo pra caralho.”

Enviou.

Colocou no modo avião.

Encostou a cabeça no vidro frio.

Fechou os olhos.

Pela primeira vez em anos, não tinha nada sobrando.

15h10.

O Uber parou no desembarque do Afonso Pena.

Frio de 15 °C, céu cinza de tarde, cheiro de asfalto molhado.

— Boa viagem, chefe.

— Valeu.

Entrou no saguão vazio.

Passos ecoando no chão de granilite.

Balcão da companhia já aberto, uma moça de coque perfeito, sorriso profissional.

— Bom dia. Check-in?

— Auckland via Santiago.

Jota entregou o passaporte.

Ela olhou a mochila laranja, sorriu de canto.

— Só bagagem de mão?

— Só.

Pesou. 11,8 kg.

Etiqueta laranja no zíper.

— Portão 7. Embarque 17h25.

Foi para o embarque.

O peso da mochila nas costas era o único peso que ele queria carregar agora.

Passou por Free-shops, cheiro de café fresco.

Comprou uma água e umas balas pra ficar distraindo a boca.

Sentou de frente pro vidro, vendo os aviões taxiando.

Abriu o celular, modo avião desligado por um segundo.

Mensagem dela recebida há pouco:

“acordei com o coração disparado.

senti você chegando.

porta aberta.

cama aquecida.

vem.”

Fechou os olhos.

Respirou fundo.

Modo avião de novo.

Abriu o caderno marrom que tava no bolso lateral da mochila, pegou a caneta que sempre anda junto, e escreveu numa página nova:

“só o necessário. e foi o suficiente.”

17h25.

Portão 7.

Fila pequena.

Embarcou primeiro, corredor 12A.

Pegou o tablet da abertura de fora da mochila laranja. Colocou a mochila no bagageiro acima. Guardou o tablet no bolsinho da frente. Sentou, cinto apertado na barriga.

O avião cheirava a plástico novo e café ruim.

17h58.

Portas armadas.

Carrinho afastou.

O A320 começou a rolar.

Curitiba ficando pequena lá embaixo, luzes amarelas virando pontinhos.

Decolagem.

O ronco dos motores entrando no peito.

O corpo pesado empurrado contra o banco.

O tempo passou.

Pegou o tablet. Leu. 

Cruzando a Argentina.

Escutou histórias. 

Viu um filme. 

Deixou o tempo fluir.

Descendo pro Chile.

Estava acontecendo.

Santiago. Conexão de 4 horas.

Aeroporto gelado, ar-condicionado demais.

Sentou numa cadeira dura perto do portão.

Pegou o celular. Modo avião ainda.

Pensou em ligar. Cancelar. Dizer que mudou de ideia.

Mas já tinha dado as informações pra ela. Sabia onde ir.

Agora era ir. O que viesse depois, viria.

Guardou o celular.

Achou uma tomada. Carregou o celular, o tablet, o powerbank. Pegou o tablet. Colocou fone. Escutou algo. Deixou o tempo passar.

Chamaram o embarque.

Entrou no 787. Avião maior. Viagem longa.

Mesma rotina: pegou o tablet, mochila no bagageiro, tablet no bolsinho, sentou.

Hora 14 de voo.

Sobre o Pacífico. Água infinita lá embaixo. Céu azul acima. Nada entre os dois.

O cara do lado roncava.

Ele olhava pela janela.

E se ela mudou de ideia?

E se chegou lá e não tem nada?

E se ele é só mais um idiota fugindo de Curitiba porque não sabe ficar?

Qualquer coisa tem dinheiro. Pior caso vira turismo pela Nova Zelândia.

Respirou fundo. Pegou o tablet. Colocou um filme qualquer. Deixou rolar.

A aeromoça passou, ofereceu água.

Fechou os olhos.

Dormiu.

Quase lá.

Anúncio do comandante: descida em 40 minutos.

Acordou com o estômago embrulhado.

Foi no banheiro. Lavou o rosto. Olhou no espelho: barba de quatro dias, olhos inchados, camiseta amassada.

Voltou pro lugar.

A mochila laranja ainda no bagageiro, esperando.

Pensou no Gol Bolinha na garagem. Sozinho. Rand cuidando.

Pensou na Daslu, esperando, ou não esperando, ou arrependida.

O avião começou a descer.

Auckland, 11h18 horário local.

Porta 8 do terminal internacional.

Pegou a mochila laranja do bagageiro. Guardou o tablet de volta na abertura de fora. Colocou a mochila nas costas.

Jota saiu primeiro, mochila nas costas, camiseta amassada, cheiro de avião e ansiedade.

Andou devagar.

Pernas bambas. Coração batendo errado.

Passou pela porta automática.

Saguão enorme. Gente esperando. Placas com nomes. Abraços. Flores.

Procurou ela.

Não achou.

O peito apertou.

Andou mais.

E então viu.

Daslu.

Vestido leve, cabelo solto, olhos vermelhos de quem não dormiu direito.

Segurando uma placa pequena escrita à mão:

“A MOCHILA LARANJA CHEGOU”

Quando viu ele, largou a placa no chão e correu.

Largou a mochila no meio do saguão.

Homem grande demais abrindo os braços.

Ela pulou no colo dele, pernas na cintura, braços na nuca, boca na boca.

Beijo molhado, salgado, desesperado.

Cheiro de lavanda, de Nova Zelândia, de futuro.

— Você veio — sussurrou no ouvido dele.

— Vim — respondeu.

Ela riu contra o pescoço dele, chorou também.

Jota pegou a mochila laranja do chão.

Saíram de mãos dadas pro estacionamento.

O céu estava azul pra caralho.

O vento frio batia gostoso.

E novamente, ao se jogar, sentia que tinha tudo o que precisava.

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Sinopse Narrativa:

Numa manhã de decisão, Jota embala a mochila laranja às pressas e parte de Curitiba para Auckland, Nova Zelândia, onde Daslu o espera. Sem o Gol e sem o isqueiro — entregues a Rand antes de partir — ele embarca com o mínimo necessário em duas conexões de 28 horas. No saguão do aeroporto de Auckland, Daslu o recebe com uma placa escrita à mão: "A mochila laranja chegou".

Gênero Romance, Slice of Life
Tom Ansioso, Caloroso, Esperançoso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Amor, Fuga, Recomeço
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas amor como destino, Fuga e coragem de partir, o essencial que cabe numa mochila
Locais Aeroporto Afonso Pena, Auckland, Capão da Imbuia, conexão, Curitiba, Nova Zelândia, Santiago, sobrado
Palavras-Chave Auckland, Daslu, fuga, mochila laranja, Nova Zelândia, o necessário, partida, recomeço
Único conto em que Jota deixa Curitiba de forma definitiva (ou quase). O isqueiro amarelo e as chaves do Gol são entregues a Rand — ausência intencional dos dois itens na viagem. Rand aparece no portão sem ser chamado, pega os itens e some "simples assim, como sempre." Conto de tom leve e esperançoso, sem elemento sobrenatural. A mochila laranja é o símbolo central e dá título ao conto. Daslu aparece como destino emocional positivo — inversão do padrão de outros contos onde é figura de perda.
 

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