Jota deixou o Gol Bolinha estacionado lá embaixo, perto do portão principal. Nem trancou. Só deixou a mochila laranja e o caderno de anotações de capa dura marrom no banco do passageiro e subiu. Não pelos degraus. Pelo ar mesmo.
Voar ali não exigia esforço. Não tinha técnica. Apenas vontade de se mover e o corpo respondia, erguendo-se alguns metros acima do gramado, deslizando pelo ar com a mesma naturalidade de caminhar. A faculdade estava espalhada pela região. Não o prédio exato que ele lembrava, mas as pessoas. Rostos conhecidos ocupando os espaços inferiores. Corredores largos. Pátios sem fim. Tudo meio suspenso entre o concreto e as nuvens.
Quanto mais baixo, mais pesado o clima. Nos andares térreos, nos pátios abertos, as pessoas andavam devagar. Conversas em sussurro. Olhares caídos. Não choravam. Não dramatizavam. Apenas carregavam aquela melancolia leve que gruda em certos lugares e não sai mais.
Quanto mais alto, mais diferente ficava tudo. Perto da central, ou talvez fosse nos andares superiores, a atmosfera mudava por completo. Alegria. Risadas altas. Conversas que ecoavam. As pessoas de cima estavam bem. Felizes. O contraste era nítido demais pra ser ignorado.
Jota planou entre os dois mundos. Passou pelos tristes sem pousar. Subiu em direção aos felizes sem pressa. O vento não fazia barulho. Era só impulso. Braços abertos. Camiseta regata vinho colada no corpo pelo suor frio da altitude. O cadarço direito do tênis surrado balançava solto, como sempre, o dedão aparecendo pelo buraco velho.
Foi quando viu o Deco.
Estava num refeitório aberto, meio afastado do movimento. Sentado numa mesa de canto, mexendo na comida com o garfo. Não parecia triste. Não parecia feliz. Apenas ocupado com o prato à frente. Tinha aquele jeito concentrado que sempre teve. Aquela maneira cuidadosa de fazer as coisas, cada movimento pensado, cada gesto no tempo certo.
Jota pousou a uns três metros de distância. Os pés tocaram o chão sem fazer som. O cadarço direito roçou o piso e quase o fez tropeçar, mas ele apenas sorriu de canto.
O ímã de geladeira no bolso da calça brilhou. Discreto. Suave. Azul pálido. Deco ali. Família presente.
— E aí, mano.
Deco levantou o olhar. Demorou um segundo pra reconhecer. Depois sorriu. Um meio sorriso cansado, mas verdadeiro.
— Opa. Tá voando de novo?
— Tô. Cê não vem?
Deco balançou a cabeça.
— Hoje não. Hoje eu como.
Jota sorriu também. Ficou ali parado por mais alguns segundos, só olhando. Queria dizer alguma coisa. Queria perguntar se tava tudo bem, se precisava de algo, se queria companhia. Mas não disse nada. Apenas acenou e continuou subindo.
Passou por mais corredores. Mais rostos. Mais contraste. Até chegar perto da central.
Foi ali que eles apareceram.
Rosquinha e Rand Oliveira.
Vieram caminhando pelo corredor largo, meio cambaleantes, sorrindo daquele jeito solto de quem acabou de voltar de algum lugar importante. Rand ainda carregava no rosto aquele olhar distante. Rosquinha ria baixo, segurando algo nas mãos.
— Jota! — Rosquinha acenou exagerado. — Olha isso aqui!
Eles traziam um jogo. Tabuleiro de madeira dobrado debaixo do braço do Rand, e nas mãos do Rosquinha, um punhado de peças pequenas. Cilindros de duas cores. Pretas e brancas. Trilha.
— Pegamos lá dentro — Rand falou, a voz ainda arrastada. — Lá no fundo. Tem uns véio jogando isso há séculos.
— Eles deixaram a gente levar — Rosquinha completou, rindo. — Acho que acharam engraçado.
Jota estendeu a mão. Rosquinha jogou o monte de peças pra ele.
Algumas escaparam.
Caíram no chão tilintando. Pequenos cilindros batendo no piso, rolando em direções diferentes. Barulho suave. Quase hipnótico.
Jota se abaixou rápido. O bolso da regata vinho bateu no joelho; o isqueiro amarelo, o sobrevivente, fez um leve clique contra o tecido. Ele começou a catar as peças. Uma a uma.
Tinha um copo ali.
Copo plástico transparente, largado perto da parede. Ainda com resto de refrigerante no fundo. Líquido escuro, meio turvo. Jota nem pensou. Só pegou o copo e começou a colocar as peças dentro.
Ploc.
A primeira afundou.
Ploc. Ploc.
As outras foram atrás. Cilindros pretos e brancos desaparecendo na superfície. O líquido engolia cada uma. Algumas boiavam por um segundo antes de afundar. Outras iam direto pro fundo.
Rosquinha e Rand pararam de rir. Ficaram ali, parados, só olhando.
— Tá guardando isso pro resto da vida? — Rosquinha perguntou, mas a voz não tinha zoeira. Tinha curiosidade.
Jota continuou catando. Cada peça que encontrava, colocava no copo. O refrigerante subia. As peças se acumulavam. Pretas e brancas misturadas, girando dentro do líquido.
— Pra não perder mais nenhuma — Jota respondeu.
Catou a última. Colocou no copo. O líquido quase transbordou, mas segurou.
Levantou segurando o copo contra o peito. As peças chacoalhavam lá dentro. Vivas. Pesadas e leves ao mesmo tempo.
Rosquinha e Rand ainda estavam ali. Olhando.
— Valeu pelo jogo — Jota disse.
— Nem era nosso — Rand respondeu, sorrindo torto. — Acho que sempre foi teu.
Jota deu um passo pra trás. Sentiu o impulso voltando. O corpo pedindo altitude. Mas antes de subir, olhou pro refeitório lá embaixo.
Deco ainda estava lá. Comendo. Sozinho.
Jota pensou em descer. Pensou em sentar do lado dele. Oferecer o copo. Mostrar as peças. Explicar alguma coisa.
Mas não desceu.
Segurou o copo com as duas mãos. Sentiu o peso do líquido. O tilintar suave das peças batendo umas nas outras.
E voltou a voar.
Passou pelos andares felizes. Passou pelos andares tristes. Passou pelo corredor onde Rosquinha e Rand ainda estavam parados, acenando pra ele sumir no céu.
O copo não pesava nada.
As peças continuavam vivas lá dentro.
E Jota sabia, sem saber como sabia, que quando pousasse de novo – quando voltasse pro Gol Bolinha cinza estacionado lá embaixo, quando pegasse o caderno do banco e anotasse tudo isso – ele não ia tirar as peças de dentro do copo.
Ia deixar elas ali.
Submersas.
Guardadas.
Pra sempre.
