Capa do Capítulo

Rio Gatinho

Extensão: 1.812 palavras | Leitura: 10 min

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O nome do rio quase sai. Rio Gatinho. Ou algo parecido com isso. Não importa. O que importa é que está lá, deslizando pela água verde-escura, quente, espessa, que corre preguiçosa entre margens de terra vermelha.

Jota não lembra exatamente como chegou até aqui. O movimento até o rio não tem forma na memória. Vieram de carro? De barco? A pé? Três horas? Talvez.

Só o destino: encontrar os lugares onde o peixe-gatinho prospera. Leandro Costa sabe. Disse que conhece o rio. Que sabe onde a água fica certa pra esse peixe específico.

Agora estão numa canoa. Pequena. Madeira velha, remendada em três lugares diferentes com arame e fita isolante.

Jota rema na frente. Leandro Costa atrás.

Gatinho tem a pele bronzeada de quem vive perto d’água, sorriso fácil, apelido que grudou faz tanto tempo que virou nome. Ninguém lembra por quê. Talvez nem ele.

— Tem uns grande aí embaixo — Gatinho fala, remando. — Cê viu?

Jota viu. Sombras enormes passando sob a canoa. Peixes gigantes, pintados, bagres do tamanho de homem. Alguns maiores ainda. Deslizam lentos como se o tempo não existisse pra eles.

Jota estende a mão. Bate num que passa. Sente a pele escamosa, fria, dura. O bicho nem se mexe. Só desliza. Como se não tivesse sentido. Ou como se já esperasse. Gatinho ri.

— Cê é doido. Consegue tocar eles assim, do nada.

Gatinho também tem um peixe. Pegou horas atrás. Pequeno. Largou no fundo da canoa enrolado num pano. Disse que não importa.

Jota carrega um arpão improvisado. Cabo de vassoura com ponta de ferro amarrada na ponta. A mochila laranja tá jogada no fundo da canoa, molhada, com o caderno de anotações lá dentro protegido por um saco plástico, bem fechado, com o maior cuidado do mundo. O ímã de geladeira cinza fosco continua preso na capa do caderno. Logo do Posto Esso quase apagado. Beiradas descascando.

A camiseta regata vinho gruda no corpo pelo calor. O suor desce pelas costas, mistura com a água do rio que respinga toda vez que rema. O isqueiro amarelo, o sobrevivente, pesa no bolso da calça. Os tênis tão encharcados. O cadarço direito solto de novo. O dedão esquerdo aparece pelo buraco, vermelho de tanto roçar na madeira da canoa.

— Ali — Gatinho aponta.

Um peixe-gato gigante sobe, quase tocando a superfície. Mas não é bagre comum. Bigodes longos e curvos que lembram bigodes de gato. Olhos grandes e redondos, quase felinos. Uma nadadeira traseira que balança como rabo. Corpo grosso, couro manchado de dourado e preto.

É esse. O peixe-gatinho. O que vieram procurar.

Jota não pensa. Só levanta o arpão e crava.

O ferro entra fundo. O bicho explode em movimento. A água vira espuma. A canoa balança violenta. Gatinho ri alto, segura na borda, ajuda a puxar a corda amarrada no arpão.

— Segura! Segura, porra!

Sangue tinge o rio. Vermelho escuro se espalhando em redemoinhos. O peixe se debate mais três vezes antes de parar. Fica boiando de lado, olho vidrado, boca aberta.

— Caralho — Gatinho ri mais ainda. — Cê é doido.

Jota puxa o bicho pra perto da canoa. Pesado demais pra subir. Amarra na lateral. A água ao redor ainda tá vermelha. O cheiro de ferro sobe forte.

Eles seguem.

O rio vai mudando.

No começo é sutil. Só um cheiro diferente. Menos terra, mais ferrugem. Depois a cor muda. O verde-escuro vai ficando acinzentado. Manchas de óleo aparecem na superfície. Pequenas no início. Depois maiores. Iridescentes. Refletindo nada.

As margens vão se fechando. A vegetação some aos poucos. Árvores tortas, galhos secos, raízes expostas como veias. A luz entra torta. O calor aumenta mas o ar fica mais pesado.

— Tá fudido aqui — Gatinho fala.

Jota concorda sem falar. Para de remar. Pega o caderno da mochila. O ímã frio na palma da mão quando vira a capa.

Tenta escrever o nome do rio. A caneta para no ar. Nada vem.

Rio Gatinho. Peixe-gatinho. Leandro Costa, Gatinho.

Tudo com o mesmo nome.

Estranheza que não questiona. Só sente.

Anota rápido, com a caneta quase sem tinta:

“Rio muda. Cheiro de podre. Água cinza. Gatinho calado.”

Guarda o caderno de volta. A mochila laranja parece mais pesada agora. Ou talvez seja só impressão.

O rio faz uma curva fechada. Eles seguem.

A água fica preta.

Não aos poucos. De repente. Como se alguém tivesse jogado tinta. Preta. Espessa. Oleosa. Garrafas pet flutuam sem direção. Pedaços de madeira, plástico, pano. Um bicho morto passa boiando. Inchado. Irreconhecível.

O peixe-gato amarrado na canoa começa a feder. Rápido demais. Como se a água tivesse acelerado o apodrecimento.

— Puta merda — Gatinho tampa o nariz. — Que lugar é esse?

Jota não responde. Olha pra frente.

O rio poluído onde estão segue por mais uns cinquenta metros.

Depois encontra outro rio.

A confluência.

Eles param a canoa onde as águas se encontram.

A diferença é brutal.

O rio onde estão — o que desceram remando — é preto. Morto. Não reflete céu, não reflete nada. Só engole luz. A superfície oleosa se move, carregando o lixo flutuante em círculos preguiçosos.

O outro rio — o que vem de outro lugar, de outra nascente — é limpo.

Cristalino. Verde-claro. Água correndo rápida, viva, com espuma branca nas pedras. Peixes pequenos pulam. Pássaros voam baixo. A luz bate certo.

Eles estão na linha. Exatamente onde o podre encontra o puro. Mas não se misturam. Ficam ali, lado a lado, como dois mundos diferentes se recusando a se tocar.

Gatinho larga o remo. Olha a confluência em silêncio. O sorriso some pela primeira vez desde que entraram no rio.

— A gente atravessa?

Ele pergunta. Mas já sabe a resposta. Sente no corpo que não pode. Que precisa voltar. Da mesma forma que Jota sente que precisa procurar algo, Gatinho sente que precisa ficar onde está.

Jota não responde.

Solta o arpão no fundo da canoa. Levanta.

— Vou subir. Ver de cima.

Gatinho olha sem entender. Mas antes que pergunte, Jota já subiu. A canoa balança. Ele sobe no ar como quem sobe num degrau. Natural.

— Caralho — Gatinho balança a cabeça. — Por mais que eu veja, sempre impressiona. Não se vê mais muitos com esse dom.

Jota já não ouve. Já tá no ar.

Voa.

Não alto. Rente à superfície. De um lado pro outro. Sobre a linha que separa os rios. Braços abertos. Mãos cortando o ar. Procurando.

Não sabe o quê.

Só sabe que perdeu.

Voa mais rápido. Passa por cima do rio preto. Passa por cima do rio limpo. Volta pra linha. Mergulha as mãos na água. Agarra vazio. Tenta de novo. Nada.

Gatinho fica na canoa. Parado. Olhando.

— Que cê tá procurando? — ele grita.

Jota não responde. Não sabe responder.

Voa de um lado pro outro. Passa sobre o rio preto. Passa sobre o rio limpo. Volta pra linha. Mergulha as mãos. Agarra vazio. Voa de novo. Passa. Volta. Mergulha. Nada.

O peixe-gato morto pendurado na lateral da canoa. Inerte. O sangue dele já se misturou com a água preta. Sumiu.

O nome do rio ainda não vem. O que ele perdeu também não.

Jota continua voando.

Passa sobre a linha de novo. As mãos abertas. Tentando agarrar algo que não consegue ver. Algo entre o que morreu e o que ainda vive. Entre o rio que apodreceu e o rio que ainda respira.

Gatinho grita de novo, mas a voz chega distorcida, como se estivesse do outro lado de um vidro grosso.

Jota faz mais uma passagem. Mais baixo. Tão baixo que os dedos arrastam na água. Deixam rastros que somem em segundos.

Então percebe.

A corda balança vazia.

O peixe-gatinho — o que arpoaram, o único que pescaram hoje — afundou. Engolido pela água preta. Levado.

Jota para no ar. Fica suspenso. Olhando a corda vazia.

Gatinho segue o olhar. Vê a corda. Entende.

— Afundou — ele diz baixo.

Jota olha pra confluência de novo.

A linha continua ali. Perfeitamente visível. Perfeitamente intransponível.

Preto de um lado.

Limpo do outro.

E no meio, nada.

Só a fronteira.

Só o vazio entre dois mundos que não se tocam.

Jota desce. Pousa na canoa. A madeira range sob o peso. Ele senta. Pega o remo.

— Vamo voltar — Gatinho fala. Não é pergunta.

Jota balança a cabeça.

Eles viram a canoa. Remam em silêncio. A água preta vai ficando pra trás. Aos poucos, o cinza volta. Depois o verde sujo. Depois, lá longe, o verde-escuro de antes.

A corda vazia continua amarrada na lateral.

Balançando.

Lembrando.

Voltam.

O Gol Bolinha cinza ainda tá lá. Estacionado embaixo de uma árvore. Coberto de poeira vermelha.

Jota olha. Reconhece.

Vieram de carro, então. Deixaram aqui. Pegaram o barco-motor. Depois a canoa.

Agora lembra.

Jota senta no banco do motorista. Pega a mochila laranja. Abre. Tira o caderno. O ímã frio na capa.

Tenta escrever o nome do rio de novo. A caneta treme. Nada.

Anota:

“Confluência. Rio preto / rio limpo. Não se misturam. Procurei o que perdi. Não achei. Peixe afundou. Corda vazia. Gatinho viu tudo. A gente voltou.”

Fecha o caderno. Guarda.

Gatinho encosta na porta do passageiro. Acende um cigarro. Olha pro rio ao longe.

— Que cê tava procurando lá? — ele pergunta.

Jota gira a chave. O motor do Gol tosse. Pega na segunda tentativa.

— Não sei — Jota responde. — Meu corpo sabia. Sentia que tinha algo ali. Saberia quando visse.

Ele para. Olha pro rio ao longe.

— Mas parece que não estava mais lá.

E é verdade.

Mas ele sabe, mesmo sem saber como sabe, que ainda tá lá. Em algum lugar entre o podre e o puro. Entre o que foi e o que poderia ser. Entre o rio que morreu e o rio que ainda respira.

O que ele perdeu.

O nome que esqueceu.

Só precisa agarrar.

Só precisa encontrar.

Só precisa voltar.

Jota liga o motor. Dirige alguns metros pela estrada de terra.

Para o carro.

A sensação não passa. Aperta no peito. Precisa voltar.

Desce do Gol. Olha pra Gatinho.

— Vou voltar lá.

Gatinho só acena. Acende outro cigarro. Já sabia.

Jota sobe no ar. Voa de volta.

O Gol Bolinha fica parado na estrada. Motor ligado. Porta aberta. Poeira vermelha entrando.

Gatinho fuma em silêncio. Sozinho. Olhando o céu.

E Jota voa.

De volta pra confluência.

De volta pra linha que separa os rios.

Procurando o que perdeu.

O nome que esqueceu.

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Sinopse Narrativa:

Jota e Leandro Costa (Gatinho) pescam num rio de água verde-escura em canoa remendada. Jota arpoeia um peixe-gatinho gigante, mas ao chegar à confluência entre um rio preto e morto e um rio cristalino, o peixe afunda e some. Jota voa sobre a linha que separa os dois rios procurando algo que perdeu mas não consegue nomear. Não encontra. Voltam. Jota anota no caderno, ouve Gatinho perguntar o que procurava, responde que não sabe. Para o carro na estrada, desce e voa de volta sozinho para a confluência — ainda procurando.

Gênero Contemplativo, Realismo Mágico
Tom Melancólico, Onírico, Suspenso
Timeline Curitiba, Onírico
Versão Jota Normal, Poderes
Categoria Busca, Fronteira, Perda
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Dom e isolamento, Fronteira entre mundos opostos que não se tocam, Perda sem nome e busca sem objeto
Locais canoa, confluência, estrada de terra vermelha, Rio, Rio Gatinho
Palavras-Chave arpão, confluência, corda vazia, Gatinho, peixe-gatinho, perda sem nome, rio limpo, rio preto, voo
Jota tem dom explícito de voar neste conto — Gatinho comenta "não se vê mais muitos com esse dom", sugerindo que é raro mas conhecido neste universo. Jota não lembra como chegou ao rio — memória fragmentada desde o início. Tudo no conto compartilha o mesmo nome: o rio, o peixe e o apelido de Leandro Costa (Gatinho) — estranheza registrada pelo próprio Jota. O peixe-gatinho arpoado afunda na água preta sem explicação. Jota faz duas anotações no caderno com conteúdo transcrito literalmente no texto. O conto termina em aberto: Jota volta a voar para a confluência, o Gol fica com motor ligado e porta aberta.
 

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