Capa do Capítulo

Cobertor no Corredor

Extensão: 1.415 palavras | Leitura: 8 min

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O lugar é imenso. Salões que se multiplicam como labirinto. Mesas compridas. Luzes baixas. Cheiro de comida misturado com perfume barato e cigarro queimado. Som de risada alta vindo de todos os cantos. Reencontro. Gente que Jota não via há anos. Abraços que duram demais. Conversas que não vão a lugar nenhum.

Ele anda cansado entre os corredores. Copo vazio na mão. Camiseta regata vinho grudada de suor. Já faz mais de uma hora que tá procurando Daslu.

Passa por uma mesa. Alguém chama. Ele acena mas não para. Passa por outra. Mais gente. Mais barulho. A mochila laranja pesa nas costas. Devia ter deixado no carro. No Gol Bolinha estacionado lá fora. Mas trouxe. Sempre traz. Os tênis surrados estão guardados lá dentro, junto com o caderno de capa dura marrom.

Vira mais um corredor.

E encontra.

Daslu.

Encostada na parede. Um metro e setenta e dois de pura destruição. Vestido curto preto justo marcando cada curva do corpo de modelo. Pernas longas e torneadas que parecem não acabar nunca. Cintura fina. Quadril discreto mas perfeito. Peitos siliconados empinados pressionando o decote. Salto alto. Cabelo loiro platinado caindo liso até a metade das costas. Olhos âmbar que atravessam. Cigarro aceso entre os dedos. Olhando pro nada.

Jota para.

Ela levanta os olhos. Vê ele. Não sorri. Só puxa o cigarro. A brasa acende. Ela solta a fumaça devagar.

— Pensei que você tinha ido embora — ela fala.

— Pensei nisso. — Jota se aproxima. — Tô cansado pra caralho.

Daslu dá mais um trago. O cigarro tá quase acabando. Ela olha pra ele. Estende a mão. Mostra o maço.

— Quer um?

Jota balança a cabeça.

— Não fumo.

Ela sorri de canto. Aquele sorriso que destrói.

— Sim, eu sei.

O cigarro dela apaga. Ela joga no chão. Pisa com o salto.

Pega outro do maço. Coloca na boca. Procura o isqueiro na bolsa pequena.

Não acha.

Jota tira o isqueiro amarelo do bolso. O sobrevivente. Acende. A chama dança entre eles.

Aproxima do rosto dela. Ela inclina a cabeça. O cigarro encosta na chama. Acende.

Jota apaga o isqueiro. Guarda.

Ficam ali. Ela fumando. Ele só olhando. Encostados na mesma parede. Ombros quase se tocando.

— Vou embora — Jota fala. — Cê vem?

Daslu não responde na hora. Olha pro corredor. Pro movimento lá no fundo.

— Tem um cara — ela fala. Baixo. — Me chamou pra conversar. Num dos quartos.

Jota sente o estômago apertar. Não fala nada.

— Acho que vai rolar — ela continua. Ainda não olha pra ele. — Programa. Ele tá pagando bem.

O isqueiro pesa no bolso de Jota. Ele não mexe. Só escuta.

— Tá. — A voz sai rouca. — Vou pro carro então.

Daslu joga o cigarro no chão. Pisa. Olha pra ele. Direto. Olhos âmbar fixos.

— Entra comigo. Só até lá. Quero te mostrar o quarto.

Jota não entende. Mas vai.

A porta tá entreaberta. Luz vermelha vazando. Daslu empurra. Entra. Jota atrás.

O quarto é pequeno. Cama de casal no centro. Lençol vermelho. Abajur no canto. Um cara sentado na beirada da cama. Camisa social branca. Dois botões abertos. Calça social preta. Sapato engraxado. Rosto comum. Sem barba. Sem marcas. O tipo de cara que você esquece cinco minutos depois de ver.

Ele olha pra Daslu. Depois pra Jota. Não fala nada. Só espera.

Daslu senta na cama. Do lado do cara. Cruza as pernas. O vestido sobe um pouco. Ela não ajusta.

— Esse é o Jota — ela fala. A voz mudou. Ficou profissional. Fria. — Meu namorado.

O cara assente. Olha pra Jota de novo.

— Prazer.

Jota não responde. Fica parado na porta. A mochila nas costas.

Daslu vira pra ele.

— Vou ficar aqui um pouco. Conversando.

Jota entende o que ela não tá dizendo.

— Tá. Vou pro carro.

Daslu levanta. Rápido. Vai até ele. Para bem perto. Olha nos olhos.

— Se você ficar por aqui… — Ela hesita. Morde o lábio. — Me sinto mais segura.

As palavras caem como pedra.

Jota abre a boca. Não sai nada.

Daslu se aproxima mais. Abraça ele. Rápido. Forte. Corpo quente pressionando contra o dele. Perfume doce misturado com cigarro. Coração batendo. Rápido demais. Ou talvez seja o dele. Não sabe.

Três segundos.

Ela solta.

Volta pra cama. Senta do lado do cara. Vira pra ele. Continua conversando. Valores. Tempo. Detalhes. Como se Jota não estivesse ali. Como se nada tivesse acontecido.

O cara olha pra Jota. Paciente. Esperando.

Jota respira fundo.

— Tudo bem — ele fala. Baixo. Quase inaudível.

Sai do quarto. Não fecha a porta.

O corredor é longo. Vazio. Cheira a cigarro frio e mofo. Paredes brancas. Luz amarela no teto. Cadeiras de plástico encostadas de um lado.

Jota vê o cobertor.

Jogado numa das cadeiras. Cinza. Velho. Puído nas bordas.

Pega.

Senta no chão. Encostado na parede oposta. De frente pra porta entreaberta.

Luz vermelha vaza pela fresta.

Jota puxa o cobertor até o peito. Apoia a cabeça na parede. Fria. Úmida.

Espera.

A porta se fecha. Não completamente. Só empurrada. A luz vermelha fica mais fraca. Mas não apaga.

Silêncio.

Depois:

Vozes baixas.

Dele. Dela.

Riso. Dela. Agudo. Curto.

Jota fecha os olhos.

Abre de novo.

Som de zíper. Lento.

Tecido caindo no chão.

Jota tira a mochila das costas. Abre. Pega o caderno de capa dura marrom. O ímã de geladeira cinza fosco está preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. Não brilha. Não esquenta. Só fica ali. Frio. Morto.

Abre o caderno numa página qualquer. A caneta quase sem tinta.

Escreve:

“Ela pediu pra eu ficar.”

Para. A mão treme.

Continua:

“Disse que se sente mais segura.”

O colchão range.

Uma vez. Duas.

Ritmo.

Jota aperta a caneta. A tinta borra.

Escreve mais rápido:

“Não sei por que aceitei. Não sei por que ainda tô aqui. Não sei—”

A voz dela.

Gemido.

Baixo no começo. Depois mais alto.

Jota para de escrever.

Fecha o caderno. O ímã frio na palma da mão quando segura a capa. Guarda. Fecha a mochila. Empurra pra longe.

Puxa o cobertor até o queixo.

O cobertor não aquece nada.

O colchão continua rangendo.

Mais rápido agora.

A voz dele. Rouca. Soltando palavras que Jota não consegue entender.

A voz dela. Respondendo. Clara demais. Próxima demais.

Jota aperta os olhos. Força. Mas não consegue fechar direito. Sempre abrem de novo. Sozinhos.

Olha pra porta entreaberta.

Luz vermelha pulsando.

Sombras se mexendo.

Ele vira o rosto. Olha pro lado. Pro teto. Pro chão.

Mas os ouvidos não desligam.

Nunca desligam.

Silêncio.

Depois:

Água correndo. Torneira. Pia.

Vozes baixas de novo. Conversando. Rindo. Como amigos. Como gente que acabou de fazer algo normal.

Jota respira fundo.

Solta devagar.

A porta se abre mais.

Daslu sai. Vestido ajeitado. Cabelo ainda perfeito. Salto batendo no chão. Um metro e setenta e dois de dor andando em direção a ele.

Vê Jota no chão.

Para.

Olha pra ele. Pro cobertor. Pro rosto dele.

— Obrigada — ela fala. Baixo.

Jota não responde.

Ela se abaixa. Na frente dele. Mão no rosto dele. Quente.

— Você ficou mesmo.

— Você pediu.

Daslu sorri. Triste. Ou talvez não. Jota não consegue mais ler.

Ela beija a testa dele. Rápido. Levanta. Volta pro corredor.

O cara sai do quarto depois. Camisa abotoada. Cabelo penteado. Olha pra Jota no chão.

— Valeu, cara — ele fala.

Passa.

Some no corredor.

Jota fica ali.

Sentado no chão.

Cobertor no peito.

Parede fria nas costas.

Porta aberta.

Luz vermelha ainda acesa lá dentro.

Lençol amassado.

Cheiro de sexo e cigarro.

Ele sabe que devia levantar.

Sabe que devia ir pro carro.

Pro Gol Bolinha lá fora.

Ligar o motor. Ir embora.

Mas não vai.

Porque ela pode precisar de novo.

Porque ela pediu.

Porque se sentiu mais segura.

E ele fica.

Sempre fica.

Mesmo quando dói.

Mesmo quando humilha.

Mesmo quando o cobertor não aquece nada.

Ele fica.

Porque ela pediu isso.

E ele nunca conseguiu negar.

Nunca vai conseguir.

O corredor é longo.

Vazio.

Cheira a cigarro frio.

E Jota continua ali.

Sentado no chão.

Esperando.

Sempre esperando.

Até ela precisar de novo.

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Sinopse Narrativa:

Em um grande reencontro, Jota procura Daslu pelos corredores do evento. Ao encontrá-la, ela revela que vai fazer um programa com um homem num quarto e pede que Jota fique por perto para se sentir mais segura. Ele obedece: senta no chão do corredor, envolto num cobertor velho, escutando tudo. Ao sair, ela o beija na testa e agradece. Jota não consegue ir embora — fica esperando caso ela precise de novo.

Gênero Drama, Slice of Life
Tom Melancólico, Sufocante
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Dor emocional, Relacionamento
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Amor não correspondido, humilhação silenciosa, incapacidade de dizer não
Locais corredores, Quarto, Salão
Palavras-Chave cobertor, corredor, Daslu, dor silenciosa, espera, isqueiro, programa
Todos os sete itens essenciais presentes. O ímã aparece frio e sem reação — descrito como "morto". Jota escreve três linhas no caderno antes de parar: "Ela pediu pra eu ficar." , "Disse que se sente mais segura." , "Não sei por que aceitei. Não sei por que ainda tô aqui. Não sei—". Tênis surrados estão dentro da mochila, não no pé de Jota.
 
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