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Dez Motivos

Extensão: 1.721 palavras | Leitura: 9 min

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O salão é de pedra polida e ouro velho. Colunas altas sustentam o teto abobadado. Tochas azuis queimam nas paredes sem tremer, sem fazer barulho, luz mágica que não precisa de ar. Chão de mármore reflete tudo como espelho turvo. No centro, uma mesa comprida. Ao redor, oficiais em armadura impecável. Uniformes vermelhos e dourados. Medalhas no peito. Postura militar rígida.

No topo da mesa, ele.

O general.

Alto. Ombros largos. Uniforme branco imaculado. Cabelo loiro curto, penteado pra trás. Barba aparada com precisão cirúrgica. Olhos azuis gelados. Voz grave que ecoa pelo salão quando fala.

E ele fala.

Estratégia. Honra. Vitória certa. Sacrifício necessário. As palavras saem calculadas. Friamente. Cada sílaba no lugar certo. Os oficiais ouvem em silêncio absoluto. Ninguém tosse. Ninguém se mexe.

Jota está encostado numa coluna do fundo.

Completamente deslocado.

Camiseta regata vinho. Calça jeans velha. Tênis surrado com cadarço direito solto arrastando no chão de mármore. Mochila laranja jogada no ombro. Copo plástico de refrigerante na mão. Do tipo que compra em posto de gasolina.

Ele dá um gole. O líquido faz barulho no canudo.

Três oficiais viram a cabeça. Olham. Voltam pro general.

Jota dá mais um gole. Mais barulho.

O general para de falar. Olha pra ele. Friamente.

— Algo a acrescentar, civil?

A voz corta como lâmina.

Jota tira o canudo da boca. Sorri de canto.

— Bonito discurso. — Pausa. — Mas cadê o martelo?

Silêncio de gelo.

Os oficiais congelam. Alguns olham pro general. Outros pro Jota. Ninguém respira.

O general vira devagar. O corpo todo. Os olhos azuis ficam mais claros. Quase brancos. A luz das tochas pisca.

— O que você disse?

Jota empurra a mochila pro chão. Larga o copo no chão, do lado. Encosta melhor na coluna. Cruza os braços.

— Você me ouviu. — Sorri mais. — Cadê o martelo, Thor?

O nome ecoa.

E então acontece.

A armadura do general racha.

Não quebra. Racha. Como casca de ovo. Linhas de luz azul cortam o metal de dentro pra fora. O uniforme branco derrete. Vira fumaça. Vira luz.

O corpo cresce.

Músculos explodem. Ombros alargam. Peito estufa. Braços grossos como troncos de árvore. O cabelo loiro curto cresce, desce até os ombros, muda de cor, fica ruivo, selvagem, ondulado. A barba aparada explode em barba ruiva, densa, trançada nas pontas.

Trovão sacode o salão.

As tochas azuis viram brancas. Os copos nas mesas tilintam. Oficiais recuam. Alguns caem das cadeiras.

E ele está ali.

Thor.

Completo.

Armadura de metal negro e prata. Capa vermelha pesada. Olhos azuis elétricos. E na mão direita, girando devagar:

Mjölnir.

O martelo.

Raios dançam nas pontas dos dedos. O chão treme sob os pés dele. A voz sai mais grave. Mais profunda. Mais divina.

— Você quer motivos, mortal?

As taças vibram. As colunas rangem.

Jota não se mexe. Só olha. O sorriso cresce.

— Quero ver você contar dez. — Pausa. — Vai. Mostra pra todo mundo o quanto você é foda.

Thor ergue o martelo. Raios sobem pelo cabo. Iluminam o salão inteiro. Ele começa:

— PRIMEIRO MOTIVO!

A voz explode como trovão.

— EU QUEBRO MONTANHAS COM UM SOCO!

Ele bate o punho esquerdo na palma direita. O som ecoa. Pedras caem do teto.

Os oficiais recuam mais. Alguns saem correndo. Outros ficam, olhos arregalados.

Jota pega a mochila do chão. Abre. Tira o caderno de capa dura marrom. O ímã de geladeira cinza fosco está preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. Abre numa página em branco. Anota:

“1. Montanhas”

Thor continua:

— SEGUNDO MOTIVO! GIGANTES TREMEM QUANDO OUVEM MEU NOME!

Ele grita o próprio nome. O salão inteiro vibra. Uma coluna racha no meio.

Jota anota:

“2. Gigantes”

— TERCEIRO MOTIVO! MEU MARTELO SEMPRE RETORNA À MINHA MÃO!

Thor joga Mjölnir pro alto. O martelo atravessa o teto. Faz um buraco perfeito. Some no céu. Três segundos de silêncio.

Volta.

Atravessa o buraco. Pousa na mão de Thor como pássaro obediente.

Oficiais aplaudem. Alguns gritam. Outros riem nervosos.

Jota anota:

“3. Martelo fiel”

— QUARTO MOTIVO! COMANDO TEMPESTADES COM UM PENSAMENTO!

Thor fecha os olhos. Levanta a mão livre.

Lá fora: trovão. Chuva. Vento uivando. Relâmpagos iluminam as janelas do salão.

Ele abre os olhos. A tempestade para. Silêncio absoluto.

Jota anota. Não olha pra cima. Só escreve.

“4. Tempo obedece”

— QUINTO MOTIVO! DERROTEI A SERPENTE DO MUNDO!

Thor ergue o martelo. Raios formam uma imagem no ar. Serpente gigante. Oceano. Batalha. Sangue.

A imagem desaparece.

Oficiais gritam. Batem nas mesas. Vibram.

Jota boceja. Anota:

“5. Cobra grande”

— SEXTO MOTIVO! NENHUM MORTAL JAMAIS ME VENCEU!

Thor bate o martelo no chão. O mármore racha. Fendas correm pelo salão inteiro.

Jota pula de leve. Evita uma fenda. Continua anotando.

“6. Invicto (supostamente)”

Alguns oficiais riem disso. Baixinho. Olham pro Jota. Olham pro Thor.

Thor não ouve. Continua:

— SÉTIMO MOTIVO! DEUSES MENORES SE CURVAM DIANTE DE MIM!

Ele abre os braços. Raios sobem pelas colunas. A capa vermelha flutua sozinha.

Jota para de escrever. Olha pra mochila. Tira o isqueiro amarelo. Acende. Compara a chama pequena com os raios gigantes.

Apaga o isqueiro. Guarda. Volta a escrever.

“7. Ego”

Mais oficiais riem agora. Mais alto. Alguns saem da mesa. Ficam perto de Jota. Olhando o caderno. Lendo as anotações.

Thor não percebe. Peito estufado. Olhos brilhando. Voz cada vez mais alta:

— OITAVO MOTIVO! PROTEGI ASGARD POR MIL ANOS!

Ele gira o martelo. Mais rápido. Mais raios. Mais barulho.

Jota anota sem olhar pro deus:

“8. Currículo extenso”

Oficiais explodem em gargalhadas agora. Batem nas costas uns dos outros. Apontam pro caderno. Repetem a frase.

“Currículo extenso!”

“Ele tem LinkedIn?”

“Mil anos e nenhuma promoção!”

Thor finalmente ouve. Vira a cabeça. Vê os oficiais rindo. Vê o Jota anotando.

Fica vermelho. Mais vermelho ainda.

Aperta o martelo. Raios sobem mais violentos.

— NONO MOTIVO! MINHA FORÇA NÃO TEM IGUAL NOS NOVE REINOS!

A voz sai rouca. Forçada. O ego sangra pelas palavras.

Jota levanta a mão. Tipo aluno em sala de aula.

— Pergunta rápida: você tá contando isso pra gente ou pra você mesmo?

Silêncio.

Depois: explosão de risos.

Oficiais dobrados. Segurando a barriga. Alguns caem no chão. Outros batem nas mesas.

Thor treme. O martelo pesa na mão. Os raios ficam fracos. Instáveis.

Mas ele continua. Porque precisa. Porque começou. Porque não pode parar agora.

— DÉCIMO MOTIVO…

Ele levanta o martelo pro céu. Braços esticados. Pronto pro trovão final. Pra apoteose. Pra glória definitiva.

— E AINDA ASSIM…

O cadarço direito de Jota se solta.

Completamente.

Arrasta no chão.

Jota olha pra baixo. Suspira.

— Puta merda. De novo.

Ele se abaixa. Bem devagar. Na frente de todo mundo. Na frente do deus da guerra com martelo erguido pro céu.

Amarra o cadarço.

Direito. Esquerdo também, por garantia. Nó duplo. Firme.

E quando levanta:

Thor está congelado.

Braços erguidos. Martelo no ar. Boca aberta. Olhos arregalados. Corpo rígido como estátua.

Os raios pararam no meio do caminho. Flutuando. Congelados.

Jota guarda o caderno na mochila. O ímã frio na palma quando fecha a capa. Fecha a mochila. Coloca no ombro.

Dá um passo à frente.

Voz baixa. Mas que corta o silêncio inteiro:

— Dez motivos. — Pausa. — E zero humildade.

Olha pro Thor congelado.

— Parabéns, deus.

O martelo fica mais pesado. Thor tenta segurar. Não consegue. O braço começa a tremer. Descer. Devagar.

Mjölnir cai no chão.

O som ecoa pelo salão vazio.

Thor continua de pé. Braços ainda erguidos. Mas vazios agora. Tremendo. O rosto vermelho. Não de raiva.

De vergonha.

Os oficiais olham. Em silêncio agora. Não riem mais. Só observam.

O deus que listou nove motivos do porquê era foda.

Congelado.

Derrotado.

Por um mortal que parou pra amarrar o cadarço.

Jota vira as costas. Caminha entre os oficiais. Devagar. A mochila laranja balança no ombro. O tênis faz barulho no mármore rachado.

Passa pela mesa. Passa pelas colunas. Passa pelas tochas azuis que voltaram a queimar em silêncio.

Para na porta. Olha pra trás uma última vez.

Thor continua ali. Braços tremendo. Rosto vermelho. Martelo no chão.

Jota sorri.

— Da próxima vez — ele fala — tenta começar com humildade.

E sai.

A porta se fecha sozinha.

Lá fora: campo de batalha medieval.

Tendas de guerra. Cavalos. Carroças. Fogueiras. Guerreiros conversando. Armas sendo afiadas.

E no meio de tudo:

O Gol Bolinha Cinza Urban.

Estacionado entre duas tendas.

Completamente deslocado.

Completamente perfeito.

Jota caminha em direção ao carro. Passa entre guerreiros que olham estranho. Passa por fogueiras. Por cavalos.

E então vê.

Rand Oliveira.

Caminhando entre as tendas. Macacão azul. Ferramentas no cinto. Cabelo bagunçado. Olhar distante como sempre.

Ele atravessa o campo de batalha como se fosse a rua do bairro. Passa por um grupo de guerreiros. Nenhum deles vê. Ou veem mas ignoram.

Rand para. Olha pra uma carroça. Cutuca uma roda. Balança a cabeça. Continua andando.

Desaparece atrás de uma tenda vermelha.

Jota fica parado. Olhando.

Sorri.

— Claro que ele tá aqui.

Continua andando.

Chega no Gol. Abre. Entra. Joga a mochila no banco do passageiro.

Liga o motor.

O barulho do 1.0 16v a etanol corta o silêncio épico do campo de batalha.

Alguns guerreiros olham. Franzem a testa. Voltam pro que estavam fazendo.

Jota dá ré. Sai devagar entre as tendas.

No retrovisor: o salão de pedra e ouro. As tochas azuis. A tempestade parando.

E dentro, invisível mas ainda ali:

Um deus aprendendo que às vezes o maior poder

É saber quando calar a boca.

E amarrar o cadarço.

Jota sorri.

Acelera.

O Gol Bolinha desaparece na poeira do campo de batalha.

Levando consigo o mortal que derrotou Thor.

Sem superpoderes.

Sem armas.

Só com sarcasmo.

Um caderno.

E um cadarço que se solta na hora certa.

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Sinopse Narrativa:

Em um salão medieval de pedra e ouro, Jota assiste deslocado a um discurso militar e provoca o general, chamando-o pelo verdadeiro nome: Thor. O deus nórdico se revela em sua forma completa e declama dez motivos de sua grandiosidade enquanto Jota os anota no caderno com títulos sarcásticos. Ao se abaixar para amarrar o cadarço solto no exato momento do décimo motivo, congela Thor em plena apoteose. O deus, sem conseguir sustentar o martelo, o deixa cair em silêncio — derrotado pela humildade involuntária de um mortal. Jota sai e encontra o Gol Bolinha estacionado no campo de batalha medieval.

Gênero Comédia, Fantasia Mitológica
Tom Debochado, Épico-Cômico, Irônico
Timeline Fantasia, Paralelo
Versão Jota Normal
Categoria Confronto, Humilhação pelo Cotidiano
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Humildade vs. ego, Poder do cotidiano sobre o grandioso, Sarcasmo como arma
Locais Campo de batalha medieval (tendas, carroças), cavalos, fogueiras, Salão de pedra polida e ouro velho (fantasia medieval)
Palavras-Chave cadarço, caderno, confronto, dez motivos, ego, Mjölnir, sarcasmo, Thor
Thor aparece inicialmente disfarçado como general humano de uniforme branco, transformando-se ao ser nomeado. Nenhuma habilidade sobrenatural é usada por Jota — a "derrota" de Thor é inteiramente causada pelo comportamento cotidiano de Jota (beber refrigerante, bocejar, anotar com ironia, amarrar o cadarço). Rand Oliveira aparece brevemente no campo de batalha andando entre as tendas sem ser visto pelos guerreiros, em seu comportamento característico de presença inexplicável. O Gol está estacionado no campo de batalha sem nenhuma explicação diegética.
 
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