Jota corre.
Corredor branco. Paredes lisas. Portas iguais de cada lado. Uma atrás da outra. Sem fim. Sem janelas. Só fluorescência fria zunindo no teto e o som dos próprios passos ecoando.
Atrás dele: passos pesados.
Não olha pra trás. Não precisa. Sabe que está ali. O perseguidor. Sem rosto. Só sombra. Só respiração grossa, úmida, próxima demais.
A mochila laranja bate nas costas a cada passo. Regata vinho encharcada de suor. Tênis batendo no chão, cadarço direito já solto, arrastando. Mas não para. Não pode parar.
Primeira porta.
Agarra a maçaneta. Gira. Entra. Fecha atrás de si.
Sala pequena. Vazia. Chão de cimento. No centro: fios. Dezenas deles. Vermelho, azul, verde, amarelo, preto. Emaranhados como tripas. Duas caixas de metal nas extremidades. Uma acesa com luz verde. A outra apagada.
Puzzle.
Jota se abaixa. Mãos tremendo. Os passos do perseguidor param do lado de fora. Silêncio. Depois: respiração. Encostada na porta. Esperando.
Jota puxa o primeiro fio. Vermelho. Liga na caixa apagada. Nada. Puxa o azul. Conecta no vermelho. A luz verde pisca. Puxa o verde. Conecta no azul. A luz fica fixa.
Último fio. Preto. Liga no verde.
Click.
A porta do outro lado da sala se abre sozinha.
Jota não olha pra trás. Atravessa. A porta se fecha. Os passos pesados recomeçam atrás dele.
Segunda porta. Abre antes mesmo de tocar na maçaneta.
Sala maior. Cadeira no centro. Um homem sentado. Mãos no colo. Olhos vazios. Não olha pra Jota. Só olha pra frente. Pra nada.
Jota entra devagar. A porta se fecha sozinha atrás dele.
Silêncio.
Então sente.
Peso crescendo. Na palma direita. Nos dedos. Quente. Sólido. Formando.
E então está ali.
Martelo.
Grande. Pesado. Cabo de madeira gasto. Cabeça de ferro manchada. Não de ferrugem. De outra coisa.
Jota olha pro martelo. Olha pro homem.
O homem não se mexe.
A porta do outro lado da sala continua fechada.
Jota dá um passo à frente.
O homem pisca. Uma vez. Devagar.
Outro passo.
O homem vira a cabeça. Encara Jota. Olhos fundos. Sem expressão. Sem medo. Sem nada.
O braço sobe sozinho. Martelo suspenso no ar. Como se o corredor exigisse. Como se fosse a única forma de abrir a próxima porta.
O homem continua olhando.
Jota respira fundo.
Abaixa o braço.
E a porta do outro lado se abre sozinha.
O homem volta a olhar pra frente. Pra nada.
Jota atravessa. O martelo continua na mão. Pesado. Real.
Os passos recomeçam atrás dele. Mais rápidos agora.
Terceira porta à vista. Mais dez metros.
Jota corre.
O cadarço direito arrasta no chão. Bate. Tropeça. Quase cai.
Para.
Não pensa. Só para.
Se abaixa. Apoia o joelho no chão. Amarra o cadarço. Direito. Esquerdo também, por via das dúvidas. Dedos rápidos. Nó duplo.
Os passos do perseguidor ficam mais altos.
Mais próximos.
Jota olha pra trás.
Sombra. Grande. Sem forma definida. Preenchendo o corredor inteiro. Avançando.
Termina de amarrar.
Levanta.
Percebe.
No chão. Exatamente onde ia pisar.
Fio.
Fino. Quase invisível. Esticado de parede a parede. Conectado a algo na sombra acima.
Se tivesse corrido. Se não tivesse parado. Teria pisado.
E algo teria caído. Ou explodido. Ou pior.
Jota passa por cima do fio. Devagar. Coração batendo no ouvido.
Chega na terceira porta.
Abre.
Entra.
Fecha.
Do lado de fora: um estrondo. Algo pesado caindo. Metal batendo em chão. Exatamente onde estava três segundos atrás.
Jota encosta na porta. Respira.
O cadarço salvou a vida dele.
Sala escura.
Não tem luz. Só o que vaza por baixo da porta.
Jota tira a mochila laranja das costas. Abre. Tateia lá dentro. Sente o caderno de capa dura marrom. O ímã de geladeira cinza fosco preso na capa. Logo do Posto Esso quase apagado. Frio. Morto. Sem brilhar.
Abre o caderno. Arranca uma página. Amassa. Pega o isqueiro amarelo do bolso da calça.
Acende.
A chama ilumina poucos metros. Mas é suficiente.
No centro da sala: poste de madeira. Um prego enferrujado fincado no topo. E pendurada no prego: chave.
Velha. Ferrugem comendo o metal. Mas reconhecível.
Do Gol Bolinha.
Jota solta a página. Ela cai no chão, ainda queimando. Caminha até o poste. Arranca a chave. O metal raspa. Range. Sai.
Pesada. Gelada. Familiar.
Guarda na mochila. Abre o compartimento principal. Enfia lá dentro, no fundo, contra o tecido que toca as costas.
A porta do outro lado se abre.
Mas algo mudou.
Jota sente. Sabe, sem saber como.
A chave precisa ficar ali. Na mochila. Tocando as costas.
Todas as portas seguintes só vão abrir se ela estiver ali.
Fecha a mochila. Coloca nas costas de novo.
Atravessa.
A página no chão apaga sozinha quando a porta se fecha.
Os passos recomeçam. Mais lentos agora. Como se o perseguidor soubesse que não precisa mais correr.
Quarta porta.
Jota empurra. A chave pesa na mochila. A porta cede fácil.
Sala enorme.
Mesa no centro. Coberta. Absolutamente coberta de doces.
Balas coloridas. Bolos de chocolate. Brigadeiros brilhando. Pirulitos. Algodão-doce. Tudo empilhado. Caótico. Como se alguém tivesse juntado durante anos.
E no canto. Sentado no chão. Costas na parede.
Um homem.
Obeso. Suado. Camiseta branca manchada. Mãos gordas segurando um pedaço de bolo. Lambendo os dedos. Olhos vidrados. Fixos na mesa.
Jota dá um passo.
O homem repara. Não em Jota. Na porta.
— Não deixa ele entrar — ele fala. Voz fina. Infantil. Apavorada.
— Quem?
— Ele. O que vem atrás. — Os olhos enchem de lágrimas. — Ele vai pegar tudo. Sempre pega. Nunca deixa nada.
Jota olha pra porta. Fechada. Os passos ainda distantes.
— Quanto tempo você tá aqui?
O homem não responde. Só morde outro pedaço de bolo. Engole sem mastigar.
Então a outra porta se abre.
A do outro lado da sala.
E entra.
Uma figura.
Magra. Pele acinzentada, seca, esticada sobre os ossos. Olhos fundos, mas não vazios. Com fome. Dentes manchados. Andar cambaleante. Roupa rasgada. Cheiro azedo.
Viva. De alguma forma. Ainda viva.
A figura vê o homem obeso.
Avança.
O homem se encolhe. Abraça a mesa. Grita.
— NÃO! NÃO! ELE VAI PEGAR TUDO!
Jota não pensa.
Levanta o martelo.
Dois passos à frente. Entre a figura e o homem.
— Para.
A figura para.
Olha pra Jota.
Olha pro martelo.
E recua.
Dois passos. Três.
Se encolhe no chão. Mãos na cabeça. Joelhos no peito.
— Não me bate… — a voz sai rouca. Quebrada. — Por favor… não me bate…
Jota fica parado. Martelo erguido.
A figura treme.
— Eu só… eu só queria um… só um doce… — Soluça. — Faz tanto tempo… tanto tempo que não como nada doce…
O homem obeso continua abraçado na mesa. Olhando. Chorando.
Jota repara.
Nos dois. No medo. Na fome.
Abaixa o martelo. Devagar.
— Pega um doce — Jota fala.
A figura levanta a cabeça. Olhos arregalados.
— Sério?
— Pega. Só um.
A figura se levanta. Devagar. Cambaleante. Vai até a mesa. Estende a mão trêmula. Pega um brigadeiro. Pequeno. Enrugado.
Olha pra Jota. Pra mão. Pro brigadeiro.
Põe na boca.
Mastiga.
Fecha os olhos.
Lágrimas descem pelo rosto cinza.
— Obrigado… — a voz some num sussurro.
O homem obeso solta a mesa. Olha pra Jota. Olha pra figura. Hesita.
Pega um pedaço de bolo. Estende.
— Toma. Leva mais.
A figura pega. Segura com as duas mãos. Como se fosse ouro.
— Obrigado…
A porta do outro lado da sala se abre sozinha.
Jota guarda o martelo atrás da calça. Sente a chave do Gol na mochila. Vê os dois.
— Vocês vão ficar bem?
O homem obeso assente. A figura também.
Jota atravessa a sala. Para na porta. Olha pra trás uma última vez.
Os dois estão sentados juntos agora. Dividindo a mesa. Comendo devagar.
Jota passa pela porta.
Do outro lado: corredor.
Branco. Portas. Igual ao primeiro.
Mas diferente.
O zumbido das lâmpadas sumiu. Só o eco dos próprios passos.
Jota caminha. Não corre. Não precisa.
Os passos atrás dele continuam.
Mas mais distantes agora.
Como se o perseguidor tivesse desacelerado.
Ou como se Jota tivesse aprendido a parar de correr.
A próxima porta aparece à frente.
Ele coloca a mão na maçaneta.
Sente a chave do Gol na mochila.
Sente o martelo nas costas.
Sente o cadarço amarrado.
E sabe.
Nem todo mundo ali quer briga. Alguns só têm medo do martelo. E alguns só precisam que alguém pare. Que escolha não bater.
Jota abre a porta.
O corredor continua.
As portas continuam.
O perseguidor continua.
Mas agora ele sabe.
Não precisa resolver todos os puzzles com violência.
Às vezes. Às vezes basta hesitar.
E escolher diferente.
