CENÁRIO: Cozinha. Geraldo fazendo café.
ALGUÉM em outra cozinha. Telefone em viva-voz.
CENA ÚNICA
(O telefone toca. Geraldo atende, coloca no viva-voz enquanto continua mexendo na cafeteira.)
GERALDO: Oi.
ALGUÉM: (voz vem do telefone) Cara, você viu? Todo mundo postando sobre karma hoje.
GERALDO: (despeja café na xícara) Vi. “O karma não falha.” “A conta chega.” Uns três mil posts iguais.
ALGUÉM: Mas tipo… você acredita nisso? Em karma?
GERALDO: (toma café) Não.
ALGUÉM: (surpreso) Como não?! Karma é lei universal, é causa e efeito, é…
GERALDO: (interrompe, mexe açúcar) Qual karma? O de verdade ou o do Instagram?
ALGUÉM: …tem diferença?
GERALDO: (prova o café) Bastante.
ALGUÉM: Tá, explica.
GERALDO: (encosta na bancada) Karma original, budismo, hinduísmo, é só ação e consequência. Você age, gera efeito. Planta violência, colhe conflito. Planta bondade, colhe paz.
ALGUÉM: Então você ACREDITA!
GERALDO: Não. Eu entendo o conceito. É diferente.
ALGUÉM: (confuso) Como você entende mas não acredita?
GERALDO: (lava a colher) Entender é ver a lógica. Acreditar é achar que o universo tá fazendo contabilidade.
ALGUÉM: (som de papel, anotando) Interessante… a diferença entre compreender e…
GERALDO: (desliga torneira) E o karma do Instagram é só vingança com nome bonito.
ALGUÉM: (pausa) …nossa.
GERALDO: É.
ALGUÉM: (som de passos se afastando, voz mais distante) Deixa eu entender. Por que você NÃO acredita? Vou fazer café também enquanto a gente conversa.
GERALDO: (ri) Simples. Se você ama alguém mas fica esperando o karma pegar ela…
ALGUÉM: (som de água correndo ao fundo) Você não ama de verdade!
GERALDO: Exato.
ALGUÉM: (som de cafeteira ligando) Cara, isso faz sentido! Porque amor verdadeiro não deseja sofrimento, então usar karma como…
GERALDO: (interrompe, lava sua xícara) Ou é só óbvio.
ALGUÉM: …óbvio?
GERALDO: (desliga torneira) Se você ama, não quer ver a pessoa se foder. Não agora, não depois, não nunca.
ALGUÉM: (som de café sendo despejado, voz ainda distante) Mas tem camadas nisso. Você tá mostrando que amor e justiça cósmica não…
GERALDO: (enxuga as mãos) Não. Tô só dizendo: se você espera karma, não tá amando.
ALGUÉM: (voltando mais perto do telefone) É a mesma coisa!
GERALDO: (sorri) Se você acha.
ALGUÉM: (sopra o café quente) E aquela frase? “O que você faz volta pra você”?
GERALDO: (abre geladeira) Você quer que volte?
ALGUÉM: Como assim?
GERALDO: (pega algo, fecha geladeira) Você quer viver calculando tudo que faz, esperando a conta chegar?
ALGUÉM: (som de mexer café, pensa) …não.
GERALDO: Então por que desejar isso pros outros?
ALGUÉM: (silêncio, toma gole) …merda.
GERALDO: É.
ALGUÉM: (barulho de papel sendo folheado rápido) Espera, isso é… se eu não quero karma pra mim, desejar pro outro é…
GERALDO: (serve mais café) Hipocrisia?
ALGUÉM: EU IA DIZER “contradição ética”!
GERALDO: (ri) Mesma coisa.
ALGUÉM: (tom mais sério) Mas e se a pessoa fez algo muito ruim?
GERALDO: (toma café) Ainda não quero que ela sofra.
ALGUÉM: Sério?
GERALDO: Sério. Porque se eu acreditar em karma, ela deveria sofrer, né?
ALGUÉM: Sim…
GERALDO: (coloca xícara na pia) Mas ela sofre?
ALGUÉM: …como assim?
GERALDO: (abre torneira) Você sabe se ela tá sofrendo? Você tem certeza?
ALGUÉM: (som de café sendo colocado na mesa) Não, mas o karma eventualmente…
GERALDO: (desliga torneira) Eventualmente. (pausa) E você fica esperando. Checando. Vendo se postou algo triste.
ALGUÉM: (desconfortável, som de arrastar cadeira) Eu não…
GERALDO: (enxuga xícara) E pode ser que ela nem saiba que deveria estar sofrendo.
ALGUÉM: Como assim?
GERALDO: (guarda xícara) O que é sofrimento pra você pode não ser pra ela. O que você acha que é karma pode ser só terça-feira normal.
ALGUÉM: (pausa, toma café) …nossa.
GERALDO: É.
ALGUÉM: (processando) Você tá dizendo que karma é… subjetivo?
GERALDO: (encosta na bancada) Tô dizendo que depende do lado. O que é ruim pra mim pode ser bom pra você. O que EU acho que é punição, ela pode achar que é crescimento.
ALGUÉM: (escrevendo devagar) Isso muda tudo…
GERALDO: (pega pano, limpa bancada) Ou é só: você não sabe o que se passa na cabeça dela.
ALGUÉM: …não é a mesma coisa.
GERALDO: (pendura pano) É sim. Você espera que ela sofra do jeito que VOCÊ sofreria. Mas ela não é você.
ALGUÉM: (silêncio, som de caneta no papel)
GERALDO: (pega xícara de volta) Daí você vê que karma não funciona. Porque dependendo do lado, ele muda. Ou nem existe.
ALGUÉM: (voz pensativa, escrevendo) Cada um vive uma realidade diferente…
GERALDO: (bebe café) Não sei. Só sei que você não pode medir o karma dela com a sua régua.
ALGUÉM: (som de folhear páginas) Eu escrevi três páginas sobre isso.
GERALDO: Legal. Tá bonito?
ALGUÉM: Tá. Mas pode estar errado.
GERALDO: (lava xícara) Se te faz pensar, tá valendo.
ALGUÉM: (tom confessional) Você já desejou karma pra alguém?
GERALDO: (desliga torneira) Já.
ALGUÉM: E…?
GERALDO: (enxuga xícara) Fiquei preso nisso. Esperando. Vendo tudo que acontecia com a pessoa e pensando “será que é karma?”. Gastei meses.
ALGUÉM: E aí você percebeu que…
GERALDO: (guarda xícara) Que era perda de tempo.
ALGUÉM: …só isso?
GERALDO: (fecha armário) É. Tipo assistir série ruim esperando melhorar. Melhor desligar.
ALGUÉM: (pausa, toma café) Você tem um jeito de simplificar tudo.
GERALDO: (sorri) Ou você tem um jeito de complicar.
ALGUÉM: (ri) Pode ser.
ALGUÉM: (hesitante) E se eu te disser que EU preciso acreditar em karma? Pra ter paz?
GERALDO: (sério, para de se mexer) Então acredita.
ALGUÉM: …sério?
GERALDO: Sério. Se te ajuda, usa.
ALGUÉM: (confuso) Mas você passou meia hora dizendo que karma é…
GERALDO: (volta a limpar a bancada) Eu disse o que EU penso. Você faz o que quiser.
ALGUÉM: E a verdade? E a lógica?
GERALDO: (para de limpar) ALGUÉM. Se te dá paz, fica em paz. Não precisa da minha aprovação.
ALGUÉM: (silêncio, som de café esfriando) Isso é muito maduro.
GERALDO: (volta a limpar) Ou eu só não ligo pro que você acredita.
ALGUÉM: Você faz isso de novo.
GERALDO: (ri) O quê?
ALGUÉM: Diz algo gentil e depois tira a profundidade.
GERALDO: (pendura o pano) A profundidade tá na sua cabeça, não na minha fala.
ALGUÉM: (respira fundo) Última pergunta.
GERALDO: (encosta na pia) Vai.
ALGUÉM: Se você não acredita em karma, o que você faz quando alguém te ferra?
GERALDO: (cruza os braços) O universo não vai fazer minha parte. Então eu faço: sigo.
ALGUÉM: Só isso?
GERALDO: (abre torneira, enche copo d’água) É. Deixo a pessoa seguir a dela. Sem esperar punição, sem criar planilha cósmica.
ALGUÉM: (voz baixa) E a raiva? A mágoa?
GERALDO: (desliga torneira, bebe água) Ficam. Por um tempo. Depois passam. Ou não. Mas eu não transformo elas em religião.
ALGUÉM: (escrevendo) “Não transformar mágoa em religião”…
GERALDO: (lava o copo) Vai escrever sobre isso?
ALGUÉM: Vou. E você vai ler e dizer que era só uma conversa.
GERALDO: (enxuga copo) Provavelmente.
ALGUÉM: E eu vou ficar meio puto.
GERALDO: (guarda copo) E depois você vai criar teoria sobre por que ficou puto.
ALGUÉM: (ri) …é verdade.
GERALDO: E assim a gente continua.
ALGUÉM: (curioso) Por quanto tempo?
GERALDO: (olha pela janela da cozinha) Sei lá. Enquanto a gente quiser.
ALGUÉM: (escreve) “Enquanto a gente quiser…” Isso é bonito.
GERALDO: (volta a olhar o telefone) Ou é óbvio.
ALGUÉM: (sorri, audível na voz) Mesma coisa.
GERALDO: Agora você entendeu.
(Silêncio. Som de café sendo tomado dos dois lados.)
ALGUÉM: (voz mais suave) Vou escrever sobre tudo isso.
GERALDO: (limpa última coisa na bancada) Eu sei.
ALGUÉM: Você vai quebrar minha teoria de novo.
GERALDO: (pendura pano) Provavelmente.
ALGUÉM: E eu vou criar outra.
GERALDO: (sorri) E eu vou tomar café enquanto você cria.
ALGUÉM: (ri baixo) Você gosta disso, né?
GERALDO: (serve mais café) Gosto. Você vê coisa que eu nem pensei.
ALGUÉM: Mas que talvez não existia!
GERALDO: (toma gole) Agora existe. Você criou.
ALGUÉM: …isso não faz sentido.
GERALDO: (coloca xícara na pia) Faz pra mim.
(Silêncio. Som de papel sendo rabiscado do outro lado. Geraldo lava xícara.)
ALGUÉM: (sem levantar a voz, distante) Quer mais café?
GERALDO: (desliga torneira) Quero.
ALGUÉM: (som de café sendo servido longe) Agora deu vontade de novo.
GERALDO: (ri, serve mais café para si) É contagioso.
(Som de café sendo servido dos dois lados. Silêncio confortável.)
ALGUÉM: (bocejando) Tá ficando tarde.
GERALDO: (toma gole) Tá.
ALGUÉM: Valeu pela conversa.
GERALDO: Sempre.
(Som de desligar telefone. Geraldo fica sozinho na cozinha, tomando café, olhando pela janela. Luz diminui lentamente.)
