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VOCÊ QUER MESMO O KARMA?

Extensão: 1.547 palavras | Leitura: 8 min

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CENÁRIO: Cozinha. Geraldo fazendo café.

ALGUÉM em outra cozinha. Telefone em viva-voz.

CENA ÚNICA

(O telefone toca. Geraldo atende, coloca no viva-voz enquanto continua mexendo na cafeteira.)

GERALDO: Oi.

ALGUÉM: (voz vem do telefone) Cara, você viu? Todo mundo postando sobre karma hoje.

GERALDO: (despeja café na xícara) Vi. “O karma não falha.” “A conta chega.” Uns três mil posts iguais.

ALGUÉM: Mas tipo… você acredita nisso? Em karma?

GERALDO: (toma café) Não.

ALGUÉM: (surpreso) Como não?! Karma é lei universal, é causa e efeito, é…

GERALDO: (interrompe, mexe açúcar) Qual karma? O de verdade ou o do Instagram?

ALGUÉM: …tem diferença?

GERALDO: (prova o café) Bastante.

ALGUÉM: Tá, explica.

GERALDO: (encosta na bancada) Karma original, budismo, hinduísmo, é só ação e consequência. Você age, gera efeito. Planta violência, colhe conflito. Planta bondade, colhe paz.

ALGUÉM: Então você ACREDITA!

GERALDO: Não. Eu entendo o conceito. É diferente.

ALGUÉM: (confuso) Como você entende mas não acredita?

GERALDO: (lava a colher) Entender é ver a lógica. Acreditar é achar que o universo tá fazendo contabilidade.

ALGUÉM: (som de papel, anotando) Interessante… a diferença entre compreender e…

GERALDO: (desliga torneira) E o karma do Instagram é só vingança com nome bonito.

ALGUÉM: (pausa) …nossa.

GERALDO: É.

ALGUÉM: (som de passos se afastando, voz mais distante) Deixa eu entender. Por que você NÃO acredita? Vou fazer café também enquanto a gente conversa.

GERALDO: (ri) Simples. Se você ama alguém mas fica esperando o karma pegar ela…

ALGUÉM: (som de água correndo ao fundo) Você não ama de verdade!

GERALDO: Exato.

ALGUÉM: (som de cafeteira ligando) Cara, isso faz sentido! Porque amor verdadeiro não deseja sofrimento, então usar karma como…

GERALDO: (interrompe, lava sua xícara) Ou é só óbvio.

ALGUÉM: …óbvio?

GERALDO: (desliga torneira) Se você ama, não quer ver a pessoa se foder. Não agora, não depois, não nunca.

ALGUÉM: (som de café sendo despejado, voz ainda distante) Mas tem camadas nisso. Você tá mostrando que amor e justiça cósmica não…

GERALDO: (enxuga as mãos) Não. Tô só dizendo: se você espera karma, não tá amando.

ALGUÉM: (voltando mais perto do telefone) É a mesma coisa!

GERALDO: (sorri) Se você acha.

ALGUÉM: (sopra o café quente) E aquela frase? “O que você faz volta pra você”?

GERALDO: (abre geladeira) Você quer que volte?

ALGUÉM: Como assim?

GERALDO: (pega algo, fecha geladeira) Você quer viver calculando tudo que faz, esperando a conta chegar?

ALGUÉM: (som de mexer café, pensa) …não.

GERALDO: Então por que desejar isso pros outros?

ALGUÉM: (silêncio, toma gole) …merda.

GERALDO: É.

ALGUÉM: (barulho de papel sendo folheado rápido) Espera, isso é… se eu não quero karma pra mim, desejar pro outro é…

GERALDO: (serve mais café) Hipocrisia?

ALGUÉM: EU IA DIZER “contradição ética”!

GERALDO: (ri) Mesma coisa.

ALGUÉM: (tom mais sério) Mas e se a pessoa fez algo muito ruim?

GERALDO: (toma café) Ainda não quero que ela sofra.

ALGUÉM: Sério?

GERALDO: Sério. Porque se eu acreditar em karma, ela deveria sofrer, né?

ALGUÉM: Sim…

GERALDO: (coloca xícara na pia) Mas ela sofre?

ALGUÉM: …como assim?

GERALDO: (abre torneira) Você sabe se ela tá sofrendo? Você tem certeza?

ALGUÉM: (som de café sendo colocado na mesa) Não, mas o karma eventualmente…

GERALDO: (desliga torneira) Eventualmente. (pausa) E você fica esperando. Checando. Vendo se postou algo triste.

ALGUÉM: (desconfortável, som de arrastar cadeira) Eu não…

GERALDO: (enxuga xícara) E pode ser que ela nem saiba que deveria estar sofrendo.

ALGUÉM: Como assim?

GERALDO: (guarda xícara) O que é sofrimento pra você pode não ser pra ela. O que você acha que é karma pode ser só terça-feira normal.

ALGUÉM: (pausa, toma café) …nossa.

GERALDO: É.

ALGUÉM: (processando) Você tá dizendo que karma é… subjetivo?

GERALDO: (encosta na bancada) Tô dizendo que depende do lado. O que é ruim pra mim pode ser bom pra você. O que EU acho que é punição, ela pode achar que é crescimento.

ALGUÉM: (escrevendo devagar) Isso muda tudo…

GERALDO: (pega pano, limpa bancada) Ou é só: você não sabe o que se passa na cabeça dela.

ALGUÉM: …não é a mesma coisa.

GERALDO: (pendura pano) É sim. Você espera que ela sofra do jeito que VOCÊ sofreria. Mas ela não é você.

ALGUÉM: (silêncio, som de caneta no papel)

GERALDO: (pega xícara de volta) Daí você vê que karma não funciona. Porque dependendo do lado, ele muda. Ou nem existe.

ALGUÉM: (voz pensativa, escrevendo) Cada um vive uma realidade diferente…

GERALDO: (bebe café) Não sei. Só sei que você não pode medir o karma dela com a sua régua.

ALGUÉM: (som de folhear páginas) Eu escrevi três páginas sobre isso.

GERALDO: Legal. Tá bonito?

ALGUÉM: Tá. Mas pode estar errado.

GERALDO: (lava xícara) Se te faz pensar, tá valendo.

ALGUÉM: (tom confessional) Você já desejou karma pra alguém?

GERALDO: (desliga torneira) Já.

ALGUÉM: E…?

GERALDO: (enxuga xícara) Fiquei preso nisso. Esperando. Vendo tudo que acontecia com a pessoa e pensando “será que é karma?”. Gastei meses.

ALGUÉM: E aí você percebeu que…

GERALDO: (guarda xícara) Que era perda de tempo.

ALGUÉM: …só isso?

GERALDO: (fecha armário) É. Tipo assistir série ruim esperando melhorar. Melhor desligar.

ALGUÉM: (pausa, toma café) Você tem um jeito de simplificar tudo.

GERALDO: (sorri) Ou você tem um jeito de complicar.

ALGUÉM: (ri) Pode ser.

ALGUÉM: (hesitante) E se eu te disser que EU preciso acreditar em karma? Pra ter paz?

GERALDO: (sério, para de se mexer) Então acredita.

ALGUÉM: …sério?

GERALDO: Sério. Se te ajuda, usa.

ALGUÉM: (confuso) Mas você passou meia hora dizendo que karma é…

GERALDO: (volta a limpar a bancada) Eu disse o que EU penso. Você faz o que quiser.

ALGUÉM: E a verdade? E a lógica?

GERALDO: (para de limpar) ALGUÉM. Se te dá paz, fica em paz. Não precisa da minha aprovação.

ALGUÉM: (silêncio, som de café esfriando) Isso é muito maduro.

GERALDO: (volta a limpar) Ou eu só não ligo pro que você acredita.

ALGUÉM: Você faz isso de novo.

GERALDO: (ri) O quê?

ALGUÉM: Diz algo gentil e depois tira a profundidade.

GERALDO: (pendura o pano) A profundidade tá na sua cabeça, não na minha fala.

ALGUÉM: (respira fundo) Última pergunta.

GERALDO: (encosta na pia) Vai.

ALGUÉM: Se você não acredita em karma, o que você faz quando alguém te ferra?

GERALDO: (cruza os braços) O universo não vai fazer minha parte. Então eu faço: sigo.

ALGUÉM: Só isso?

GERALDO: (abre torneira, enche copo d’água) É. Deixo a pessoa seguir a dela. Sem esperar punição, sem criar planilha cósmica.

ALGUÉM: (voz baixa) E a raiva? A mágoa?

GERALDO: (desliga torneira, bebe água) Ficam. Por um tempo. Depois passam. Ou não. Mas eu não transformo elas em religião.

ALGUÉM: (escrevendo) “Não transformar mágoa em religião”…

GERALDO: (lava o copo) Vai escrever sobre isso?

ALGUÉM: Vou. E você vai ler e dizer que era só uma conversa.

GERALDO: (enxuga copo) Provavelmente.

ALGUÉM: E eu vou ficar meio puto.

GERALDO: (guarda copo) E depois você vai criar teoria sobre por que ficou puto.

ALGUÉM: (ri) …é verdade.

GERALDO: E assim a gente continua.

ALGUÉM: (curioso) Por quanto tempo?

GERALDO: (olha pela janela da cozinha) Sei lá. Enquanto a gente quiser.

ALGUÉM: (escreve) “Enquanto a gente quiser…” Isso é bonito.

GERALDO: (volta a olhar o telefone) Ou é óbvio.

ALGUÉM: (sorri, audível na voz) Mesma coisa.

GERALDO: Agora você entendeu.

(Silêncio. Som de café sendo tomado dos dois lados.)

ALGUÉM: (voz mais suave) Vou escrever sobre tudo isso.

GERALDO: (limpa última coisa na bancada) Eu sei.

ALGUÉM: Você vai quebrar minha teoria de novo.

GERALDO: (pendura pano) Provavelmente.

ALGUÉM: E eu vou criar outra.

GERALDO: (sorri) E eu vou tomar café enquanto você cria.

ALGUÉM: (ri baixo) Você gosta disso, né?

GERALDO: (serve mais café) Gosto. Você vê coisa que eu nem pensei.

ALGUÉM: Mas que talvez não existia!

GERALDO: (toma gole) Agora existe. Você criou.

ALGUÉM: …isso não faz sentido.

GERALDO: (coloca xícara na pia) Faz pra mim.

(Silêncio. Som de papel sendo rabiscado do outro lado. Geraldo lava xícara.)

ALGUÉM: (sem levantar a voz, distante) Quer mais café?

GERALDO: (desliga torneira) Quero.

ALGUÉM: (som de café sendo servido longe) Agora deu vontade de novo.

GERALDO: (ri, serve mais café para si) É contagioso.

(Som de café sendo servido dos dois lados. Silêncio confortável.)

ALGUÉM: (bocejando) Tá ficando tarde.

GERALDO: (toma gole) Tá.

ALGUÉM: Valeu pela conversa.

GERALDO: Sempre.

(Som de desligar telefone. Geraldo fica sozinho na cozinha, tomando café, olhando pela janela. Luz diminui lentamente.)

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Sinopse Narrativa:

Em conversa telefônica enquanto ambos fazem café em suas cozinhas separadas, Geraldo e Alguém discutem karma. Geraldo distingue o karma original (budista/hinduísta) do karma do Instagram (vingança com nome bonito) e argumenta que esperar karma pelo outro é incompatível com amor real. Expõe que o karma é subjetivo — o que é punição para um pode ser crescimento para outro. Termina aceitando que se karma dá paz a Alguém, que use.

Gênero Peça Teatral, Slice of Life
Tom Cotidiano, Filosófico, Reflexivo
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Diálogo filosófico, Ética pessoal
Temas Amor e desejo de punição são incompatíveis, Karma e vingança disfarçada, Subjetividade do sofrimento alheio
Locais Cozinha
Palavras-Chave amor, budismo, hinduísmo, Instagram, karma, paz, punição, subjetividade, vingança
Formato de peça teatral. Única cena com os dois personagens em locais físicos diferentes — separados por telefone. Sons ambiente da cozinha (água, cafeteira, cadeira, papel) constroem a cena sem necessidade de palco único. Geraldo confessa ter ficado preso esperando karma de alguém por meses no passado. Faz parte do livro "Quando Cheguei, Já Estava Tudo Bagunçado."
 

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