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CAPÍTULO 6 — O NOVO REI

Extensão: 1.082 palavras | Leitura: 6 min

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Geraldo ficou no centro do círculo, mundo girando devagar. Sangue escorrendo pelos punhos, rosto inchado, costelas latejando. Cada respiração doía como facada. Mas estava de pé. Ainda estava de pé.

A multidão abria alas sem ninguém mandar. Olhares pesados, respeitosos. Ninguém tirava foto. Ninguém filmava. Quem filma o Evento vira o próximo.

Seu Zé Catita caminhou até Geraldo, bengala batendo no concreto. Parou a um palmo de distância. Cheiro de cachaça velha e fumo de corda. Olhou nos olhos dele — olhos leitosos que enxergavam tudo.

— Como é teu nome?

— Geraldo.

— Nome de rua?

Geraldo hesitou. Nunca teve apelido. Sempre foi só Geraldo.

— Não tenho.

O velho sorriu mostrando gengiva sem dente.

— Agora tem. Cara Fechada. Porque tu não sorriu nem quando ganhou.

Virou pra multidão, ergueu a bengala.

— Respeitem o Cara Fechada. Campeão do Evento!

A multidão respondeu em uníssono, voz baixa que ecoou na laje inteira:

— Respeita o Evento.

Geraldo saiu do círculo cambaleando. Torres e Lima correram, seguraram pelos braços. Baiano pegou a camisa que ele tinha jogado no chão, ajudou a vestir. Geraldo gemeu — cada movimento puxava costela quebrada.

Magrão ainda estava sentado no muro, rosto desfigurado mas sorrindo. Olho fechado, lábios rachados. Tentou levantar, não conseguiu. Geraldo foi até ele, agachou.

— Capitão…

Magrão agarrou o ombro dele com mão trêmula.

— Parabéns, sargento. Hoje tu salvou mais vida que em sete anos de fuzil.

Geraldo não entendeu. Magrão viu a confusão no rosto dele, riu — depois gemeu de dor.

— Vai entender. Depois. Agora a gente desce.

Torres e Baiano ajudaram Magrão a levantar. Lima ficou do lado de Geraldo. Desceram devagar. A multidão continuava abrindo alas. Crianças olhavam de longe, mães seguravam filhos no colo, velhos tiravam o boné.

Quando passaram pelo corpo do Rato (ainda no chão, tremendo), Geraldo viu que alguém já tinha colocado pano molhado no rosto dele. Cuidado. Mesmo com quem perdeu.

Chegaram no ponto onde tinham subido. Magrão puxou o rádio pequeno do bolso (tinha guardado um, desligado).

— Moreira, aqui é Magrão. Traz o carro. Ponto alfa. Já.

— Cópia, capitão. Três minutos.

A Hilux cinza descaracterizada apareceu subindo. Moreira desceu, branco como cera, quando viu os cinco ensanguentados.

Magrão entrou no banco da frente, gemendo a cada movimento. Geraldo do lado dele. Torres, Lima e Baiano no banco de trás. Moreira dirigiu.

Desceram o morro em silêncio. Motor diesel e suspensão rangendo. Só quando passaram pelo asfalto, três quarteirões de distância, Magrão pegou o rádio.

Voz calma como se tivesse tomado café na padaria:

— Comando, aqui é Magrão. Operação encerrada. Sem ocorrências. Voltando pra base.

Silêncio do outro lado. Depois a voz do Coronel Braga, hesitante:

— Cópia… tudo bem aí?

Magrão olhou pro espelho retrovisor. Viu Geraldo respirando pesado.

— Tudo ótimo, coronel. Hoje foi dia de aprendizado.

Desligou o rádio.

Ninguém falou durante o trajeto. Quando chegaram na base, portão abriu automático. Sentinelas bateram continência. Todo mundo já sabia. Notícia corria mais rápido que rádio.

No vestiário, cheiro de desinfetante e suor velho. Tiraram as botas em silêncio. Magrão foi o primeiro a falar:

— Hoje ninguém abre a boca. Nem pra mulher, nem pra padre, nem pra psicólogo do batalhão. O que aconteceu lá fica lá.

Os outros assentiram.

Geraldo tirou a camisa rasgada, olhou no espelho rachado: olho roxo fechando, lábio partido, hematomas nas costelas. Doía pra caralho. Doía bem.

Tomou banho frio. A água escorreu vermelha no ralo por um tempo. Quando saiu, o vestiário estava vazio. Só Magrão esperando, encostado no armário, cigarro na boca.

— Vem comigo, sargento.

Foram pro canto dos fundos, depósito de material velho. Magrão fechou a porta, acendeu a luz fraca. Pegou garrafa de cachaça mineira sem rótulo de dentro do armário, serviu dois copos de plástico.

— Bebe.

Geraldo bebeu de uma vez. Queimou a garganta cortada.

Magrão encheu de novo.

— Nos próximos meses, as coisas vão mudar. A gente tem voz agora. De verdade. Quando a gente chegar numa favela, eles vão ouvir. Não por medo da farda. Por respeito do Evento.

Geraldo franziu a testa.

— Como assim?

— Tu venceu o Evento. Isso vale mais que qualquer distintivo. Facção vai sentar pra negociar. Guerra vai parar antes de começar. Corpo vai deixar de cair.

Magrão bebeu o copo inteiro, limpou a boca.

— Mas tem preço. Tu vai carregar isso pro resto da vida. Vai ver corpo de criança e saber que talvez pudesse ter evitado se tivesse feito diferente. Vai negociar com traficante e dormir mal. Vai questionar tudo.

Olhou nos olhos de Geraldo.

— Mas hoje tu salvou mais vida que todo batalhão junto em um ano. Lembra disso.

Geraldo olhou pro copo vazio.

— E ano que vem?

Magrão sorriu de canto.

— Ano que vem a gente volta. E tu defende o título.

Os dois ficaram ali no depósito, no escuro, sentindo o corpo doer e a cabeça girar.

Quando Geraldo finalmente foi pra casa, já era madrugada. Apartamento pequeno no Piedade. Entrou devagar, tentando não fazer barulho.

A mulher estava dormindo no sofá, TV ligada no mudo. O filho de cinco anos no quarto, brinquedo de polícia na mão. Geraldo foi pro banheiro, acendeu a luz baixa.

No espelho: o mesmo rosto inchado, os mesmos cortes, o mesmo olhar que ele viu em cada um antes de derrubar.

Abriu a torneira, jogou água no rosto. Gelada. Ardeu nos cortes.

Pegou a mochila laranja do canto (a mesma de sempre), tirou o caderno de capa marrom de dentro. Sentou na beirada da banheira, caneta na mão tremendo.

Escreveu:

“Venci o Evento. Hoje sou campeão. Magrão diz que vamos salvar vidas com isso. Vamos ver.”

Fechou o caderno. Pegou o isqueiro amarelo da prateleira — o sobrevivente, sempre ali. Acendeu. Olhou a chama dançar por três segundos.

Apagou.

Foi pro quarto, deitou de roupa mesmo. Mulher se mexeu, virou pro lado. Filho respirava fundo no beliche.

Geraldo fechou os olhos.

Dormiu sem sonhar.

Mas o Evento não esquecia.

E ano que vem ia voltar.

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Sinopse Narrativa:

Após a vitória, Geraldo desce o morro com os companheiros, Magrão é carregado. No rádio, Magrão relata ao coronel "sem ocorrências." Três dias depois, Coronel Braga convoca ambos: dois conflitos foram resolvidos por telefone graças ao título de Geraldo. O acordo oficial é formado — Magrão coordena, Geraldo executa negociações. Em casa, Geraldo escreve no caderno marrom e acende o isqueiro amarelo antes de dormir.

Gênero Thriller
Tom Reflexivo, Sombrio
Timeline Curitiba
Versão Jota Comandante, Sargento
Categoria Ação, Consequências, Transição
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Mochila laranja
Temas Poder conquistado e seu custo, Retorno ao cotidiano após o extraordinário, Voz política sem eleição
Locais Apartamento, Base, Depósito, Favela, Hilux, Laje, Morro, Rua, Vestiário, Vielas
Palavras-Chave acordo, apartamento, caderno, Cara Fechada, Coronel Braga, isqueiro, negociação, Piedade
Geraldo mora no bairro Piedade. Tem mulher e filho de cinco anos (brinquedo de polícia na mão). Coronel Braga descrito com barriga de cerveja apertada no uniforme, cheiro de café requentado no gabinete. Magrão guarda cachaça mineira sem rótulo em armário do depósito. Dois conflitos resolvidos por telefonema nos três dias após o Evento. Soldado Rodrigues mencionado brevemente como novo acompanhante de Geraldo nas negociações (20 anos, recém-formado). Capítulo 6 de série em andamento.
 

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