Capa do Capítulo

Chamado sem Motivo

Extensão: 3.795 palavras | Leitura: 19 min

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O corredor estreito da Galeria Tijucas cheirava a pastel requentado e naftalina velha. Três da tarde de uma quinta-feira, sol de rachar lá fora. Jota tinha deixado o Gol Bolinha Cinza Urban na Cândido Lopes, motor ainda esfriando, cheiro de etanol grudado na roupa. Entrou pela galeria — atalho entre a Cândido e a Luiz Xavier. Tinha um celular esperando por ele numa loja de conserto ali perto da Boca Maldita: aparelho extra, básico, desbloqueado, que ia deixar em casa pra banco e burocracia. Empurrou a porta de vidro embaçada e deixou o barulho da cidade morrer atrás de si.

A mochila laranja pesava no ombro direito. Dentro, o caderno de capa dura marrom com anotações que nunca viravam nada, caneta seca. No bolso da bermuda jeans desbotada, o celular piscava de vez em quando com notificações e um isqueiro amarelo que carregava sempre. A camiseta regata vinho grudava nas costas de suor, e o tênis surrado com o dedão quase aparecendo pelo buraco, o cadarço direito amarrado — tinha amarrado três vezes desde que saiu de casa.

Dentro da galeria, o tempo parecia ter engasgado nos anos 80. Paredes de gesso descascando em camadas grossas, manchas de umidade subindo como mapas de países que não existem mais. Lâmpadas amarelas penduradas em suportes enferrujados piscavam com preguiça, como se estivessem decidindo se valia a pena continuar acesas. O chão de cerâmica rachada devolvia os passos dele em eco curto, abafado, como se o próprio corredor engolisse som.

A intenção de Jota era só atravessar, pegar o celular, voltar pro sobrado no Capão da Imbuia.

Foi quando ouviu.

— Jota!

A voz veio lá do fundo, em uma curva estranha que não parecia estar ali. Clara, firme, sem hesitação. O tipo de chamado que faz o corpo virar antes da cabeça entender.

Ele parou no meio do corredor. A mochila escorregou um pouco do ombro.

— Jota!

De novo. Mais alto. Quase alegre.

O coração deu um pulo idiota. Larissa Albuquerque estava lá, uns vinte metros à frente, parada diante de uma vitrine cheia de pulseiras douradas falsas. Um metro e setenta e cinco de cabelo castanho-escuro longo com franjinha reta, olhos puxadinhos, boca pequena que ele lembrava abrindo num sorriso no churrasco do Pilarzinho. Vestido azul, rabo de cavalo meio bagunçado, celular na mão. Acenou rápido, sorriso aberto.

Jota caminhou até ela. Passos ecoando. Dez metros. Cinco. Dois. O cadarço direito do tênis soltou, arrastando no chão rachado.

Chegou perto o suficiente pra sentir o perfume leve, floral barato que ela usava, misturado ao mofo da galeria.

Ela nem olhou.

Continuou mexendo no celular como se ele fosse feito de ar.

— Larissa?

Nada. Os polegares deslizando na tela, sobrancelhas franzidas de leve, concentrada em outra coisa qualquer.

— Larissa, ouvi você me chamando! Vim voando.

Ela ergueu os olhos, enfim. Mas era um olhar vazio, de quem acaba de notar um estranho.

— Oi.

Só isso. “Oi.” Como se nunca tivesse chamado o nome dele duas vezes no corredor deserto.

— Não tinha te visto. Tudo bem? — Ele sorriu de canto, ainda tentando manter o tom leve. — Acho que ganhei na loteria, encontrando você aqui.

Ela inclinou a cabeça, expressão de quem ouve uma piada ruim.

— Ah, oi? Tudo bem também, Ge. Não tinha te reconhecido.

Jota reparou e lembrou que ela somente chamava ele de Ge.

— Não foi você que me chamou?

Jota olhou em volta. O corredor estranho não parecia existir mais. E a galeria estava vazia.

Mas Jota insistiu.

— Mas ouvi alguém me chamar, que estranho, e como vi você pensei que foi tu.

Ela deu de ombros, voltou pro celular.

— Não, nem tinha te visto, Ge. Estava concentrada no celular.

Jota sentiu o incômodo subir. Engoliu.

— Tá bom. Mas você não ouviu uma voz? Antes. Foi bem alto e parecia que me chamava. Olhei na sua direção e vi você meio que acenando. E vim até aqui.

Larissa guardou o celular na bolsa com um suspiro de professora cansada.

— Eu não chamei nada e não acenei, Ge. Juro. Esses vidros das vitrines refletem tudo torto, deve ter sido isso.

Nesse exato momento uma das lâmpadas do teto deu um estalo alto e apagou. A sombra avançou dois metros na direção deles, como se a galeria tivesse engolido um pedaço do corredor.

Jota olhou pra cima. Quando olhou de volta, Larissa estava de lado, olhando a vitrine, como se a conversa já tivesse acabado. Jota pensou: será que ela não reparou nisso, ou era ele que estava ficando maluco.

Ele ficou ali parado um segundo, olhando pro perfil dela. Deixou passar.

— Tá. Desculpa. Devo estar maluco mesmo.

— Relaxa. — Ela deu um sorriso pequeno, quase gentil. — Você tá bem, Ge?

— Sim.

— Beleza. A Little deve tá chegando. Você quer encontrar ela também?

— Adoraria, mas tenho umas coisas pra resolver ainda. Quem sabe depois.

— Tá bom.

Jota deu três passos pra trás, ainda olhando pra ela. Larissa já tinha voltado pro celular. Quando ele virou de costas, ouviu de novo, baixinho, quase um sussurro:

— Jota…

Parou. Virou rápido.

Ela nem tinha levantado a cabeça.

A lâmpada que tinha apagado voltou a acender sozinha, com outro estalo seco.

Jota saiu andando rápido, sem olhar pra trás. Empurrou a porta de vidro da Luiz Xavier, o sol bateu como tapa na cara.

Lá fora, movimento de sempre na Boca Maldita. Mas o nome dele ainda ecoava dentro da cabeça, numa voz que ele jurava que era dela.

E que ela jurava que nunca tinha usado.

Entrou na loja de conserto três portas adiante. O atendente trouxe o celular sem perguntar nada. Jota checou e enfiou na mochila laranja.

Caminhou até a Praça Osório. A feira ocupava metade da praça, barracas de roupa, bugiganga, discos de vinil velhos. Ele parou na primeira barraca, olhando sem ver nada. Abriu o WhatsApp no celular principal. Conversa com Larissa parada há três dias. Última mensagem dela: um meme idiota de gatinho. Ele tinha respondido só com 😂. Fim.

Digitou:

“Desculpa se fui grosso lá dentro. Juro que ouvi alguém me chamar. E pensei que foi você.”

Olhou a frase uns dez segundos. Apagou tudo.

Guardou o celular. Olhou pro outro lado e viu a entrada da Galeria Tijucas, a menos de cinquenta metros, porta de vidro sujo brilhando como olho cego. O Gol Bolinha esperava na Cândido Lopes, do outro lado. Não custava ir até lá e talvez encontrar Larissa e Little Boobs.

— Que se foda — murmurou, e foi.

Entrou de novo.

O mesmo cheiro. Pastel, mofo, perfume floral barato. Mas agora o perfume estava mais forte, como se ela tivesse acabado de passar por ali e deixado uma nuvem inteira. Jota caminhou devagar, mochila laranja escorregando do ombro, olhando cada loja. Ia passando, nada mais.

Mas o perfume não saía do nariz. Era parecido com o que sentiu no churrasco no Pilarzinho, quando ela sentou do lado dele na mesa de plástico, riu da piada ruim sobre programador que não sabe assar picanha e disse “vai que a gente se encontra de novo por aí”.

Ele tinha registrado aquilo. Tinha guardado o “vai que” como promessa.

Agora parecia piada.

Então sentiu.

Um toque leve no ombro. Dedos. Quentes.

Virou rápido.

Ninguém.

Mas o perfume ficou mais forte, quase sufocante. E agora misturado com outra coisa: cerveja gelada, carvão queimando, protetor solar com cheiro de coco. O cheiro inteiro do churrasco no Pilarzinho. Como se alguém tivesse aberto uma porta invisível e deixado a tarde de sábado vazar pra dentro da galeria.

No bolso, Jota sentiu o isqueiro amarelo esquentar e enfiou a mão, tirou o sobrevivente, e a chama acendeu. Pequena, firme, azul nas bordas.

— Jota…

O sussurro vinha à direita. Ele virou por instinto com o isqueiro ainda aceso.

Uma sombra pequena estava parada ali, de costas. Vestido azul. Cabelo preso.

— Pois não?

A sombra virou o rosto devagar.

Era uma menina de uns dez, doze anos no máximo. Olhos grandes, pele morena, olhar triste. Vestido azul idêntico ao da Larissa. Ela segurava um ursinho de pelúcia sem um olho.

O olhar da menina foi direto pro isqueiro. A chama azul nas bordas. Ela deu um passo pra trás — pequeno, involuntário — e o sorriso sumiu por meio segundo. Jota reparou no gesto estranho. Apagou o isqueiro.

— Você me chamou? — a menina perguntou com a voz da Larissa. Mas havia algo diferente agora. Cautela.

Jota apertou o isqueiro na mão.

A menina recuperou o sorriso devagar. Mas ficou onde estava.

— Eu tô esperando a mamãe há muito tempo. Ela disse que vinha me buscar.

A lâmpada acima deles acendeu sozinha, forte demais, estourando em faísca branca. Jota levou a mão aos olhos. Quando abriu de novo, parecia que a menina tinha corrido para um corredor que não existia ali antes e sumido.

O perfume também.

Só restou o mofo e o medo.

Jota saiu pela porta da Cândido Lopes, suor frio descendo pelas costas, camiseta regata vinho encharcada. Chegou no Gol Bolinha, enfiou a chave na porta, entrou, bateu a porta.

Ficou ali sentado, respirando fundo, mãos no volante. O isqueiro ainda quente no bolso.

O celular vibrou.

Larissa:

“Oi! A little chegou. Tamo indo pro bar do Mignon tomar uma, Ge?”

Jota olhou a mensagem. Tinha acabado de passar pela galeria e não tinha ninguém. Digitou:

“Ainda tenho que fazer umas coisas.”

Ela visualizou na hora.

Digitando… digitando…

“Beleza. fica bem, Ge :)”

Ele jogou o celular no banco do passageiro, deu partida, saiu devagar. No espelho retrovisor, a entrada da Galeria Tijucas foi diminuindo até sumir.

Mas o perfume continuava no nariz.

E a voz continuava na cabeça.

“Jota…”

Jota dava volta na quadra quando o celular piscou novamente.

Little Boobs:

“Jota!!! Larissa me contou que vocês se encontraram há pouco. Precisava te conhecer de verdade. Tamo no bar do Mignon. Vem.”

Ele olhou a mensagem por uns dez segundos.

Digitou:

“Mas é claro, já chego aí!”

Três pontinhos. Sumiram. Voltaram.

“Que ótimo! Estamos te esperando.”

Jota deu uma pequena volta e parou na mesma vaga que tinha acabado de sair na Cândido Lopes, mas dessa vez não iria pela Galeria Tijucas.

O bar estava cheio. Mesas de madeira engordurada, cheiro de calabresa na chapa misturado com cerveja derramada, som alto que todo mundo suportava pelo clima do bar. Jota entrou, viu as duas sentadas lá no fundo, perto da parede com pôster desbotado.

Larissa olhou, deu um tchauzinho tímido. Do outro lado, Little Boobs acenou largo — baixinha, não devia passar muito de um metro e cinquenta e cinco, mas com um par de peitos que desafiavam qualquer lei de proporção e gravidade, cabelo ruivo avermelhado caindo sobre os ombros, sorriso aberto que tomava o rosto inteiro.

Ele caminhou até a mesa, puxou a cadeira, sentou.

— E aí.

— E aí, Jota! — Little empurrou o cardápio pra ele.

Jota chamou o garçom, pediu uma Coca-Cola. Larissa mexia no celular, olhar de canto. Little bebia uma cerveja, olhos já brilhando daquele jeito.

— Oi, Ge — Larissa disse baixo.

— Oi.

Silêncio esquisito por uns segundos. Então Little bebeu um gole longo, se inclinou pra frente — blusa decotada mostrando exatamente o que o apelido prometia — e soltou:

— Jota, eu tava contando pra Larissa sobre aquela vez no motel.

Ele não engasgou. Não ficou sem graça. Sorriu de canto, pegou a lata de Coca que o garçom trouxe.

— Ah é? E o que você tava contando?

Little mordeu o lábio, animada.

— Que você me comeu por horas. Que eu implorei pra você parar e você não parou.

Jota bebeu um gole devagar, olhando direto pra ela.

— Bem, eu me esforço. Quem sabe rolar uma segunda. — Jota riu.

— Nunca tinha me sentido assim — Little confirmou sem vergonha nenhuma, virando pra Larissa. — Ele me botou de quatro na beirada da cama, puxou meu cabelo e me fez gozar. Nunca tinha gozado daquele jeito.

Larissa encarava Little. Olhou fixo pro copo de cerveja, bochechas vermelhas.

Jota se acomodou na cadeira, confortável.

— Foram três? Ou talvez quatro vezes.

Little riu alto, batendo na mesa.

— Foram quatro! Caralho, é verdade! A última eu praticamente desmaiei.

Ela respirou fundo, mexendo no cabelo, e Jota viu quando a expressão dela mudou. Ficou mais séria. Mais carnal.

— Tô ficando molhada só de lembrar — Little disse baixo, mas não baixo o suficiente. Larissa ouviu. Todo mundo ouviu.

Jota sorriu.

— É?

— Tô. — Little olhou pra ele com aquele olhar. — Você soube exatamente o que fazer comigo aquele dia, Jota.

Ele virou pra Larissa, que ainda não tinha falado nada.

— E aí, Larissa? Como vocês chegaram nessa história, hein?

Ela ergueu os olhos. Olhou pra ele. Ficou uns três segundos sem falar, boca entreaberta, respiração acelerada.

— Eu… não sei o que falar, Ge.

— Não precisa falar nada. — Jota deu de ombros, bebeu mais um gole. — Eu sempre dou o melhor de mim. Com todo mundo.

Little se inclinou mais ainda, agora quase em cima da mesa, olhando pra Larissa:

— Nossa, você tem sorte, viu? Se não rolar entre vocês… — ela olhou de volta pro Jota — …eu quero de novo. Sério. Não é saudade. É que eu quero mesmo.

Larissa apertou o copo com força. As orelhas ficaram vermelhas. As mãos tremendo de leve.

Little continuou, implacável:

— Só digo que nunca me senti como aquele dia.

Jota não respondeu. Só sorriu, olhando pra Larissa esperando.

Ela respirou fundo, olhos indo de Little pra Jota, de Jota pra Little. O ciúme subia visível no pescoço, na respiração ficando mais curta, nas pernas se apertando debaixo da mesa.

— Vocês dois são… — começou, mas não terminou.

Larissa parou antes de tudo. Pausa.

— Somos o quê? O que você ia dizer? — Jota perguntou, olhando direto nos olhos dela.

Larissa engoliu seco. Desviou o olhar. Bebeu o resto da cerveja de uma vez.

— Nada. Esquece.

Little se jogou pra trás na cadeira, rindo.

— Ah, Larissa, relaxa! Foi só sexo. Sexo muito bom, mas é só sexo.

Jota terminou a Coca.

— Depende de quem tá do outro lado.

Larissa ficou mais alguns segundos ali, respiração acelerada, pernas apertadas, mãos tremendo. Então pegou a bolsa, levantou devagar.

— Eu vou ao banheiro.

Ela saiu andando rápido, quase correndo.

Little olhou pra Jota e riu baixo.

— Ela tá fudida de tesão. E ciúmes, não parava de falar de ti antes.

Jota ficou. Esperou ela voltar, só por educação. Quando Larissa sentou de novo, a conversa já tinha esfriado no ritmo natural.

Continuaram outras conversas.

Little falou em sinuca, Larissa topou. Jota ofereceu carona — as duas recusaram. Acertou a conta, se despediu, saiu.

Caminhou sozinho pela calçada na direção da Ébano Pereira. O ar frio de Curitiba bateu na cara. Pensou em Larissa. Pensou na galeria. Pensou que tinha sido uma quinta-feira estranha pra caralho.

Estava chegando no Gol quando o celular brilhou. Era uma ligação.

— Ge. — A voz dela soou diferente. — Está muito longe já?

— Tô chegando no carro. Você tá bem?

— Acabei de sair do bar. Queria continuar conversando contigo, mas sem a Little. — Uma pausa. — Ge, tem uma menina ali na entrada da Galeria Tijucas, sozinha. A essa hora, que estranho. Vestido azul. Tá me olhando de um jeito esquisito. Já falo contigo.

Alguns sons estranhos. Jota parou com a mão na porta do carro.

— Como assim?

Pausa.

— Ela tá me chamando. Vou lá ver, Ge, ela tá chorando. Tem um ursinho de pelúcia sem um olho na mão.

O sangue gelou.

— Larissa. Não chega perto. Anda. Sai daí agora.

A linha morreu.

Jota já começou a caminhar para a entrada da galeria. Tentava ligar e nada.

Chegou na Luiz Xavier em dois minutos. Nada. Ninguém na rua, nem na entrada da galeria.

Tentou ligar. Nada.

Foi mais perto da porta e ela estava encostada — entreaberta como se alguém tivesse acabado de passar. Empurrou.

O corredor estava escuro. Não parecia a galeria que se via de dia, mas havia uma porta enferrujada ao fundo, com uma luz amarela que piscava mais devagar, como se estivesse cansada de fingir que funcionava. O cheiro tinha mudado — não era mais pastel e naftalina. Era terra molhada. Óleo queimado. Perfume podre.

— Larissa! — chamou.

O eco voltou distorcido, mais longo do que deveria.

Chegou e empurrou a porta de metal enferrujado, entreaberta. Atrás dela, uma escada de concreto descendo pro escuro.

Procurou um interruptor, não encontrou. O isqueiro no bolso esquentou. Tirou o sobrevivente, e a chama acendeu.

Desceu.

Os degraus estavam úmidos, corrimão enferrujado soltando lascas vermelhas nos dedos. Cada passo ecoava duas vezes — uma normal, outra mais baixa, atrasada, como se alguém descesse junto, mas meio segundo depois.

Chegou num local que parecia um estacionamento. Parou.

O teto estava alto demais. Muito alto pra estar embaixo de um prédio estreito da Luiz Xavier. As paredes recuavam além do que a planta do edifício permitia. O espaço não cabia ali — simples assim, não cabia — mas estava ali do mesmo jeito, respirando na cara dele como se sempre tivesse existido e fosse ele o intruso.

Não tinha como ter um estacionamento ali.

Carros fantasmas: Opala verde sem rodas, Chevette com vidros estilhaçados, Fusca coberto por lona rasgada que se mexia sozinha.

No centro do salão, uma única lâmpada pendurada por fio desencapado balançava devagar.

Debaixo dela, sentada no capô do Opala, a menina de vestido azul balançava as pernas. Ursinho de pelúcia sem um olho no colo. Ao lado dela, Larissa estava parada, olhar vazio, como se tivesse saído de dentro de si mesma.

— Ge… — ela murmurou, mas não se mexeu.

A menina olhou pro isqueiro na mão de Jota. A chama azul nas bordas. Deu um passo pra trás — o mesmo movimento involuntário de antes — e o sorriso escorregou por um segundo.

— Como assim? Logo você? — disse a menina.

Jota avançou.

A menina recuou mais, braços cruzados na frente do corpo, olhos fixos na chama.

Jota moveu o isqueiro na direção dela, quase sem querer. A menina recuou um passo. Ele moveu de novo — ela recuou mais. Então entendeu.

Ao se aproximar de Larissa com o isqueiro aceso, a menina recuou para as sombras e sumiu. O ar esfriou de repente. Sentindo uma presença avançar pela direita, Jota virou rápido, esticando o isqueiro às cegas. A chama tocou a barra do vestido puído. A menina gritou — um som que não era humano, que veio de dentro das paredes, dos carros, do concreto — e recuou até a sombra entre o Opala e o Chevette, abraçando o ursinho.

Não morreu. Mas recuou.

Larissa piscou. Olhou em volta como quem acorda no meio de um quarto errado.

— Ge? O que—

— Vem.

Ele pegou a mão dela, puxou na direção da escada. Correram em direção à escada. Antes de chegarem à porta viram um homem de macacão azul que repetia em loop, olhos vazios, ferramentas na mão:

— Conserta… conserta… conserta…

O cadarço direito do tênis soltou no mesmo instante — arrastando no concreto úmido. Jota tropeçou com o isqueiro ainda aceso, que apagou, mas ainda firme na mão.

O homem saiu do transe, parou o que estava fazendo e amparou Jota antes de ele cair de joelhos no chão.

O homem soltou Jota, olhou em volta. Contemplou as mãos. Encarou Jota.

O loop tinha quebrado.

Rand Oliveira piscou devagar. A expressão vazia foi saindo, camada por camada, como poeira assentando depois de uma queda. Ele olhou em volta — os carros, a lâmpada, as sombras nos cantos — e respirou fundo pela primeira vez em quanto tempo, era impossível saber.

— Você me ajudou — disse Rand, voz rouca de quem não usava há muito tempo.

— Foi você que me ajudou — Jota respondeu, levantando.

Rand olhou pras próprias ferramentas. Colocou no cinto devagar, uma por uma, com cuidado de quem está lembrando como se faz. Depois olhou pra Jota com uma expressão difícil de nomear.

— Continua com esse isqueiro aceso. E tô te devendo uma. — Uma pausa curta. — Quando precisar, eu apareço.

Não esperou resposta. Caminhou até a escada e sumiu, passos firmes, sem olhar pra trás.

Das sombras, a menina observou em silêncio. O ursinho apertado no peito. O vestido com a barra chamuscada.

Jota pegou a mão de Larissa de novo.

Subiram.

O corredor estava vazio quando chegaram de volta. As lâmpadas amarelas piscavam normal, com preguiça de sempre. Cheiro de pastel requentado e naftalina.

Larissa saiu primeiro pela porta da Luiz Xavier, respirou o ar da madrugada, ficou parada na calçada por uns segundos só respirando.

— O que era aquilo? — ela perguntou, voz baixa.

— Sei lá. — Jota parou do lado dela. — Mas acabou.

Ela ficou olhando pra porta da galeria. Depois olhou pra ele.

— Ge. Eu não quero ficar sozinha hoje.

Ele não respondeu na hora. Só colocou a mão no bolso, guardando o isqueiro ainda quente, e acenou com a cabeça.

— Vem.

— O que era aquela menina? — ela perguntou quando chegaram na calçada.

— Não sei. Mas ela me conhecia. Sabia meu nome antes de eu dizer.

— Eu achei que era uma criança de verdade. Ela tinha um ursinho parecido com o meu. — Larissa pausou. — Até olhar nos olhos dela.

Foram andando. Ela tinha uma teoria. Ele tinha outra. Nenhuma fechava direito, mas as duas juntas chegavam mais perto do que qualquer uma sozinha. Entraram no Gol, deram a partida, e a conversa continuou — ela falando com as mãos, ele respondendo com o olhar no trânsito vazio. O homem de macacão. A menina. O isqueiro. O que teria acontecido se Jota não tivesse tropeçado. O que ainda podia acontecer.

O céu começou a clarear nas bordas quando ele parou o carro na frente do sobrado.

Nenhum dos dois tinha percebido a hora passar.

O cadarço direito do tênis arrastava no asfalto.

Ainda solto.

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Sinopse Narrativa:

Jota atravessa a Galeria Tijucas e ouve seu nome sendo chamado, Larissa, que estava ali por acaso, nega ter chamado. Jota reentra na galeria e encontra uma menina-entidade de vestido azul que usa a voz de Larissa. Mais tarde, Larissa é atraída pela entidade e desaparece. Jota desce a um estacionamento impossível embaixo da galeria para resgatá-la, usando o isqueiro como proteção contra a entidade e quebrando por acidente o loop de Rand Oliveira. Saem, Larissa não quer ficar sozinha e ambos passam a madrugada conversando no Gol.

Gênero Terror Sobrenatural
Tom Cotidiano, Perturbador, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Cotidiano, Sobrenatural
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas atração/tensão sexual, Proteção, resgate, Sobrenatural no cotidiano
Locais Bar do Mignon, Boca Maldita, Capão da Imbuia, Galeria Tijucas, Pilarzinho, Praça Osório, Rua Cândido Lopes, Rua Ébano Pereira, Rua Luiz Xavier
Palavras-Chave cadarço, estacionamento impossível, galeria, isqueiro protetor, loop, menina-entidade, Rand Oliveira, voz fantasma
A chama do isqueiro tem bordas azuis e funciona como agente de proteção — a entidade recua sistematicamente diante dela. O estacionamento subterrâneo é fisicamente impossível: teto muito alto, paredes além da planta do edifício, carros fantasmas (Opala verde sem rodas, Chevette com vidros estilhaçados, Fusca coberto por lona que se mexia sozinha). Rand Oliveira estava preso em loop repetindo "Conserta... conserta... conserta…", é liberto ao amparar Jota durante o tropeção, promete aparecer quando Jota precisar. A entidade conhecia o nome de Jota antes de ser apresentada e usava a voz de Larissa. O eco da escada retornava atrasado, "como se alguém descesse junto, meio segundo depois."
 

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