Capa do Capítulo

O Cadarço do Tempo

Extensão: 3.713 palavras | Leitura: 19 min

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O Gol Bolinha cinza Urban 2003 parou antes da ponte destruída na Pedreira do Orleans. Motor 1.0 16v gritava suspiros de etanol e tinha aquele cheiro doce e forte de cana queimada que sai do escapamento quando o bicho tá quente demais. Jota desligou o carro, puxou o freio de mão e desceu.

110 kg pisando pesado na terra batida.

Camiseta regata vinho colada nas costas, suor escorrendo pela nuca, barba cheia de lobo que não dorme há três dias. Mochila laranja pendurada num ombro só. Tênis surrado (dedão esquerdo já aparecendo pelo buraco) pisando em pedra, barro, raiz. O cadarço direito, claro, já meio solto, balançando como quem avisa: hoje vai dar merda.

A noite estava quente demais pra Curitiba. E a lua ajuda mostrando o caminho.

Jota atravessou a pé os trezentos metros que faltavam. Passou pela ponte e as construções abandonadas, mato alto roçando na calça moletom, até chegar na beira do lago seco.

Lá embaixo, a pedra vertical parecia tocar a lua.

Silêncio absoluto. Nem grilo. Nem carro no contorno norte lá longe. Só o coração dele batendo forte no peito, como se soubesse de algo que a cabeça ainda não entendia.

Ele parou na beirada.

Abriu a mochila e tirou o isqueiro amarelo sobrevivente, que era mais velho que metade das mulheres que partiram seu coração. Acendia na primeira sempre. Colocou a mochila ainda aberta no chão e começou a procurar alguns gravetos para acender uma pequena fogueira. Foi aí que o chão tremeu.

Primeiro baixo, como caminhão passando longe.

Depois forte. Forte demais.

Uma rachadura azul (luz fria, elétrica) rasgou a parede de pedra da pedreira de baixo pra cima, como se alguém tivesse cortado o mundo com faca de luz. O ar ficou pesado. O tempo pareceu engasgar.

Jota deu um passo pra trás.

O cadarço direito desamarrou de vez. Jota pisou em falso no musgo, praguejou baixo, caiu. Sentou, amarrou. Quando levantou os olhos, a pedreira tinha sumido.

O vale estava lá.

Não era mais a Pedreira do Orleans.

Era um vale imenso, verde, antigo, coberto de musgo e estátuas partidas. O céu tinha aquela cor que ninguém lembra de ter visto antes. Um roxo-azulado doentio, como hematoma que não cicatriza.

E no centro, dois titãs.

De um lado, o gigante verde.

Pele rasgada, olhos brancos de ódio puro, cada passo abrindo cratera. Rugia como se o próprio planeta tivesse ofendido a mãe dele.

Do outro, o homem de capa azul.

Sereno. Flutuava a meio metro do chão, capa batendo sem vento. Olhar de quem já decidiu tudo mil vezes e ainda assim carrega o peso de cada escolha.

O impacto entre os dois fez o chão tremer até onde Jota estava.

Onda de choque jogou ele de bunda no musgo. A mochila rolou, o caderno capa dura marrom caiu aberto. Uma página solta voou, dançou no ar, queimando sozinha com fogo azul.

Jota levantou, corpo pesado, carne e osso no meio de deuses.

— Que porra é essa? — murmurou, voz rouca.

O homem de capa azul virou a cabeça.

Olhou direto pra ele. Olhar que atravessava eras.

E falou, com voz calma que fez o gigante verde parar no meio do soco:

— Agora é com você.

O vento soprou forte.

O gigante verde olhou também.

E no meio do vale, entre ruínas que pareciam lembrar de batalhas que nunca aconteceram neste mundo, Jota sentiu o cadarço direito bater de leve na canela.

Como quem diz:

Calma, Jota.

Ainda não acabou.

Na verdade, tá só começando.

O homem de capa azul ergueu a mão.

O ar se rasgou como pano velho. Três portais de luz azulada se abriram no vale, flutuando a um metro do chão. Cada um pulsava de um jeito diferente: um batia como coração acelerado, outro parecia choro abafado, o terceiro cheirava a sexo e aeroporto.

— Você precisa ver — disse o homem de capa, sem olhar para Jota. — Ver de verdade.

O gigante verde estava parado, peito subindo e descendo, punhos ainda cerrados, mas os olhos brancos já não tinham ódio. Tinham vergonha.

Jota deu um passo.

O primeiro portal o sugou.

Era o saguão do Aeroporto Afonso Pena.

Daslu estava lá, loira platinada, pernas intermináveis dentro de um jeans que custava mais que o Gol inteiro. Olhava para ele com aqueles olhos âmbar que congelavam o sangue.

— Geraldo… — ela sorriu, aquele sorriso que era faca e carinho ao mesmo tempo. — Você veio mesmo me buscar?

Ele abriu a boca para responder, mas ela já estava se afastando, mala de rodinha rolando, filho pequeno de mão.

A voz dela ecoou sem virar o rosto:

— Eu precisava ficar longe de tudo.

O portal cuspiu Jota de volta no vale.

O coração batia tão forte que o tecido vinho parecia pequeno demais. Ele caiu de joelhos no musgo, mãos tremendo, suor frio escorrendo pela testa.

Respirou fundo três vezes.

O ar tinha gosto de saudade velha.

O segundo portal o pegou antes que ele conseguisse se levantar direito.

Dessa vez era o banheiro lotado de uma balada no Batel, luz vermelha, cheiro de vodka barata.

Satogos Cruel encostou ele na parede de azulejo, tatuagens brilhando de suor, olhos verdes gélidos.

— Jota — ela falou no ouvido, voz rouca de quem manda no mundo. — Cala a boca e me beija logo.

Ele obedeceu.

O beijo foi violento, perfeito, eterno. Quando ela afastou o rosto, o batom preto estava borrado na boca dele.

— Agora termina comigo — ela ordenou, já se afastando. — Termina antes que eu decida por você.

O portal fechou como porta batida.

Jota cambaleou, mão na parede invisível, sentindo o gosto do batom que não existia mais. As pernas fraquejaram. Ele sentou no musgo, costas curvadas, a regata grudada pelo suor.

Silêncio.

Só o som da própria respiração, pesada, descompassada.

O terceiro portal foi mais cruel ainda.

Era a rua do Professor, Capão da Imbuia, cinco da manhã, neblina grossa.

O Gol Bolinha estacionado, capô quente. Little Boobs estava sentada ali, pernas de fora, short desfiado, peitos gigantes quase pulando da blusinha preta. Sorria com aquela carinha de anjo que destrói.

— Vem — ela chamou, voz doce como veneno. — Só mais uma vez antes de eu sumir pra sempre.

Jota foi.

Quando chegou perto, ela se desfez em pó dourado, entrou pelos buracos do tênis surrado, subiu pelas pernas dele como areia quente.

— Você sempre demora demais, Jota — a voz dela sussurrou dentro do peito dele. — Sempre tarde demais.

Quando o portal se fechou, Jota estava deitado no musgo.

O tecido vinho agora tinha marcas de mãos que nunca existiram de verdade. A mochila estava ali perto. O caderno ainda aberto no chão, páginas tremendo como se lessem a si mesmas. Uma delas tinha um título riscado com tanta força que o papel rasgou. Outra tinha só uma frase ilegível, tinta azul borrada sobre azul.

Ele ficou assim por um tempo.

Só respirando.

Sentindo o peso de tudo que já foi e nunca mais vai ser.

Então um quarto portal se abriu.

Ninguém chamou. Ninguém abriu. Apareceu e pronto, sem luz e sem som, só aquele cheiro de madrugada fria que Jota conhecia de cor.

Era a porta do banheiro do Capão, quatro da manhã.

Maninho no chão, mão no peito, olhos ainda abertos.

Jota ajoelhado ao lado, mão na mão do irmão, sentindo o calor ir embora devagar.

Nenhuma palavra. Só aquele silêncio que tem peso.

O portal se fechou antes que Jota pudesse fazer qualquer coisa.

Como sempre tinha se fechado.

O gigante verde deu um passo à frente. Ficou parado um tempo. Depois falou, voz grossa, quase humana:

— Eu também já perdi alguém assim.

Jota levantou o rosto.

Os olhos do gigante estavam marejados, verdes, enormes, humanos demais.

— Eu destruí cidades inteiras por causa disso — o gigante continuou. — E você… você só carrega o peso da saudade.

O homem de capa azul baixou a mão.

— Ainda tem mais. Mas agora você já sabe o gosto.

Jota respirou fundo.

O cadarço direito balançou, solto, roçando o tornozelo como quem consola.

— Eu aguento — ele disse, voz rouca. — Manda o próximo.

O vale pareceu sorrir.

O vale mudou de novo.

As ruínas cresceram, viraram torres tortas de pedra e metal, como se o tempo tivesse vomitado pedaços de outros mundos ali. Três figuras surgiram do nada, cada uma ocupando um canto do céu.

Primeiro veio o vulto dourado.

Rápido demais pra ver direito, só rastro de luz e som de vento cortando. Parou a meio metro de Jota, tremendo como imagem de TV mal sintonizada.

Quando a forma se solidificou por um segundo, Jota reconheceu:

Rosquinha.

Bigode de guidão, sorriso torto, aquele jeito de quem nunca para quieto.

— Tudo acontece ao mesmo tempo, Jota — disse a voz, vindo de todos os lados. — Você corre atrás do que já foi e perde o que ainda vem.

O vulto deu uma volta completa ao redor dele em menos de um segundo.

— Eu te chamei tantas vezes, Chô. Mas você tava ocupado correndo atrás de fantasma.

Antes que Jota respondesse, o vulto sumiu.

Deixou só um eco de risada conhecida.

A risada do Rosquinha quando chamava ele de Chô no grupo do WhatsApp às quatro da manhã.

Jota sorriu sem querer.

O peito apertou.

O segundo eco veio das sombras entre as ruínas.

Capa escura, capuz baixo, passos silenciosos. Parou na frente dele e ergueu o rosto.

Era ele mesmo.

Jota mais velho, barba mais grisalha, olhos fundos de quem carregou demais por tempo demais.

— Cada ruína tem dono — falou o outro Jota, voz cansada. — E tu insiste em carregar todas.

A sombra estendeu a mão.

Na palma, uma foto antiga: Popó, Deco, Beagá, família, todos rindo numa churrasqueira na casa do Capão. Jota sentiu o cheiro de carvão e de carne assada.

— Eles ainda estão aí fora. Mas tu tá aqui dentro, tentando consertar o que nunca quebrou sozinho.

A sombra se dissolveu em fumaça preta, entrou pelo nariz dele como lembrança que dói.

Jota tossiu, sentiu o gosto de cinza na boca.

Caiu de joelhos.

O terceiro eco veio devagar, passos firmes, braços cruzados.

Cabelos castanhos ondulados, traços finos, aquele sorriso largo que aparecia sem aviso e iluminava o ambiente inteiro.

Olhar de quem já viu Jota cair mil vezes e sempre ajudou a levantar.

Mama.

Única que sempre chamou ele de “Gera”, única que nunca foi embora.

— Você carrega todo mundo, Gera — ela disse, voz firme mas carinhosa. — Menos você mesmo.

Ela se aproximou, descruzou os braços.

— Você me liga quando precisa de conserto, Gera — disse ela, sem acusação, só observação. — Mas você não me liga quando tá bem.

— Daslu foi embora. Satogos sumiu. Little Boobs desapareceu. Mas eu? Eu tô aqui desde sempre. E você nem percebe.

Ela abriu os braços.

O abraço foi curto, apertado, real.

Cheirava a amaciante, perfume francês e amizade verdadeira.

— Eu ainda tô aqui, Gera — sussurrou Mama no ouvido dele. — Mas você precisa parar de achar que só existe quando tá salvando alguém.

E sumiu como quem sai pela porta da frente, sem drama, deixando o cheiro do abraço grudado na pele.

Jota ficou parado, sozinho no meio das ruínas.

Sentindo o vazio do abraço que acabou.

O gigante verde, agora bem menor (quase tamanho humano), aproximou-se devagar.

— Eu também já fui eco — ele disse. — Achava que força resolvia. Quebrei o mundo inteiro e não consertei nada.

Jota olhou pra baixo.

O cadarço direito soltou completamente e virou uma cobra morta.

Ele se abaixou pra pegar. Quando tocou o cadarço, o vale inteiro parou de tremer por um segundo.

O homem de capa azul apareceu ao lado dele.

— Três ecos.

Ele apontou pro gigante verde, quase humano agora.

— E ele é a raiva que você guarda pra não sentir o resto.

Jota colocou o cadarço de novo, devagar, envergonhado, pensativo e após todo esse processo deu nó duplo.

Quando terminou, o vale parecia menos hostil.

O vento mudou de direção.

Ficou frio de repente, aquele frio de Curitiba que corta até os ossos.

O chão esfriou sob os pés dele.

Algo estava vindo.

O homem de capa ergueu a mão.

O céu escureceu.

— Ainda tem os que querem te ensinar. Aguenta firme, Jota.

O vento voltou a soprar, carregando cheiro de terra molhada e etanol distante.

O vale rachou de cima a baixo.

Um trovão sem som rasgou o céu roxo e três novas presenças se materializaram como se sempre tivessem estado ali, só esperando a hora certa.

O primeiro foi Rand Oliveira, o técnico fantasma.

Macacão azul, prancheta na mão, sorriso de quem já planejou tudo três vezes antes de começar. Parou a dois passos de Jota, mãos cruzadas nas costas.

— Você conserta demais, Jota — disse, voz calma, quase carinhosa. — Planeja, remenda, segura a barra de todo mundo.

Ele deu um passo à frente e o chão virou tabuleiro de xadrez gigante.

— Mas o caos precisa existir. Sem ele não tem graça. Sem ele não tem você.

Com um estalar de dedos, mostrou imagens flutuando no ar:

Jota de joelhos no banheiro, chorando por Donaro.

Jota dirigindo o Gol às cinco da manhã atrás de Maju que nunca mais respondeu.

Jota segurando a mão do irmão Maninho caído na porta do banheiro, sabendo que já tinha acabado.

— Ordem é ilusão, Jota — sussurrou Rand, já sumindo como sempre sumia no meio de uma frase. — Eu te ensinei isso desaparecendo quando você mais precisava.

O segundo surgiu do riso.

Um riso que começou baixo e virou gargalhada de hiena louca.

Leandro Costa, fantasiado de Coringa, apareceu pintado de branco, boca rasgada até as orelhas, olhos fundos de quem já morreu mil vezes e voltou rindo.

— Olha só o herói! — gritou, rodopiando. — Corpo pesado de sofrimento tentando salvar o mundo que nem pediu ajuda!

Ele jogou confete preto que virou cinza ao tocar o chão.

— Quer saber o segredo, Jotinha? O mundo não quer ser salvo. Quer ser sentido. Quer a porrada, a traição, o beijo que dói, o “adeus” no aeroporto. Quer você chorando no Gol às quatro da manhã porque é aí que a coisa fica viva!

O palhaço se aproximou tanto que Jota sentiu o hálito de bala de menta e desespero.

— Se tudo der certo o tempo inteiro… que graça tem viver?

E explodiu em risada, se desfazendo em fumaça colorida que queimava a garganta.

O terceiro foi o pior.

Maninho.

Maior que o gigante verde já tinha sido. Corpo de pedra e sombra, olhos que pareciam buracos negros, mas o rosto (o rosto era do irmão).

Sorrindo de lado.

Como sorria antes do incidente.

— Tudo que existe precisa acabar um dia, irmão — trovejou. — Até você. Até eu. Até o amor que tu guarda feito troféu.

Ele ergueu a mão.

Uma imagem gigante apareceu no céu: Maninho, sorrindo, acenando de longe, depois caído no chão frio do banheiro, mão no peito, silêncio.

— Lutar contra o fim é o que te mata devagar. Aceita. Entrega. Deixa ir.

Jota sentiu as pernas falharem.

Caiu de joelhos.

O tecido vinho rasgou nas costas.

O vale inteiro começou a desabar.

Pedras gigantes caindo, portais se fechando como guilhotinas, o chão se abrindo em abismos de luz negra.

Jota correu.

O peso do corpo voou pelo musgo, a mochila batendo nas costas como tambor.

Um portal se fechou na frente dele (corte limpo, mortal).

Ele não ia conseguir desviar.

Foi aí que aconteceu.

O cadarço direito desamarrou novamente.

Não foi acidente.

Nunca foi acidente.

O cadarço enrolou no tornozelo com um puxão seco, firme, quase audível — como corda de rapel se fechando.

Travou o pé.

Jota sentiu o tecido apertar, segurar, proteger.

Ele tropeçou com força.

O corpo inteiro voou pra frente, joelhos bateram no musgo, mãos arranharam pedra.

A lâmina de luz cortou o ar exatamente onde a nuca dele estava um segundo antes.

Passou tão perto que ele sentiu o calor, o cheiro de ozônio queimado, o zumbido elétrico que faz o cérebro tremer.

Dois centímetros.

Silêncio.

Jota ficou deitado, rosto afundado no musgo, respirando terra, suor, sangue do lábio cortado.

O coração batia tão forte que ele sentia o pulso na garganta.

As mãos tremiam.

O cadarço solto batia de leve na canela.

Como quem diz: “Calma, Jota. Eu te peguei.”

E pela primeira vez em 44 anos, Jota entendeu:

O que ele sempre achou que era defeito…

O cadarço que soltava em hora errada…

O tropeço que atrapalhava tudo…

…era a única coisa que nunca falhou com ele.

Porque o cadarço não soltava em hora errada.

Soltava na hora certa.

Sempre soltou.

Sempre salvou.

Ele ficou ali, deitado, sentindo o musgo frio no rosto, a terra úmida nas mãos, o gosto de sangue na boca.

O gigante verde se abaixou ao lado dele.

— Tu caiu pra não morrer — disse, voz grossa, quase emocionada. — Eu só caí pra machucar os outros.

Jota cuspiu sangue, riu sem graça.

— Então a gente tá aprendendo, né?

O titã de pedra com o rosto de Maninho já tinha sumido.

O Coringa também.

Rand desapareceu como sempre fez.

Mas as palavras ficaram grudadas na pele.

O homem de capa azul apareceu de pé ao lado deles.

— Último ato. Agora você decide se carrega tudo… ou se queima o que não serve mais.

Ele apontou para a mochila aberta no chão.

O caderno de capa gasta estava ali, páginas soltas tremendo.

Jota se levantou devagar.

O cadarço direito balançava solto, sujo de terra, vivo.

— Vamos terminar isso — disse.

O vale parou de desabar.

As pedras ficaram suspensas no ar, como se alguém tivesse apertado pause no fim do mundo.

Jota ficou de pé no centro, a regata rasgada nas costas, suor e sangue misturados, o corpo tremendo de cansaço e de algo maior.

O homem de capa azul estava a três passos.

Pela primeira vez, não flutuava. Pisava no chão como gente.

— Você já viu tudo. Raiva, medo, amor, perda, riso, plano, fim.

Ele apontou pro gigante verde, agora apenas um homem alto, careca, olhos humanos.

— Ele também viu.

O ex-gigante deu um passo à frente.

— Eu carreguei o mundo nas costas pra não sentir o buraco. Você carregou o buraco pra não quebrar o mundo.

Ele estendeu a mão enorme.

— Deu empate, irmão.

Jota apertou a mão. Sentiu osso, calo, calor humano.

O homem de capa azul abriu espaço entre eles.

— Só falta uma coisa. O que você não consegue soltar.

Jota olhou para a mochila no chão.

Abriu. Tirou o caderno, já tão manuseado que a capa estava quase solta.

Abriu na última página escrita.

Letra grande, nervosa, tinta azul borrada:

“Enquanto o cadarço estiver solto, ainda dá tempo.”

Ele rasgou a página com as duas mãos.

O papel tremeu como se tivesse vida.

Tirou o isqueiro amarelo do bolso da calça moletom.

Girou a rodinha. Chama forte, viva, perfeita.

Encostou a chama no canto da folha.

O fogo pegou rápido.

A página queimou inteira na mão dele, cinza subindo em espiral azulada que desenhou no ar formas vagas — rodas girando, pedras caindo, um cadarço balançando solto.

Quando a última brasa morreu, o vale inteiro se iluminou com luz suave, quase manhã.

O vale não era mais lugar de guerra. Era de testemunho. E quem precisava ser protegido era exatamente o homem que nunca aprendeu a se incluir na conta.

As pedras suspensas desceram devagar, se encaixaram no chão como peças de quebra-cabeça antigo.

O céu perdeu o roxo doente, virou azul de Curitiba no inverno.

— A minha perda tinha nome de cidade — disse o ex-gigante, baixinho, quase pra si. — A tua tem nome de bairro. O tamanho do buraco é o mesmo.

O ex-gigante deu um abraço de urso que quase quebrou as costelas de Jota.

— Valeu por me lembrar que eu também sou gente — murmurou, e se desfez em luz verde que subiu pro céu e sumiu.

O homem de capa azul sorriu (primeira vez que Jota viu sorriso nele).

— O tempo agora anda pra frente. E você anda junto.

Acenou com a cabeça e desapareceu como fumaça de etanol.

Silêncio.

Jota ficou sozinho no meio do vale que agora era a Pedreira do Orleans de novo.

O lago seco, as paredes de pedra, o cheiro de mato e terra.

A mochila estava fechada, mais leve.

O caderno dentro dela agora tinha uma página a menos.

Ele olhou para o pé direito.

O cadarço balançava solto, sujo, vivo, inteiro.

Sorriu.

Subiu os trezentos metros de volta, pisando firme.

Passou pelos galpões abandonados, pela ponte destruída, até chegar no Gol Bolinha estacionado, banco do motorista afundado.

Entrou.

Girou a chave. O motor 1.0 16v gritou, tossiu, pegou.

Abaixou o vidro elétrico dianteiro.

Jota engatou a ré, deu meia-volta na terra batida, apontou pro asfalto do contorno norte.

O vento frio de Curitiba entrou, bateu na cara suada, levou embora o resto de cinza que ainda estava na pele.

Ele acelerou.

O cadarço direito solto, livre.

E pela primeira vez em muito tempo, Jota dirigiu sem olhar pelo retrovisor.

Porque o tempo, agora, andava pra frente.

E ele também.

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Sinopse Narrativa:

Jota para o Gol na Pedreira do Orleans à noite. Uma rachadura de luz azul rasga a pedreira e o transporta para um vale onírico onde dois titãs combatem. O homem de capa azul abre três portais com memórias afetivas dolorosas (Daslu, Satogos, Little Boobs), seguidos de um quarto com a morte do irmão Maninho. Três ecos (Rosquinha, Jota mais velho, Mama) e três presenças ensinantes (Rand, Leandro Costa/Coringa, Maninho-titã) o confrontam sobre raiva, perda e aceitação. O cadarço direito se solta na hora exata e salva sua vida. Jota queima uma página do caderno com o isqueiro e o vale se dissolve. Ele volta ao Gol e parte sem olhar pelo retrovisor.

Gênero Fantasia Psicológica, Realismo Mágico
Tom Catártico, Introspectivo, Onírico
Timeline Curitiba, Místico, Onírico
Versão Jota Normal
Categoria Confronto Simbólico, Cura emocional, Jornada interior
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Aceitação da perda, os "defeitos" como proteção
Locais Aeroporto, Afonso Pena, banheiro, banheiro de balada, Batel, Capão da Imbuia, Curitiba, Pedreira do Orleans, portal, Rua do Professor, vale
Palavras-Chave cadarço, luto, Maninho, Pedreira do Orleans, portais, titãs, vale onírico
Menção explícita à morte do irmão Maninho (caído no chão do banheiro, mão no peito, olhos ainda abertos). Jota tem 44 anos mencionado diretamente. O cadarço direito confirmado como elemento protetor/sobrenatural: salva a vida de Jota ao enrolar no tornozelo na hora exata. A página queimada continha a frase "Enquanto o cadarço estiver solto, ainda dá tempo." O caderno termina o conto com uma página a menos. O gigante verde é identificado pelo homem de capa azul como a raiva que Jota guarda pra não sentir o resto. Personagens citados nas imagens de Rand mas sem aparecer diretamente: Donaro, Maju.
 

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