Jota dirige o Gol Bolinha Cinza Urban pela BR-277 com o pai ao lado. O crachá da Gráfica Vicentina balança no retrovisor, plástico amarelado batendo no vidro a cada lombada. O evento acabou faz meia hora, mas o cheiro de café velho e sala fechada ainda gruda na roupa. Camiseta regata vinho marcada de suor, rasgo no ombro esquerdo deixando a pele respirar.
O pai olha pela janela, braço apoiado na porta. Mãos de tipógrafo, dedos com tinta que não sai mais. Silêncio de sempre. Só que hoje o silêncio pesa mais.
A árvore aparece.
Não é uma árvore. É um organismo único que engoliu a margem inteira da rodovia. Tronco contínuo, grotesco, galhos entrelaçados formando túnel vivo. Copa tão fechada que o sol vira lembrança. Jota diminui sem pensar. O Gol Bolinha geme em segunda.
O pai fala, voz baixa, quase surpresa: — Que árvore grande…
O pai olha pra árvore como quem reconhece algo. Jota assente. Engata terceira. Segue.
Cinco minutos depois o pai fala de novo: — A tua mãe… como era mesmo o nome dela?
Jota aperta o volante. O coração dá um pulo seco.
— Gertrudes, pai.
— Gertrudes… — o velho repete, como se provasse a palavra. — Faz tempo.
A árvore continua dos dois lados. Quilômetros. A mesma raiz. O mesmo tronco. O mesmo corpo vegetal engolindo o mundo.
O cadarço direito do tênis se solta.
Jota olha pro pé, pro cadarço arrastando no pedal. Aquele filho da puta de novo. Sempre no momento errado. Sempre exato.
O pai vira pra ele: — E tu… tu é o filho de quem mesmo?
Jota pisa no freio. Para no acostamento. O Gol morre. O crachá para de balançar.
Olha pro pai. Pro cadarço solto. Pra árvore lá fora que não termina nunca.
Entende sem entender.
As raízes já estão subindo.
Não pode ficar parado.
Engata. Volta pra pista. O cadarço fica solto, arrastando.
O celular toca. Viva-voz.
— Chô, desce na Pedreira do Orleans, tá osso aqui de frio, mas tá bom, Chô. Vem.
É o Rosquinha. Vento e risada ao fundo.
— Tô indo.
Curva à esquerda. Pega o contorno norte. Neblina sobe do vale, engole a pista. O Gol desce devagar, freio reclamando. Faz o retorno. Entra na estradinha. A pedreira aparece – buraco fundo na terra, água parada refletindo céu cinza.
Quando estaciona, o pai já não está no banco.
Não saiu. Não desceu. Não abriu a porta.
Simplesmente não está mais.
O crachá continua balançando sozinho. O cheiro de tinta tipográfica antiga fica no estofado, impregnado, como se o pai tivesse derramado a vida inteira ali e evaporado junto.
Jota pega a mochila laranja do banco de trás. Desce.
O vento corta. Fogueira acesa no centro. Galera espalhada — Rosquinha filmando, Rand Oliveira de macacão azul mexendo em algo que parece ferramenta mas não é, Mama e Cabrito abraçados perto do fogo. E no meio de tudo, Fábio Porchat de sunga laranja, pele arrepiada, olhando pro fogo sem expressão.
Todos tremendo. Todos quietos demais.
Rosquinha acena: — Chô! Pensei que tu não vinha mais.
Porchat vira a cabeça devagar: — E aí, Agnaldo? — a voz sai baixa, quase pedindo confirmação.
Jota não corrige. Deixa o nome errado grudar. Até quem é famoso já não sabe mais quem é quem.
Jota chega perto do fogo. Ninguém pergunta do pai. Como se soubessem. Como se já tivessem passado por isso.
Rand aparece do lado, fantasma de sempre: — Ele sumiu no carro?
Jota assente.
Rand volta pra sombra. — A gente tá perdendo muita coisa, Jota. Muito nome. Muito rosto.
Rosquinha tenta rir, mas a voz sai torta: — Chô, tu lembra quando a gente… — para. — Não, pera. Esqueci.
Jota procura na mochila. Caderno de capa dura marrom. Precisa anotar. Precisa registrar antes que suma.
Abre o caderno. As páginas sobre o pai estão em branco.
Não apagadas. Brancas. Como se nunca tivessem sido escritas.
Fecha o caderno. Guarda.
A frase vem clara, urgente: Não posso esquecer de pesquisar qual é a maior árvore de Curitiba.
A árvore da BR ainda late na cabeça. Precisa ter nome. Precisa ter fim.
Procura o isqueiro no bolso. O amarelo. O sobrevivente. Sempre ali.
Acende pra ver melhor o caderno na sombra da pedreira.
A chama pisca. O cheiro de eucalipto vem com ela.
O isqueiro continua aceso na mão, mas a mão já não está na pedreira.
Luz amarelada. Poeira parada no ar. Aparelhos enferrujados, espuma rasgada. Academia fechada. Cheiro de mofo e tempo esquecido.
Na parede do fundo, quadro enorme. Árvore genealógica em moldura rachada.
No topo, foto antiga: Oscar Schmidt, uniforme da seleção, mão na bola.
Do nome dele desce uma linha preta grossa até uma foto pequena no canto, quase apagada: Larissa Albuquerque. Brasília.
Jota sente o peito apertar.
Larissa.
A que quase virou família. A que quase entrou na árvore.
— Você esqueceu meu sobrenome, né? — voz atrás dele.
Larissa encostada na barra de supino, braços cruzados. Real. Mais velha. Cansada.
Jota não responde.
— Todo mundo esquece — ela continua, sem acusar. — É assim que começa.
Ela aponta pro quadro.
Jota olha pra árvore genealógica. Oscar Schmidt no topo. Larissa embaixo. Linha preta descendo como raiz invertida.
Pai esquecendo o nome da mãe. Pai esquecendo o nome do filho. Árvore apagando os galhos mais novos primeiro. Sempre de baixo pra cima.
Larissa empurra uma porta de metal sem maçaneta: — Vamos.
O ar vira gelatina. Jota atravessa com esforço, isqueiro ainda aceso na mão.
Do outro lado: estacionamento vazio. Asfalto rachado. Luzes de sódio laranja zumbindo.
Larissa some.
Só resta o cheiro.
Eucalipto.
Forte, fresco, invadindo tudo. O mesmo da árvore da BR. Jota sempre soube. Sempre conheceu. Só não queria lembrar.
A árvore não é planta. É pai sumindo sem abrir a porta. É Rosquinha esquecendo a frase no meio. É Porchat chamando ele de Agnaldo. É Larissa quase virando galho. É raiz no calcanhar. É nome que some antes do corpo.
Jota guarda o celular sem pesquisar. A maior árvore de Curitiba não tem nome. Ela tem raízes que atravessam asfalto, lembranças, tempo.
Apaga o isqueiro. A mão queimou onde segurou tempo demais.
Olha pro cadarço direito ainda solto, arrastando no chão sujo do estacionamento.
Se abaixa.
Amarra.
Levanta. A mochila laranja pesa no ombro. A camiseta regata vinho gruda na pele fria.
O vento do estacionamento sopra eucalipto.
O cadarço solta de novo.
Ele começa a caminhar.
Não sabe pra onde, mas sabe que parar seria deixar a raiz subir.
E enquanto o cadarço ficar solto, enquanto o isqueiro acender, enquanto a mochila laranja estiver no ombro — enquanto isso, ele ainda é Jota.
Ainda é Geraldo.
Ainda é o filho de alguém cujo nome a árvore ainda não comeu por completo.
