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A Pedra Que Sobrou

Extensão: 1.675 palavras | Leitura: 9 min

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Região do Guartelá, fim de tarde, o sol já tinha se mandado deixando só um roxo sujo no céu.

O buraco estava quase vazio.

Cascalho vermelho, poeira, ecoando, cheiro de enxofre e suor de macho que trabalhou o dia inteiro.

Um a um, os caras foram largando as picaretas, acendendo cigarro, tirando selfie com os diamantinhos pequenos na palma da mão.

— Encontrei pessoal! Bora tomar uma gelada!

Uma das pessoas tinha encontrado uma pequena pedra que fez todos os outros se animarem.

— Meu diamante vai pagar o churras na laje domingo!

Risos e poeira subindo pro céu.

Jota ficou.

Sempre ficava um pouco mais.

Camiseta regata vinho grudada no peito como segunda pele, 110 kg brilhando de suor, mochila laranja aberta no chão, caderno marrom dentro, tênis surrado afundado na terra vermelha, cadarço direito solto arrastando como cobra morta.

Todo mundo levou suas pedrinhas brilhantes, frias, perfeitas pra postar no Stories com filtro Valencia.

Jota ficou catando os restos, porque sempre esperava encontrar a dele.

Aí viu ela.

Uma pedra feia pra caralho.

Abandonada.

Lascada no que era possível.

Cor de merda seca.

Uma pedra que já tinham desistido.

Se aproximou só pra não deixar lá.

Quando bateu a picareta de leve (só pra ver o que tinha dentro), ela cantou diferente.

Um som quente.

Grave.

Como se esperasse a batida de Jota.

Abriu uma fenda mínima.

Saiu a primeira pepita.

Pequenininha, dourada, perfeita, quente na palma da mão como se tivesse acabado de sair do corpo de alguém.

Depois outra.

E mais uma.

Não era veia grossa.

Era um monte de veiazinha fina, milhares de pontinhos de ouro puro escondidos ali dentro, esperando quem tivesse paciência de olhar.

Jota riu sozinho no fundo do buraco.

Os caras já estavam longe, subindo.

Abraçou a pedra contra o peito.

Ela esquentava.

Vibrava baixo, quase imperceptível.

Como se tivesse coração batendo junto com o dele.

E ali, no silêncio absoluto do cânion próximo, com o vento passando entre as paredes de arenito vermelho ao longe, ele sentiu.

Um tesão que ele nunca tinha sentido.

Não era desejo.

Era reconhecimento.

Aquele calor subindo do peito pra garganta, aquele arrepio na nuca, aquela vontade de chorar e rir ao mesmo tempo, de beijar a pedra, de dormir com ela, de nunca mais largar.

Era a primeira vez na vida que ele sentia um negócio querer ele de volta.

A pedra escolheu ele.

E ele escolheu ela.

———

Jota ficou ali de joelhos no fundo do buraco, abraçando a pedra como se fosse criança.

O calor dela atravessava a camiseta vinho, queimava gostoso no peito, subia pro pescoço, descia pelos braços.

Ele sentia cada pepita lá dentro se mexendo, como se fossem faíscas vivas correndo sob a pele.

De repente, flash.

Rosto da Little Boobs apareceu dentro de uma pepita, sorrindo aquele sorriso de quem sabe o estrago que faz.

Depois Larissa, olhos grandes, mordendo o lábio, acenando de longe na borda do cânion.

As duas viraram pó dourado, rodopiaram no ar, entraram pelo nariz dele, desceram pro peito, se misturaram com o calor da pedra.

Jota riu alto, rouco, ecoando nas paredes do buraco.

Lá em cima, escutou alguns gritos de comemoração.

Jota parou de dar atenção.

Só abraçou mais forte.

A pedra pulsou, como quem vibra junto com quem fica.

Levantou, 110 kg + 10 kg de pedra = equilíbrio precário mas possível.

Embrulhou ela na camiseta vinho, fez um nó apertado contra o peito, como carregador de bebê de favela.

Começou a subir a rampa de terra vermelha.

Cada passo era mais pesado, mas mais leve ao mesmo tempo.

No meio da rampa, o cadarço direito soltou de vez.

Enroscou numa raiz de araucária que saía da parede.

Jota puxou.

O nó apertou.

Teve que parar, se agachar, desamarrar com uma mão só, a outra segurando a pedra contra o peito.

Minutos perdidos.

Mas quando levantou, a pedra tinha esfriado um pouco.

Deu pra respirar.

Deu pra continuar.

O cadarço salvou sem querer: fez ele parar quando ia desmaiar de exaustão.

Passo a passo.

Suor escorrendo nas costas, pedra aquecendo de novo aos poucos, peito latejando.

Chegou na borda já noite fechada.

Estrelas frias em cima.

Gol Bolinha cinza estacionado na beira da estrada de terra, farol apagado, porta-malas aberto, esperando como cachorro fiel.

Com a pedra ainda no colo, sentou no banco do motorista, pegou a mochila laranja, que estava no carro, abriu o zíper, tirou o caderno marrom.

Abriu em uma página qualquer e com a caneta escreveu, sem data:

“Pedra que sobrou. Ainda pulsa.”

Guardou.

Colocou a pedra embrulhada no banco do carona.

O banco afundou com o peso.

Ela ficou ali, encostada no vidro, olhando pra frente como se soubesse o caminho.

O isqueiro amarelo rolou do bolso, caiu no assoalho.

Faiscou sozinho.

Parecia sorrir.

Jota pegou o isqueiro do chão, ainda quente, guardou de volta no bolso.

Sorriu de volta pra pedra.

Ligou o Gol.

O motor roncou baixo, quase carinhoso.

E foram embora, ele e ela, pela estrada de terra, poeira dourada subindo atrás, estrelas em cima, ouro dentro.

Dessa vez ia pra casa.

Porque dessa vez tinha algo que prestava.

———

Estrada de terra da região do Guartelá até a BR-277, noite sem lua, só farol do Gol Bolinha cortando a escuridão.

A pedra estava no banco do carona, embrulhada na camiseta vinho rasgada, mas o calor atravessava o pano, atravessava o banco, atravessava o carro inteiro.

Jota dirigia com uma mão só.

A outra em cima dela, sentindo a vibração lenta, constante, como coração de mulher dormindo no peito dele depois do amor.

De vez em quando uma pepita solta rolava no embrulho, tilintava baixinho, parecia rir.

O rádio que não funciona tocava um som que só ele ouvia: batida grave, quase gemido.

Passou Castro, Carambei, Ponta Grossa.

Cada cidade que deixava pra trás, a pedra esquentava mais um grau.

Em São Luiz do Purunã parou no posto, desceu pra mijar.

Quando voltou, o isqueiro amarelo estava queimando.

Tirou, acendeu.

A chama parecia maior que o normal.

Vento soprando forte, mas a chama não apagava.

Iluminava a pedra pelo vidro.

Ou ele que estava menor.

Jota soprou a chama. Guardou no bolso.

Entrou no carro de novo.

— Calma aí — falou pra ela. — Ainda falta chegar em casa.

Ela pulsou duas vezes, como quem diz “eu sei”.

Curitiba apareceu na frente, luzes amarelas, frio dos infernos batendo no vidro.

Capão da Imbuia, rua do Professor, casa simples.

Estacionou o Gol torto na garagem.

Desceu, pegou a pedra com as duas mãos, pesada mas carregável, abraçou contra o peito como se fosse leve. As pequenas deixou ali por enquanto.

Entrou.

Quarto escuro.

Colocou ela encostada na parede, do lado da cama, exatamente onde a luz da janela da rua bate de manhã.

Desembrulhou a camiseta vinho.

A pedra estava lá, feia, rachada, mas com veias douradas brilhando mais forte agora.

Passou a mão.

Quente.

Respirando baixo.

Soltando de vez em quando uma nova pedrinha.

Jota deitou na cama, de lado, olhando pra ela.

— Boa noite — falou.

Ela pulsou de volta.

Fechou os olhos.

Sonhou que estavam os dois no fundo do buraco de novo, só que agora o buraco era o quarto, e o teto era o céu do Paraná.

E o ouro cantava baixinho.

———

Semanas depois.

A pedra ainda está ali.

Encostada na parede do quarto, no mesmo lugar.

Agora linda.

Pesada.

E toda noite Jota passa a mão.

E ela esquenta.

E vibra.

Às vezes mais forte, como se tivesse pressa.

Às vezes devagar, como quem dorme tranquilo sabendo que ele não vai embora.

O tênis surrado está no chão, cadarço direito ainda solto, terra vermelha do Guartelá que nunca sai de vez.

A camiseta vinho virou pano de chão, mas ainda tem cheiro de cânion.

A mochila laranja fica aberta do lado da cama, caderno marrom em cima, página marcada com uma pepita solta que ele usa de peso de papel.

As pedrinhas que a pedra soltava, Jota começou a chamar de PIPs. Sem motivo. Só as chamava assim — as PIPs da pedra maior.

Jota escreveu de novo, sem data:

“Ela tá crescendo. Ou eu que tô diminuindo.”

Porque é verdade.

Tem dia que acorda e a pedra parece maior.

Tem dia que acorda e ele parece menor.

Metáfora, claro.

Mas metáfora que pesa.

O professor de geologia, aquele que deu aula pra ele no técnico anos atrás, mora em Quatro Barras agora.

Jota passa na frente da casa dele às vezes, de Gol Bolinha, diminui a marcha, olha a janela.

Ele tá lá, sentado na varanda, fumando cachimbo, olhando o horizonte como quem espera alguém que nunca chega.

Um dia Jota vai parar.

Um dia vai descer com a pedra nos braços.

Um dia vai falar:

— Olha isso aqui, professor. Olha o que sobrou. Olha o que ninguém quis.

Ele vai pegar a lupa.

Vai raspar.

Vai sorrir daquele jeito lento dele.

Vai falar:

— Isso aqui é raro, Geraldo. Isso aqui é teu.

Mas por enquanto não é dia.

Por enquanto é só ele e ela.

Jota passa a mão toda noite.

Ela pulsa de volta.

E o ouro lá dentro canta baixinho, paciência de quem sabe que um dia vai ser visto.

Porque no final das contas,

a mineração inteira pode dar diamante pra quem tem pressa,

mas o ouro de verdade

só aparece pra quem tem coragem de ficar até o fim

e carregar a pedra que ninguém mais quis.

E enquanto ela pulsar,

ele fica.

Porque essa pedra não é só ouro.

É prova.

Prova que quem fica até o fim

nunca sai de mãos vazias.

Só sai com o peito cheio.

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Sinopse Narrativa:

Jota trabalha em mineração na região do Guartelá. Quando todos vão embora , ele fica e encontra uma pedra feia que ninguém quis. Ao abri-la, descobre milhares de pepitas de ouro escondidas. A pedra pulsa, esquenta e vibra como se tivesse coração. Ele sente um reconhecimento mútuo, como se ela o tivesse escolhido. Leva a pedra pra casa em Curitiba e a mantém no quarto, onde ela continua pulsando toda noite.

Gênero Realismo Mágico
Tom Intimista, Melancólico, Sensual
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Conexão Emocional, Realismo Mágico
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Persistência recompensada, Reconhecimento mútuo
Locais BR-277, buraco de mineração, cânion próximo, Capão da Imbuia, Curitiba, estrada de terra, Palmeira, Ponta Grossa, posto abandonado, Região do Guartelá, Rua do Professor, São Luiz do Purunã, Tibagi
Palavras-Chave Guartelá, Larissa (visão), Little Boobs (visão), Mineração, pedra feia, pepitas de ouro, persistência, pulsação, reconhecimento mútuo
Jota: 110kg, trabalha em mineração, fica sempre até o fim. Pedra: feia, pesada, cor de merda seca, sem forma, mas cheia de pepitas de ouro. Vibra, pulsa, esquenta como coração batendo. Parece crescer ou Jota parece diminuir. Som quente e grave quando batida. Visões: Little Boobs e Larissa aparecem em pepitas, viram pó dourado. Cadarço salvou Jota fazendo-o parar quando ia desmaiar. Professor de geologia mora em Quatro Barras. Pepita solta usada como peso de papel.
 

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