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A Pedra que Conecta

Extensão: 1.773 palavras | Leitura: 9 min

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Semanas depois de levar uma pedra pra casa, Jota começou a organizar uma empreitada.

Pois essa mesma pedra que aquecia e Jota começava a entender dava a entender que tinha mais e com isso Jota sentia que precisava voltar.

Dessa vez ele organizou tudo.

Conseguiu as liberações, contratou pessoal.

E no ponto que entendeu que sentiu a conexão, iniciou o projeto.

Com o passar da escavação encontraram uma fenda.

Era garganta da terra engolindo quem entrava, devagar, centímetro por centímetro, como quem desce pro útero de uma mãe que não perdoa.

Era garganta da terra engolindo ele devagar, centímetro por centímetro, como quem desce pro útero de uma mãe que não perdoa.

As paredes eram úmidas, quentes, veias de quartzo pulsando luz fraca, azul-esverdeada, tipo veia de braço de quem acabou de malhar pesado.

O ar pesava tanto que cada respiração parecia roubar um ano de vida e devolver em troca um segredo antigo.

Cheiro de enxofre, terra molhada e algo doce, quase sexual: ouro novo, ainda com cheiro de sangue.

Jota escolheu o lugar.

Sabia o caminho de cor.

Sabia o risco.

Sabia que quem desce demais não sobe igual.

Camiseta regata vinho grudada no peito, mochila laranja nas costas, caderno marrom dentro, isqueiro amarelo no bolso da bermuda.

Tênis surrado afundando na lama dourada, cadarço direito solto arrastando, fazendo barulho de cobra no silêncio.

Eles eram poucos.

Cinco, seis vultos que Jota tinha escolhido.

Silêncio total, só o som da mina respirando.

Cada golpe de picareta revelava algo diferente.

Uma pedra soltava luz azul fria.

Outra cuspia fumaça preta que cheirava a arrependimento.

Outra chorava água cristalina que evaporava antes de tocar o chão.

Tesouros vivos.

Cada um carregava uma energia que a gente sentia no peito antes de ver com os olhos.

Jota já sentia que estava no caminho certo quando viu ela.

Deitada na borda de um poço negro, enorme, como se a própria mina tivesse parido depois de um trabalho de parto de milênios.

Casca grossa, rachada em veias douradas que pulsavam devagar, no mesmo ritmo lento do coração cansado dele.

Passou a mão.

Quentura subia pelos dedos, viva.

No mesmo segundo, as outras pedras ao redor começaram a vibrar.

PIPs — era assim que Jota chamava elas desde o primeiro dia — pedrinhas pequenas, frenéticas, douradas, começaram a brotar do chão, pulando feito grãos de milho no fogo quente.

Dezenas.

Centenas.

Rodeando a Pedra grande como filhos protegendo a mãe.

Jota ficou suspenso.

Corpo pesado, pés grudados no chão úmido.

Ciclo fechado.

Preso.

Foi quando os outros recuaram.

Medo.

Respeito.

Sei lá.

Saíram um a um, deixando ferramentas no chão, subindo a rampa sem olhar pra trás.

Até sumirem.

Jota ficou sozinho.

Mas então ela apareceu.

Menina baixinha, cabelo curto, neta do professor — a única que as pedras ouviam de verdade.

Pegou uma picareta menor, quase de brinquedo, e terminou o serviço que ele não conseguiu começar.

Bateu três vezes.

A Pedra grande gemeu.

Uma fenda se abriu, cuspiu luz dourada tão forte que cegou.

E Jota sentiu, no peito, que aquela Pedra grande era a mãe da que ele tinha carregado pra casa meses atrás.

A que ninguém quis no Guartelá.

A que ainda pulsa no quarto dele até hoje.

E a que encontrava agora era a mãe de todas.

E ela tinha chamado ele de volta.

———

A fenda da Pedra grande se abriu mais, lenta, como boca de mulher que sabe que vai ser beijada.

Luz dourada jorrou como sangue quente, mas não queimava; aquecia.

Do meio da fenda começaram a saltar as PIPs.

Pequenas.

Douradas.

Vivas pra caralho.

Pulavam feito pipoca no fogo, quentinhas, rolando no chão úmido da mina, se multiplicando tão rápido que o chão virou tapete dourado vivo.

Dezenas viraram centenas em segundos.

Cada uma brilhava diferente, energia que dava choque quando encostava na pele nua do braço.

Jota tentou pegar uma.

Queimou a ponta do dedo.

Mas era bom.

Era vida pura escorrendo.

A menina estava no centro disso tudo.

Pegou uma PIP com a mão nua, sem queimar.

Segurou contra o peito.

A PIP parou de pular.

Se aninhou.

Virou parte dela.

— Elas precisam de toque — disse, voz baixa, quase sussurro na pedra.

— Sozinhas são só faísca.

Juntas viram fogo.

Jota se aproximou.

A Pedra grande gemeu de novo, como se aprovasse.

Encostou a palma aberta na casca rachada.

Sentiu o pulsar sincronizar com o coração dele.

As PIPs pararam de rolar e olharam pra ele.

Centenas de olhinhos dourados.

A menina estendeu a mão.

Uma PIP pulou pra palma dela, depois pra dele.

Quente.

Depois outra.

E outra.

Começaram a encaixá-las na fenda da Pedra grande.

Cada clique fazia a rachadura brilhar mais forte.

A Pedra crescia.

Não de tamanho.

De presença.

— Ela tá chamando as irmãs — a menina falou.

Jota olhou pros lados.

As paredes da mina começaram a rachar sozinhas.

Outras Pedras grandes apareceram, meio enterradas, meio vivas.

Todas com a mesma veia dourada.

Todas esperando.

Ele pegou uma PIP maior, do tamanho de um punho.

Encaixou na fenda principal.

A Pedra grande tremeu inteira.

Luz explodiu, mas não cegou; abraçou.

Sentiu energia subindo pelo braço, peito, cabeça.

Como se ele fosse parte dela agora.

Naquele segundo, o cadarço solto do tênis direito prendeu numa raiz de quartzo que brotou do chão.

Quase caiu no poço negro atrás dele.

Mas o tropeço jogou ele pra frente, direto na menina.

Ela segurou ele pelo braço, firme.

— Calma. Ainda tem muito chão.

E sorriu.

Jota sentiu que conhecia aquele sorriso.

Mas não era hora de lembrar.

Era hora de conectar.

———

A mina inteira agora era uma só respiração.

Paredes pulsando no mesmo ritmo que o peito dele.

PIPs correndo entre as pernas de Jota como rio dourado vivo, deixando rastros quentes na pele.

A menina e ele corriam de uma Pedra grande pra outra, encaixando fragmentos.

Cada clique era som de osso se encaixando no lugar certo depois de anos quebrado.

Luz brotava, vida nova nascendo.

A mochila laranja estava aberta no chão, vomitando PIPs que ele tinha guardado sem perceber.

O isqueiro amarelo caiu do bolso, rolou até parar encostado na Pedra mãe.

Acendeu sozinho.

Chama azul firme, iluminando o chão como se fosse mapa vivo.

Jota pegou o caderno marrom da mochila, abriu numa página em branco.

Começou a desenhar com o dedo sujo de ouro: as veias que ligavam todas as Pedras grandes, um sistema radicular dourado que descia até onde a vista não alcançava.

A menina olhou o desenho, assentiu.

— É assim mesmo — disse.

— Raiz de ouro.

As paredes continuavam se abrindo, revelando mais e mais Pedras irmãs.

Era um salão inteiro, depois outro, depois outro.

Um coração subterrâneo feito de ouro vivo.

Jota já não sentia peso.

Já não sentia solidão.

A mina inteira batia no mesmo compasso do peito dele.

E então ele apareceu.

Na entrada do salão maior, silhueta contra a luz fraca do corredor.

Velho conhecido.

Barba branca, camisa surrada, picareta pendurada no ombro como se fosse pena.

Olhos que já viram o fundo de mil minas e voltaram com ouro na alma.

O professor.

Quando Jota tinha mostrado a pedra feia semanas atrás, o velho não conseguiu dormir direito.

Saiu da aposentadoria.

Voltou pra mina.

Tinha sido Jota quem chamou ele.

Veterano de setenta e cinco anos que ainda conhecia cada segredo que a terra guarda.

Parou, olhou o caos dourado, olhou pra Jota, olhou pra menina.

E sorriu lento.

— Achou a mãe de todas, hein, Jota?

A menina correu pra ele, abraçou a perna.

Ele passou a mão no cabelo curto dela, carinhoso, mas triste.

Jota entendeu tudo num segundo.

Era neta dele.

E agora era dele também.

———

O professor veio devagar, pisando nas PIPs como quem anda em brasas que não queimam.

Cada passo dele fazia as pedrinhas se afastarem, abrindo caminho, como se reconhecessem o dono da casa.

Ele parou diante da Pedra mãe, agora três vezes maior, veias douradas grossas como braços, pulsando forte, iluminando o salão inteiro com luz quente de fim de tarde.

Tocou a casca com respeito de quem toca altar.

Uma PIP grande pulou pra palma dele.

Ele fechou o punho devagar.

Abriu.

A PIP tinha virado uma veia nova, grossa, viva, se enroscando no dedo dele como aliança.

— Fragmento com fragmento — disse, voz rouca de quem fala pouco, mas quando fala é lei.

— Sempre foi assim.

Uma pedra sozinha é só pedra.

Mil pedras ligadas viram mundo.

A menina trouxe um punhado de PIPs nas duas mãos.

Os três formaram círculo em volta da Pedra mãe.

Jota encaixou a primeira, mão tremendo de energia.

O professor encaixou a segunda, mão firme de quem já fez isso mil vezes.

A menina encaixou a terceira, mãozinha pequena que não queimava.

Cada clique era trovão dourado.

A mina inteira tremeu.

Paredes se abriram mais, revelando veias que iam até onde a vista não alcançava.

Luz subiu, iluminou tudo, aqueceu tudo.

PIPs pararam de pular e se alinharam, formando caminhos dourados no chão, nas paredes, no teto.

O professor pôs a mão no ombro de Jota.

— Tu não tava preso, Jota.

Tu tava esperando a gente chegar.

A menina olhou pra ele, olhos brilhando mais que qualquer PIP.

— Agora ela conecta tudo — disse.

— Até o que tava quebrado.

Jota sentiu.

Sentiu cada Pedra como parte dele.

Sentiu cada PIP como batida de coração coletivo.

Sentiu o ouro não como riqueza, mas como ligação.

A mina inteira era uma só Pedra agora.

Uma só energia.

Uma só vida.

O professor pegou a mão de Jota, pôs em cima da Pedra mãe.

A menina pôs a dela por cima.

Três mãos.

Três gerações.

Um toque.

A luz explodiu, mas não cegou; abraçou.

E ele entendeu.

A jornada nunca foi achar ouro sozinho.

Era achar quem racha a pedra contigo.

Quem encaixa o fragmento que falta.

Quem transforma PIP em veia, em vida, em esperança.

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Sinopse Narrativa:

Semanas após levar a pedra pra casa, Jota organiza e desce numa mina profunda com poucos escolhidos. Encontra uma Pedra gigante que pulsa - a mãe da pedra que tem em casa. PIPs (pedrinhas douradas vivas) começam a brotar. Uma menina baixinha (neta do professor) ajuda a abrir a Pedra. Jota chama o professor de volta da aposentadoria. Os três formam círculo e encaixam PIPs na Pedra mãe, conectando todas as pedras da mina num sistema radicular dourado vivo. A jornada é sobre conexão, não sobre achar ouro sozinho.

Gênero Realismo Mágico
Tom Esperançoso, Místico, Onírico
Timeline Curitiba, Guartelá, Tibagi
Versão Jota Normal
Categoria Conexão Espiritual, Realismo Mágico
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Conexão vs solidão, Fragmentos que viram totalidade, Gerações trabalhando juntas
Locais garganta da terra, Mina profunda, paredes úmidas com veias de quartzo pulsando, poço negro
Palavras-Chave conexão, fragmentos, menina baixinha, Mina profunda, Pedra mãe, PIPs, professor, raiz de ouro
Mina descrita como útero da terra, paredes úmidas e quentes com veias de quartzo azul-esverdeadas. Ar pesado rouba ano de vida e devolve segredo. Cheiro: enxofre, terra molhada, ouro novo com cheiro de sangue. PIPs: pedrinhas pequenas, douradas, vivas, pulam feito pipoca, queimam quando tocadas (exceto pela menina), dezenas viram centenas. Pedra grande: casca grossa rachada em veias douradas pulsantes, geme quando batida, pulsa no ritmo do coração de Jota. Raiz de quartzo brotou do chão. Professor: 75 anos, saiu da aposentadoria. PIP virou veia/aliança no dedo do professor. "Fragmento com fragmento - uma pedra sozinha é só pedra. Mil pedras ligadas viram mundo."
 

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