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Laser em Curitiba

Extensão: 3.263 palavras | Leitura: 17 min

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O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 estava estacionado na sombra de uma árvore velha na Praça Osório, duas portas fechadas, vidro embaçado pelo frio da tarde. Jota saiu do carro com a mochila laranja pendurada no ombro direito, camiseta regata vinho grudada no peito pelo suor frio, tênis surrado batendo no asfalto rachado com o cadarço direito solto como sempre. Ele nunca amarrava aquela porra direito.

O Edifício Tijucas erguia-se à frente como uma boca de concreto aberta pro céu cinza. Prédio antigo, fachada descascada, janelas escuras demais mesmo pra tarde nublada. Jota entrou, atravessou o saguão de piso xadrez gasto, e foi até o elevador enferrujado que gemia a cada andar.

Sentia que precisava estar nesse prédio.

Vigésimo sétimo andar.

A porta do apartamento estava entreaberta. Jota empurrou com o ombro, entrou. O lugar era vazio: paredes descascadas, chão de tábua rangendo, uma janela grande aberta pro nada. Vento gelado entrava como lâmina invisível, cortando a pele, trazendo o cheiro de chuva que nunca chegava.

Curitiba lá embaixo parecia respirar errado.

Os prédios se inclinavam levemente, como se estivessem bêbados. O céu cinza tinha nuances de vermelho nas bordas, como se estivesse sangrando devagar. As ruas formavam ângulos que não faziam sentido, curvas impossíveis, esquinas que dobravam duas vezes pro mesmo lado.

Jota caminhou até a varanda, encostou na grade de ferro frio. A mochila laranja pesava nas costas. Dentro dela, o caderno de capa dura marrom batia contra as costas a cada movimento. O isqueiro amarelo queimava no bolso da calça, pesado, quente, como se estivesse vivo.

E o cadarço direito do tênis surrado enroscou numa barra de ferro solta da varanda.

Ele tropeçou.

Foi aí que o ataque veio.

Jota nem viu direito. Só sentiu o empurrão brutal, mãos invisíveis ou reais demais, jogando o corpo dele contra o canto da sacada. Por um instante, o equilíbrio sumiu. O mundo virou noventa graus. O vazio lá embaixo abriu a boca, vinte e sete andares de queda livre, asfalto esperando lá no fim.

Jota esticou a mão, agarrou a grade.

Caiu de joelhos no chão de concreto rachado da varanda, ar saindo dos pulmões num grunhido. E foi exatamente nesse segundo que o agressor passou por cima dele, corpo desequilibrado demais, rápido demais, sem conseguir parar.

A pessoa que o empurrou foi cortada ao meio. Alguém que o cortou voou pro vazio.

Não gritou. Só sumiu.

Jota ficou de joelhos, respirando fundo, coração batendo na garganta. O cadarço do tênis ainda estava enroscado na barra de ferro. Ele olhou pro próprio pé, confuso, e então ouviu a voz.

— Cuidado, Jota.

Jota virou a cabeça.

Rand Oliveira estava parado na porta da varanda, macacão azul sujo de graxa, ferramentas penduradas no cinto, barba por fazer, olhos cansados mas atentos. Ele segurava uma chave inglesa na mão direita, como se tivesse acabado de consertar algo.

— Rand? Que que você…

Mas Rand já tinha sumido.

Jota piscou. A porta da varanda estava vazia. Ninguém. Só o vento frio entrando, só o som distante de Curitiba respirando errado lá embaixo.

Jota se levantou devagar, desamarrou o cadarço do ferro, e foi nesse momento que sentiu.

Poder.

Subindo pelos dedos, atravessando os braços, enchendo o peito como eletricidade pura. Ele levantou a mão, olhou pras próprias palmas. Tinha empurrado o agressor sem tocar nele. Algo dentro dele acordou no limite.

Jota correu.

Jota desceu as escadas do Edifício Tijucas três degraus de cada vez, mochila laranja batendo nas costas, camiseta regata vinho grudada de suor. O prédio parecia não ter fim: corredores que dobravam pra lugar nenhum, portas que se repetiam, números de apartamento que não seguiam ordem.

Quando finalmente chegou na rua, o ar estava ainda mais frio.

Todos olhavam para cima, assustados, mas continuavam seu caminho, como se estivessem fugindo de algo invisível.

E então Jota viu os dois.

Mama apareceu primeiro, correndo pela calçada, cabelo preso num rabo de cavalo, jaqueta jeans aberta, olhos arregalados. Cabrito vinha atrás dela, mais alto, ombros largos, barba cheia, mãos nos bolsos mas tenso.

— Gera! — Mama gritou, parando na frente dele, ofegante. — Você viu o que está acontecendo aqui?

Enquanto Jota respirava um pouco Cabrito emendou.

— Escutamos explosões, barulhos, parece que de todo lugar.

Jota respirou fundo, tomou fôlego.

— Não sei. Mas estava no prédio e alguém tentou me empurrar lá de cima.

Mama arregalou os olhos.

— Como assim empurrar?

— Também não sei, só sei que quase caí e senti medo e fugi.

Cabrito olhou em volta, nervoso, depois de volta pra Jota.

— Você viu quem foi?

— Não. Só… voou antes de mim.

Silêncio pesado. Mama abriu a boca pra perguntar mais, mas Cabrito pegou ela pelo braço.

— Depois a gente entende. Estou com uma sensação estranha, vamos sair daqui agora, vem com a gente, tá perigoso pra caralho.

Mal tinham dado três passos, o laser surgiu.

Era uma linha vermelha, fina como fio de cabelo, silenciosa como respiração. Cortava o ar sem som, sem calor visível, só aquela luz vermelha intensa que atravessava tudo.

Uma mulher vinha andando na direção deles.

Loira, casaco cinza, bolsa pendurada no ombro, olhando pro celular, distraída. O laser passou por ela de cima pra baixo, da cabeça aos pés. Por um segundo, nada aconteceu. Ela continuou andando, dois passos, três.

Então o corpo se abriu.

Metade direita caiu pro lado direito. Metade esquerda pro lado esquerdo. O corte era tão perfeito que dava pra ver cada camada: pele separada limpa, músculo vermelho-escuro exposto, órgãos ainda pulsando por um instante antes de desligar, osso branco cortado como se fosse manteiga mole. A coluna vertebral ficou exposta no meio, cada vértebra dividida ao meio com precisão cirúrgica.

Não teve grito.

Só o som úmido de carne batendo no asfalto, duas metades caindo ao mesmo tempo, sangue começando a escorrer devagar, formando poça vermelha que se espalhou pelos paralelepípedos da Praça Osório.

Mama gritou.

Cabrito puxou ela pro chão, segurando pelos ombros.

E o laser apareceu próximo a Jota.

Horizontal.

Passou pela barriga dele na altura do umbigo, atravessando a camiseta regata vinho, rasgando o tecido como se fosse papel molhado. Jota sentiu o calor primeiro: queimadura profunda, fogo cortando pele, músculo, vísceras.

Olhou pra baixo.

A camiseta estava rasgada ao meio na horizontal, mas não completamente, somente uns dez centímetros. A pele da barriga tinha um corte limpo, saiu um pouco de sangue, mas a borda cauterizada pelo calor mantinha ainda aberta. Só dava pra ver um fino filete de sangue.

Mas não doía.

Não doía como deveria.

O laser parou e não feriu ou machucou mais ninguém.

Jota levantou as duas mãos, colocou uma de cada lado do corte, e empurrou. Com força mental pura, com vontade bruta, com poder que ele nem sabia de onde vinha. A carne respondeu. As bordas do corte se aproximaram, se tocaram, se fundiram. A pele voltou a fechar como se nunca tivesse sido cortada, deixando só uma linha rosa-clara no meio da barriga.

Mama deu um passo à frente, estendeu a mão como se fosse tocar o corte, mas parou no ar.

— Gera, que que…

O laser riscou de novo, mais perto. Cabrito puxou ela novamente pro chão.

— Saiam daqui — Jota disse.

Correram. Se esconderam atrás de um muro baixo, respiração curta, coração batendo forte.

O isqueiro amarelo no bolso começou a queimar.

Não era calor normal. Era fogo atravessando o tecido, marcando a pele da coxa. Jota enfiou a mão no bolso, pegou o isqueiro. Estava tão quente que quase largou. A chama acendeu sozinha, azul intensa, apontando pra cima.

Pro Edifício Tijucas.

Ao mesmo tempo, sentiu. Uma presença no topo do prédio, pesada, antiga, chamando.

E Curitiba tremeu.

As ruas começaram a se inclinar. Prédios se dobraram devagar, como se fossem feitos de borracha quente. O céu vermelho pulsou mais forte, descendo como teto desabando. O asfalto rachou, paralelepípedos se soltando, formando buracos que não tinham fundo.

Mama segurou o braço de Cabrito, olhos arregalados.

— A cidade tá…

— Eu sei — Jota cortou, olhando pro isqueiro. A chama azul não mentia, só apontava. — É lá em cima. Eu devo subir. Já sentia isso desde que entrei no prédio, mas tive medo. Se eu não for, mais gente morre.

Mama deu um passo à frente, olhou nos olhos dele.

— Gera, o que tá acontecendo com você? O laser te cortou, mas você… fechou o corte. Como?

Jota tocou o peito, onde a linha rosa ainda ardia.

— Não sei explicar. Mas eu senti. O laser não cortou pra matar. Cortou pra avisar. Quem tá lá em cima não quer vocês. Quer eu. Se eu ficar aqui, vai matar mais pessoas.

Silêncio pesado. O prédio gemia ao fundo, Curitiba tremendo.

Cabrito olhou pra Mama, depois pra Jota.

— Você está maluco? Como você sabe disso tudo?

Cabrito olhou pro céu vermelho pulsando, depois pro Edifício Tijucas que parecia crescer, sugar tudo pra dentro, depois pra Jota.

— Se tu pensa assim, então vai lá, eu não iria — disse, firme. — Recomendo correr pro outro lado, o mais longe daqui.

Mama hesitou, mas Cabrito pegou ela pela mão.

Ela olhou pra trás uma vez.

— Não vá, Gera.

Jota acenou, guardou o isqueiro (ainda quente, ainda aceso no bolso).

E voltou pro Edifício Tijucas.

O saguão estava vazio. Piso xadrez rachado, paredes suando umidade, silêncio pesado. Jota olhou pro elevador enferrujado. Porta entreaberta, cabo de aço partido pendendo solto pelo buraco escuro. O laser tinha cortado.

Escadas então.

Começou a subir, coração batendo rápido demais, respiração curta. A mão direita enfiou no bolso da calça, pegou o isqueiro amarelo, acendeu. A chama era amarela, normal.

Três degraus depois acendeu de novo. A chama tremeu, ficou azul nas bordas.

Mais alguns degraus. Acendeu outra vez. A chama agora era totalmente azul, mais alta, queimando forte sem vento nenhum.

Quanto mais subia, mais azul a chama ficava.

Alguém estava esperando lá em cima.

Cada degrau que subia, sentia o medo crescer.

Medo de quem era o homem que esperava. Medo de Mama e Cabrito morrerem lá embaixo. Medo de não conseguir segurar Curitiba. Medo de cair do vigésimo sétimo andar de novo. Medo de tudo desmoronar.

Ao subir encontrava pessoas fatiadas, mas somente partes, parecia que pouco antes de Jota chegar ali, essas pessoas eram eliminadas, alguém estava limpando o caminho para ele subir.

E quanto mais subia, mais medo sentia e algo dentro dele crescia.

Força subindo pelos braços, músculos ficando tensos, reflexos acelerando. O corpo todo começou a brilhar: aura fraca no começo, azul-clara, transparente. Depois ficou mais forte, mais densa, cor mudando pra verde, depois dourada, depois vermelha.

Jota parou no meio da escada, olhou pras próprias mãos. A aura vermelha pulsava ao redor dos dedos como fogo frio. Ele fechou o punho, sentiu o poder se concentrar, e quando abriu a mão de novo uma onda de força invisível explodiu pra fora, rachando a parede de concreto ao lado.

A última escada rangeu mais forte. O ar ficou mais frio, mais fino. Cheiro de ferrugem e ozônio.

O terraço do Edifício Tijucas era um quadrado de concreto rachado, cercado por grade baixa de ferro enferrujado, céu aberto em cima. Curitiba lá embaixo parecia uma maquete quebrada: prédios inclinados, ruas tortas, céu vermelho-escuro sangrando nas bordas. O vento soprava forte, gelado, trazendo o cheiro de tempestade que nunca chegava.

E ele estava lá.

Alto. Mais de dois metros fácil. Corpo coberto de cicatrizes que brilhavam como brasas apagando devagar, linhas vermelhas e douradas percorrendo os braços, o peito, o pescoço. Aura preta e densa ao redor do corpo, vibrando com poder antigo, cansado, mas ainda letal. Olhos fundos, barba grisalha, mãos grandes e cheias de calos.

Jota reconheceu.

Não sabia de onde. Não sabia quando. Mas conhecia aquele homem. Já tinha lutado com ele antes. Já tinha vencido ele antes. Em outro sonho, em outra vida, em outra versão de Curitiba que não existia mais.

O homem das cicatrizes sorriu. Um sorriso cansado, respeitoso.

— Você demorou, Jota.

Jota parou a três metros de distância, camiseta regata vinho rasgada no meio, aura vermelha pulsando ao redor do corpo.

— Eu te conheço — Jota disse, voz rouca.

— Conhece — o homem confirmou. — Faz tempo.

Ele deu um passo à frente, mãos nos bolsos, relaxado.

— Você já me quebrou antes. Agora eu vim devolver o favor.

Jota franziu a testa.

— Como?

O homem das cicatrizes não respondeu. Só tirou algo do bolso.

Era uma caixa de metal. Pequena, do tamanho de duas mãos juntas, pesada, fria. A superfície estava coberta de arranhões profundos, marcas de batalha, amassados que pareciam ter sido feitos por golpes impossíveis. Não tinha fechadura, não tinha dobradiça visível. Só uma tampa que parecia fundida no corpo da caixa.

O homem das cicatrizes segurou a caixa com as duas mãos, estendeu pra Jota.

— Toma. Abre.

Jota hesitou.

— O que? Por que me atacou? O que tem dentro?

— O que você precisa.

Jota pegou a caixa. Era mais pesada do que parecia, como se tivesse um pedaço de estrela morta lá dentro. A superfície era gelada, tão fria que queimava as mãos. Ele olhou pro homem das cicatrizes, procurando sinal de armadilha, mas só encontrou aquele sorriso cansado e honesto.

Jota segurou a tampa da caixa.

E abriu.

Luz.

Não era luz branca, nem dourada, nem nenhuma cor que tivesse nome. Era luz pura, como se fosse a essência de todas as cores ao mesmo tempo, concentrada num ponto impossível. A luz saiu da caixa como explosão silenciosa, atravessou as mãos de Jota, subiu pelos braços, entrou no peito, encheu os pulmões, queimou cada célula, cada nervo, cada pensamento.

Jota gritou.

Não de dor. De transformação.

A aura ao redor do corpo dele explodiu. Vermelho virou dourado, dourado virou branco, branco virou algo que não tinha cor. O poder multiplicou mil vezes em um segundo. Cada batida do coração era um terremoto. Cada respiração era um furacão. O corpo inteiro vibrava como se fosse feito de energia sólida.

Curitiba lá embaixo tremeu de verdade.

Prédios pararam de se inclinar. Ruas voltaram a fazer sentido. O céu vermelho começou a clarear, dourado subindo pelas bordas, empurrando o sangue pra longe.

E o laser, aquela linha vermelha que cortava tudo, apagou. Simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse sido real.

Jota caiu de joelhos no concreto do terraço, mochila laranja escorregando das costas, camiseta regata vinho rasgada caindo em pedaços. A aura ao redor dele pulsava tão forte que o ar tremia, ondas de calor distorcendo a realidade.

O homem das cicatrizes abaixou, ficou de cócoras na frente dele.

— Bem-vindo ao próximo nível, Jota — disse, voz suave.

Jota levantou a cabeça, olhos brilhando com luz própria.

— Quem é você?

O homem sorriu.

E não respondeu.

Jota insistiu.

— Por que atacar os outros? Por que me atacar?

O homem só sorria.

Quando Jota conseguiu ficar de pé de novo, o homem das cicatrizes ainda estava lá. Ou não estava. Era difícil dizer. A figura parecia oscilar entre presente e ausente, sólida e transparente, como se estivesse saindo de fase com a realidade.

Jota olhou pras próprias mãos. A aura tinha diminuído, mas ainda pulsava fraca ao redor dos dedos, branca e dourada, quente mas não queimando. O poder estava lá, controlado agora, obediente.

Ele pegou a mochila laranja do chão, colocou nas costas. O caderno de capa dura marrom ainda estava lá dentro, intacto. O isqueiro amarelo ainda queimava no bolso da calça. O tênis surrado ainda tinha o cadarço direito solto, batendo no tornozelo.

Jota olhou pro homem das cicatrizes uma última vez.

O homem acenou com a cabeça, lento, respeitoso.

E sumiu.

Ou não sumiu. Jota piscou, e quando abriu os olhos de novo o terraço estava vazio. Só ele, só o vento frio, só Curitiba lá embaixo respirando normal de novo.

O elevador do Edifício Tijucas tinha voltado ao normal, como se nada tivesse acontecido. Jota desceu por ele, observando o cabo de aço intacto, a porta funcionando suave.

Quando saiu do elevador no térreo, Mama e Cabrito estavam no saguão. Tinham voltado quando notaram que tudo parecia ter retornado ao normal. Os olhos deles se arregalaram quando viram Jota aparecer.

— Gera — Mama levantou, caminhou até ele. — Você tá bem?

Jota olhou pra ela, depois pro Cabrito. A mulher cortada ao meio tinha sumido. Não tinha corpo, não tinha sangue, não tinha nada. Como se nunca tivesse acontecido.

— Tô — Jota respondeu.

Cabrito olhou pro corpo de Jota, procurando o corte na barriga. Mas não tinha nada. Só uma linha rosa-clara na pele, quase invisível.

— O que aconteceu lá em cima? — Cabrito perguntou.

Jota respirou fundo, olhou pras próprias mãos.

— Não sei dizer.

Eles saíram do Edifício Tijucas juntos, os três, Praça Osório já voltando ao normal. Gente andando devagar, olhando pro celular, sem pressa. O céu estava cinza de novo, nuvens baixas e pesadas, cheiro de chuva que ainda não tinha chegado.

O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 continuava estacionado debaixo da árvore velha, exatamente onde Jota tinha deixado. Duas portas fechadas, vidro embaçado, banco do motorista afundado pelos 110 kg.

Jota abriu a porta, jogou a mochila laranja no banco do carona, sentou, ajustou o retrovisor. Mama e Cabrito ficaram do lado de fora, olhando pra ele através do vidro.

— Vai ficar bem? — Mama perguntou, voz abafada pelo vidro.

Jota sorriu cansado.

— Já tô bem.

Cabrito bateu no teto do carro, duas vezes, despedida silenciosa.

Jota ligou o Gol Bolinha. O motor 1.0 16v a etanol tossiu, engasgou, pegou. Cheiro de etanol velho encheu o ar. Jota engatou a primeira, soltou a embreagem sem direção hidráulica, e saiu devagar pela Praça Osório.

No retrovisor, Mama e Cabrito ficaram pequenos, depois sumiram.

Jota dirigiu pelas ruas de Curitiba, que agora faziam sentido de novo. Rua XV, Marechal Deodoro, Avenida Sete de Setembro. Tudo sólido, tudo real, tudo normal.

Mas dentro dele, o poder ainda pulsava.

Fraco, controlado, mas vivo.

Ele olhou pro isqueiro amarelo no porta-copos, pro caderno marrom dentro da mochila laranja no banco do carona, pro tênis surrado no pé com o cadarço direito solto batendo contra o pedal.

Jota sorriu.

Ele já não era mais o que foi cortado.

E acelerou.

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Sinopse Narrativa:

Jota vai ao 27º andar do Edifício Tijucas. Agressor tenta empurrá-lo da varanda mas cai no vazio. Rand aparece e desaparece alertando. Jota descobre poderes. Laser vermelho corta Curitiba ao meio, matando mulher e ferindo Jota que se auto-cura. Mama e Cabrito aparecem. Isqueiro guia Jota de volta ao prédio. Sobe escadas, aura evolui com o medo. No terraço encontra homem das cicatrizes que entrega caixa de metal. Ao abrir, luz pura explode transformando Jota completamente, multiplicando poder mil vezes. Curitiba se restaura. Homem desaparece. Jota desce e reencontra amigos.

Gênero Ação Sobrenatural, Ficção Científica, Realismo Mágico
Tom Apocalíptico, Tenso
Timeline Onírico, Paralelo
Versão Jota Apocalíptico, Transformador
Categoria Ação, Sobrenatural, Transformação
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Despertar de poder, Transformação através do medo
Locais 27º andar, Avenida Sete de Setembro, Curitiba, Edifício Tijucas, escadas, Marechal Deodoro, Praça Osório, Rua XV, ruas de Curitiba, saguão piso xadrez, terraço
Palavras-Chave auto-cura, Cabrito, caixa de metal, Curitiba distorcida, Edifício Tijucas, homem das cicatrizes, laser vermelho, Mama, mulher cortada, poder multiplicado, transformação
Curitiba distorcida: prédios inclinados bêbados, céu cinza com vermelho nas bordas sangrando, ruas com ângulos impossíveis, esquinas que dobram duas vezes pro mesmo lado. Laser: linha vermelha fina como fio de cabelo, silenciosa, corta mulher ao meio perfeitamente (cada camada visível), corta Jota horizontalmente 10cm de profundidade. Jota se auto-cura empurrando carne com força mental. Aura de Jota evolui: azul-clara → verde → dourada → vermelha → branca → sem cor. Poder multiplica 1000x. Homem das cicatrizes: +2m, cicatrizes brilham como brasas (linhas vermelhas e douradas), aura preta densa, poder antigo. Caixa de metal: pequena, pesada, fria, sem fechadura/dobradiça, tampa fundida, arranhões profundos. Luz da caixa: essência de todas as cores, atravessa corpo. Rand Oliveira aparece e desaparece com macacão azul, chave inglesa, alerta "Cuidado, Jota".
 

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