A sala de aula tem paredes brancas, carteiras enfileiradas, quadro cheio de palavras em inglês. A professora fala rápido demais. Slide passando, todo mundo anotando. Jota está no fundo, mochila laranja jogada embaixo da carteira, caderno de capa dura marrom aberto na frente, caneta na mão. A regata vinho está colada no corpo. Suor. Frio lá fora, frio maior aqui dentro. Curitiba no inverno é assim, frio em toda parte.
Ele tenta acompanhar.
Present perfect continuous. Have been doing. Has been working.
Anota no caderno. Uma frase inteira em português no meio: “por que caralhos eu to fazendo curso de inglês?”
Mete a mão no bolso da mochila. Sente o isqueiro amarelo. Já caiu na água, já pegou fogo, já foi esquecido. Mas sempre volta. Gira a rodinha sem acender. Tique sem motivo.
A professora continua. Sotaque americano forçado. Mas quando ela fala “okay, pessoal”, o R carregado de Curitiba escapa. Jota sorri. Percebe de novo. Não está em outro país. Nunca esteve. É Curitiba. Sempre foi. Rua do Professor lá fora. Bosque Capão da Imbuia duas quadras dali. O Gol Bolinha Cinza estacionado ali em frente à escola, esperando pelos 110 kg que vão afundar o banco daqui a pouco.
A apresentação continua.
Jota olha ao redor. Alunos jovens. Ele é o mais velho. 44 anos, 1,83 m, 110 kg de gordo que ainda acredita que aprender inglês vai mudar alguma coisa. Talvez viajar. Talvez conseguir trampo melhor. Talvez apenas ter algo pra fazer além de dirigir o Gol sem ar-condicionado e pensar em mulheres que não querem ele.
O slide muda.
“Okay, now let’s watch a short video.”
As luzes diminuem.
A professora aperta play.
A tela acende.
E então acontece.
A narração explode pelas caixas de som:
OLHA A MULHER LINDA QUE APARECEU NA SALA, AMIGOS! QUE BELEZA, QUE ELEGÂNCIA, QUE GOLAAAAAÇO DE ESTILO!
Jota se assusta. Olha ao redor. Ninguém mais parece ter ouvido. Ou fingiram não ouvir. Ou ele tá ficando louco.
Na tela, uma mulher de cabelos castanho-escuros longos entra no quadro. Câmera em close. Rosto perfeito. Olhos verdes claros que congelam qualquer um. Corpo escultural, tatuagens no braço esquerdo, biquíni preto marcando tudo. Ela anda devagar pelo corredor de uma sala parecida com essa. Todos viram o pescoço. Até a professora para de falar.
Satogos Cruel.
Jota reconhece na hora.
Mesmo sem nunca ter visto aquele vídeo antes, ele sabe que é ela. A morena inalcançável. A deusa que aparece nos sonhos e desaparece na vida real.
A narração continua, só na cabeça de Jota agora:
E LÁ VAI ELA, SENHORES! PASSOS FIRMES, OLHAR DECISIVO, O DOMÍNIO TOTAL DO ESPAÇO! ESSA MULHER NÃO PRECISA DE NARRAÇÃO, MAS EU VOU NARRAR MESMO ASSIM PORQUE É IMPOSSÍVEL FICAR QUIETO DIANTE DE TANTA PERFEIÇÃO!
Jota pisca.
O vídeo acaba.
As luzes voltam.
A professora limpa a garganta.
“So, any questions about the video?”
Silêncio.
Jota levanta a mão sem pensar.
— Quem era aquela mulher? — ele pergunta em português.
A professora franze a testa.
— In English, please.
Jota abaixa a mão. Pergunta em inglês e ela fala que era uma artista famosa qualquer. Não importa. Para ele foi outra pessoa.
A aula termina vinte minutos depois.
Jota guarda o caderno na mochila laranja. Fecha. Joga nas costas. Sai da sala. O corredor está vazio. Frio entrando pelas janelas abertas. Ele desce as escadas. Sai pra rua. A noite de Curitiba já caiu. O vento corta a pele. A regata vinho não ajuda em nada.
Dá alguns passos em direção ao Gol Bolinha estacionado ali em frente.
O cadarço solta.
Jota para.
Ajoelha no chão frio da calçada. Tênis surrado, dedão esquerdo espiando pelo buraco. Amarra de novo. Nó mal feito, como sempre.
Levanta o olhar.
E vê.
Ali no ponto de ônibus, a uns vinte metros, uma mulher alta. Pernas intermináveis. Sainha rosa. Cabelo castanho-escuro ondulado caindo nos ombros.
Maju Kuzito.
O cadarço fez ele parar.
Fez ele ver.
Destino filho da puta.
Jota levanta, continua andando.
O ponto de ônibus tem mais duas pessoas esperando. Luzes brancas frias da rua iluminando tudo.
E ela está lá.
Maju Kuzito.
Alta pra caralho. 1,78, talvez 1,80. Pernas intermináveis. Cabelo castanho-escuro ondulado caindo nos ombros. Jaquetinha jeans curta. Blusinha branca decotada. Sainha rosa mini que mal cobre a bunda. Apesar do frio. Ela olha pro celular. Nem percebe Jota chegando.
Ele para a três metros de distância.
Respira fundo.
A narração volta:
ATENÇÃO, SENHORES! ELE ENCONTROU A MAJU NO PONTO! A MULHER QUE ELE QUER MAS NÃO CONSEGUE! SERÁ QUE VAI TER DRIBLE? SERÁ QUE VAI TER CONTRA-ATAQUE? A TENSÃO ESTÁ NO AR!
Jota balança a cabeça. Tenta tirar a narração dali. Não funciona.
Ele se aproxima.
— Oi — ele diz.
Maju levanta o olhar. Olhos castanho-claros, quase mel. Piercing de argolinha no nariz. Sobrancelhas grossas e bem desenhadas. Ela não sorri.
— Oi — ela responde. Voz fria. Não parece surpresa. Nem feliz. Nem triste. Apenas… neutra.
E O JOTA ABRE O JOGO COM UM ‘OI’ CLÁSSICO! JOGADA SEGURA, SEM ARROJO, MAS QUE PODE FUNCIONAR SE ELE SOUBER CONDUZIR A BOLA!
Jota ignora a narração. Tenta, pelo menos.
— Como vai? — ele pergunta.
Maju dá de ombros.
— Tudo bem.
Silêncio.
Jota não sabe o que falar. Ela volta a olhar pro celular. Dedos longos digitando rápido. Unha pintada de preto. Ele olha pras pernas dela. Coxas grossas. Bunda empinada mesmo com ela parada. O vento balança a sainha rosa.
E ELE OLHA PRA ELA, AMIGOS! OLHA COM AQUELA INTENSIDADE DE QUEM JÁ PERDEU ESSE JOGO ANTES, MAS AINDA TEM ESPERANÇA DE UM EMPATE NO ÚLTIMO MINUTO!
— As aulas são ótimas — Maju diz de repente, sem tirar os olhos do celular. — Bem específicas, sabe?
Jota pisca.
— Hã?
— As aulas de inglês — ela continua. Agora olha pra ele. Diretamente. Olhos que o atravessam. — Você tá fazendo, né? Vi você saindo lá da escola.
INFORMAÇÃO PRIVILEGIADA! ELA ESTAVA OBSERVANDO! SERÁ QUE AINDA HÁ JOGO? SERÁ QUE O JOTA TEM CHANCE?
— Ah, sim — Jota responde. — Tô fazendo. É… é bom. Bem específico mesmo.
Ela sorri. Não é um sorriso quente. É aquele sorriso de canto de boca. Debochado. Como quem sabe algo que ele não sabe.
— Específico — ela repete. Quase pra si mesma.
Jota abre a boca pra responder.
Mas o ônibus chega.
Alimentador da linha Capão da Imbuia.
Freio pneumático chiando. Porta se abrindo. Motorista cansado olhando pro nada.
Maju guarda o celular. Ajusta a jaquetinha. Olha pra Jota.
— Tchau — ela diz.
Seca. Sem “foi bom te ver”. Sem “a gente se fala”. Só tchau.
E ELA VAI EMBORA, AMIGOS! SEM OLHAR PRA TRÁS! SEM DAR CHANCE DE RESPOSTA! É O CONTRA-ATAQUE MORTAL! O JOTA FICOU PARADO NO MEIO DE CAMPO ENQUANTO ELA JÁ SAIU COMEMORANDO O GOL!
Maju entra no ônibus.
A porta fecha.
O ônibus sai.
Jota fica parado no ponto. Vento frio batendo no rosto. Regata vinho grudada de suor frio agora. Mochila laranja pesando nas costas.
Ele olha pro ônibus sumindo.
E O JOGO CONTINUA, AMIGOS! MAS PRA ELE… PRA ELE O PLACAR JÁ ESTÁ DEFINIDO. DERROTA POR W.O. DERROTA POR DESISTÊNCIA. DERROTA POR NEM TER ENTRADO EM CAMPO!
Jota suspira.
Fecha os olhos.
A narração não para.
MAS ESPERA! ELE AINDA ESTÁ DE PÉ! OLHA SÓ, SENHORES! O JOTA NÃO SENTOU NO BANCO! NÃO VOLTOU PRO VESTIÁRIO! ELE ESTÁ ALI, FIRME, ESPERANDO O PRÓXIMO LANCE!
Jota abre os olhos.
Não há próximo lance.
As outras pessoas já foram embora. Só ele. E o vento. E o frio. E a narração que não sai da cabeça.
Fecha os olhos de novo.
E começa a pensar.
Na primeira vez que viu a Maju. Anos atrás. Ela de calça comprida de moletom, ele de bermuda e chinelo. Achou que tinha chance.
Nas mensagens que mandou por quase dois meses. Bom dia, boa tarde, boa noite. Ela respondia. Mas sempre curto. Sempre depois de horas. Ela nunca desenvolvia, sempre sucinta.
Nos convites. Cinema. Parque. Só um café. Ela sempre tinha algo. Sempre “quem sabe outro dia”.
No dia que ela disse, clara: “Jota, você é legal, mas eu não quero nada.”
E ele continuou.
Porque ele sempre continua.
Sempre aperta demais.
Sempre força.
Até ele entender que só ele estava jogando.
A narração volta, baixa agora:
E ELE REPASSA, AMIGOS. CADA LANCE. CADA ERRO. CADA INSISTÊNCIA QUE AFASTOU ELA MAIS. MAS AINDA ESTÁ DE PÉ. PORQUE O JOTA NÃO SABE DESISTIR. PRA BEM OU PRA MAL.
Jota abre os olhos.
Procura algo na mochila laranja. Abre o zíper. Enfia a mão. Sente o caderno de capa dura marrom. Sente algo menor. Plástico. Amarelo.
O isqueiro.
Tira da mochila. Amarelo desbotado. Sobrevivente de tudo.
Gira a rodinha.
Não acende.
Gira de novo.
Acende. Chama pequena tremendo no vento.
Fecha.
Gira.
Não acende.
Gira.
Acende.
Fecha.
Gira.
Não acende.
Gira.
Gira.
Gira.
E O ISQUEIRO DECIDE, AMIGOS! VAI ACENDER? NÃO VAI? É SORTE? É AZAR? O JOTA PERGUNTA PRO ISQUEIRO AMARELO COMO SE ELE TIVESSE RESPOSTA!
Jota não para de girar.
A rodinha range no silêncio. Tic. Tic. Tic.
Metrônomo do arrependimento.
E então.
A luz do poste pisca.
Uma vez.
Jota olha pra cima.
Pisca de novo.
Tic.
Tic.
Tic.
No mesmo ritmo do isqueiro.
O telhado de metal do ponto vibra. Não é vento. É pulso. Batida. Como se o ponto inteiro tivesse coração.
ATENÇÃO, SENHORES! ALGO ESTÁ ACONTECENDO! O PONTO DE ÔNIBUS ESTÁ… ESTÁ VIVO! ESTÁ RESPIRANDO! É REAL OU É A CABEÇA DO JOTA QUE DESANDOU DE VEZ?
O frio aperta.
Jota continua girando o isqueiro. Não consegue parar. O polegar dói. Mas ele gira. Gira. Gira.
As luzes da rua começam a piscar também. Uma por uma. Da esquerda pra direita. Como dominó de eletricidade nervosa.
Tic. Tic. Tic.
Todas no mesmo compasso.
O telhado vibra mais forte.
O vento para.
Tudo para.
Menos a luz. Menos o isqueiro. Menos a narração.
INACREDITÁVEL, AMIGOS! O JOTA ESTÁ CONGELANDO! NÃO É METÁFORA! É LITERAL! AS MÃOS ESTÃO ROXAS! O CORPO ESTÁ TRAVANDO! ELE VIROU ESTÁTUA DE GELO E INSISTÊNCIA NO PONTO DE ÔNIBUS!
Jota olha pras próprias mãos.
Roxas.
Os dedos mal respondem.
Quanto tempo passou?
Não sabe.
A luz do poste pisca mais rápido agora. Tic-tic-tic-tic-tic.
O banco treme.
O mundo inteiro pulsa.
Jota não sente mais o frio.
Não sente mais nada.
Só a rodinha do isqueiro girando. Girando. Girando.
E A NARRAÇÃO CONTINUA, AMIGOS! PORQUE A NARRAÇÃO NUNCA PARA! MESMO QUANDO O JOTA CONGELA! MESMO QUANDO O MUNDO DESABA! A NARRAÇÃO ESTÁ AQUI! SEMPRE ESTEVE! SEMPRE VAI ESTAR!
E então.
Um carro passa.
Roda dianteira acerta um buraco na rua.
TÓÓÓM.
O barulho explode no silêncio.
Jota pisca.
As luzes param de piscar. Todas acesas. Normais.
O banco para de vibrar.
O vento volta.
O isqueiro ainda está na mão dele. Fechado. Frio.
Ele olha ao redor.
Tudo normal.
Quanto tempo ficou ali?
Não sabe.
As mãos voltam à cor normal devagar. Formigam. Doem.
Guarda o isqueiro de volta na mochila. As mãos tremem.
Não é de frio.
Respira fundo.
O ponto continua vazio. A rua continua fria. A narração continua na cabeça.
E ELE VOLTA, AMIGOS. VOLTA DO ABISMO. VOLTA DO CONGELAMENTO. AINDA DE PÉ. AINDA RESPIRANDO. AINDA NO JOGO.
Jota se levanta.
As pernas mal respondem.
Se vira.
Caminha de volta pro Gol.
O Gol Bolinha está esperando.
Cinza Urban 2003. Duas portas. Sem ar-condicionado. Sem direção hidráulica.
Mas com o banco do motorista afundado pelos 110 kg que vão sentar ali agora.
Jota abre a porta. Entra. Fecha. Cheiro de etanol velho. Cheiro de suor. Cheiro de vida que não para nunca.
Ele coloca a chave na ignição.
Gira.
O motor tosse.
Morre.
Gira de novo.
Pega.
E O GOL BOLINHA LIGA, AMIGOS! LIGA NA SEGUNDA TENTATIVA! É O MILAGRE DO ETANOL! É O GRITO DO MOTOR 1.0 16V QUE NÃO DESISTE NUNCA! É A VIRADA DE JOGO QUE NINGUÉM ESPERAVA!
Jota sorri.
A narração voltou.
Ou nunca saiu.
Ou nunca vai sair.
Ele joga o carro em primeira. Acelera. O Gol range. Sai da vaga. Desce a rua. Vento entrando pela janela sem ar-condicionado. Frio cortando o rosto. Regata vinho colada no corpo.
E LÁ VAI ELE, SENHORES! SOZINHO NO GOL BOLINHA! DIRIGINDO NA NOITE FRIA DE CURITIBA! SEM MULHER, SEM GLÓRIA, SEM CONQUISTA! MAS AINDA DE PÉ! AINDA JOGANDO! AINDA VIVO!
E O JOGO CONTINUA, AMIGOS! O JOGO SEMPRE CONTINUA! PORQUE O JOTA NÃO SABE DESISTIR! PORQUE O GOL BOLINHA NÃO SABE PARAR! PORQUE A VIDA, SENHORES, A VIDA É UM CAMPEONATO SEM FIM!
Jota vira a esquina.
Bosque Capão da Imbuia à esquerda. Escuro. Trilha que entra e sai no mesmo lugar. Como a vida dele. Como tudo que ele acabou de viver. Como a narração que nunca vai acabar.
Ele dirige até o sobrado na Rua do Professor.
Estaciona.
Desliga o motor.
Silêncio.
Por três segundos.
Então a narração volta. Mais baixa agora. Quase sussurrada:
E ele volta pra casa, amigos. Sozinho. Mas não derrotado. Nunca derrotado. Porque o Jota… o Jota é o jogador que perdeu todas as partidas, mas nunca abandonou o campo.
Jota desce do carro.
Fecha a porta.
Sobe as escadas do sobrado.
Entra.
Fecha a porta.
Tira a mochila laranja. Joga no chão. Tira a regata vinho. Joga na cama.
Deita.
Fecha os olhos.
E a narração, finalmente, sussurra a última narração do dia:
Boa noite, Jota. Amanhã tem mais jogo. Sempre tem.
E Jota dorme.
De verdade dessa vez.
Imagens piscam.
Aulas de inglês. Mulheres lindas. Mulheres que não o querem. Ônibus que vão embora. Isqueiros amarelos que sobrevivem a tudo. Luzes que piscam no ritmo do desespero.
A narração narrando tudo de novo.
Porque no fundo, ele sabe:
O jogo nunca acaba.
Só muda de placar.
