Capa do Capítulo

É Foda, Né, Velho

Extensão: 1.540 palavras | Leitura: 8 min

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Jota deixou o Sheldon na porta do prédio dela. Adolescente, mochila nas costas, cara de quem vai entrar numa prova oral sem ter estudado nada.

— Vou estar por perto, me envia mensagem?

O sobrinho só fez que sim com a cabeça e já foi. Nem olhou pra trás. Jota imaginava que o moleque ia terminar. Sheldon estava pensativo no caminho, voz baixa, ensaiando as frases como quem recita poesia ruim no espelho do banheiro.

Jota foi rodar.

Gol Bolinha cinza roncando baixo pela rua vazia, regata vinho suada grudada no corpo, mochila laranja jogada no banco do carona. Dentro dela, o caderno marrom de capa dura e o isqueiro amarelo — o sobrevivente — guardados no bolso lateral. O tênis surrado com cadarço direito solto batendo no assoalho toda vez que Jota pisava no freio.

Parou num posto na esquina. Comprou umas balas de hortelã, tomou um refrigerante num copinho de plástico só pra passar o tempo. Ficou encostado no capô do Gol, olhando o movimento da rua. Curitiba, sol forte, gente andando rápido.

Pensou no Sheldon lá em cima, suando frio, soltando o discursinho ensaiado. Pobre moleque. Jota imaginava.

Voltou pro carro. Ligou o rádio baixinho. Esperou. Recebeu o aviso.

Vinte e dois minutos depois, buzinou.

Sheldon estava sentado no meio-fio, olhando pro nada. Passou a mão no rosto, levantou devagar, entrou no carro sem dizer nada e bateu a porta com aquela força de quem quer quebrar o mundo.

— Não tem geladeira em casa? – Jota falou.

Sheldon respirou fundo.

Silêncio absoluto.

— E ai, como foi? – Jota tentou novamente.

Sheldon parecia tirar um peso de cinquenta quilos do peito.

— Terminado, tio.

— Caralho, parabéns! Como ela levou?

O moleque virou o rosto pra janela. Demorou uns segundos.

— Não, tio… ela terminou comigo.

Jota segurou o riso na garganta. Não era hora. Mas puta merda, a ironia era perfeita.

— Pera aí. Explica isso direito.

— Eu subi preparado pra caralho. Tinha o discurso inteiro na cabeça: “a gente quer coisas diferentes, você é incrível mas não tá rolando mais, blá blá blá”. Cheguei até a repetir no elevador, tio. Três vezes.

Parou. Engoliu seco.

— Aí ela abriu a porta já com a cara de quem vai soltar a bomba. Nem me deixou nem falar direito. “Sheldon, senta aí. A gente precisa conversar.” E eu já senti, sabe? Já sabia que tinha perdido o timing.

Jota conhecia bem aquele tom. Aquela frase. O moleque continuou, voz embargada:

— Sentei. Ela começou: que não sentia mais o mesmo, que tava confusa, que eu era um cara incrível e merecia alguém que realmente correspondesse, sabe como é.

Sheldon deu uma risada seca, sem graça nenhuma.

— Tudo que eu ia falar pra ela, tio. Palavra por palavra. Ela roubou meu texto. Eu só fiquei lá, feito um idiota, concordando com o meu próprio término. Tipo… “é, eu entendo”. “Faz sentido”. Saí de lá parecendo um imbecil.

Jota balançou a cabeça, sorriso de canto.

— Moleque, bem-vindo ao clube.

— Que clube?

— O clube dos caras que ensaiaram o término perfeito e tomaram invertida no último segundo.

Sheldon virou pra ele, franzindo a testa.

— Isso já aconteceu contigo?

— Inúmeras vezes, moleque. Mas duas doeram mais que as outras.

— Como assim?

— Porque eram as que eu mais queria ter o controle. E foram exatamente as que eu perdi mais feio.

Jota deu a partida no Gol, saiu devagar pela rua.

— A primeira foi com a Donaro. Eu tinha vinte e três anos, achando que era o pica das galáxias. Marquei encontro no Outback do Shopping Curitiba, cheguei com flores na mão pra suavizar o golpe. Flores, moleque. Eu era romântico até na hora de terminar.

Sheldon quase riu.

— E aí?

— Aí ela chegou antes. Firme, sem drama, sem choro. Sentou, olhou nos meus olhos e falou: “Geraldo, a gente precisa conversar.” Mesma porra que tu ouviu hoje. Eu fiquei ali segurando as flores que nem um trouxa, concordando com tudo que ela falava. Saí de lá com as flores murchas, o ego no chão e uma conta de refrigerante que eu paguei sozinho.

Sheldon soltou uma risada curta, meio amarga.

— E a segunda?

Jota fez uma curva, pegou a avenida.

— A segunda foi pior. Com a Daslu. A poucos anos. Eu pensava que tinha aprendido, ou pelo menos achava que tinha. Dessa vez não levei flores, não marquei em restaurante chique. Tentei ser direto, sem rodeios. Cheguei, abri a boca pra falar… ela já tava pronta. Segura, dona de si. Nem deixou eu terminar a primeira frase. Cortou na lâmina, educada mas direta. “Geraldo, eu já sei o que você vai falar. E eu concordo.”

— Caralho.

— Pois é. Parece praga, moleque. Toda vez que tu acha que vai ter o controle da situação, a vida te lembra que tu nunca teve porra nenhuma de controle.

Jota ficou quieto por um segundo.

— Sabe o que eu percebi depois, moleque? Que as duas fizeram o certo. A Donaro e a Daslu. Foram corajosas. Tiveram a coragem que eu não tava tendo. E no fundo, facilitaram tudo. Porque se dependesse de mim, ia enrolar, ia procrastinar, ia fazer eu continuar sofrendo. Eu já estava enrolando pra ser sincero, talvez até não tivesse tido coragem se dependesse só de mim. Elas me cortaram ou sei lá sentiram que não poderiam levar um fora de mim e foram mais espertas e me deixei levar. Rápido. Limpo. E foi o melhor pra todo mundo.

Parou.

— Mas na hora? Na hora dói pra caralho mesmo assim.

Sheldon ficou quieto, processando. Olhou pro tênis surrado do tio, cadarço direito solto como sempre, balançando com o movimento do carro.

— E tu fez o quê?

— Nada. Falei “tá bom, entendo” e saí. Igual tu. Porque não tinha o que fazer, moleque. Quando o timing te fode desse jeito, não sobra nem dignidade pra brigar.

— Eu fiz merda, então?

— Não, moleque. Tu fez o que tinha que fazer. Aguentou a porrada de pé. É isso que a gente faz. Agora siga em frente!

O Gol Bolinha seguia devagar pela cidade. Curitiba passando pelas janelas, gente na calçada, ônibus parando, comércio aberto. O mundo continuava girando, indiferente ao ego amassado de um moleque adolescente.

Jota ficou quieto, olhando a rua passar.

— Sabe o que eu faria diferente, se pudesse voltar?

Sheldon virou pra ele.

— O quê?

— Talvez… não ensaiar tanto. Talvez só chegar e falar. Ter feito antes. Ter sido mais verdadeiro comigo. Falar o que sentia. Sem esperar o momento.

Parou.

— Ou talvez não. É com certeza faria tudo igual e tomasse na cara do mesmo jeito.

Sheldon quase riu.

— Mas pelo menos você teria falado primeiro.

— É. Pelo menos isso.

Sheldon assentiu devagar. Olhou pro retrovisor, viu o olho vermelho, passou a mão no rosto tentando disfarçar.

— É foda, né, tio.

Jota botou a mão no ombro dele.

— É, moleque. Bem foda mesmo.

Seguiram em silêncio. Mas o silêncio agora era diferente. Não era mais de derrota. Era de quem acabou de tomar um soco, mas já entendeu que vai ter que levantar. Porque a vida não para. Não espera. Não pede licença.

Jota pensou em quantas vezes tinha ensaiado discursos que nunca saíram da boca, quantas vezes tinha perdido o timing, quantas vezes a vida tinha virado o jogo no último segundo.

E pensou no Sheldon ali do lado, começando a vida e acabando de aprender na pele o que todo homem ou ser humano aprende cedo ou tarde: que a gente nunca tá no controle de porra nenhuma. A gente só acha que tá.

Viraram pro Jardim das Américas. A casa do Popó tava ali na frente, portão verde, Gol Bolinha estacionando devagar.

Sheldon não desceu na hora. Ficou sentado, olhando pela janela.

— Tio?

— Fala.

— Valeu por ter ido comigo. E por… sabe. Por contar essas paradas.

Jota sorriu de canto.

— Familia, moleque. A gente divide as vitórias e divide as derrotas. E essa derrota aí? Daqui uns anos tu vai rir dela. Vai contar pros amigos e todo mundo vai se identificar. Porque todo mundo já tomou invertida pelo menos uma vez na vida.

Sheldon abriu a porta, desceu, pegou a mochila.

— É foda, né, velho.

Jota olhou pro sobrinho parado na calçada, mochila nas costas, cara de quem acabou de crescer cinco anos em meia hora.

— É, moleque. Bem foda mesmo.

Sheldon entrou na casa do Popó. Jota ficou ali no Gol Bolinha, motor ligado, regata vinho suada, mochila laranja no banco do carona, caderno marrom e isqueiro amarelo guardados dentro. O tênis surrado com cadarço direito solto ainda balançando.

Pensou em ligar o rádio. Não ligou.

Só ficou ali, olhando a rua vazia, lembrando do Sheldon descendo do prédio com a cara de quem tinha perdido a guerra antes de começar a batalha.

E sorriu. Um sorriso torto, meio amargo.

Porque a vida, irmão… a vida não te dá nem o direito de terminar por cima.

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Sinopse Narrativa:

Jota leva sobrinho Sheldon pra terminar com namorada. Sheldon sobe ensaiando discurso. Jota espera. Sheldon volta arrasado: ela terminou com ele primeiro, roubou seu texto. Jota conta que isso já aconteceu com ele duas vezes: com Donaro (Outback, flores na mão) e anos depois com Daslu. Explica que as mulheres tiveram coragem que eles não tinham, cortaram rápido e limpo. Ensina Sheldon sobre perder o timing e não ter controle. Deixa sobrinho na casa do Popó. Reflete: vida não dá nem direito de terminar por cima.

Gênero Realismo, Slice of Life
Tom Irônico, Melancólico, Reflexivo
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Lições de Vida, Slice of Life
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Lições geracionais, Perda de controle, Timing roubado
Locais Jardim das Américas, Outback, posto na esquina, Prédio, ruas de Curitiba, Shopping Curitiba
Palavras-Chave Daslu, Donaro, flores murchas, lições geracionais, Outback, Popó, Sheldon (sobrinho), término roubado, timing perdido
Sheldon: sobrinho de Jota, mochila nas costas, ensaiou discurso 3 vezes no elevador, ela terminou primeiro usando exatamente as palavras que ele ia usar, saiu parecendo idiota concordando com próprio término, olho vermelho no retrovisor. Jota esperou. Donaro: primeiro amor de Jota, Outback Shopping Curitiba, Jota levou flores pra suavizar, ela chegou antes e terminou, ele saiu com flores murchas e pagou refrigerante sozinho. Daslu: anos depois, Jota tentou ser direto sem flores/restaurante chique, ela cortou antes, "Geraldo, eu já sei o que você vai falar. E eu concordo." Lição: "as duas fizeram o certo, tiveram coragem que eu não tava tendo, facilitaram tudo, cortaram rápido e limpo, mas na hora dói pra caralho". "Quando o timing te fode desse jeito, não sobra nem dignidade pra brigar". "A gente nunca tá no controle de porra nenhuma. A gente só acha que tá." Popó: pai de Sheldon, casa com portão verde no Jardim das Américas. Frase repetida: "É foda, né" (Sheldon) , "É foda, né, velho" (título).
 

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