Capa do Capítulo

A Bênção Que Nunca Chegou

Extensão: 4.430 palavras | Leitura: 23 min

Faça login para acompanhar.

No Brasil, desde o Império, existe um pacto não escrito entre céu e terra.

Todo político que chega ao topo passa por uma avaliação. Discreta. Invisível. Um anjo desce, faz perguntas, observa, anota. É protocolo. Sempre foi.

Depois, a memória é apagada. O eleito acorda no dia seguinte sem lembrar de nada. Só uma vaga sensação de ter sonhado.

A maioria passa. Alguns suam, mas passam.

Nunca foi necessário mais que isso.

Até Antilopes.

Convocou reunião de emergência no céu.

Porque se a suspeita dele estivesse certa, ia ser necessário trazer de volta algo que não se usava desde Sodoma e Gomorra.


Não foi a primeira vez que alguém assim tentou. Não seria a última.

Mas eles eram facilmente desmascarados.

A cada geração, um Antilopes diferente aparecia. Mudava o nome, mudava a cara, mudava a bandeira que carregava. Mas a essência é sempre a mesma: fome de poder vestida de patriotismo, ódio disfarçado de ordem, crueldade chamada de força.

E quando desmascarado, os mais cegos continuavam não vendo ou escolhiam não ver.

Antilopes tinha recebido a entrevista angelical na noite da vitória.

Respondeu tudo com aquele sorriso largo.

Disse que ia assumir tranquilo.

Afinal, o povo tinha escolhido ele. Dezenas de milhões de votos. Mas os anjos tinham certezas sobre ele. Ele sempre foi bom em enganar — fazer gente acreditar que crueldade é força, que ignorância é pureza, que ódio é amor pela pátria.

Jota anotou tudo no caderno marrom.

Aplicou o protocolo de apagamento.

E sentiu a resistência, que pareceu até um certo fingimento.

Como uma parede invisível. Fina, mas presente.

Saiu com a certeza de que tinha algo de podre ali.

Muito podre.

No dia seguinte, Antilopes acordou cedo, escolheu o terno mais caro, colocou a bíblia debaixo do braço (nunca leu, mas pega bem em foto), e foi pro Palácio confiante.

Não sabia que a avaliação tinha apenas começado.

E que o teste de verdade estava por vir.


O Universo dos Anjos não tem portões de pérola nem harpas.

Tem nuvens duras como mármore, ventos que cortam a alma e um silêncio que pesa mais do que qualquer armadura. No centro de tudo fica a plataforma da Alta Guarda, suspensa entre duas tempestades eternas.

Jota faz parte da Alta Guarda.

Não tem nome de anjo bonito, Miguel, Gabriel, essas frescuras. Aqui chamam só de Jota, o mesmo apelido da terra, porque lá embaixo era programador — daqueles que via padrões onde outros viam caos, que resolvia problema na raiz em vez de apenas remendar. Ele ajustava, consertava, fazia tudo voltar aos eixos, não ficava culpando outros, resolvia. Deus viu valor nisso. Viu que um cara prático, que entende de sistema, de lógica, de causa e consequência, serve melhor na Alta Guarda do que muito anjo que só sabe rezar e acenar asa. Quando subiu, trouxeram o apelido junto. Trouxeram também a eficiência, a cara fechada, e o costume de resolver problemas — ou na porta do céu.

Já os anjos, bem eles têm asas, mas não usam — usam carros. Veículos terrestres disfarçados, encarnações de carruagens celestiais que descem até o mundo dos homens sem levantar suspeita. O Gol Bolinha cinza de Jota, 2003, duas portas, a etanol, sem ar-condicionado, é uma dessas carruagens. Banco do motorista afundado pelos 110 kg, cheiro de etanol velho que nunca sai, motor 1.0 16v que ronca baixo mas nunca falha. Estacionado ali na borda da plataforma, porta-malas aberto mostrando a mochila laranja — bolsa de relíquias sagradas disfarçada. Dentro dela: caderno de capa dura marrom (livro dos registros divinos), isqueiro amarelo sobrevivente (chama eterna portátil), e guardados no banco de trás, os tênis surrados (sandálias do peregrino celestial, cadarços que salvam vidas, sim cadarços que salvam vidas) e a camiseta regata vinho (armadura leve que não pesa).

Naquele dia, Jota tinha convocado reunião de emergência.

Um dos vigias menores, um querubim de quatro asas que nunca dorme, apareceu confuso.

— O que aconteceu? A contagem terminou ontem. Antilopes venceu. Protocolo normal, não?

Jota não respondeu logo. Abriu o caderno marrom. Folheou devagar. Páginas e páginas de registros da entrevista.

O cara que elogiou torturador ao vivo na TV. Que disse que filho dele nunca ia namorar negra porque “foi bem educado”. Que falou pra deputada que ela “não merecia ser estuprada” porque era feia demais. Que defendeu fuzilamento em praça pública. Que disse que índio não serve nem pra reproduzir. Que chamou quilombola de gordo, preguiçoso, vagabundo. Que zoou morte enquanto milhares morriam. Que transformou cargo público em herança de família, distribuindo poder pros seus como se fosse propriedade privada.

Um cara que jurava a Bíblia na mão direita enquanto desviava dinheiro com a esquerda.

Um cara que dizia “Deus, pátria e família” — mas cuspia em Deus cada vez que mentia, cagava pra pátria cada vez que destruía, e só defendia a família dele, nunca a dos outros.

Jota fechou o caderno.

— A ficha é pesada. Muito pesada. Mas não é isso que me preocupa.

Rosquinha, anjo recém-chegado — morreu faz pouco, ainda se acostumando com as asas e o peso da armadura. Quarenta e cinco anos de idade terrestre congelados no rosto: rugas ao redor dos olhos, cabelo loiro descolorido, bigode de guidão de bicicleta bem cuidado, brinco de argola que usava em vida e ninguém mandou tirar aqui em cima. Penas de luz dourada ainda brilhavam muito — sinal de quem subiu há pouco. Os veteranos sabiam: quanto mais tempo no céu, mais opacas ficam as penas. As de Rosquinha ainda cegavam. Perguntou com voz que ainda carregava sotaque curitibano:

— Então o que te preocupa?

Jota olhou pra cada um deles.

— Resistência ao apagamento, que pareceu mais um certo fingimento. Quando terminei a entrevista, apliquei o protocolo padrão. Memória deveria ter sido limpa. Mas senti resistência ou fingimento.

Silêncio pesado.

— Como assim resistência? — Rosquinha perguntou.

— Como se tivesse algo bloqueando. Não é consciente. É… estrutural. Como se a mente dele não fosse completamente humana.

Pausa.

— Tem algo diferente nele. Não é possessão. Não é pacto. É… integrado. Como se tivesse nascido assim.

Leandro Costa, conhecido ali como Miguelito, um querubim gigante com seis asas que raramente abria (preferia dirigir uma Kombi branca dos anos 70 que flutuava sem tocar o chão), cruzou os braços sobre a couraça.

— Entidade de nascença? Isso não existe. Entidades são anjos caídos, não se reproduzem.

— Pois é, teoricamente não existem, mas é estranho, estou sentindo tudo errado nele — Jota disse. — Mas e se existir agora? Uma nova linhagem. Aquele boato de “Sete peles” que estou ouvindo falar. Humanos por fora, algo mais por dentro. Nascidos assim. Integrados na sociedade há algumas gerações. Pois eles estão muito quietos ultimamente e penso que é possível eles terem evoluído, todos evoluímos.

Rand Oliveira, serafim de seis asas que aparecia e sumia conforme a necessidade (dirigia um Fusca 73 verde-musgo que ninguém sabia de onde vinha), sussurrou:

— Se for isso… o que podemos usar contra eles?

Jota assentiu devagar.

— Existe um procedimento que talvez eles não lembrem. Que foi usado há muito tempo atrás. Rafael expôs vários antes de Sodoma e Gomorra. Mas se essa é uma nova geração…

— Então eles não sabem que podem ser revelados — Rand completou.

— Sim, se funcionar ou está orgulhoso, ou tudo é um mero engano meu — Jota emendou.

O ar ficou mais denso.

Rosquinha, voz trêmula:

— Mas… a gente não tem certeza. Pode ser só um homem muito ruim.

Jota olhou pro caderno.

— Pode. Mas já estamos adiando demais e é nosso último recurso.

Pausa.

— Ritual da Caminhada.

Silêncio absoluto.

Miguelito arregalou os olhos.

— Ritual da Caminhada? Isso não se usa desde Sodoma e Gomorra. São quase quatro mil anos.

— Exatamente — Jota disse. — Tornou-se desnecessário. O protocolo normal sempre bastou. Mas se ele for o que eu acho que é…

Pausa pesada.

— A gente precisa saber. E o Ritual é o único jeito.

Rosquinha, assustado:

— E o que fazemos? Matamos ele antes da posse?

Jota balançou a cabeça.

— Tarde demais.

— Como assim “tarde demais”?

— Ele já foi eleito. Dezenas de milhões de votos. A urna já decidiu. Se a gente arrancar ele agora, a gente tá anulando escolha. E escolha é sagrada. Mesmo quando é escolha errada.

Pausa.

— Não podemos interferir tanto. Livre arbítrio não funciona se a gente fica impedindo a escolha. A gente vigia, anota, e age de maneira proporcional. Sempre foi assim.

Miguelito franziu as sobrancelhas.

— O que sugere?

Jota respirou fundo.

— Ter certeza. Se for, a máscara cai no Ritual. Todo mundo vai ver. Se só for ruim… ele passa e governa como qualquer outro corrupto.

Rand cruzou os braços.

— E se for e o Trono aceitar mesmo assim?

Silêncio.

Ninguém queria pensar nessa possibilidade.

O Trono da Presidência fica no Palácio do Planalto.

Não é móvel. Não é cadeira. Não é algo que se vê com olhos comuns.

É presença.

Um objeto divino instalado desde o Império, quando o pacto foi selado. Existe em todo país de tradição cristã — tronos que parecem normais, mas carregam peso que nenhum mortal sente.

Quem senta ali governa sob julgamento silencioso.

O Trono sempre aceitou.

Todo presidente que chegou ao topo, suou, mas sentou.

Porque Deus sempre aceitou.

Até agora.

Jota fechou os olhos.

— Se o Trono aceitar… então aceitamos, é decisão de Deus. Na verdade parece ser desde o começo, só confirmaremos a verdadeira face.

Pausa.

— De qualquer forma, a gente vai expor. O Brasil vai ver o que elegeu. E vai ter que conviver com isso.

Rosquinha engoliu em seco.

— Isso é cruel.

Miguelito deu risada amarga.

— Cruel? Sempre fui contra removerem a obrigatoriedade do Ritual da Caminhada. Deveria ser protocolo padrão, não exceção.

Pausa pesada.

— Se tivéssemos mantido, não estaríamos aqui na dúvida. Saberíamos desde o começo. Sem reunião de emergência, sem suspeita, sem precisar torcer pra que estejamos errados.

Olhou pro caderno de Jota.

— Mas não. Fomos soberbos. Achamos que entrevista bastava. Que éramos eficientes demais pra precisar de ritual. E agora? Agora estamos aqui, véspera da posse, com dúvidas.

Bateu o punho na couraça, som metálico ecoando.

— Esse erro é nosso. Não do povo. Nosso.

Jota assentiu devagar.

— Por isso a gente vai corrigir. Agora.

Explicou o Ritual:

O Ritual da Caminhada é simples e brutal.

O eleito entra sozinho no Palácio do Planalto. Sem escolta, sem assessor, sem microfone. Atravessa o corredor principal — cem metros em linha reta — até a Sala do Trono.

Cada passo é julgado. Cada mentira queima. Cada crime pesa.

Mas o mais importante: se houver máscara, ela cai.

Se houver algo escondido, ele aparece.

Se houver podridão enterrada, ela sobe à superfície.

E fica assim.

Visível.

Para os que creem e que veem, não estão cegos.

Não é punição. É revelação.

Deus não impede livre arbítrio. Não falsifica urna. Não anula escolha.

Mas também não deixa ninguém governar de máscara.

Se houver máscara, ela cai. Se houver outra coisa, ela aparece.

E o povo vai ver o que elegeu.

Todo dia.

Em rede nacional.

Agora pelo menos vão saber o que escolheram.

Rosquinha engoliu em seco.

— Então… a gente não tá impedindo ele. A gente tá expondo ele.

— Exato.

Pausa.

— E depois… o Trono decide. Aceita ou rejeita.

As asas — as poucas que ainda usavam — se fecharam em uníssono. Motores celestiais roncaram baixo. O Gol Bolinha de Jota ligou sozinho.

O plano estava traçado.

Descobrir a verdade.

Expor pro mundo.

E torcer pra que a suspeita de Jota estivesse errada.


Na noite anterior à posse, Jota desceu de novo.

Sozinho. Terno simples, mochila laranja, tênis surrado. Bateu na porta da suíte presidencial.

Antilopes abriu a porta em cueca e camiseta, barriga pra fora, cigarro na boca.

Olhou pra Jota.

Franziu a testa.

— De… eu te conheço?

Jota não respondeu logo. Observou.

O protocolo padrão era simples: entrevista, avaliação, apagamento de memória. O eleito acordava no dia seguinte sem lembrar de nada. Só uma vaga sensação de ter sonhado com alguém perguntando coisas.

Mas Antilopes estava olhando pra ele com reconhecimento.

Vago, mas presente.

— Quem é você mesmo? Como entrou aqui?

Jota sentiu o alarme disparar dentro dele.

Resistência confirmada.

Memória não foi completamente apagada ou fingimento.

Isso só acontecia quando a pessoa não era completamente humana.

— Foi um sonho — Jota disse, voz neutra. — Mas agora eu vim falar sobre protocolo de verdade. Posso entrar?

Antilopes deu de ombros, ainda confuso, e abriu a porta.

— Entra. Mas juro que eu te conheço de algum lugar.

Sentaram na varanda.

Jota anotou mentalmente: “Resistência ao apagamento confirmada. Possível não-humano.”

E explicou o novo protocolo.

— Amanhã, antes da cerimônia no Congresso, você vai tirar umas fotos no Trono da Presidência. Fica dentro do Palácio.

Antilopes franziu a testa.

— Trono? Nunca ouvi falar.

— É porque ele normalmente não aparece, os presidentes só ficam sentados nele para fotos oficiais. Simbolismo, sabe como é. Presidente tem que “sentar no Trono” antes de receber a faixa.

Pausa.

— Da rampa do Palácio até a Sala do Trono. Sozinho. Sem assessor, sem segurança, sem microfone. Mais imponente. Só você e as câmeras internas. Depois você sai e vai pro Congresso receber a faixa.

Antilopes encolheu os ombros.

— Tudo bem. Quanto tempo?

— Três minutos. Você sobe a rampa, entra no Palácio, atravessa o corredor, chega na Sala do Trono, senta por trinta segundos, e sai. Rápido.

— Fácil. Tenho histórico de atleta, né. Três minutos é nada.

Jota anotou algo no caderno marrom.

— Ótimo. Então amanhã, nove e meia. Sozinho, somente os Dragões da República em volta, saudando.

Antilopes acenou com a mão, despreocupado.

— Tranquilo. Já fiz coisa pior na campanha.

— Tenho certeza.

Jota guardou o caderno.

Antilopes sabia que o Trono não era cadeira.

Era juiz.

Mas não sabia que o corredor até ele queimava mentirosos.

Literalmente.

Jota saiu. Antilopes ficou sozinho, rindo baixo, mandando áudio pros filhos: “Os caras inventaram uma palhaçada de eu andar sozinho num corredor. Vou fazer e depois vou zoar eles no discurso.”

Não sabia que a máscara ia cair.

E que não ia voltar.

Jota subiu de volta pro céu.

Rosquinha esperava na plataforma.

— E aí? Ele aceitou?

Jota assentiu.

— Aceitou. Sem desconfiar de nada.

— E a resistência? Você sentiu de novo?

— Não precisei testar de novo. Tentou me enganar, mas tenho certeza que lembrou de mim. Apagamento não funcionou.

Rosquinha arregalou os olhos.

— Então…

— Então amanhã a gente descobre se ele é o que eu acho que é.


O dia da posse amanheceu cinza em Brasília, céu baixo, calor de 38 graus e um silêncio estranho na Esplanada.

A cerimônia tinha sido antecipada. O protocolo do Trono aconteceria primeiro, às nove e meia, antes de tudo. A multidão presente em todos os locais possíveis. Telões gigantes mostravam as câmeras internas do Palácio. Cada detalhe seria transmitido.

Jota desceu dirigindo o Gol Bolinha pela Esplanada dos Ministérios.

Para os seguranças, era mais um carro oficial. Placa, documentos, tudo em ordem.

Para quem olhasse muito de perto, os documentos brilhavam por um segundo — mas ninguém olhava de perto. Ninguém nunca olhava.

Anjos vivem entre humanos há milênios. Trabalham. Dirigem. Compram café. Invisíveis não por magia, mas por normalidade absoluta.

Quem olha duas vezes pro cara de terno no Gol cinza velho?

Ninguém.

E é exatamente assim que funciona.

Jota estacionou de banda na área reservada. Saiu com a mochila laranja no ombro, tênis surrado com cadarço direito solto arrastando no chão, camiseta regata vinho por baixo do paletó preto. O caderno marrom e o isqueiro amarelo no bolso interno, peso reconfortante contra o peito.

Outros anjos chegaram de carro também: Miguelito na Kombi branca, Rosquinha numa Brasília amarela 78, Rand num Fusca que piscou e sumiu assim que ele desceu.

Mais funcionários do protocolo.

Mais anjos.

Mais guardiões invisíveis que o Brasil nunca soube que tinha.

Antilopes chegou de Rolls-Royce, terno impecável, sorriso largo.

Desceu do carro. Viu a rampa. Viu Jota esperando no começo.

— Vamos logo com isso — disse. — Três minutos, né? Rapidinho.

Jota olhou pra ele.

— Sozinho. Ninguém avança com você nesse ponto. Protocolo.

— Tranquilo.

Antilopes subiu a rampa. Confiante. Sorrindo pras câmeras.

Entrou no Palácio.

As portas se fecharam atrás dele.

E o corredor começou.

Cem metros em linha reta.

Piso de mármore polido. Paredes brancas. Silêncio absoluto.

Deu o primeiro passo.

Normal.

Segundo passo.

Normal.

Terceiro passo.

O piso começou a queimar.

Não fisicamente. Mas energeticamente.

Ele sentiu. Parou. Olhou pro chão.

— Que porra…?

Continuou.

Dez metros.

Suor começou a brotar. Respiração ficou pesada.

Vinte metros.

As pernas pesaram. Como se cada passo carregasse mais peso.

Trinta metros.

Começou a sentir queimação nos pés. Através dos sapatos. Impossível, mas real.

Quarenta metros.

Olhou pras próprias mãos.

E viu.

A pele rachou.

Não aos poucos.

De uma vez.

Como plástico derretendo sob fogo.

Tentou gritar, mas a voz saiu distorcida.

A pele do rosto se soltou.

E o que apareceu embaixo—

Cinquenta metros. Metade do corredor.

As câmeras internas captaram tudo.

Telões na praça mostraram.

Milhões de pessoas viram.

Mas nem todos viram a mesma coisa.

Parte da multidão viu o demônio.

Chifres pequenos, curvos, saindo da testa. Pele avermelhada, queimada, como carne viva. Olhos amarelo-enxofre que viraram vermelho-sangue. Boca retorcida, dentes pontiagudos, língua bífida. Mãos virando garras pretas, dedos se alongando, sangue seco grudado embaixo das unhas.

E explodiu em gritos de horror:

— MEU DEUS! ELE É UM DEMÔNIO!

— EU SABIA! EU SEMPRE SOUBE!

— OLHEM! OLHEM PRA ELE!

— PARA! PARA ISSO!

A outra parte — continuou cega e não admitia que o que via não era um homem.

Só um homem.

Cansado. Suado. Mas humano.

Cambaleando no corredor, mas humano.

E gritaram mais alto:

— VOCÊS ESTÃO LOUCOS! ELE TÁ NORMAL!

— É HISTERIA COLETIVA!

— QUEREM INVENTAR DESCULPA PRA DERRUBAR ELE!

— NOSSO MITO! NOSSO MESSIAS!

Do lado de fora do Palácio, Jota observava num monitor de segurança.

Invisível pra todos exceto os outros anjos.

E entendeu.

Não era questão de câmera.

Não era questão de ângulo.

Era questão de olhos.

Quem tinha olhos pra ver, via.

Quem escolheu a cegueira, continuava cego.

E ia continuar.

Até decidir abrir os olhos.

Se é que um dia decidisse.

Rosquinha apareceu ao lado dele, invisível pra multidão.

— Jota… ele… ele é real. Demônio real.

— Eu sei.

— A gente deixou um demônio chegar tão perto…

— A gente não deixou. A gente não sabia. Agora sabe.

Olhou ao redor.

Pra multidão dividida. Parte vendo demônio, parte vendo homem.

E pensou, voz baixa que só os anjos ouviram:

— Se ele passou despercebido até agora… quantos mais passaram?

Silêncio entre os anjos.

Rosquinha, tremendo:

— Você acha que tem outros?

Jota não respondeu logo.

Mas o olhar dele varreu a praça.

Milhares de pessoas.

Deputados. Senadores. Ministros. Juízes.

Qualquer um.

Qualquer um poderia ser.

E só dava pra saber de um jeito.

Ritual.

Um por um.

Mas ninguém ia querer fazer isso.

Ninguém ia querer saber a verdade.

— O que a gente faz? — Rosquinha perguntou.

Jota olhou pro monitor.

Antilopes, corpo demoníaco cambaleante, chegando aos setenta metros.

— A gente continua. A gente mostra pro mundo inteiro. E a gente deixa o Trono decidir.

— Mas… mas se o Trono aceitar…

Jota fechou os olhos.

— Então Deus decidiu dar ao povo exatamente o que pediram.


Setenta metros.

Antilopes caiu de joelhos no piso de mármore. Garras arranhando o chão polido, deixando marcas.

— Eu não aguento mais…

E de repente, Jota estava lá.

Materializado no corredor.

Agora visível nas câmeras.

A multidão na praça viu o anjo. Terno preto, mochila laranja, tênis surrado.

Puxou o caderno marrom, abriu. Leu em voz alta — e a voz ecoou pelo corredor, amplificada, transmitida:

— Maria. João. Ana.

Pausa.

— Tem 342 mil nomes aqui. Cada um, uma vida.

Fechou o caderno.

Não listou. Não explicou.

Olhou pro demônio.

— E cada um deles pesa.

Na praça, parte caiu de joelhos.

Parte ficou de parte.

Outra parte continuou gritando:

— MITO!

Jota olhou pra eles através das câmeras.

Não com raiva.

Com tristeza profunda.

Porque agora sabia.

Sabia que o país tinha elegido um demônio.

Vários deles viam.

E vários não queriam ver.

E nada que ele dissesse ia mudar isso.

Antilopes se levantou, arrastando.

Garras arranhando o mármore a cada passo.

Faltavam trinta metros até a Sala do Trono.


Cem metros. Final do corredor.

Porta da Sala do Trono.

Antilopes chegou arrastando, corpo demoníaco totalmente exposto, chifres sangrando, garras deixando rastro vermelho no chão.

A praça inteira assistia. Câmeras de todos os canais transmitiam ao vivo.

Parte via demônio.

Parte via homem exausto mas persistente.

A porta se abriu sozinha.

Antilopes entrou.

A Sala do Trono era pequena. Redonda. Vazia exceto por uma cadeira no centro.

Simples. Madeira escura. Assento de couro gasto.

Mas a presença que emanava dela era avassaladora.

Todos os anjos sentiram.

O Trono.

Invisível aos olhos comuns, mas ali. Pulsando.

O julgamento.

A sentença.

Jota, Miguelito, Rosquinha, Rand — todos materializados agora, formando semicírculo invisível ao redor.

Esperando.

Antilopes, corpo demoníaco tremendo, olhou pra cadeira.

Jota fechou os olhos, rezou pela primeira vez em séculos:

“Rejeita. Por favor. Rejeita.”

O Trono pulsou.

Mais forte.

E mais forte.

E—

Aceitou.

Rosquinha caiu de joelhos, soluçando.

— Não… não pode…

Miguelito socou a própria couraça, som metálico ecoando.

— O TRONO ACEITOU UM DEMÔNIO!

Jota abriu os olhos devagar.

Não conseguiu falar.

Antilopes, de pé diante da cadeira, ergueu os olhos vermelhos.

Não estava confuso.

Estava calculando.

Sorriu. Dentes podres. Língua bífida.

— Eu sabia que ia aceitar.

Jota arregalou os olhos.

— Deus criou livre arbítrio, não é incoerente.

Pausa. Sorriu mais.

— Se me rejeitassem, eu virava mártir. Vocês sabiam disso.

Olhou direto pra Jota.

— Eu venci. De novo.

Jota olhou pra ele.

Olhou pra cadeira, onde o Trono pulsava aceitação.

A voz saiu quebrada:

— Você está certo.

Pausa.

Engoliu em seco.

— O Trono aceitou. Porque o povo escolheu. E Deus… Deus respeita escolha.

Olhou pro demônio vitorioso.

— Você vai governar. Como está. Não poderá mais esconder.

Pausa.

— Todo dia. Pelos próximos anos.

Não conseguiu dizer mais nada.

Antilopes sentou na cadeira.

Devagar.

A faixa presidencial — trazida por um assessor que entrou trêmulo — foi colocada nele.

No demônio.

Na praça, a multidão explodiu.

Parte gritou de horror:

— NÃO! PELO AMOR DE DEUS, NÃO!

E a outra parte explodiu em júbilo histérico:

— GLÓRIA! MITO! MESSIAS!

— ELE É INVENCÍVEL! ELE É O ESCOLHIDO!

Antilopes ficou de pé. Faixa no peito. Chifres, garras, pele queimada — ou homem vitorioso, dependendo de quem olhava.

Sorriu.

Vitorioso.

Jota virou as costas.

Não conseguiu ver mais.

Miguelito apareceu ao lado dele, punhos sangrando.

— Não podemos fazer mais nada?

Miguelito respondeu:

— Só isso, já interferimos demais mostrando a verdade. Agora… agora é com eles.

Voz falhando:

— Deus deu ao povo o que pediram. E isso não vai mudar.

Saiu do Palácio.

Pernas tremendo.


Jota entrou no Gol Bolinha cinza.

Banco afundado recebeu os 110 kg de volta.

Não ligou o motor logo.

Ficou ali, mãos no volante, olhando pra frente.

Rosquinha bateu na janela, rosto molhado.

Jota abriu.

— Falhamos?

Jota demorou pra responder.

— Descobrimos. Expomos. Mostramos.

Pausa.

— Mas o Trono aceitou. Porque o povo escolheu.

Voz quebrando:

— Mesmo quando é escolha do inferno.

Rosquinha olhou pra trás, pro Palácio.

— Você acha que ele é o único?

Jota olhou pro retrovisor. Viu a Esplanada, os prédios do poder, as janelas acesas.

— Não sei. Mas agora a gente sabe que é possível. Algo literal, disfarçado de humano, chegando ao topo. Se aconteceu uma vez…

Não terminou a frase.

Não precisava.

Rosquinha engoliu em seco.

— Como vamos saber agora, vamos testar todo mundo?

— Não. Porque ninguém vai querer. Imagina propor: “vamos fazer todo político ou melhor pessoa atravessar o corredor pra ver se é algo diferente”. Iam rir da nossa cara.

Pausa.

— Ou iam ter medo demais do que podiam descobrir.

Ligou o motor. 1.0 16v ronronou baixinho.

Saiu devagar pela Esplanada, outras carruagens celestiais atrás.


Lá embaixo, o demônio governava.

Chifres, garras, pele queimada — ou homem normal perseguido, dependendo de quem olhava.

Em rede nacional.

Todo dia.

Pelos próximos anos.

E a cada reunião de ministros, a cada sessão do Congresso, a cada julgamento do Supremo, alguém olhava pro colega do lado e pensava:

“Será que ele também…?”

Mas ninguém perguntava.

Porque ninguém queria saber a resposta.

E ninguém conseguia convencer o outro.

Porque não era questão de argumento.

Era questão de visão.

E visão não se debate.

Ou você vê, ou não vê.

Aqui em cima, os anjos voltaram ao silêncio.

O Trono, lá embaixo no Palácio, permanecia ocupado.

A bênção que os anjos esperavam dar nunca chegou.

Mas a posse aconteceu.

E ninguém — absolutamente ninguém — ia poder dizer que não sabia.

Sobre Antilopes, pelo menos.

Sobre os outros?

Bom.

Essa era uma pergunta que ninguém queria fazer.

Até os anjos.

Faça login para acompanhar.

Sinopse Narrativa:

No Brasil existe pacto não-escrito: anjo avalia político eleito, apaga memória. Jota (anjo da Alta Guarda, ex-programador) entrevista Antilopes (político eleito). Memória não apaga - resistência. Jota convoca reunião de emergência com anjos (Rosquinha, Miguelito, Rand). Suspeita: Antilopes é demônio encarnado. Decidem usar Ritual da Caminhada (não usado desde Sodoma e Gomorra). Dia da posse: Antilopes atravessa corredor 100m sozinho. Pele racha, revela demônio (chifres, garras, pele queimada). Metade da multidão vê demônio, metade vê homem normal. Trono aceita. Demônio governa exposto. Bênção nunca chegou.

Gênero Alegoria Política, Ficção Religiosa Distópica
Tom Apocalíptico, Brutal, Desesperançoso
Timeline Paralelo, Sobrenatural
Versão Jota Anjo
Categoria Alegoria Política, Terror Religioso
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Cegueira voluntária, Demônio literal no poder, Livre arbítrio vs intervenção divina
Locais Brasília, Céu, Congresso, corredor, Esplanada dos Ministérios, Palácio do Planalto, plataforma, praça com telões, Sala do Trono redonda vazia, suíte presidencial
Palavras-Chave Anjos, Antilopes, Brasília, cegueira voluntária, demônio exposto, livre arbítrio, Miguelito, política, posse presidencial, Ritual da Caminhada, Rosquinha (anjo), Trono presidencial
Pacto desde Império: anjo entrevista político eleito, avalia, apaga memória. Jota: Alta Guarda, era programador na Terra (via padrões, resolvia problemas na raiz), Deus viu valor nisso, trouxe apelido junto. Anjos: não usam asas, usam carros (carruagens celestiais disfarçadas). Antilopes: ficha pesada (elogiou torturador, disse filho não namora negra pois "bem educado", "não merece ser estuprada pois feia", defendeu fuzilamento praça pública, índio não serve nem pra reproduzir, quilombola gordo/preguiçoso/vagabundo, zoou morte enquanto milhares morriam, cargo público virou herança família, jurava Bíblia mas desviava dinheiro, "Deus pátria família" mas cuspia em Deus mentindo). Resistência ao apagamento: como parede invisível fina mas presente, memória não completamente limpa, reconhecimento vago. Ritual da Caminhada: não usado desde Sodoma e Gomorra (~4000 anos), eleito entra sozinho Palácio, atravessa corredor 100m linha reta até Sala do Trono, cada passo julgado, mentira queima, crime pesa, máscara cai, fica visível. Trono da Presidência: não é móvel/cadeira, é presença, objeto divino desde Império, existe em todo país tradição cristã, quem senta governa sob julgamento silencioso, sempre aceitou até agora. Dia da posse: 38 graus, céu baixo cinza, silêncio estranho, 9h30, telões gigantes mostram câmeras internas. Corredor: 100m linha reta, piso mármore polido, paredes brancas, silêncio absoluto. Transformação: 10m suor brota respiração pesada, 20m pernas pesam, 30m queimação nos pés, 40m pele racha de uma vez como plástico derretendo sob fogo, 50m (metade) aparece demônio completo: chifres pequenos curvos saindo testa, pele avermelhada queimada carne viva, olhos amarelo-enxofre virando vermelho-sangue, boca retorcida dentes pontiagudos língua bífida, mãos virando garras pretas dedos alongando sangue seco embaixo unhas. Visão dividida: METADE vê demônio grita horror, METADE vê homem normal grita que é histeria/inventam desculpa/MITO/MESSIAS. "Quem tem olhos pra ver, via. Quem escolheu cegueira, continuava cego." 70m Antilopes cai joelhos garras arranhando chão deixando marcas. Jota materializa no corredor visível nas câmeras, lê 342 mil nomes do caderno (cada um uma vida, cada um pesa). 100m porta Sala do Trono se abre sozinha. Sala: pequena redonda vazia, cadeira centro (simples madeira escura assento couro gasto), presença avassaladora pulsando. TRONO ACEITA. Antilopes sorri: "Eu sabia. Deus criou livre arbítrio. Se rejeitassem eu virava mártir. Eu venci de novo." Faixa presidencial colocada no demônio. Multidão: metade grita horror "NÃO PELO AMOR DE DEUS", metade júbilo histérico "GLÓRIA MITO MESSIAS INVENCÍVEL ESCOLHIDO". Jota não consegue ver mais, sai tremendo. Conclusão: "Deus deu ao povo o que pediram. Mesmo quando é escolha do inferno." Pergunta final: quantos mais? Ninguém quer saber resposta. "Visão não se debate. Ou você vê, ou não vê."
 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PRIVACIDADE E COOKIES

Para que sua jornada por estes contos seja completa, usamos cookies para entender como você navega por aqui. Podemos seguir com a leitura?

Saiba mais.