O celular vibrava na cabeceira, insistente, como se soubesse que aquele dia não seria comum. Jota abriu os olhos devagar, olhou pro teto rachado do apartamento no Edifício Tijucas. Luz entrando pela janela que dava pra Praça Osório. Barulho de ônibus, buzinas, cidade acordando. Curitiba despertando.
Seu aniversário.
Levantou grogue, pés arrastando pelo chão frio, foi até o banheiro. Apartamento pequeno, um quarto, sala e cozinha integrada, banheiro apertado. Acendeu a luz. Azulejo branco refletiu a claridade fria. Pegou a escova de dentes.
O celular tocou de novo.
Atendeu sem olhar.
— Alô?
— Parabéns, garoto.
A voz era grave, calma, mas carregada de algo que Jota reconheceu na hora: preocupação disfarçada de naturalidade.
Seu Luiz. Ou como todo mundo chamava: Pierce Brosnan.
O apelido tinha grudado faz tempo. Passado misterioso, jeito de falar pausado, olhar que via três passos à frente. Pai do Leandro Costa. O homem que ensinou defesa pessoal no quintal da Rua do Professor, que falava de códigos como quem fala de receita de bolo, que sumia por semanas e voltava como se nada tivesse acontecido.
Jota ficou parado, escova de dentes na mão, olhando pro próprio reflexo no espelho como se fosse outra pessoa.
— Obrigado, Seu Luiz. Tudo bem aí?
— Tudo ótimo — ele respondeu rápido demais.
No fundo, uma voz feminina. Baixa. Tensa. Como quem tenta não ser ouvida mas falha.
— Só queria te desejar um ótimo dia — Seu Luiz continuou. — Aproveita. Descansa.
E desligou.
Jota ficou olhando pro celular. Tela preta. Silêncio do apartamento vazio voltou a ocupar tudo.
“Descansa.”
Seu Luiz nunca mandava ninguém descansar.
Largou a escova na pia. Abriu o Instagram enquanto a água do chuveiro esquentava. Atualizou o feed. Primeira postagem:
Larissa.
Foto antiga dele, sorrindo, abraçado com ela numa festa. Legenda:
“Parabénss pro meu amor!!!”
Jota parou. Releu.
“Parabénss.”
Dois “s”. Larissa nunca errava. Ela era cuidadosa, revisava tudo três vezes antes de postar. Perfeccionista.
E o “pro” sem acento. Outra falha.
Erro proposital. Código.
Respondeu no stories dela, cifrado:
— Que horass nos encontramôss?
A resposta veio em segundos. Como se ela estivesse esperando.
— R do P. 14. V1.
E deletou.
Rua do Professor. 14 horas. Vem sozinho.
Jota olhou pro celular.
Voltou pro banheiro. A água do chuveiro estava fervendo, vapor subindo, espelho embaçado. Fechou o registro. Não ia tomar banho agora.
Na pia, o isqueiro amarelo. Jota não fumava. Nunca fumou. Mas o isqueiro sempre estava ali. Sobrevivente de todas as noites. Companheiro mudo.
O celular tocou.
Número desconhecido.
Atendeu, alerta.
— Ele tá preocupado — voz de mulher, a mesma que estava com Seu Luiz. — O atentado não acabou. Fica esperto hoje.
Desligou.
Jota ficou parado.
Voltou pro quarto. Pegou os tênis surrados no chão. Calçou.
Antes de sair, parou. Olhou ao redor do apartamento pequeno. Temporário.
Batida na porta.
Três toques. Rápidos. Urgentes.
Jota foi até a porta, olhou pelo olho mágico. Corredor vazio.
Abriu devagar.
Ninguém.
Mas no chão, encostado na soleira, um celular velho. Flip phone. Tela rachada.
Jota pegou. Olhou pros lados. Corredor do Edifício Tijucas deserto. Silêncio.
Abriu o celular. Ligou sozinho.
Tela azul. Vídeo começou a rodar.
Rosto coberto. Voz distorcida. Mas Jota reconheceu o corpo, o jeito de se mover.
Rand.
O vídeo era curto:
“Operação comprometida. Seu Luiz preso. Austin Powers te procura. 14h, Rua do Professor. Esse celular vai—”
A tela piscou. Fumegou. Apagou.
O celular esquentou na mão de Jota. Ele largou no chão do corredor. Plástico derretendo, cheiro de queimado.
Cinco segundos. Exatamente cinco segundos de vídeo.
Jota voltou pro apartamento. Pegou a mochila laranja jogada na cadeira. Abriu. Dentro: caderno de capa dura marrom, camiseta regata vinho dobrada. Pegou a camiseta, trocou a que estava usando, suada. Guardou o caderno de volta.
Na capa do caderno, preso com fita adesiva velha, o ímã do Posto Esso. Cinza fosco, logo apagado, beiradas descascando. Lembrança da família. Do posto que o pai tinha perto de casa, onde todo mundo se encontrava.
Jota passou o dedo nele. Superfície fria.
Jogou a mochila nas costas. Olhou pro relógio do celular: 13h20.
Quarenta minutos.
Foi até a janela. Praça Osório lá embaixo, movimentada. Gente andando, ônibus passando, camelôs vendendo guarda-chuva mesmo sem chuva.
E então viu.
Do outro lado da praça, tentando se esconder atrás de uma banca de jornal: Leandro Costa.
Óculos escuros gigantes. Chapéu de aba larga ridículo. Jaqueta de couro preta chamando atenção. Disfarce que chamava mais atenção que a pessoa.
Austin Powers.
O apelido tinha grudado porque Leandro vivia dizendo que o pai era agente secreto. Ninguém acreditava. Como o pai ia ser agente de verdade se o filho mal conseguia sair de casa sem acionar o próprio alarme? Se fosse agente mesmo, teria ensinado o filho melhor. Qualquer aparelho eletrônico nas mãos do Leandro, ele esquecia a senha. Tinha trabalhado como entregador — foi demitido em dois meses porque se perdia nas ruas. De vez em quando deduzia conspirações que ninguém mais via, ficava disfarçado por aí investigando o nada.
Mas o coração estava no lugar certo.
Jota suspirou.
Hoje ia ser complicado.
Pegou a mochila, saiu do apartamento, desceu as escadas.
Rua. Box Park Center, estacionamento rotativo duas quadras do Edifício Tijucas. Gol Bolinha Cinza Urban 2003 na vaga 47. Duas portas, sem ar-condicionado, etanol. Jota destrancou, jogou a mochila no banco do carona.
— JOTA!
Virou.
Leandro vinha correndo pela calçada. Tropeçou no próprio pé, quase caiu, se segurou num poste, continuou correndo.
— CARALHO! ACHEI TU!
Parou na frente de Jota, ofegante, suado, óculos tortos.
— Meu pai! Ele… eu tentei ajudar mas… — respiração presa. — Alarme disparou, polícia veio, eu fugi, perdi o rastreador, o celular travou, eu…
Jota segurou ele pelos ombros.
— Calma, Austin. Respira. Onde ele tá?
Leandro engoliu seco. Tirou os óculos. Olhos vermelhos. Cansados.
— Rua do Professor. Ele disse que só tu sabe onde tá a chave. Ele tá escondido lá. Tem gente vigiando.
— Polícia? — Jota franziu a testa.
Leandro balançou a cabeça.
— Não, não! Quis dizer… meu pai se escondeu lá antes da polícia chegar. Ele tá esperando tu.
Leandro realmente acreditava. O desespero era genuíno.
— Meu pai falou de uma operação antiga — Leandro falou rápido. — Queimou arquivo. Informação que não podia existir. Agora querem ele de volta. Ou morto. Ele se escondeu na casa. Mas descobriram.
— E tu?
Leandro riu. Amargo. Cansado.
— Eu? Eu só atrapalho. Sempre atrapalho. Mas dessa vez… — olhou pra Jota, sério. — Dessa vez eu preciso ajudar. Juro que não vou atrapalhar.
— Entra — Jota disse, abrindo a porta.
Ligou o Gol. Motor roncou. Leandro entrou no carona.
Jota pegou o caderno marrom do porta-luvas. Abriu numa página marcada. Mostrou pro Leandro enquanto dirigia.
— O que meu pai chamava de 3W — Jota disse. — Código de acesso. Quando, onde, o quê.
Leandro olhou. Símbolos, diagramas, sequências numéricas. 14h destacado em vermelho. Embaixo: coordenadas, sequência de movimentos, senha cifrada.
— Caralho… — Leandro virou as páginas. Códigos em morse, mapas de rotas, protocolos de emergência. — Tu tá sempre preparado pra tudo.
— Teu pai me ensinou — Jota fechou o caderno, jogou a mochila na parte de trás. — “Sempre tenha três saídas. Sempre tenha três planos.”
— Agora entendo — Leandro murmurou. — O 3W que meu pai falava…
Leandro estava concentrado no caderno. Quando olhou pra Jota, parou.
— Que foi? Teu rosto mudou.
Jota olhou pra frente. Mãos firmes no volante.
— Nada. Vamos.
Leandro ficou tenso.
— Jota… obrigado por me levar. Por confiar em mim dessa vez.
— Faz o que eu disser, Austin — Jota não tirou os olhos da rua. — Sem improviso. Dessa vez tem que funcionar.
Leandro respirou fundo. Nervoso.
Saíram do estacionamento. Praça Osório ficou pra trás.
Rua André de Barros, depois Marechal Deodoro. O Gol roncava no trânsito da tarde, vidros abertos, vento quente entrando.
Jota olhou pelo retrovisor.
Carro preto. Três carros atrás. Vidros escuros. Seguindo na mesma velocidade.
— Leandro.
— Que foi?
— A gente tá sendo seguido.
Leandro virou, olhou pelo vidro traseiro.
— CARALHO… são eles?
— Não sei — Jota franziu a testa. — Mas vou descobrir.
Acelerou. Entrou na região do Tarumã, ruas calmas de bairro. Virou à direita, depois direita de novo. O carro preto acompanhou.
— É eles — Leandro disse, voz tensa.
Jota olhou pro amigo. Suor frio na testa. Mãos agarradas no painel. Olhos arregalados no retrovisor.
Medo real. Não era atuação.
Jota pisou fundo. O Gol Bolinha chiou, motor 1.0 gritando. Ali era território dele — conhecia cada esquina, cada buraco, cada atalho. O carro preto ainda vinha atrás, mais rápido, mais potente.
— Jota, eles tão colando!
— Eu sei! — Jota virou à esquerda, subiu na calçada pra desviar de um caminhão parado, voltou pro asfalto. — Segura aí!
Mais uma curva. Estava quase na Victor Ferreira do Amaral. Naquele horário tinha trânsito pesado. Uma única chance.
A Victor Ferreira do Amaral tava parada. Sinal vermelho. Dois ônibus lado a lado ocupando as faixas.
Jota não freou.
Acelerou na contramão, subiu no canteiro central, voltou pro asfalto do outro lado.
O carro preto parou na preferencial. Não quis arriscar entrar entre os ônibus. Trânsito encheu atrás. Sinal abriu acima, fluxo liberado.
Presos.
— Conseguimos! — Leandro gritou, aliviado.
Jota respirou fundo. Mãos firmes no volante.
Entrou na Nivaldo Braga indo o mais rápido possível.
No movimento, Leandro viu que um celular caiu da mochila.
— Jota… tem outro celular aqui.
Jota franziu a testa, olhos ainda no retrovisor.
— Outro?
— É. — Leandro tirou da mochila. Flip phone idêntico. — Rand não para, né?
Leandro abriu o celular. Ligou sozinho. Vídeo já rodando.
Rand apareceu na tela. Rosto coberto. Voz distorcida:
“Dois vigias na entrada, um nos fundos. Troca às 14h. Janela de três minutos. Porão acessível pelo alçapão do quintal, pedra solta como sempre. Seu Luiz tá vivo. Não falha, 007. Você nasceu pra isso.”
O celular esquentou rápido na mão de Leandro.
— Merda, tá queimando!
— Joga fora!
Leandro abriu a janela, jogou. O celular caiu na rua, faísca pequena, fumaça sumindo no asfalto.
Leandro olhou pra Jota, olhos arregalados.
— Teu amigo é maluco.
Jota olhou pras mãos de Leandro. Tremiam de verdade. O pânico tinha ultrapassado o roteiro. Ele estava vivendo o pesadelo que ele mesmo tinha criado.
— Ele tá vivo — Jota disse, voz controlada. — Ainda dá tempo.
O Gol virou à esquerda. Rua do Professor.
Jota desacelerou. Olhou as casas passando devagar.
— Para ali — Leandro apontou. — Logo na frente daquela van.
Jota olhou. Van branca estacionada. Vidros escuros.
Movimento dentro. Duas silhuetas.
Perfis conhecidos.
Desligou o motor bem na frente da van.
O silêncio da tarde caiu sobre eles. Só o som distante de um cachorro latindo. Vento quente entrando pela janela.
Na janela de uma casa próxima, a cortina balançou. Movimento rápido. Alguém se afastando.
Leandro engoliu seco.
— Jota…
— Eu vi.
Abriu a porta do carro. O pé desceu no asfalto quente.
Olhou pro relógio do celular.
13h58.
Dois minutos pra troca.
Três minutos de janela.
Leandro saiu do carro. Fechou a porta devagar.
Olhou pro Jota. Respirou fundo.
— Vem comigo — disse, voz estranha. Nervosa. — Tenho que te mostrar uma coisa.
Jota olhou pra ele. Pro nervosismo. Pra van atrás.
— Que coisa?
— Vem — Leandro insistiu, andando em direção à van. — Por favor. Confia em mim.
Jota foi atrás.
A porta lateral da van abriu.
Dois homens saltaram. Rápidos. Máscaras pretas.
Agarraram Jota pelos braços.
— QUE PORRA! — Leandro gritou, mas já tinha outro segurando ele também.
Jota não resistiu.
Deixou levar.
Capuz preto desceu na cabeça dele. Escuridão.
Empurraram ele pra dentro da van. Leandro jogado ao lado. Tentando parecer assustado. Mas a respiração era errada. Rápida demais. Nervosa demais.
— CUIDADO COM A CABEÇA DELE! — Leandro gritou.
— CALMA! — alguém disse. Voz abafada. — Só vamos dar uma volta.
A van arrancou.
Dois minutos. Talvez três.
A van parou.
Porta abriu. Mãos seguraram Jota, puxaram ele pra fora.
Chão firme. Asfalto. Depois piso. Dentro de algum lugar.
Porta fechando atrás. Silêncio.
Passos ao redor. Muitos. Respirações contidas.
Alguém segurou o capuz.
Puxou.
Luz explodiu.
— SURPRESA!
Gritaria.
Jota piscou, olhos se ajustando.
Sala da casa. A dele. Rua do Professor.
Luzes acesas. Balões no teto. Faixa pendurada: “FELIZ ANIVERSÁRIO JOTA!”
Seu Luiz na frente, sorrindo. Larissa rindo, celular filmando. Rand encostado na parede.
Pai. Mãe. Irmãos. Sobrinhos. Amiga segurando o filho pequeno dela. Primos. Amigos.
Todo mundo ali.
Todo mundo rindo.
Aplaudindo.
Leandro ao lado de Jota, tirando o próprio capuz, sorrindo nervoso, ofegante.
— Consegui — sussurrou, só pra Jota ouvir. — Organizei tudo. E dessa vez… dessa vez eu não atrapalhei.
Jota olhou ao redor. A família. Os amigos. A casa reformada.
O teatro todo.
Olhou pro Leandro. Pro sorriso radiante. Pros olhos brilhando.
— Não — Jota disse, voz embargada. — Dessa vez tu foi o herói de verdade.
Abraçou ele. Forte.
A sala explodiu em risadas e gritos.
Larissa se aproximou. Beijou Jota. Demorado.
— Feliz aniversário, amor.
Jota segurou a mão dela. Apertou.
A festa começou. Música. Comida. Risadas.
Jota olhou ao redor. A casa reformada. Os amigos. A família.
O sobrinho correndo. A amiga gritando pra ele sentar. Rand sumindo pra cozinha. Leandro contando a história, agora pro primo, gestos largos, olhos brilhando.
E Seu Luiz. Do outro lado da sala. Olhando pra Jota.
Levantou o copo. Brinde silencioso.
Jota levantou de volta.
EPÍLOGO
A festa continuava lá dentro.
Som baixo de música, risadas abafadas vindo da sala. O sobrinho corria pelo corredor, a amiga tentava fazer ele sentar pra comer bolo. Larissa conversava com uma tia na cozinha. Leandro ainda contava a história da perseguição, agora pros primos, gestos largos, olhos brilhando.
Jota e Seu Luiz tinham saído pro quintal.
Duas cadeiras de plástico branco. Copo de refrigerante morno na mão do Jota. Água pro Seu Luiz. Churrasqueira apagando, brasa virando cinza.
A reforma tinha ficado boa. Muro novo, rebocado liso. Piso do quintal trocado. Churrasqueira de tijolo onde antes era só tambor cortado. Três meses de obra. Terminada na semana passada.
— Por isso tu tava dormindo no Centro — Seu Luiz disse. — Casa em reforma. Apartamento no Edifício Tijucas.
— Exatamente — Jota confirmou. — Aluguel temporário. Perto do trabalho. E longe de vocês tramando festa surpresa.
Seu Luiz deu risada.
— Tu sabe como é difícil fazer surpresa pra alguém que deduz tudo?
— Imagino — Jota sorriu. — Vocês capricharam. Larissa com código. Tu com ligação preocupada. Rand com celulares explodindo. Até a mulher desconhecida avisando de atentado.
— Prima da Larissa — Seu Luiz disse. — Atriz. Emprestei ela pro papel.
— Boa escolha — Jota admitiu. — Voz convincente.
— E colocar o Leandro no meio — Seu Luiz balançou a cabeça. — Foi arriscado. Mas eu sabia que se ELE acreditasse de verdade, criaria urgência real.
— Funcionou — Jota disse.
Silêncio.
— Tu sabia — Seu Luiz disse, simples. Não era pergunta.
Jota tomou um gole do refrigerante. Fez cara feia pro gosto doce demais.
— Desde a Larissa.
— O código?
— Ela nunca erra “parabéns” com dois S — Jota disse. — Nunca. Quando vi o erro, desconfiei na hora.
— Mas tu bancou o jogo perfeitamente.
— Porque valia a pena.
Silêncio.
Jota tirou o caderno da mochila aos pés da cadeira. Ímã Esso grudado na capa. Cinza fosco. Opaco.
— Esse ímã — Seu Luiz disse. — Tu sempre carrega ele.
— Lembrança — Jota disse, simples. — Do posto perto de casa. Onde a gente se encontrava quando eu era criança. Tu, meu pai, o Leandro. Fins de semana.
— O posto fechou faz dez anos.
— Eu sei — Jota passou o dedo na superfície fria. — Mas enquanto eu tiver isso aqui, lembro que tenho família. Que tenho pra onde voltar.
Seu Luiz ficou quieto.
— Mesmo morando sozinho no Centro — Jota continuou — longe de todo mundo, eu olhava pra esse ímã todo dia e lembrava: eu tenho gente. Tenho irmãos. Tenho pais. Tenho casa.
— E hoje tu descobriu que tem mesmo — Seu Luiz disse, voz embargada.
— Hoje eu tive certeza — Jota sorriu.
Jota guardou o caderno. Olhou pro quintal reformado.
— Eu pedi pro Rand não contar pro Leandro — Seu Luiz explicou. — Queria que o desespero dele fosse real. Pensei que ia te convencer.
— Nunca ia me convencer, Seu Luiz. Mas não era sobre me convencer. Era sobre ele.
Pausa.
— Sabe o que é engraçado? — Seu Luiz deu risada. — Foi ideia do Leandro.
Jota virou pra ele. Surpreso.
— Do Austin?
— Dele — Seu Luiz confirmou. — Ele que veio me pedir. Disse que queria fazer uma festa surpresa pro “irmão dele”. Que tu merecia. Que ele nunca tinha conseguido fazer nada certo, mas dessa vez ia conseguir.
Jota ficou quieto. Processando.
— Ele pediu ajuda pra todo mundo — Seu Luiz continuou. — Larissa com o código. Rand com os celulares. A prima da Larissa com o telefone. Eu com a ligação misteriosa e os detalhes da casa.
— E o Rand sabia do alçapão? — Jota perguntou. — Da pedra solta?
— Eu passei as informações pro Leandro — Seu Luiz disse. — Layout da casa, onde ficava o alçapão, tudo. Ele repassou pro Rand fazer os vídeos.
— O Leandro coordenou tudo — Jota disse, admirado.
— Tudo — Seu Luiz confirmou. — Ele juntou as peças. Pediu ajuda de cada um. E montou a operação inteira.
— Caralho…
— Ele planejou tudo — Seu Luiz sorriu. — Claro que a gente ajustou os detalhes. Mas a ideia, a coordenação, pedir ajuda de cada um… foi ele.
Pausa.
— Só que ele não esperava uma coisa.
— O quê?
Seu Luiz deu risada. Alta. Genuína.
— A perseguição.
Jota sorriu. Entendendo.
— Ele acreditou de verdade.
— Completamente — Seu Luiz limpou os olhos. — O garoto planejou festa surpresa. Ensaiou com todo mundo. Coordenou códigos, celulares, horários. E quando viu o “carro preto” seguindo vocês… entrou em pânico REAL.
— Porque ele acreditou na própria história — Jota completou.
— Exatamente — Seu Luiz balançou a cabeça. — Ele criou o teatro. Mas esqueceu que ia ter que atuar nele também.
Silêncio. Depois risada. Dos dois.
— O melhor — Seu Luiz disse — é que quando ele chegou aqui, desesperado, contando que “escaparam de uma perseguição REAL”, todo mundo ficou confuso. Larissa perguntou: “Que perseguição?” Rand disse: “Que carro?” E o Leandro: “VOCÊS NÃO VIRAM? DOIS CARROS NOS SEGUINDO!”
Jota deu risada. Imaginando a cena.
— E tu não contou pra ele.
— Não — Seu Luiz disse, sério agora. — E tu também não vai contar.
— Nunca — Jota prometeu.
— Porque hoje — Seu Luiz olhou pro quintal, pra festa lá dentro — ele organizou uma festa inteira. Coordenou dez pessoas. Criou códigos. E “salvou” o irmão dele de uma perseguição.
Virou pra Jota.
— Deixa ele acreditar nisso. Que ele fez tudo certo. Pela primeira vez.
— Ele fez tudo certo — Jota disse, honesto. — A perseguição foi… improviso meu. Mas o resto? Foi tudo ele.
— Quando o Leandro apareceu no estacionamento — Jota continuou, olhando pro copo. — Desesperado, suado, achando que o pai ia morrer… eu não ia tirar isso dele. A chance de ser útil. De ajudar numa “operação de verdade”.
— Então tu entrou no jogo.
— Então eu entrei no jogo — Jota confirmou. — Mostrei os códigos 3W. Ele ficou impressionado. Pela primeira vez alguém levez ele a sério.
Seu Luiz ficou quieto. Ouvindo.
— E usei o ímã apagado pra criar urgência — Jota admitiu. — Falei pro Leandro que quando o ímã não brilha, pode significar que alguém já morreu. Que a gente tinha que correr.
— Cruel — Seu Luiz disse, mas tava admirado.
— Eficiente — Jota corrigiu. — Ele entrou em pânico. Ficou desesperado. Mas se sentiu URGENTE. Importante.
— E a perseguição?
Jota sorriu. Meio envergonhado. Meio orgulhoso.
— Não existiu.
Seu Luiz virou pra ele. Sobrancelha erguida.
— Como assim?
— Carro preto que tava “seguindo” a gente? — Jota deu risada. — Civic preto de um vizinho. Voltando do trabalho. Todo dia, mesmo horário.
— Filho da puta.
— Entrei no Tarumã de propósito — Jota continuou, animado. — Havia uma chance de ser exatamente o horário que ele passa ali. Vidro fumê, carro preto, dirige rápido. Perfeito.
Seu Luiz largou o copo. Cobriu o rosto com as mãos.
Rindo.
— E quando Leandro gritou que tinha “outro carro”?
— Palio vermelho de uma vizinha — Jota disse. — Voltando da feira. Toda quinta, mesmo horário, coincidência, sabia o que fazer também.
Seu Luiz balançou a cabeça. Admirado. Incrédulo.
— Tu transformou o trânsito do Tarumã em perseguição de filme.
— Trabalho com o que tenho — Jota deu de ombros. — Tu me ensinou: usa o terreno. Conhece a região. Timing é tudo.
— Eu te ensinei a usar isso pra fugir de perigo real.
— Hoje eu usei pra criar perigo falso — Jota sorriu. — Improviso.
— E a van? — Jota perguntou. — Eu vi quem tava dentro.
Seu Luiz deu risada.
— Claro que viu.
— E mesmo assim deixei me capturarem.
— Podia ter resistido. Podia ter estragado a surpresa.
— Podia — Jota confirmou. — Mas o Leandro tinha caprichado tanto. Não ia ser eu a estragar.
Seu Luiz sorriu. Balançou a cabeça.
— O engraçado é que ele tentou atuar como se também tivesse sido pego de surpresa. Mas na hora que te jogaram na van, ele gritou: “CUIDADO COM A CABEÇA DELE!”
Jota riu.
— Tipo alguém que sabe exatamente o que tá acontecendo.
— Exatamente — Seu Luiz deu risada. — Capturado de verdade não se preocupa se o outro bateu a cabeça. Ele tava tão nervoso com a execução que se denunciou sozinho.
— E o segundo celular? — Jota perguntou. — Aquele que “caiu” da mochila.
— Ah, aquele — Seu Luiz riu. — O Leandro tava nervoso demais. Rand tinha dado pra ele colocar na tua mochila no momento certo.
— Eu vi quando ele fez — Jota admitiu. — Quando pedi pra ele entrar no carro, ele aproveitou o movimento e jogou o celular na mochila.
— E tu deixou.
— E eu deixei.
— Ele se importa — Jota disse, simples.
— Ele te ama, garoto — Seu Luiz corrigou.
Silêncio. Mais pesado agora. Mais denso.
Seu Luiz olhou pro quintal. Pro lugar onde tinha ensinado Jota a dar soco, vinte anos atrás. Onde tinha ensinado código morse, defesa pessoal, sobrevivência.
— Tu criou uma missão inteira — disse, voz baixa. — Do zero. Usando vizinhos, trânsito, timing. Pra dar pro meu filho uma memória boa. Uma história onde ele não falhou.
— Ele merecia.
— Ele vai contar essa história pro resto da vida.
— Eu sei — Jota olhou pras próprias mãos. — E eu nunca vou contar pra ele a verdade. Essa é a história dele.
Seu Luiz levantou. Não conseguia ficar sentado.
Deu dois passos. Parou.
Voltou. Agachou na frente de Jota. Mãos nos ombros dele.
— Obrigado — disse, voz embargada. — Por salvar meu filho. De verdade dessa vez. Não de bandidos. De si mesmo.
Jota segurou o braço dele. Firme.
— Ele é meu irmão, Seu Luiz. Mesmo sendo um desastre.
Seu Luiz abraçou Jota. Forte. Coisa que ele raramente fazia.
Ficaram assim. Dois homens no quintal reformado. Piso novo debaixo dos pés. Muro novo às costas. Festa continuando lá dentro.
Quando se soltaram, Seu Luiz limpou os olhos. Não tentou disfarçar.
— Hoje eu vi meu filho com brilho nos olhos — disse. — Coisa que eu não via faz anos. Desde antes dele perceber que não consegue fazer nada certo.
— Hoje ele fez certo — Jota disse, simples.
— Hoje tu deixou ele fazer certo.
Voltaram pras cadeiras. Refrigerante morno. Água esquecida.
— Tu é 007 de verdade — Seu Luiz disse. — Não pelos códigos. Não pela luta. Mas porque tu entende que a missão mais importante é a que salva a alma.
Jota não respondeu. Só olhou pro caderno. O ímã cinza fosco. Opaco.
Lembrança de família. De casa. De pertencimento.
Lá dentro, o sobrinho gritou alguma coisa. A amiga riu. Leandro contava a história de novo.
— Vamos voltar — Seu Luiz disse, levantando. — Antes que percebam que a gente sumiu.
Jota levantou também. Guardou o caderno na mochila.
Antes de entrar, Seu Luiz parou. Virou.
— Feliz aniversário, garoto. E obrigado pela reforma também.
— A reforma ficou boa — Jota olhou pro quintal novo. — Mas não foi o melhor presente.
— Não?
— Não — Jota sorriu. — O melhor presente foi ver o Austin Powers finalmente acreditar em si mesmo.
Seu Luiz apertou o ombro dele. Forte. Definitivo.
Entraram juntos.
A festa continuava. O sobrinho corria. A amiga gritava. Larissa ria na cozinha.
E o Leandro contava, pela oitava vez, como tinha ajudado a salvar o dia.
Com detalhes. Com gestos. Com olhos brilhando.
Porque hoje, pela primeira vez na vida, o Austin Powers não tinha falhado.
Mesmo que a perseguição fosse falsa.
Mesmo que tudo fosse teatro.
Porque o que importa não é a verdade.
É o que a pessoa acredita sobre si mesma depois.
E hoje, o Leandro acreditava.
Finalmente.
