O asfalto é negro, quente, vivo.
A serra desce em curvas que engolem o horizonte.
O caminhão vermelho ronca pesado, motor diesel trabalhando em marcha reduzida, freio-motor chiando como cachorro velho.
Vinte toneladas de carga nas costas, vinte toneladas de responsabilidade nos ombros de Jota.
Quarenta e quatro anos.
1,83 m, 110 kg de homem que já viu estrada demais.
Camiseta regata vinho colada de suor, barba cheia salpicada de grisalho, cabelo curto bagunçado pelo vento que entra pela janela aberta.
Mãos grossas no volante, olhos apertados contra o sol que bate no para-brisa.
Tênis surrado no pé, cadarço direito meio solto como sempre, dedão quase aparecendo pelo buraco.
Dois caminhões azuis na frente.
Experientes.
Conhecem cada buraco, cada curva, cada ponto cego.
Vão em formação, distância perfeita, velocidade controlada.
Jota tá atrás.
Primeira vez nessa serra.
Primeira vez com carga tão pesada.
Ele segue.
Distância respeitosa.
Quer aprender.
Quer ver como fazem.
60… 65…
O primeiro azul olha pro retrovisor.
Vê Jota atrás.
Novato.
Primeira vez na serra.
Acelera.
O segundo entende na hora.
Vai junto.
70… 75…
Jota vê.
Tenta acompanhar.
Confia que sabem o que fazem.
Acelera também.
Os dois azuis vão no limite.
Conhecem cada centímetro.
Sabem onde dá.
Sabem até onde podem.
Sempre souberam.
Mas hoje vão um pouco além.
Só um pouco.
Pra mostrar.
Pro novato ver.
Ver como é que se desce serra de verdade.
A curva aparece.
Fechada.
Inclinada.
Guardrail brilhando no lado de fora.
O primeiro azul freia.
Trava.
Mas foi longe demais.
Meio metro a mais.
Meio segundo a mais.
O limite que sempre respeitaram
foi ultrapassado.
Hoje.
Derrapa.
Sai da pista, raspa no guardrail, para de lado bloqueando metade da faixa.
O segundo não tem espaço.
Desvia pro acostamento oposto, perde aderência, gira, bate de lado no primeiro.
Metal contra metal.
Vidros explodindo.
Fumaça subindo.
Jota freia com tudo.
O caminhão vermelho para a três metros da batida.
Motor morre.
Silêncio.
Jota desce.
Pernas tremendo.
Coração na boca.
Culpa queimando mais que o sol.
Ele causou isso.
Foi ele.
Caminha até os caminhões tombados.
O primeiro motorista desce, cara de poucos amigos, mas vivo.
O segundo também.
— Porra, tu tá louco? — o primeiro grita.
Jota abre a boca pra pedir desculpa.
E pisa em algo que não é asfalto.
Madeira.
Olha pra baixo.
Piso de madeira envernizada.
Olha pros caminhões.
Pequenos.
Do tamanho de caixas de sapato.
Plástico vermelho.
Plástico azul.
Rodinhas de plástico.
O caminhão vermelho tá na mão dele.
Cabe inteiro na palma.
Leve.
Quente da lâmpada.
Jota olha em volta.
A serra…
é papelão pintado de preto, serpenteando sobre livros empilhados.
As montanhas são papel machê com musgo seco colado.
O céu azul é o teto do quarto, pintado com tinta guache.
O sol é uma lâmpada amarela pendurada numa corrente.
Um isqueiro amarelo passa voando pelo quarto, chama acesa, girando lento.
Um caderno de anotações voa atrás, páginas abertas batendo no vento que não existe.
Jota tá de pé no meio do quarto de infância.
Short azul.
Camiseta amarela com mancha de suco de uva.
Tênis velho com o mesmo buraco no dedão, cadarço direito sempre solto.
O caminhãozinho vermelho na mão.
Ele olha pro diorama.
Olha pro caminhãozinho.
Olha pro próprio corpo de 44 anos que não cabe mais ali.
E entende.
A serra sempre foi de papelão.
Os caminhões sempre foram de plástico.
E o acidente…
só quebrou a rodinha.
Clac, clac, clac.
É só encaixar de novo.
O quarto de infância é pequeno, quente, cheira a cola Tenaz, tinta guache e biscoito Maria que a mãe deixou no prato.
Jota de 44 anos está ajoelhado no tapete azul gasto, 110 kg ajoelhados num tapete que antes parecia enorme, olhando pro espelho onde o gordinho de 8 anos ainda olha de volta.
Mas ele sente.
Sente o corpo pequeno.
Sente as mãos pequenas.
Sente o peso zero do caminhãozinho vermelho na palma.
A serra de papelão tá montada na mesa baixa que era da mãe.
Livros empilhados formando as montanhas.
Estrada preta de papelão com faixas amarelas tortas desenhadas com canetinha Bic.
Guardrail de palito de sorvete pintado de prata.
Árvores de musgo seco coladas com cola branca.
Os dois caminhões azuis estão tombados na curva final.
Rodinhas tortas.
Jota de 44 anos — mas que sente as mãos pequenas de novo — pega o primeiro azul.
Gira a rodinha com o dedo.
Clac, clac, clac.
Encaixa de volta.
Perfeito.
Pega o segundo.
Clac, clac, clac.
Conserta.
Pega o vermelho.
Olha pra ele.
O caminhãozinho que sobreviveu a mil descidas.
Que nunca quebrou de verdade.
Que sempre voltava pro topo da serra.
Ele coloca os três alinhados no início da rampa.
Empurra o primeiro azul.
O caminhãozinho desce.
Devagar.
Curva com calma.
Para no fim da pista.
Seguro.
Empurra o segundo.
Mesma coisa.
Experiente.
Jota pequeno (ou velho, já não sabe) pega o vermelho.
Olha pra ele.
Respira fundo.
Empurra.
O caminhãozinho desce rápido.
Muito rápido.
Chega na curva final.
Derrapa.
Bate nos dois azuis.
Os três saem da pista.
Caem da mesa.
Batendo no chão de madeira com som pequeno:
toc… toc… toc…
Jota de 44 anos olha pros caminhões caídos.
As rodinhas tortas de novo.
Ele se agacha.
Pega o vermelho.
Tenta girar a rodinha.
Clac…
clac…
Não encaixa mais.
O eixo tá torto.
Quebrou de verdade.
Pela primeira vez.
Ele tenta de novo.
Força.
A rodinha solta inteira.
Cai no chão.
Rola.
Para.
Jota olha pra rodinha solta.
Olha pro caminhãozinho manco.
Olha pro diorama.
A lâmpada balança.
O isqueiro amarelo passa voando de novo, chama acesa.
O caderno de anotações voa atrás, páginas abertas, letra de criança quase apagada.
Jota de 44 anos sente o peito apertar.
Porque entendeu.
A serra era de papelão.
Os caminhões eram de brinquedo.
E a rodinha…
a rodinha não encaixa mais.
Nunca mais.
Mas tudo bem.
É assim mesmo.
Ele fica ajoelhado ali.
No quarto de infância.
Com o caminhãozinho vermelho quebrado na mão.
E a certeza tranquila
de que o tempo não volta.
E tá tudo bem.
Jota de 44 anos (mas ainda ajoelhado no corpo pequeno) segura a rodinha solta entre os dedos.
Pequena.
Plástico vermelho.
Eixo quebrado.
Ele não tenta encaixar de novo.
Só olha.
Aceita.
Guarda no bolsinho do short azul de criança.
Olha pro diorama.
A lâmpada balança suave.
A luz não pisca.
O papelão da estrada continua colado.
A tinta guache brilha como sempre brilhou.
O musgo seco continua nas árvores.
O céu azul do teto permanece intacto.
Jota levanta.
As pernas obedecem.
Ele caminha até a porta do quarto.
Olha pra trás uma última vez.
Os caminhõezinhos no chão.
O diorama inteiro.
A infância toda ali, pequena, preservada, intacta.
Ele sorri.
Abre a porta.
Sai.
O cheiro fica de café.
O chão dança.
A cozinha.
Luz cinza entrando pela janela.
Relógio na parede: 05h11.
Jota caminha até a geladeira.
Abre.
Guaraná zero.
Bebe no gargalo.
O ímã cinza fosco do Posto Esso tá ali no centro da porta, segurando um papel velho com telefone de açougue.
Beiradas descascando, logo quase apagado.
Ele olha pro ímã.
Lembra do pai colando ali quando Jota era pequeno.
Lembra de brincar com caminhões no chão enquanto o pai consertava a geladeira.
Sorri.
Não tira o ímã.
Só deixa ali.
Onde sempre esteve.
A mão direita ainda está fechada.
Ele percebe.
Abre devagar.
No centro da palma, o pedacinho de plástico vermelho quebrado.
Parte da rodinha dianteira do caminhãozinho.
Pequeno.
Leve.
Real.
Olha pela janela.
A pilha de lenha ainda tá lá.
Meio-fio rachado.
Gol Bolinha Cinza Urban na frente, fiel, mochila laranja no banco de trás.
Volta pro quarto.
Abre a gaveta do criado-mudo.
Tira uma caixinha de metal velha — aquela que guardava parafusos, moedas, coisas que não joga fora.
Coloca o pedacinho de plástico vermelho dentro.
Fecha.
Guarda de volta.
Senta na cama de novo.
Olha pro vaso na janela da cozinha, visível daqui.
O galho seco.
O pontinho dourado que sobrou do cristal.
E entende.
A serra de papelão acabou.
Os caminhões de plástico quebraram.
A infância ficou lá atrás.
Mas o pedacinho vermelho tá guardado.
E o galho no vaso
ainda pode brotar.
Jota deita de novo.
Fecha os olhos.
Não dorme mais.
Só fica ali.
Com o peso de 44 anos.
E a leveza de quem finalmente aceitou
que a rodinha não gira mais.
Mas que a gente continua andando mesmo assim.
Tranquilo.
08h23.
Jota tá na cozinha, café preto na caneca, guaraná zero gelado na outra mão.
Camiseta regata vinho limpa, short de moletom cinza, pé descalço no chão frio.
O vaso na janela.
O galho seco.
O pontinho dourado ainda lá, quase invisível.
Mas hoje ele vê diferente.
Levanta.
Pega a caixinha de metal do criado-mudo.
Abre.
Pega o pedacinho de plástico vermelho quebrado.
Vira na mão.
Olha pro vaso.
Vai até lá.
Abre a terra com o dedo.
Enterra o pedacinho de rodinha junto com o galho.
Cobre.
Rega com um pouco de água da pia.
A água entra na terra. Jota jura — JURA — que viu o galho tremer. Mas quando piscou, tava parado de novo.
Coloca o vaso de volta na janela.
O sol entra forte.
Bate no vaso.
Bate no galho.
Bate no pedacinho vermelho que agora é semente.
Jota bebe o café.
Olha pro ímã na geladeira.
Olha pro Gol Bolinha na frente da casa.
Chave na mão.
Calça o tênis surrado, amarra o cadarço direito (que solta de novo em dois minutos, mas tudo bem).
Pega a mochila laranja do banco de trás do Gol.
Abre ela: caderno marrom com anotações velhas, isqueiro amarelo no canto, carteira amassada.
Fecha.
Joga no ombro.
Entra no carro.
Dá partida na primeira.
O 1.0 16v tosse, pega.
Engata a primeira.
Sai rua abaixo.
Rua do Professor nunca pareceu tão viva.
O rádio não tem, mas ele canta sozinho.
Baixo.
Rouco.
Feliz.
— Clac, clac, clac…
O vento entra pelo vidro aberto.
O dia é comum.
Café da manhã, mercado, talvez uma volta no parque.
Nada especial.
Tudo especial.
Porque o caminhãozinho vermelho tá enterrado.
A rodinha quebrada virou terra.
E o galho seco
agora tem motivo pra brotar.
Jota sorri.
Pisa leve.
O Gol Bolinha segue.
E a vida,
pela primeira vez em muito tempo,
segue sem peso.
18h14.
O sol já tá baixo, laranja batendo na janela da cozinha.
Jota chega em casa depois do dia inteiro rodando sem rumo.
Mercado, posto de gasolina, fim de tarde no Parque das Águas.
Ele subiu no mirante. Tinha vento.
Lá longe, no horizonte, a Serra do Mar desenhada em azul-escuro contra o céu.
A serra de verdade. Gigante. Impossível de dobrar.
Jota olhou pra ela.
Depois olhou pra mão vazia.
A serra de papelão ficou no passado.
A de pedra continua lá.
E ele tá aqui. Inteiro.
Entra em casa.
Deixa a chave na mesa.
Deixa a mochila laranja no sofá.
Vai direto pra janela.
O vaso tá lá.
O galho seco.
Mas não tá mais seco.
Na ponta mais fina, quase escondido entre as rachaduras da madeira velha,
um broto verde.
Pequeno.
Tímido.
Como se tivesse esperado anos pra nascer. Ou horas. Ou sempre esteve ali, escondido, esperando ele olhar direito.
Vivo pra caralho.
Uma folha nova, ainda enrolada, brilhando com a luz do fim de tarde.
Jota para na frente.
Olha.
Sorri.
Um sorriso tranquilo, inteiro, que abre a barba cheia sem pressa nenhuma.
Toca o broto com a ponta do dedo.
Leve.
— Tu conseguiu, hein…
O broto treme de leve com o toque.
Como se respondesse.
Jota fica ali.
Parado.
Olhando.
O pedacinho de rodinha vermelha tá lá embaixo, enterrado.
Virou terra.
Virou vida.
A lâmpada do quarto de infância continua acesa na memória.
A serra de papelão continua intacta lá dentro.
Os caminhões de plástico continuam guardados.
Mas o broto verde
cresceu.
E o Jota de 44 anos,
110 kg de quem carregou o mundo nas costas,
finalmente
pode respirar.
Porque a infância não volta.
Mas às vezes,
só às vezes,
ela brota de novo.
Num vaso na janela.
Num galho que todo mundo achava morto.
Num pedacinho de plástico vermelho que virou semente.
Jota deixa a janela aberta.
O vento da noite entra fresco.
A folha nova balança.
Olha pro ímã na geladeira uma última vez antes de ir pro quarto.
Ainda ali.
Sempre ali.
E o dia termina.
Sem martelada.
Sem loop.
Sem peso.
Só um broto verde
e um homem de 44 anos
que aprendeu
que até o que quebrou
pode virar terra boa.
Tranquilo.
