Capa do Capítulo

41 Minutos na Escuridão

Extensão: 2.000 palavras | Leitura: 10 min

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A luz azulada da televisão treme no teto do quarto. Jota está estirado na cama, corpo afundado no colchão velho, camiseta regata vinho, olhos meio fechados assistindo algum programa qualquer. Notícia. Talvez filme. Não importa. O volume baixo preenche o silêncio da noite. Lá fora, Curitiba dorme. Rua do Professor vazia. O Gol Bolinha Cinza estacionado embaixo do poste de luz fraca, sozinho, esperando o dono que não vai a lugar nenhum essa noite.

O sobrado respira devagar. Pai cochilando no quarto do outro lado do corredor. Jota ouve a respiração pesada atravessando a parede. Ronco leve. Tranquilo.

A mochila laranja está jogada no chão ao lado da cama. O caderno de anotações de capa dura marrom aberto em cima da mesinha. Página em branco. Jota estava pensando em escrever algo mais cedo. Mas não veio nada. Então deixou aberto. Esperando. Os tênis surrados no canto do quarto. 

Mais cedo, antes de subir, Jota tinha passado pela cozinha. Pegou água. Olhou a geladeira. O ímã retangular cinza fosco com logo de Posto Esso quase apagado estava ali. Centro da porta. Onde sempre esteve.

Ele pega o isqueiro amarelo do bolso da calça moletom cinza. O sobrevivente. Acende. A chama pequena ilumina o quarto por um segundo. Apaga. Acende de novo. Apaga. Não entende por que está fazendo isso.

Então acontece.

Um barulho seco vem da frente da casa.

Como portão batendo.

Ou grade chacoalhando.

Jota ergue a cabeça. Para de respirar. Escuta.

Silêncio.

Depois vozes abafadas.

Passos.

Ele aperta o botão de mute do controle remoto. O som da TV morre. O silêncio cai pesado. Agora dá pra ouvir melhor. Alguém está lá fora. Várias pessoas. Risos. Crianças?

Jota levanta devagar. Pés descalços no chão frio. Vai até a porta do quarto. Espia pelo corredor escuro. A luz do poste da rua entra fraca pela janela da escada. Ele vê a silhueta do portão eletrônico lá embaixo. A grade. Movimento do outro lado.

Vira o rosto pro corredor do outro lado. Vai descendo as escadas e avisa o pai.

— Pai — ele chama baixo, quase rouco. — Tem gente na frente.

Ninguém responde.

Jota meio que escuta um ronco vindo do quarto do pai. Tranquilo. Pesado. Como se nada estivesse acontecendo.

Desce as escadas.

Cada degrau range. O corrimão frio sob a palma da mão.  Desce e para na metade da escada, e tenta olhar pela ventarola. As vozes ficam mais altas. Mais claras. Risadas de criança. E uma voz de homem. Grave. Conhecida.

Popó.

Jota reconhece antes mesmo de ver.

Quando chega ao último degrau, Popó já está parado diante do portão aberto. A grade balança levemente. Ele está suado. Camiseta preta colada no peito. Respiração ofegante. Mãos nos joelhos. Curva o corpo pra frente. Recupera o fôlego.

Ao redor dele, um grupo de crianças corre pelo quintal. Jota conta rápido. Nove. Enaldinho e Sheldon mais sete rostos desconhecidos. Algumas sobem no murinho baixo que separa o quintal da calçada. Outras cutucam as plantas. Uma menina pequena puxa a calça de alguém. Ri. Corre de novo.

Enaldinho e Sheldon estão ali. Jota reconhece os sobrinhos na hora. Enaldinho, cabelo curto, camiseta do Athletico. Sheldon, o mais velho, shorts azul. Os dois estão próximos ao pai. Popó coloca a mão na cabeça de Sheldon. Bagunça o cabelo. O menino ri.

As outras sete crianças são desconhecidas. Rostos que Jota não reconhece. De onde vieram?

Jota desce o último degrau. Pisa no chão frio da entrada. Fica parado na soleira da porta. Olhando.

Popó ergue o rosto. Vê o irmão. Sorri torto. Aquele sorriso de quem acabou de vencer uma corrida. Ou de quem escapou de algo.

— Quarenta e um minutos e uns trocados, mano — Popó diz entre respirações. A voz rouca. Cansada. Mas aliviada. — Saí de lá correndo com essa tropa toda.

Jota franze a testa.

— Quarenta e um minutos de onde?

Popó limpa o suor da testa com as costas da mão. Olha pras crianças. Depois pra rua vazia atrás dele.

— Os portões estão trancando — ele diz baixo. Quase sussurrando. — Um por um. Rua por rua. A gente conseguiu antes.

Jota sente o ar ficar mais pesado.

Popó não explica mais nada. Apenas aponta pros filhos. Depois pras outras crianças.

— Filho da Dona Maria. A menina do 47. Mais cinco que consegui pegar. Tavam gritando nas janelas.

Ele não continua. Apenas olha pra Jota. Esperando.

Jota olha de volta. Pra Popó. Pros sobrinhos. Pras nove crianças espalhadas pelo quintal.

A rua atrás de Popó está vazia. Escura. Mais escura que o normal. Como se as luzes dos postes tivessem apagado uma por uma. Não tem ninguém mais. Não tem carro passando. Não tem cachorro latindo. Só eles. E o Gol Bolinha ali do lado, testemunha muda de tudo.

Jota olha pros sobrinhos. Enaldinho vai correndo para a geladeira, Sheldon concentrado no celular. 

As crianças entram em bando.

Como se estivessem esperando permissão há horas. Passam por Jota. Cheiro de suor de criança. Tênis sujo de terra. Risadas cortando o silêncio.

Jota conta de novo enquanto passam.

Sete.

Só sete agora.

Enaldinho, Sheldon e mais cinco.

Ele olha pra Popó. Abre a boca pra perguntar. Fecha. Não pergunta.

Popó entra por último. Fecha o portão eletrônico atrás de si. O motor ronca baixo. A grade desliza. Trava. Click.

Ele para do lado de Jota. Coloca a mão no ombro do irmão. Aperta. Não diz nada. Apenas aperta. Como quem agradece sem palavras.

Nesse momento, Rand aparece no portão da frente. Macacão azul. Ferramentas no cinto. Cabelo bagunçado. Suado. Ele entra direto, passa por Jota e Popó sem parar.

— Valeu, mano, preciso cagar — ele diz. Voz urgente. — Banheiro?

Jota aponta pro corredor.

— Ali.

Rand atravessa o corredor em três passadas largas. Abre a porta do banheiro. Entra. Tranca.

Popó olha pra Jota. Franze a testa.

— Quando ele chegou?

Jota dá de ombros.

— Agora. Junto com você, acho.

Popó balança a cabeça. Não comenta mais nada.

Jota atravessa o corredor. Vai até a cozinha. Precisa de água. A garganta tá seca. As crianças continuam no corredor. Popó organizando. Acalmando.

Quando Jota passa pela geladeira, o ímã começa a brilhar.

O retangular cinza fosco com logo de Posto Esso quase apagado. Preso na porta da geladeira. Centro. Onde sempre esteve.

Ele brilha azul pálido. Discreto. Mas inconfundível.

Jota para. Olha.

Família. Família presente. Pai no quarto. Popó ali. Sobrinhos no corredor.

O ímã brilha mais forte por três segundos. Depois volta ao normal. Cinza fosco. Apagado. Como se nunca tivesse acontecido.

Jota olha pro corredor. Que estranho o pai não levantar. Deveria acordar ele? Falar sobre Popó, as crianças, os portões? Mas o velho deve estar dormindo. E Popó já chegou. As crianças estão dentro. O portão fechou.

E o pai não acordou quando Jota chamou.

Já passou.

Não adianta acordar ninguém agora.

Jota respira fundo. Pega o copo. Enche de água. Bebe devagar.

Ouve passos rápidos no corredor. Uma das crianças corre pro banheiro.

— Espera! — outra grita.

A porta do banheiro continua trancada.

Jota sai da cozinha. Volta pro corredor. Vê Enaldinho parado na frente da porta do banheiro. 

— Tio, o banheiro tá ocupado — ele diz. Voz fina. Desesperada.

Jota se aproxima. Bate na porta.

— Sai daí, tem criança querendo usar.

Uma voz grave responde de dentro:

— TÔ CAGANDO!

Rand.

Popó aparece ao lado de Jota. Olha pra porta. Balança a cabeça.

— Usa o banheiro lá de cima — ele diz.

Os dois sobem as escadas correndo. Sheldon vai atrás. As outras crianças se espalham pela sala. Correm. Riem. Depois param. Olham ao redor. Casa estranha. Escuro. Percebem onde estão. O que deixaram pra trás.

Ficam quietas.

Sentam no chão. Encostam na parede. Algumas abraçam os joelhos.

Jota fica parado na frente da porta do banheiro. Escuta a descarga. A torneira. A porta se abre.

Rand sai. Olha pra Jota. Acena com a cabeça.

— Valeu, mano.

E passa direto. Atravessa o corredor. Jota abre o portão pelo controle. Rand sai pela porta.

Jota vai até a porta. Olha pra rua.

Rand já sumiu.

Como sempre.

Jota fecha o portão pelo controle.

Mas a rua…

Vai até mais próximo do portão.

Jota repara em três postes apagados.

Ontem eram dois.

Ele conta de novo. Um. Dois. Três.

O quarto poste, mais longe, pisca. Uma vez. Duas.

Apaga.

Jota volta pra dentro. Sobe as escadas de novo. Devagar. Volta pro quarto.

A TV ainda acesa. Luz azulada tremendo no teto. O programa ainda passando sem som.

Jota pega o isqueiro amarelo da mesinha. Acende. Apaga. Acende. Apaga.

Mais rápido agora. Como se o isqueiro soubesse que algo mudou. Como se sentisse o perigo que Popó trouxe junto.

Jota olha pro isqueiro tremendo na mão. Pro brilho fraco da chama amarela. Lá fora, a rua apaga. Aqui dentro, ele tenta manter a luz acesa. Equilibrar. Segurar.

Ele olha pela janela.

O Gol Bolinha continua ali embaixo. Parado. Fiel. Mas a luz do poste mais próximo parece mais fraca. E os portões das casas vizinhas…

Jota aproxima o rosto do vidro.

Trancados.

Todos trancados.

Grades fechadas. Cadeados. Correntes.

Quando não estavam antes?

Ele não lembra.

Mas agora estão.

E a rua está mais escura. Muito mais escura.

Quatro postes apagados.

Lá embaixo, vozes de criança ecoam pelo corredor. Popó falando baixo. Organizando. Colocando ordem no caos que ele trouxe.

Jota pega o caderno de anotações. A página ainda em branco. Pega a caneta. Anota:

“Popó chegou. 41 minutos. Enaldinho, Sheldon + mais 7 crianças (filho da Dona Maria, menina do 47, outros cinco). Nove no total. Mas só sete entraram. Duas sumiram? Quando? Os portões estão trancando. Rua por rua. Ele conseguiu antes. Rand apareceu. Cagou. Sumiu de novo. Rua mais escura. Quatro postes apagados. Ontem eram dois. Portões das outras casas trancados. Quando? Pai não acordou. Estranho, ele sempre acorda.”

Ele para.

Olha pra frase.

Nove crianças.

Sete entraram.

Duas sumiram.

Jota fecha o caderno. Guarda na mochila laranja. Deita na cama de novo.

Lá embaixo, o barulho diminui. As crianças se acalmam. Popó deve ter colocado eles pra sentar. Ou pra deitar.

O ronco do pai volta a ecoar pelo corredor.

Tranquilo.

Como se nada tivesse acontecido.

Jota fecha os olhos.

Quarenta e um minutos.

Os portões trancando.

A rua escurecendo.

Quatro postes apagados.

E Popó correndo com nove crianças gritando nas janelas dos vizinhos.

Mas só sete entraram.

Duas ficaram pra trás?

Ou nunca existiram?

Jota abre os olhos de novo.

Pega o isqueiro. Acende. Mantém a chama acesa dessa vez. A luz amarela ilumina o teto.

Lá fora, Curitiba dorme.

Ou finge que dorme.

Porque os portões estão trancados.

E a rua está mais escura.

Quatro postes apagados.

E dentro do sobrado, sete crianças que quase não conseguiram entrar.

Duas que não entraram.

Quase.

Jota apaga o isqueiro.

O quarto fica escuro de novo.

Só a luz azulada da TV.

E o som do silêncio pesado.

Silêncio que sabe.

Que quarenta e dois minutos seria tarde demais.

Que os portões trancam.

Que a escuridão avança.

Quatro postes hoje.

Cinco amanhã.

E que Popó chegou a tempo.

Por pouco.

Muito pouco.

Quarenta e um minutos e uns trocados.

Antes da rua fechar de vez.

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Sinopse Narrativa:

Jota está no quarto do sobrado quando Popó chega suado com nove crianças — incluindo os sobrinhos Enaldinho e Sheldon — após correr quarenta e um minutos enquanto os portões da cidade trancavam rua por rua. Rand aparece misteriosamente, usa o banheiro e some. Jota percebe que apenas sete das nove crianças entraram de fato, que os postes da rua continuam apagando (dois ontem, quatro agora) e que o pai estranhamente não acorda. O ímã do Posto Esso brilha azul ao sentir a família reunida. Jota anota tudo no caderno e fica acordado, mantendo a chama do isqueiro acesa contra a escuridão que avança.

Gênero Realismo Mágico, Terror Cotidiano
Tom Inquietante, Opressivo, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal, Observador
Categoria Ameaça Urbana, Família, Mistério
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Anomalia que só o observador percebe, Escuridão que avança como ameaça silenciosa, Família como âncora e como responsabilidade
Locais banheiro, Capão da Imbuia, Cozinha, Quarto, quintal, Rua, Rua do Professor, sobrado
Palavras-Chave 41 minutos, crianças sumidas, escuridão avançando, ímã brilhando, Popó, portões trancando, postes apagando, Rand
O ímã do Posto Esso brilha azul pálido ao sentir família presente — comportamento já registrado em contos anteriores, aqui descrito com mais detalhe (três segundos, depois volta ao normal). Popó chega com nove crianças mas apenas sete entram — duas desaparecem sem que ninguém perceba o momento exato. Rand aparece sem explicação, usa o banheiro e some — comportamento misterioso recorrente do personagem. O pai não acorda apesar de Jota tê-lo chamado e dos barulhos — Jota registra como "estranho, ele sempre acorda". Os postes apagam progressivamente: dois na noite anterior, quatro nesta noite. A anotação no caderno é transcrita integralmente no texto.
 

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