Capa do Capítulo

A Escopeta que Não Faz Barulho

Extensão: 2.420 palavras | Leitura: 13 min

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Curitiba está virando um forno disfarçado de cidade. O asfalto do Batel refletia o sol como se quisesse derreter sola de sapato. Jota andava pesado, 110 kg pingando dentro de uma regata vinho que já tinha desistido de ser limpa. O suor escorria pela nuca dele, descia pelas costas, grudava na cueca. Trinta e seis graus às dez da manhã, umidade que dava pra cortar com faca. O cheiro era de piche quente, café requentado e perfume caro que não segurava o cheiro de gente.

Em cada esquina, o mesmo trailer. Um cara enlameado, barba por fazer, olhos injetados, gritando “Conquiste ou morra!” enquanto explodia um helicóptero com uma bazuca feita de bambu. Ilhas Perdidas. O jogo: Vá para a Selva 3. Todo mundo falava. Todo stories tinha. Até uma prima de Jota compartilhou com a legenda “meu filho joga isso, credo”. Ele não jogava ainda. Ele trabalhava nele. Ou achava que trabalhava.

O convite tinha chegado três meses antes. Rand Oliveira mandou um áudio de voz às quatro da manhã, voz rouca de quem fumou dois maços: “Jota, tem uma vaga que paga um valor interessante. É teste, é programação, é meio secreto, mas é dinheiro vivo, irmão. Entra.” Rand era o tipo de cara que sumia por semanas e voltava com histórias que ninguém acreditava. Dessa vez voltou com crachá preto sem logo e um endereço na Água Verde que não existia no Google Maps.

Jota aceitou porque precisava pensar em algo diferente de Daslu, do outro lado do planeta e que tinha mandado mensagem dizendo que o pequeno dela — só dela — precisava de aparelho novo e “você some, mas a criança cresce”. Aperto no peito. Respira. Aceitou tentando esquecer. Aceitou porque não conseguia.

A programação sempre foi isso: fazer o corpo ir onde a cabeça não quer.

Jota deixou o Gol Bolinha no estacionamento subterrâneo do prédio, mochila laranja nas costas, e subiu.

Agora ele estava ali, na porta de um prédio espelhado que parecia engolir o céu. Segurança com fone de ouvido, crachá preto, olhar de quem já matou e preencheu formulário depois.

— 09?

O guarda nem esperou resposta, só esticou a mão pro detector de metal. Jota passou. O detector apitou. O guarda olhou pra ele, depois pro visor, e franziu a testa.

— Tá mostrando dois.

Jota mostrou o que tinha e o segurança o deixou passar.

Elevador sem botão de andar. Só um leitor biométrico. Jota encostou o dedo. Desceu. Desceu muito. Quando abriu, era subsolo com carpete novo e cheiro de tinta fresca. Corredor branco, luz branca, ar-condicionado que batia nos ossos. Uma placa discreta: Sala 0.7.

Jota empurrou a porta.

Dez cadeiras de acrílico transparente, mesa de vidro fumê, projetor já ligado mostrando o trailer em loop. Nove pessoas sentadas, nenhuma olhava pra outra. Jota reconheceu dois rostos de LinkedIn, mas fingiu que não. Todo mundo com crachá preto sem nome, só um número. O dele era 09. Sentou. O ar-condicionado parecia um tapa gelado na cara.

Na parede, um manequim de testes balísticos, daqueles cinza com marcas de tiro no peito. Ao lado, uma maleta de alumínio aberta, forração de espuma preta. Vazia.

A luz escureceu. O trailer terminou.

A tela ficou preta. O silêncio era tão pesado que dava pra ouvir o sangue batendo no ouvido.

A porta dos fundos abriu sem barulho.

Ele entrou.

Magro, uns quarenta e poucos, barba de três dias perfeitamente imperfeita, óculos de armação fina dourada. Terno azul-marinho que custava mais que o carro de Jota. Nas mãos, a maleta que estava vazia agora não estava mais. Ele sorriu como quem sabe que você já perdeu.

— Bom dia — disse, voz baixa, quase carinhosa. — Hoje a propaganda atravessa a tela. Literalmente.

Colocou a maleta na mesa. Abriu.

Dentro, uma escopeta curta, cano serrado, metal fosco, sem marca, sem logo. Parecia brinquedo de criança rica. Só que não era.

Ele olhou direto pra Jota. Só por meio segundo. Mas foi o suficiente.

Jota sabia que tinha cruzado uma porta que não abre de volta.

O criador fechou a maleta com um clique suave, como quem fecha um caixão de luxo.

— Vocês viram o trailer — começou, andando devagar ao redor da mesa. — Explosões, sangue, liberdade. Tudo mentira. A verdade é mais simples: impacto. O jogador precisa sentir na pele. Não na cabeça. Na pele.

Parou atrás do manequim. Acariciou o ombro dele como se fosse gente.

— Esse aqui já levou tiro de fuzil, facada, granada de fragmentação. Sobreviveu a tudo. Hoje vai levar algo novo.

Tirou a escopeta da maleta. O metal era mais claro do que Jota imaginava, quase prateado, com uns sulcos que pareciam veias. O cano era largo, grotesco, lembrava a boca de um tubarão. Não tinha gatilho tradicional; tinha um botão vermelho minúsculo, do tamanho da cabeça de um parafuso.

— Não é arma — disse, antecipando a pergunta que ninguém fez. — É extensão do jogo. Vai direto pro console. Jogador leva tiro no jogo? Sente o impacto no peito. De verdade. Sem sangue. Só dor.

A sala inteira prendeu o ar. O ar-condicionado parecia ter parado de funcionar; o frio agora vinha de dentro.

Ele mirou o manequim a uns quatro metros. Braço firme, sem tremor.

— Quando eu apertar, vocês vão sentir uma brisa. Só isso. Uma brisa.

Mentira.

Apertou.

Não houve estampido. Não houve recuo. Nem faísca, nem fumaça.

Só um som abafado, como se alguém tivesse aberto uma garrafa de champanhe dentro de um edredom. Pfffft.

Mas o ar saiu violento.

Jota viu a onda antes de sentir. O ar se dobrou, se comprimiu, virou lâmina. O copo d’água da mina do número 04 voou da mesa e se espatifou na parede. Cabelo de todo mundo foi pro lado como se tivesse tomado vento de helicóptero. A regata de Jota colou no peito de uma vez só, o suor virou cola.

O manequim saiu do chão. Voou dois metros pra trás, bateu na parede de drywall com um estrondo seco. A cabeça de plástico rachou. O tronco torceu como se tivesse levado um soco de caminhão. Ficou lá, pendurado, torto, com a marca perfeita de um círculo no peito, como se tivesse sido socado por um punho invisível de um metro de diâmetro.

Silêncio absoluto depois.

Depois risos nervosos. Um aplauso tímido que cresceu. Alguém gritou “caralho!” como se fosse show de rock.

Jota não riu.

Ele sentiu o cheiro. Um cheiro que não devia existir: ozônio, como depois de raio, misturado com algo metálico, quase sangue. O peito dele doía. Não de medo ainda. Doía como se tivesse levado o golpe junto com o boneco.

O criador abaixou a arma devagar. Olhou pra todos com aquele sorriso de quem acabou de mostrar a calcinha da morte.

— Impressionante, né? É assim que o jogador vai sentir o recoil. É assim que a propaganda atravessa a tela. Console na sala, emissor no controle, impacto direto no peito. Sem perigo. Só realidade.

Ele caminhou até Jota. Parou do lado dele. O cheiro: água de colônia cara e algo químico, doce, que lembrava solvente de tinta.

— Número 09 — disse baixo, só pra Jota. — Você entendeu, né?

Jota quis responder. A boca abriu, mas só saiu um fiapo de voz.

— Isso… isso é tecnologia militar.

O criador sorriu mais largo. Os dentes eram muito brancos.

— Não. Ainda não é. Mas pode virar.

Virou-se pra sala de novo, já em tom de apresentador:

— Em breve, cada console vai ter isso. O jogador sente o tiro no peito. O sangue. A dor. Sente o jogo. Sem risco. Só impacto no momento, mas muito mais em breve.

Alguém levantou a mão, voz tremendo de empolgação:

— E o orçamento pra isso? Os relatórios que vazaram…

O criador cortou com um gesto suave.

— O orçamento é o de menos. Tem gente que paga pra ver até onde a ficção aguenta empurrar a realidade.

Olhou de novo pra Jota. Dessa vez sem sorrir.

Naquele segundo Jota sacou tudo.

Não era marketing.

Não era jogo.

Era teste.

E eles eram o alvo de calibração.

O ar-condicionado voltou a funcionar de repente. O frio bateu nas costas suadas de Jota como faca.

Ele sentiu a carreira da manhã morrendo no sangue e outra nascendo no lugar: pura adrenalina.

Queria levantar e correr.

Queria levantar e gritar.

Mas ficou ali, 110 kg de carne parados, olhando pro manequim torto na parede.

Porque o pior ainda não tinha vindo.

O ar ainda ondulava.

Era possível ver: uma névoa translúcida, quase líquida, suspensa entre o cano da escopeta e o manequim destruído. Como se o próprio espaço tivesse levado um soco e agora respirasse pesado.

O criador mantinha o dedo no botão vermelho.

Os risos da sala ainda ecoavam, mas o som não chegava até Jota.

Chegava abafado, como se ele estivesse debaixo d’água.

Então tudo parou.

Não é força de expressão.

Tudo parou de verdade.

O aplauso ficou congelado no ar: bocas abertas, mãos em metade do caminho uma da outra, palmas que nunca se encontrariam.

O cabelo da mina do número 06 ainda voava pra trás, fios duros como arames.

Uma gota de suor que escorria da testa de Jota parou a meio centímetro da sobrancelha, tremendo, brilhando.

O ar-condicionado parou de soprar. O silêncio era tão absoluto que Jota ouvia o sangue latejando nas próprias têmporas, tum-tum, tum-tum, o único som do universo.

Só ele mexia.

Tentou levantar. Conseguiu. A cadeira nem rangeu.

Deu um passo. O carpete não afundou.

Pegou o copo d’água da mesa. Tentou virar. A água estava sólida, congelada no ar, mas quente ao toque. Largou. O copo ficou suspenso onde deixou, flutuando.

Tentou gritar. A boca abriu, mas não saiu som. Nem eco. Nem ar. Como gritar no vácuo.

Empurrou uma cadeira com força. Não moveu. Nem tremeu. Como empurrar parede de concreto.

Tocou no ombro do cara ao lado dele, o número 11. Duro. Frio. Como tocar estátua de mármore.

O olho dele estava fixo no manequim, pupila dilatada, mas sem vida.

Jota era o único vivo ali.

Olhou pra escopeta. O cano ainda soltava aquela névoa lenta, como fumaça de gelo seco, só que parada no tempo.

O criador sorria. O sorriso congelado era pior que qualquer grito. Os olhos dele acompanhavam Jota. Só os olhos se moviam, seguindo cada passo como câmera de segurança.

Uma voz (Jota não sabia se dentro ou fora da cabeça) falou, calma, quase carinhosa:

— Campo de impacto calibrado. Bem-vindo, número 09.

Jota virou pro manequim. A rachadura no peito dele pulsava, muito devagar, como coração de pedra.

Aproximou a mão. O ar ali era sólido. Empurrou. Doía. Doía como meter a mão num bloco de gelo seco.

Recuou.

Vozes vieram de lugar nenhum. Baixas. Sussurrando.

A voz de Daslu: “Você sempre escolhe o buraco mais fundo.”

A voz de Rand: “Entra, irmão.”

A voz da mãe de Jota: “Ainda vai se perder de vez.”

Flashs vieram logo depois.

Daslu no aeroporto de Guarulhos, alguns anos atrás, olhos vermelhos: “Você sempre escolhe o buraco mais fundo, Geraldo.”

Rand Oliveira sumindo no meio do Parque das Águas, macacão azul, cheirando o isqueiro amarelo antes de acender o cigarro, acenando de longe antes de virar fumaça.

A mãe de Jota sempre anunciando para todos em casa: “Esse menino vai ser muito na vida.”

Ele estava perdido agora.

Não iria correr, tinha que enfrentar. As pernas pesavam toneladas.

Olhou pro relógio de pulso: os ponteiros parados às 10:47:12.

Viu o próprio reflexo no vidro fumê da mesa. Piscou. Jota não tinha piscado.

Foi quando viu direito.

Ele não estava sozinho.

Atrás dele, de pé, imóvel como os outros, tinha outro Jota.

Mesmo corpo, mesma regata vinho suada, mesmos 110 kg.

Mas os olhos dele eram vazios.

E ele segurava o isqueiro amarelo. Cheirava. Devagar. Como Rand fazia.

Depois sorria o mesmo sorriso do criador.

Jota era o manequim agora.

O pânico veio de verdade, um trovão no peito.

Bateu no vidro com força. O reflexo não tremeu.

Ele continuou sorrindo, o isqueiro amarelo na mão.

Jota bateu de novo. Mais forte. Mão latejando.

O reflexo cheirou o isqueiro. Devagar. Sem tirar os olhos dele.

A voz voltou, mais perto, dentro do osso:

— Você sempre quis sentir o impacto na pele, Jota. Agora sente.

O ar começou a se mover de novo.

Devagar.

Como um filme voltando do pause.

Primeiro o som: um estalo seco, o ar-condicionado religando.

Depois o cheiro: ozônio queimado.

Os aplausos voltaram, mas mais altos, como se tivessem sido engavetados e agora explodissem.

Jota ainda estava de pé.

Ninguém pareceu notar que ele tinha se movido.

O criador guardava a escopeta na maleta, tranquilo.

Olhou pra Jota uma última vez. Piscou. Só um olho.

A reunião acabou em cinco minutos. Papo de roadmap, datas, NDAs reforçados.

Jota assinou tudo depois de ter uma noção exata do que era.

Quando saiu do prédio, o calor abafado de Curitiba recebeu ele como tapa de amigo traidor.

O tênis surrado com cadarço solto (o esquerdo, como sempre) batia no asfalto quente enquanto Jota atravessava a rua. Passou a mão no bolso da frente da mochila laranja e sentiu o volume do isqueiro amarelo, o sobrevivente, ainda lá. O caderno marrom de capa dura também estava no bolso lateral, como sempre.

O celular vibrou no bolso. Uma mensagem. Sem remetente. Sem número.

“Campo de impacto: fase 2 iniciada. Você já está dentro da tela, número 09. Não tente sair. O jogo começou.”

Jota olhou pro céu. Um outdoor gigante na Marechal piscava o trailer.

O herói enlameado gritava “Conquiste ou morra!” direto pra ele.

Apagou a tela do celular.

Silêncio.

Mas era o tipo de silêncio que grita.

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Sinopse Narrativa:

Curitiba, 36 graus. Jota aceita trabalho secreto indicado por Rand para testar propaganda de jogo "Ilhas Perdidas/Vá para a Selva 3". Em subsolo de prédio, criador apresenta escopeta que transmite impacto de tiros do jogo pro corpo real. Dispara em manequim que voa 2 metros. Tempo congela. Só Jota se move. Vê outro Jota com isqueiro cheirando como Rand. Tempo volta. Mensagem anônima: "Campo de impacto: fase 2 iniciada. Você já está dentro da tela".

Gênero Ficção Científica Distópica, Terror Psicológico
Tom Claustrofóbico, Paranoico, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Ficção Científica, Terror Corporativo
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Perda de autonomia, Realidade vs simulação, Teste humano não-consensual
Locais Água Verde, ar-condicionado gelado, Batel, carpete novo, corredor branco, Curitiba, Marechal, prédio espelhado, Sala 0.7, subsolo
Palavras-Chave campo de impacto, escopeta, Ilhas Perdidas, manequim, outro Jota, Prédio corporativo, Rand Oliveira, tempo congela, teste humano, Vá para a Selva 3
Curitiba: 36 graus às 10h, asfalto derretendo, cheiro de piche quente/café requentado/perfume caro. Jogo: "Vá para a Selva 3", trailer com cara enlameado gritando "Conquiste ou morra!" explodindo helicóptero com bazuca de bambu. Rand: mandou áudio 4h da manhã, voz rouca, ofereceu vaga que paga 3x mais. Daslu: do outro lado do planeta. PCuritiba está virando um forno disfarçado de cidade. O asfalto do Batel refletia o sol como se quisesse derreter sola de sapato. Jota andava pesado, 110 kg pingando dentro de uma regata vinho que já tinha desistido de ser limpa. O suor escorria pela nuca dele, descia pelas costas, grudava na cueca. Trinta e seis graus às dez da manhã, umidade que dava pra cortar com faca. O cheiro era de piche quente, café requentado e perfume caro que não segurava o cheiro de gente.
Em cada esquina, o mesmo trailer. Um cara enlameado, barba por fazer, olhos injetados, gritando "Conquiste ou morra!" enquanto explodia um helicóptero com uma bazuca feita de bambu. Ilhas Perdidas. O jogo: Vá para a Selva 3. Todo mundo falava. Todo stories tinha. Até uma prima de Jota compartilhou com a legenda "meu filho joga isso, credo". Ele não jogava ainda. Ele trabalhava nele. Ou achava que trabalhava.
O convite tinha chegado três meses antes. Rand Oliveira mandou um áudio de voz às quatro da manhã, voz rouca de quem fumou dois maços: "Jota, tem uma vaga que paga um valor interessante. É teste, é programação, é meio secreto, mas é dinheiro vivo, irmão. Entra." Rand era o tipo de cara que sumia por semanas e voltava com histórias que ninguém acreditava. Dessa vez voltou com crachá preto sem logo e um endereço na Água Verde que não existia no Google Maps.
Jota aceitou porque precisava pensar em algo diferente de Daslu, do outro lado do planeta e que tinha mandado mensagem dizendo que o pequeno dela — só dela — precisava de aparelho novo e "você some, mas a criança cresce". Aperto no peito. Respira. Aceitou tentando esquecer. Aceitou porque não conseguia.
A programação sempre foi isso: fazer o corpo ir onde a cabeça não quer.
Jota deixou o Gol Bolinha no estacionamento subterrâneo do prédio, mochila laranja nas costas, e subiu.
Agora ele estava ali, na porta de um prédio espelhado que parecia engolir o céu. Segurança com fone de ouvido, crachá preto, olhar de quem já matou e preencheu formulário depois.
— 09?
O guarda nem esperou resposta, só esticou a mão pro detector de metal. Jota passou. O detector apitou. O guarda olhou pra ele, depois pro visor, e franziu a testa.
— Tá mostrando dois.
Jota mostrou o que tinha e o segurança o deixou passar.
Elevador sem botão de andar. Só um leitor biométrico. Jota encostou o dedo. Desceu. Desceu muito. Quando abriu, era subsolo com carpete novo e cheiro de tinta fresca. Corredor branco, luz branca, ar-condicionado que batia nos ossos. Uma placa discreta: Sala 0.7.
Jota empurrou a porta.
Dez cadeiras de acrílico transparente, mesa de vidro fumê, projetor já ligado mostrando o trailer em loop. Nove pessoas sentadas, nenhuma olhava pra outra. Jota reconheceu dois rostos de LinkedIn, mas fingiu que não. Todo mundo com crachá preto sem nome, só um número. O dele era 09. Sentou. O ar-condicionado parecia um tapa gelado na cara.
Na parede, um manequim de testes balísticos, daqueles cinza com marcas de tiro no peito. Ao lado, uma maleta de alumínio aberta, forração de espuma preta. Vazia.
A luz escureceu. O trailer terminou.
A tela ficou preta. O silêncio era tão pesado que dava pra ouvir o sangue batendo no ouvido.
A porta dos fundos abriu sem barulho.
Ele entrou.
Magro, uns quarenta e poucos, barba de três dias perfeitamente imperfeita, óculos de armação fina dourada. Terno azul-marinho que custava mais que o carro de Jota. Nas mãos, a maleta que estava vazia agora não estava mais. Ele sorriu como quem sabe que você já perdeu.
— Bom dia — disse, voz baixa, quase carinhosa. — Hoje a propaganda atravessa a tela. Literalmente.
Colocou a maleta na mesa. Abriu.
Dentro, uma escopeta curta, cano serrado, metal fosco, sem marca, sem logo. Parecia brinquedo de criança rica. Só que não era.
Ele olhou direto pra Jota. Só por meio segundo. Mas foi o suficiente.
Jota sabia que tinha cruzado uma porta que não abre de volta.
O criador fechou a maleta com um clique suave, como quem fecha um caixão de luxo.
— Vocês viram o trailer — começou, andando devagar ao redor da mesa. — Explosões, sangue, liberdade. Tudo mentira. A verdade é mais simples: impacto. O jogador precisa sentir na pele. Não na cabeça. Na pele.
Parou atrás do manequim. Acariciou o ombro dele como se fosse gente.
— Esse aqui já levou tiro de fuzil, facada, granada de fragmentação. Sobreviveu a tudo. Hoje vai levar algo novo.
Tirou a escopeta da maleta. O metal era mais claro do que Jota imaginava, quase prateado, com uns sulcos que pareciam veias. O cano era largo, grotesco, lembrava a boca de um tubarão. Não tinha gatilho tradicional; tinha um botão vermelho minúsculo, do tamanho da cabeça de um parafuso.
— Não é arma — disse, antecipando a pergunta que ninguém fez. — É extensão do jogo. Vai direto pro console. Jogador leva tiro no jogo? Sente o impacto no peito. De verdade. Sem sangue. Só dor.
A sala inteira prendeu o ar. O ar-condicionado parecia ter parado de funcionar; o frio agora vinha de dentro.
Ele mirou o manequim a uns quatro metros. Braço firme, sem tremor.
— Quando eu apertar, vocês vão sentir uma brisa. Só isso. Uma brisa.
Mentira.
Apertou.
Não houve estampido. Não houve recuo. Nem faísca, nem fumaça.
Só um som abafado, como se alguém tivesse aberto uma garrafa de champanhe dentro de um edredom. Pfffft.
Mas o ar saiu violento.
Jota viu a onda antes de sentir. O ar se dobrou, se comprimiu, virou lâmina. O copo d'água da mina do número 04 voou da mesa e se espatifou na parede. Cabelo de todo mundo foi pro lado como se tivesse tomado vento de helicóptero. A regata de Jota colou no peito de uma vez só, o suor virou cola.
O manequim saiu do chão. Voou dois metros pra trás, bateu na parede de drywall com um estrondo seco. A cabeça de plástico rachou. O tronco torceu como se tivesse levado um soco de caminhão. Ficou lá, pendurado, torto, com a marca perfeita de um círculo no peito, como se tivesse sido socado por um punho invisível de um metro de diâmetro.
Silêncio absoluto depois.
Depois risos nervosos. Um aplauso tímido que cresceu. Alguém gritou "caralho!" como se fosse show de rock.
Jota não riu.
Ele sentiu o cheiro. Um cheiro que não devia existir: ozônio, como depois de raio, misturado com algo metálico, quase sangue. O peito dele doía. Não de medo ainda. Doía como se tivesse levado o golpe junto com o boneco.
O criador abaixou a arma devagar. Olhou pra todos com aquele sorriso de quem acabou de mostrar a calcinha da morte.
— Impressionante, né? É assim que o jogador vai sentir o recoil. É assim que a propaganda atravessa a tela. Console na sala, emissor no controle, impacto direto no peito. Sem perigo. Só realidade.
Ele caminhou até Jota. Parou do lado dele. O cheiro: água de colônia cara e algo químico, doce, que lembrava solvente de tinta.
— Número 09 — disse baixo, só pra Jota. — Você entendeu, né?
Jota quis responder. A boca abriu, mas só saiu um fiapo de voz.
— Isso… isso é tecnologia militar.
O criador sorriu mais largo. Os dentes eram muito brancos.
— Não. Ainda não é. Mas pode virar.
Virou-se pra sala de novo, já em tom de apresentador:
— Em breve, cada console vai ter isso. O jogador sente o tiro no peito. O sangue. A dor. Sente o jogo. Sem risco. Só impacto no momento, mas muito mais em breve.
Alguém levantou a mão, voz tremendo de empolgação:
— E o orçamento pra isso? Os relatórios que vazaram…
O criador cortou com um gesto suave.
— O orçamento é o de menos. Tem gente que paga pra ver até onde a ficção aguenta empurrar a realidade.
Olhou de novo pra Jota. Dessa vez sem sorrir.
Naquele segundo Jota sacou tudo.
Não era marketing.
Não era jogo.
Era teste.
E eles eram o alvo de calibração.
O ar-condicionado voltou a funcionar de repente. O frio bateu nas costas suadas de Jota como faca.
Ele sentiu a carreira da manhã morrendo no sangue e outra nascendo no lugar: pura adrenalina.
Queria levantar e correr.
Queria levantar e gritar.
Mas ficou ali, 110 kg de carne parados, olhando pro manequim torto na parede.
Porque o pior ainda não tinha vindo.
O ar ainda ondulava.
Era possível ver: uma névoa translúcida, quase líquida, suspensa entre o cano da escopeta e o manequim destruído. Como se o próprio espaço tivesse levado um soco e agora respirasse pesado.
O criador mantinha o dedo no botão vermelho.
Os risos da sala ainda ecoavam, mas o som não chegava até Jota.
Chegava abafado, como se ele estivesse debaixo d'água.
Então tudo parou.
Não é força de expressão.
Tudo parou de verdade.
O aplauso ficou congelado no ar: bocas abertas, mãos em metade do caminho uma da outra, palmas que nunca se encontrariam.
O cabelo da mina do número 06 ainda voava pra trás, fios duros como arames.
Uma gota de suor que escorria da testa de Jota parou a meio centímetro da sobrancelha, tremendo, brilhando.
O ar-condicionado parou de soprar. O silêncio era tão absoluto que Jota ouvia o sangue latejando nas próprias têmporas, tum-tum, tum-tum, o único som do universo.
Só ele mexia.
Tentou levantar. Conseguiu. A cadeira nem rangeu.
Deu um passo. O carpete não afundou.
Pegou o copo d'água da mesa. Tentou virar. A água estava sólida, congelada no ar, mas quente ao toque. Largou. O copo ficou suspenso onde deixou, flutuando.
Tentou gritar. A boca abriu, mas não saiu som. Nem eco. Nem ar. Como gritar no vácuo.
Empurrou uma cadeira com força. Não moveu. Nem tremeu. Como empurrar parede de concreto.
Tocou no ombro do cara ao lado dele, o número 11. Duro. Frio. Como tocar estátua de mármore.
O olho dele estava fixo no manequim, pupila dilatada, mas sem vida.
Jota era o único vivo ali.
Olhou pra escopeta. O cano ainda soltava aquela névoa lenta, como fumaça de gelo seco, só que parada no tempo.
O criador sorria. O sorriso congelado era pior que qualquer grito. Os olhos dele acompanhavam Jota. Só os olhos se moviam, seguindo cada passo como câmera de segurança.
Uma voz (Jota não sabia se dentro ou fora da cabeça) falou, calma, quase carinhosa:
— Campo de impacto calibrado. Bem-vindo, número 09.
Jota virou pro manequim. A rachadura no peito dele pulsava, muito devagar, como coração de pedra.
Aproximou a mão. O ar ali era sólido. Empurrou. Doía. Doía como meter a mão num bloco de gelo seco.
Recuou.
Vozes vieram de lugar nenhum. Baixas. Sussurrando.
A voz de Daslu: "Você sempre escolhe o buraco mais fundo."
A voz de Rand: "Entra, irmão."
A voz da mãe de Jota: "Ainda vai se perder de vez."
Flashs vieram logo depois.
Daslu no aeroporto de Guarulhos, alguns anos atrás, olhos vermelhos: "Você sempre escolhe o buraco mais fundo, Geraldo."
Rand Oliveira sumindo no meio do Parque das Águas, macacão azul, cheirando o isqueiro amarelo antes de acender o cigarro, acenando de longe antes de virar fumaça.
A mãe de Jota sempre anunciando para todos em casa: "Esse menino vai ser muito na vida."
Ele estava perdido agora.
Não iria correr, tinha que enfrentar. As pernas pesavam toneladas.
Olhou pro relógio de pulso: os ponteiros parados às 10:47:12.
Viu o próprio reflexo no vidro fumê da mesa. Piscou. Jota não tinha piscado.
Foi quando viu direito.
Ele não estava sozinho.
Atrás dele, de pé, imóvel como os outros, tinha outro Jota.
Mesmo corpo, mesma regata vinho suada, mesmos 110 kg.
Mas os olhos dele eram vazios.
E ele segurava o isqueiro amarelo. Cheirava. Devagar. Como Rand fazia.
Depois sorria o mesmo sorriso do criador.
Jota era o manequim agora.
O pânico veio de verdade, um trovão no peito.
Bateu no vidro com força. O reflexo não tremeu.
Ele continuou sorrindo, o isqueiro amarelo na mão.
Jota bateu de novo. Mais forte. Mão latejando.
O reflexo cheirou o isqueiro. Devagar. Sem tirar os olhos dele.
A voz voltou, mais perto, dentro do osso:
— Você sempre quis sentir o impacto na pele, Jota. Agora sente.
O ar começou a se mover de novo.
Devagar.
Como um filme voltando do pause.
Primeiro o som: um estalo seco, o ar-condicionado religando.
Depois o cheiro: ozônio queimado.
Os aplausos voltaram, mas mais altos, como se tivessem sido engavetados e agora explodissem.
Jota ainda estava de pé.
Ninguém pareceu notar que ele tinha se movido.
O criador guardava a escopeta na maleta, tranquilo.
Olhou pra Jota uma última vez. Piscou. Só um olho.
A reunião acabou em cinco minutos. Papo de roadmap, datas, NDAs reforçados.
Jota assinou tudo depois de ter uma noção exata do que era.
Quando saiu do prédio, o calor abafado de Curitiba recebeu ele como tapa de amigo traidor.
O tênis surrado com cadarço solto (o esquerdo, como sempre) batia no asfalto quente enquanto Jota atravessava a rua. Passou a mão no bolso da frente da mochila laranja e sentiu o volume do isqueiro amarelo, o sobrevivente, ainda lá. O caderno marrom de capa dura também estava no bolso lateral, como sempre.
O celular vibrou no bolso. Uma mensagem. Sem remetente. Sem número.
"Campo de impacto: fase 2 iniciada. Você já está dentro da tela, número 09. Não tente sair. O jogo começou."
Jota olhou pro céu. Um outdoor gigante na Marechal piscava o trailer.
O herói enlameado gritava "Conquiste ou morra!" direto pra ele.
Apagou a tela do celular.
Silêncio.
Mas era o tipo de silêncio que grita.
rédio: sem logo no Google Maps, segurança com crachá preto, detector de metal apita "dois", elevador sem botão (só biométrico), desce muito. Sala: 10 cadeiras acrílico, mesa vidro fumê, 9 pessoas, crachás pretos numerados (Jota é 09). Escopeta: cano serrado, metal fosco prateado com sulcos como veias, cano largo grotesco (boca tubarão), botão vermelho minúsculo no lugar de gatilho, som "pfffft" abafado, onda de ar violenta, manequim voa 2m e racha, cheiro ozônio+metálico. CONGELAMENTO: tudo para (aplausos, cabelo, gota suor), só Jota se move, água sólida mas quente, cadeira não move, pessoas duras/frias como mármore, olhos do criador seguem Jota. Voz: "Campo de impacto calibrado. Bem-vindo, número 09." Flashs: Daslu Guarulhos "Você sempre escolhe buraco mais fundo", Rand sumindo Parque das Águas virando fumaça, mãe "vai ser muito na vida". Outro Jota: mesmo corpo, olhos vazios, segura e cheira isqueiro como Rand, sorri como criador. Mensagem final sem remetente/número.
 

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