A BR-101 estava vazia, só o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 comendo asfalto a 120 km/h, farol alto cortando a neblina gelada. Jota no banco do motorista, camiseta regata vinho colada nos 110 kg, braço esquerdo pra fora, cotovelo queimando de frio. No carona, Satogos Cruel de colete preto aberto até quase o umbigo, shortinho de couro rasgado na coxa, tatuagens no braço piscando com a luz do painel. Ela comia batata frita do posto e lambia o sal dos dedos olhando pra ele.
Atrás vinham os brothers: Rosquinha na Biz rosa choque gritando no rádio que tava parecendo filme de ação pornô. Leandro Costa (Cata-vento) na Fan preta com escapamento furado fazendo “tóin-tóin-tóin”. Dois primos quaisquer que Jota nem lembrava o nome, só sabia que um torcia pro Coritiba e o outro pro Athletico. E Rand lá pelas outras bandas, sendo o batedor.
A placa torta surgiu: BETO CARRERO – 12 KM. O Betinho tava sem olhos, só buracos pretos, como se tivesse levado soco.
— Chô, se eu morrer hoje, quero ver uma neca bem veiuda balançando — Rosquinha chiou no rádio.
Satogos riu, virou pra Jota, voz baixa: — Se a gente sobreviver, amor, eu sento na tua cara até tu esquecer até o número do CPF.
O Gol Bolinha deu um estalo na suspensão. Jota riu. O pau já tava duro só de imaginar.
Chegaram no estacionamento. Não tinha mais carrinho de bate-bate nem cheiro de algodão-doce. Só um arco de ossos entrelaçados e luzes vermelhas piscando. Jota parou o carro de lado. Desceu. Mochila laranja no ombro esquerdo. Tênis surrado, cadarço direito solto, óbvio.
Satogos desceu junto, colete aberto, peitos quase pulando, jogou o cabelo pra trás. — Testa o especial novo, vai. Quero ver se é tudo isso que tu fala.
Jota sorriu. Engatou primeira. Pisou fundo. O Gol Bolinha levantou as duas rodas da frente, girou 360° completo no ar, pneu queimando borracha, onda de choque azul saindo do escapamento. Três criaturas deformadas que vinham do meio dos carros abandonados viraram pó preto na hora.
Rosquinha deu um gritinho de viado feliz: — AI MEU CU, CHÔ! Piscou meu edy com essa empinada!
Cata-vento aplaudiu com a moto parada: — Devia ter filmado! Quero ver isso de novo em câmera lenta!
Jota achou que ia ser tranquilo.
Entrou na frente. Gol Bolinha roncando baixo, banco afundado marcando território eterno na bunda dele.
Passaram pelo arco de ossos. O chão tremeu.
Uma rachadura abriu no asfalto. Saiu o primeiro Rei Esqueleto, três metros de osso brilhante, coroa torta, maça girando. Depois outro. E outro. Dezenas. Centenas. Fileiras marchando em silêncio, olhos vazios fixos na turma.
A ficha caiu na hora.
O parque olhou pra Jota, viu o poder lendário, ignorou o resto do grupo e calibrou tudo no nível máximo. E ainda multiplicou pelo número de pessoas. Equação simples: 1 Jota nível lendário × 6 trouxas = apocalipse.
— RECUAR, PORRA PORRA! — Jota gritou no rádio.
Mas já era tarde.
Uma maça de osso veio voando na direção da Biz do Rosquinha. Acertou de raspão. A moto rosa rodopiou duas vezes no ar e caiu de bico. Rosquinha voou bonito, rolou no chão como saco de batata, capacete rachado, braço sangrando.
— AI MINHA NOSSA SENHORA DAS NECAS ODARAS! — ele gritou, já levantando com a mão boa.
Cata-vento tentou desviar, freou em cima da hora. A Fan preta bateu de frente num esqueleto menor. A corrente da roda pegou a mão esquerda dele inteira. Quando puxou, vieram três dedos junto: mindinho, anelar e médio voaram feito pipoca vermelha. O que sobrou parecia uma mãozinha de arma de brinquedo apontando pro céu.
— Puta merda… — ele olhou pro coto, depois pra turma, e já começou a rir de nervoso — Mano, agora eu virei pistola agora! Arminha na mão, olha só!
Satogos já estava no carona do Gol Bolinha, se aproximou do pescoço de Jota da maneira mais sexy que qualquer mulher já tinha feito e sussurrou no ouvido dele: — Liga essa porra e vazar daqui amor! Antes que eles façam churrasco de viado aqui!
Jota engatou ré, pneu cantando. Rosquinha mancava correndo até eles, sangue pingando.
Foi aí que Rand Oliveira surgiu do nada, macacão azul sujo de graxa, barba de três dias, jogando uma granada caseira por cima do ombro: — PEGA A SAÍDA PELA ESQUERDA! — gritou, e sumiu na fumaça de novo, fantasma clássico.
Jota parou o carro e Rosquinha abriu o porta-malas e se jogou lá dentro, gemendo de dor misturado com risada: — Chô, olha o Cata-vento… virou ficou só com dois dedinhos, feito uma arminha, vai virar Parado agora, ó… tá fazendo “joinha” pra caveira com três dedos a menos!
Cata-vento (agora Parado eterno) subiu na garupa da moto de um dos primos, rindo e chorando ao mesmo tempo: — Caralho só dois dedinhos agora, em outros tempos poderia fazer o L ou a arminha! Vou viralizar no grupo dos amigos!
Uma espada de osso passou raspando o local que estavam há pouco com o Gol Bolinha. Se Jota tivesse acelerado um pouco menos com certeza teria pego eles.
— Filho da puta — Jota acelerou ainda mais.
No porta-malas, Rosquinha ficou preso na mochila laranja de Jota e algumas folhas do caderno marrom voaram, uma página rodopiou no ar e caiu aberta no capô: desenho antigo da Satogos nua de quatro, feito em algum momento. O ímã do Posto Esso estava quietinho preso no retrovisor, exatamente onde sempre esteve, beiradas descascando, logo quase apagado.
Jota continuou acelerando.
Satogos, colete ainda aberto, peitos quase pulando, olhando pra trás. — Eles estão vindo, amor. Vem mais.
Jota olhou pelo retrovisor. As caveiras marchavam em silêncio, olhos vermelhos fixos na turma.
Apertou o botão especial do Gol Bolinha, que gritou etanol puro.
O carro ultrapassou fácil os 160 km/h na reta, sem direção hidráulica o volante batendo nos pulsos de Jota como marreta, motor 1.0 16v, preparado, berrando como se tivesse alma. O cheiro de etanol queimado, suor e sangue do Rosquinha enchia o carro. Satogos estava de joelhos no banco do carona, virada pra trás, filmando com o celular.
— Olha isso, amor… elas pararam!
Era verdade.
As caveiras chegaram exatamente na linha onde o estacionamento acabava e a BR-101 voltava a ser rodovia normal. Pararam em fileira perfeita, olhos vermelhos piscando em uníssono. O Rei Esqueleto maior ergueu a maça devagar, tipo saudação de guerra. Respeito de monstro pra monstro.
Rosquinha, deitado no porta-malas, braço enfaixado com a própria camiseta, ria e chorava ao mesmo tempo: — Chô… eu quase virei purê de viado… mas pelo menos gravei o 360° em 4K pra postar no OnlyFans!
Parado, agora na garupa da moto do primo, levantou o coto ensanguentado e gritou pro rádio: — EI, CAVEIRADA! TRÊS TIROS PRA VOCÊS, Ó! — e fez “pam-pam-pam” com a mão mutilada, rindo alto.
Satogos virou pra Jota, olhos brilhando de adrenalina, beijou a nuca suada dele. — Tu é foda, Jota… não sei porque viemos aqui mas depois dessa eu quero mesmo é sentar na tua cara até tu pedir arrego.
Jota riu pela primeira vez na noite.
Duas horas depois, posto 24h na entrada de Curitiba. Todo mundo desceu. Rosquinha foi direto pro banheiro vomitar e rir ao mesmo tempo. Parado comprou cerveja com a mão boa e já tava contando a história pro frentista como se fosse stand-up.
Jota sentou no capô do Gol Bolinha, mochila laranja no colo. Abriu só pra conferir: caderno marrom intacto, ímã do Posto Esso ainda preso no retrovisor, quietinho como sempre, beiradas descascando, logo quase apagado.
Guardou o caderno marrom de volta. Fechou o zíper.
Satogos veio por trás, abraçou a cintura dele, peito encostado nas costas de Jota. — Próxima vez a gente vai só nós dois, tá? Sem plateia, sem viado gritando, sem dedo voando… só tu e eu.
Jota virou, beijou a boca dela. Salgado de batata frita e vitória. — Combinado.
Rosquinha saiu do banheiro, braço enfaixado, já tirando selfie com Parado: — Foto histórica, gente! “A noite que o Cata-vento virou Parado e quase virei purê de viado!”
Todo mundo riu.
Entraram nos carros. O Gol Bolinha ligou na primeira, como sempre. Isqueiro amarelo no painel, camiseta regata vinho rasgada, mochila laranja no banco do carona, cadarço direito ainda solto.
Jota olhou pelo retrovisor uma última vez. Lá longe, luzes vermelhas das caveiras piscavam na névoa como promessa de reencontro.
Voltaram inteiros.
Menos o Parado, que deixou três dedos para trás.
E a vontade de Jota de ser herói.
