Capa do Capítulo

A Saga do Doidinho Imortal

Extensão: 1.282 palavras | Leitura: 7 min

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Geraldo tinha quarenta e quatro anos. Energia de vinte e quatro, colhão de dezoito, e um problema teimoso guardado no fundo do HD mental: uma lembrança de alguns anos atrás chamada Satogos Cruel.

Tempo suficiente pra esquecer a cara de muita ex, o nome de metade dos amigos de faculdade. Mas não tempo suficiente pra apagar o olhar trocado numa festa qualquer em Curitiba, num rolê que deveria ter sido esquecível e virou cicatriz bonita.

Naquela noite, Jota tava acompanhado. Lembrava de quem, mas isso não importava naquele momento. O importante era a mulher que acabava de atravessar o ambiente como um cometa de fogo.

Ela não entrou. Ela atravessou.

Cabelo castanho-escuro balançando, corpo que desenhava curvas impossíveis debaixo de uma blusa preta justa, olhos verdes que pareciam enxergar três camadas abaixo da pele de qualquer um. Jota sentiu o chão tremer — ou foi só o coração batendo torto, vai saber.

Ela passou por ele, olhou de relance, sorriu daquele jeito que não significa nada e ao mesmo tempo significa tudo, e continuou andando. Como um cometa de fogo cruzando o céu: rápido, luminoso, inalcançável.

Jota obviamente nem tentaria. Estava acompanhado, mas conheceu Satogos, conversaram, e a vida passou.

O cometa nunca mais voltou. Pelo menos não pro céu dele. Mas conseguiu a rede social dela — programador, com nome se consegue muita coisa.

Anos de stalkeada respeitosa no Instagram. Curtidas tímidas em foto de gato (aceitável), stories visualizados às três da manhã (patético, mas honesto), e aquela caixinha de perguntas desastrosa numa madrugada de insônia: “Você lembra de mim?”

Resposta: “Não.”

Seco. Direto. Cirúrgico.

Normal. Vida que segue. Jota riu na época, xingou a própria cara de pau e continuou vivendo.

Mas hoje o destino deu um tapa: ela tinha voltado pra região. Aparentemente solteira. Aparentemente acessível.

E aí nasceu a ideia mais idiota e honesta da década.

Jota estava sentado na cama, de regata vinho velha e surrada, aquela que já tinha mais história que roupa. O tênis surrado jogado no chão, cadarço direito solto como sempre, dedão quase saindo pelo buraco gasto. A mochila laranja largada no canto do quarto, aberta, mostrando o caderno de capa dura marrom em cima da mesa ao lado do notebook.

O isqueiro amarelo estava no bolso da calça de moletom. Sempre lá, mesmo Jota nunca tendo fumado na vida. Pronto pra acender o cigarro de qualquer uma que valesse a pena. Parecia mais eterno que a própria vontade de tentar.

E era exatamente isso que Jota ia fazer: tentar.

Teve um estalo. Ligou A com B: Bárbara conhecia Satogos. Como não tinha pensado nisso antes? Ficou afoito, o coração acelerou, e decidiu agir antes que a razão matasse a coragem que nunca teve.

Abriu o WhatsApp. Procurou o contato: Bárbara, Tubeless.

Bárbara era uma conhecida de um trampo, numa empresa que Jota ainda presta serviço. E Jota sabia que ela conhecia Satogos Cruel. Eram amigas, ou pelo menos tinham sido. E Jota teve a ideia genial de pedir pra Bárbara ser sua cupido de WhatsApp.

Começou a escrever.

Apagou.

Riu sozinho.

Xingou a própria cara de pau.

Escreveu de novo.

Apagou de novo.

O caderno marrom em cima da mesa parecia julgá-lo em silêncio. Jota olhou pro caderno, olhou pro celular, suspirou fundo e digitou a mensagem definitiva:

“Oi Bárbara, tudo bem? Geraldo aqui, do trampo na Tubeless anos atrás… sei que faz tempo, mas lembra de mim? Então, conheci a Satogos Cruel num rolê há uns anos, mas nunca tive um contato direto. Soube que ela voltou pra região e queria saber se você pode dar uma ponte aí? Sei que é meio estranho, mas vai que funciona né kkkkk por favor não me bloqueia.”

Leu três vezes.

Corrigiu um “kkkkk” pra “kkkk” (cinco era demais, três era inseguro, dois era arrogante — tinha ciência disso).

Respirou fundo.

Apertou enviar.

Jogou o celular na cama como se tivesse acabado de acender uma bomba.

Momentos depois, com uma ansiedade danada disfarçada de homem adulto, de checagem compulsiva do WhatsApp, de tentar não pensar e pensar o tempo todo.

Jota trabalhou, nadou, dirigiu o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas pelo centro de Curitiba, continuou a vida. Tinha jogado a pedra. O “não” ele sempre teve, sempre esteve lá. Mas a cada notificação que não era da Bárbara, o peito apertava um pouquinho.

Até que em algum momento viu a notificação que queria.

Bárbara.

Jota pegou o celular devagar, como quem desarma explosivo.

Abriu a mensagem.

“Oi Geraldo! Faz tempo mesmo… então, a Satogos tá namorando no momento, desculpa :(“

Leu.

Releu.

Traduziu mentalmente:

“Ela não tá namorando porra nenhuma, Bárbara deve ter achado o mais idiota possível e deu a resposta mais segura. Fora óbvio desde o começo.”

E fez a única coisa sensata que um homem de quarenta e quatro anos poderia fazer naquela situação:

Riu alto.

Riu sozinho no meio do quarto, de regata vinho, tênis caído no chão, isqueiro amarelo no bolso e mochila laranja testemunhando tudo.

Mas ficou com aquela sensação boa: tentou. Pelo menos estava correndo atrás, não estava parado esperando algum ser cósmico fazer a parte que cabia a ele. O tentar deixou ele mais leve. Fez ele olhar pra si e ver que, apesar de tudo, ainda estava tentando conseguir.

Mandou print pro grupo dos brothers. Virou meme por quarenta e oito horas. Levou zoação pesada. Merecida.

E pensou: beleza, ciclo fechado.

Mas Jota sabia que não era bem assim.

Continuou curtindo story da Satogos Cruel (aceitável, socialmente permitido).

Deixou a curtida de anos atrás no biquíni eternizada no feed dela (era patrimônio histórico, não mexe).

Ainda manda DM… mas não são amigos, então ela deve ignorar.

Não foi pra Itajaí de Gol Bolinha Cinza Urban duas portas sem ar-condicionado… ainda. Porque Satogos trocou de cidade novamente e agora está em Itajaí.

E pensou, com uma sinceridade brutal: se um dia trombasse a Bárbara na rua, ia olhar na cara dela e falar:

— Fiz e faria de novo. Tô orgulhoso pra caralho daquele textão.

E se um dia encontrasse Satogos, iria se declarar pra ela, apesar dela não ter noção de quem é Jota.

Porque essa história nunca foi sobre Satogos Cruel.

Foi sobre ter colhão de tentar o impossível, rir do fora, mandar a mensagem constrangedora e continuar vivendo.

Jota guardou o celular no bolso, pegou o isqueiro amarelo e girou entre os dedos. Anos de lembrança, três dias de ansiedade, um fora educado e uma risada alta.

Sobreviveu a tudo.

Como sempre.

E continuou.

Um dia, quem sabe, Satogos Cruel vai ver um DM dele e pensar: “Puta que pariu, esse doido fica aí me enviando mensagem, vou dar uma resposta.”

Delírio puro, né? Mas foda-se, só se vive uma vez e ele quer ter coragem pra não perder a próxima chance.

Ou não.

Tanto faz.

Porque o Gol Bolinha Cinza Urban tá ali parado na rua, o isqueiro amarelo tá no bolso, o tênis surrado com cadarço solto tá esperando no chão, e o caderno marrom tem página em branco sobrando.

E enquanto tiver página em branco, a história continua.

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Sinopse Narrativa:

Geraldo/Jota, aos 44 anos, se lembra de Satogos Cruel, mulher que conheceu anos atrás numa festa em Curitiba quando estava acompanhado. Após anos de stalkeada respeitosa no Instagram, descobre que ela voltou pra região. Pede ajuda de Bárbara (conhecida do trabalho na Tubeless) para fazer ponte via WhatsApp. Recebe fora educado: Satogos está namorando. Apesar disso, fica orgulhoso de ter tentado e continua mandando DMs que são ignorados.

Gênero Romance Realista, Slice of Life
Tom Auto-depreciativo, Honesto, Humorístico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Romance, Tentativa romântica
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Auto-aceitação, Coragem de tentar, Tentativa romântica frustrada
Locais centro de Curitiba, Festa em Curitiba, Itajaí, quarto de Jota, Tubeless
Palavras-Chave Bárbara Tubeless, coragem de tentar, DMs ignorados, fora educado, Satogos Cruel, stalking respeitoso, tentativa romântica
Jota tem 44 anos, é programador, nunca fumou, anos de stalkeada respeitosa no Instagram de Satogos, enviou caixinha de perguntas "Você lembra de mim?" - resposta: "Não", mandou print pro grupo dos brothers, virou meme por 48 horas, continua curtindo stories e mandando DMs ignorados, curtida no biquíni de anos atrás ainda no feed dela ("patrimônio histórico"), quer se declarar se encontrar Satogos, calça de moletom mencionada
 

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