Capa do Capítulo

A Tabela que Não Entrega

Extensão: 1.746 palavras | Leitura: 9 min

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Jota chegou em casa às seis e quarenta e sete, céu cinza pesado, frio seco que entrava pelos ossos e ficava.

Estacionou o Gol bolinha 2003 cinza na garagem do sobrado do Capão da Imbuia, abriu a porta e jogou a mochila laranja no sofá.

Silêncio.

Camiseta regata vinho grudada nas costas de suor frio, rasgada nos ombros, marcando o peito largo de quem carregou demais por tempo demais.

Foi pra cozinha.

Copo d’água gelada direto da torneira.

Bebeu metade em pé.

Foi quando viu.

Envelope bege, grosso, envelhecido, canto amassado.

Sem selo.

Sem remetente.

Só o nome dele em caneta preta, letra firme, quase agressiva:

GERALDO P. JUNIOR

Pegou.

Virou.

Nada atrás.

Rasgou com o polegar.

Dentro, uma folha dobrada em três.

Papel áspero, cheiro de mofo e ozônio velho.

Texto datilografado, teclas que pulavam, como máquina velha que já não aguenta:

CONVOCAÇÃO

GERALDO P. JUNIOR

VOCÊ FOI SELECIONADO PARA PROCESSO DE DESIGNAÇÃO.

COMPAREÇA O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL.

EM: GALPÃO NA PEDREIRA DO ORLEANS – CURITIBA/PR

SUA PRESENÇA É OBRIGATÓRIA. NÃO HAVERÁ SEGUNDA CONVOCAÇÃO.

— O SISTEMA

Jota leu quatro vezes.

Pedreira do Orleans.

Ele conhecia aquele lugar de cor.

Era um local que a familia tinha história.

Amassou a carta.

Desamassou.

Leu de novo.

“O Sistema.”

A palavra pesou mais que o papel.

Pensou em jogar fora.

Pensou em queimar.

Colocou a mão num bolso.

Encontrou o isqueiro amarelo – o sobrevivente – roçou os dedos como se quisesse ajudar.

Pensou em fingir que nunca recebeu.

Mas quem deixou o convite em cima da mesa, sabia que ele leria.

Lembranças vieram.

Lembrou das marcas nas mãos que ainda latejavam em noites frias.

Lembrou do trono de sombra onde se sentou sabendo que um dia sumiria.

Lembrou do pai dizendo “funciona” antes de soltar a mesa.

Sempre soube que um dia ia ter que voltar ao galpão.

Guardou o papel no bolso do casaco.

Pegou as chaves do Gol e a mochila laranja.

Olhou o relógio: 18:54.

Faltavam sessenta e seis minutos.

O tênis surrado rangeu no concreto, o buraco no dedão esquerdo deixando o frio entrar direto na alma.

A Pedreira do Orleans era diferente toda vez que vinha.

Rua estreita, mato crescendo, lixo, estrada de chão.

Jota dirigiu devagar e já conseguia ver o galpão ao longe.

Teve que parar no meio do caminho, pois tinham interditado a rua a partir dali.

Pensou que talvez fosse para evitar desova de carros roubados, ou proteger o acesso à propriedade abandonada.

Parou o Gol.

Desligou o motor.

O 1.0 morreu com o suspiro de sempre.

Ficou olhando.

O galpão estava lá.

Pintura descascando, janelas escuras como olhos mortos.

Pegou a mochila laranja.

Caminhou até o portão enferrujado que estava entreaberto, rangendo leve com o vento frio.

Empurrou o portão.

O rangido cortou a noite.

Entrou.

Cheiro de ozônio velho, metal queimado, madeira podre.

O mesmo cheiro da noite em que o pai sumiu.

Respirou fundo.

O local estava quase vazio.

As mesas tinham sumido.

Os equipamentos também.

Só restavam as cicatrizes: círculos negros queimados no chão de madeira, fios velhos pendurados no teto como teias de aranha, cacos de ímã enferrujados nos cantos, cobertos por dez anos de poeira.

E no centro, completamente fora de lugar, um computador.

Desktop simples, gabinete preto, monitor de vinte polegadas, teclado, mouse.

Tudo novo.

Limpo.

Sem tomada.

Sem cabo de força.

Sem nada que explicasse por que estava ligado.

A tela acesa.

Azul clara.

Cursor piscando.

Jota caminhou devagar.

Cada passo ecoava.

Parou a um metro da tela.

Texto branco, fonte simples:

BEM-VINDO, GERALDO.

AGUARDE INSTRUÇÕES.

Cinco segundos.

Dez.

A tela piscou.

Carregou.

Uma planilha.

Excel puro.

Cinquenta linhas vazias.

Colunas: NOME | IDADE | CIDADE | HABILIDADE | FOTO

No topo, em vermelho vivo:

SELEÇÃO DE GUARDIÕES

NECESSÁRIOS: 50

SELECIONADOS: 0/50

Embaixo, instruções menores:

CLIQUE EM CADA LINHA PARA SELECIONAR UM CANDIDATO.

OS ESCOLHIDOS CARREGARÃO.

VOCÊ SABERÁ QUANDO TERMINAR.

NÃO TENTE SAIR ANTES DE COMPLETAR A SELEÇÃO.

Jota olhou pra trás.

O portão estava fechado.

Ele não tinha fechado.

Caminhou até ele.

Tentou empurrar.

Trancado.

Voltou pro computador.

Colocou a mochila de lado.

Puxou a cadeira velha que ainda estava encostada na parede, madeira rangendo como osso velho.

Sentou.

A primeira linha se expandiu sozinha:

NOME: Mariana Costa Silva

IDADE: 31

CIDADE: Curitiba – Portão

HABILIDADE: Executar tarefas repetitivas por tempo indeterminado

FOTO: [mulher de olhos fundos, fundo neutro]

Cursor sobre o botão verde: SELECIONAR.

Jota sentiu o estômago afundar.

Lembrou das marcas nas mãos que ainda latejavam em noites frias.

Lembrou do pai dizendo — Desculpa, filho — antes de soltar a mesa.

Lembrou do próprio reflexo no espelho d’água do reino submerso, mecha branca aparecendo de repente.

“Os escolhidos carregarão.”

Carregarão o quê?

E depois vão sumir?

Igual o pai?

Igual o Voador?

Igual ele mesmo um dia?

A mão tremeu sobre o mouse.

Mas a pressão — não era voz, era peso — empurrou o dedo.

Clicou.

A linha ficou cinza.

SELECIONADOS: 1/50

Nada aconteceu.

Ninguém apareceu.

Nenhum portal se abriu.

Só o número mudou.

Jota respirou fundo.

Continuou.

Jota não soube quando a hesitação morreu.

Talvez no décimo nome.

Talvez no vigésimo.

O mouse já não tremia.

Clicava sozinho, quase.

Linha após linha se abria, rosto após rosto aparecia, habilidade após habilidade era julgada em meio segundo.

“Manter rotina sem questionar.”

“Aceitar perda sem reagir.”

“Ignorar dor prolongada.”

“Suportar isolamento total.”

20/50.

25/50.

Ele tentou parar.

Levantou a mão.

A perna não obedecia.

Pressão pesada desceu na nuca, como mão invisível empurrando a cabeça pra baixo.

Formigamento subiu pelos braços, dedos dormentes mas ainda funcionando, clicando sozinhos.

— Para — disse em voz alta.

O galpão vazio devolveu o eco como deboche.

A tela respondeu com letras vermelhas grandes:

CONTINUE.

30/50.

Memória veio sem aviso.

Daslu na cozinha do apartamento antigo, voz cansada, comprimidos alinhados na pia:

— Você carrega tudo sozinho, Jota. Tudo. E nunca larga. Um dia isso vai te matar.

Ele tinha dado de ombro na época.

Continuou carregando.

35/50.

Outra memória.

Numa conversa com Donaro na varanda do sobrado:

— Por que você não larga nunca?

— Porque alguém tem que segurar.

— E quando cansar?

— Quando cansar, continua segurando.

40/50.

Jota tentou de novo levantar.

A cadeira não mexeu um centímetro.

Suor frio escorreu pela testa.

Visão turva nas bordas, como se o mundo estivesse desaparecendo aos poucos.

— Eu não quero fazer isso — sussurrou.

A tela não piscou.

A próxima linha se abriu sozinha.

42/50.

45/50.

Mãos tremiam tanto que errou dois cliques.

Teve que tentar de novo.

47/50.

48/50.

49/50.

Parou.

Uma linha restava.

O cursor ficou parado sobre o botão SELECIONAR da quadragésima nona pessoa.

Jota respirou fundo.

Clicou.

49/50.

A tela congelou.

Piscou branca.

Preta.

Branca de novo.

Depois carregou uma única linha centralizada.

NOME: Geraldo P Junior

IDADE: 44

CIDADE: Curitiba – PR

HABILIDADE: Carregar até o fim

FOTO: [ele mesmo, anos atrás, sorrindo, antes de tudo ruir]

Jota ficou olhando a própria cara mais jovem.

Sorriso que não existia mais.

O galpão ficou em silêncio absoluto.

O cursor piscava sobre o botão verde.

SELECIONAR.

Jota riu.

Riu seco, rouco, sem graça nenhuma.

O som ecoou pelo galpão vazio como gargalhada de fantasma.

— Sempre fui eu — disse.

— Desde a encruzilhada. Desde o primeiro deslize pelas sombras. Desde o dia que vi o pai escolher o vazio.

Olhou pras mãos.

As marcas ainda estavam lá, linhas finas de nadadeiras, brilhando fraco no escuro do galpão.

Pegou o caderno marrom da mochila laranja caída ao lado da cadeira, rabiscou rápido alguns nomes que lembrava.

Guardou de volta.

Olhou pra tela.

Não tinha escolha.

Nunca teve.

Colocou a mão no mouse.

Hesitou cinco segundos.

Dez.

Depois clicou.

A tela piscou uma última vez.

SELECIONADOS: 50/50

PROCESSO COMPLETO.

Obrigado pela colaboração, Guardião.

Depois apagou de vez.

O computador morreu junto.

Monitor preto, gabinete sem vida, silêncio tão pesado que parecia sólido.

Clique seco do ferrolho da porta da frente destravando.

Jota levantou devagar.

Pegou a mochila.

Pernas dormentes.

Mãos marcadas latejando.

Caminhou até o portão.

Empurrou.

Noite fria entrou de uma vez.

Pedreira vazia.

Poste amarelo iluminando o Gol bolinha ao longe.

Olhou pra trás uma última vez.

O galpão estava escuro.

O portão estava fechado.

Como se nunca tivesse aberto.

Chegou no carro e entrou.

Ficou sentado, mãos no volante, olhando o para-brisa.

Cinquenta pessoas.

Cinquenta guardiões.

Cinquenta nomes que nunca vão saber que foram escolhidos por ele.

E ele era o último.

Ligou o motor.

O 1.0 tossiu, pegou.

Saiu devagar pela rua, pegou o contorno.

Cidade vazia.

Faróis cortando neblina baixa.

Parou no acostamento próximo ao antigo local do Café Alvorada.

Motor desligado.

Abriu o porta-luvas.

Tirou a caixinha de madeira pequena, veludo vermelho desbotado.

Abriu.

O ímã do posto Esso estava lá.

Frio.

Morto.

Sem brilho.

Como sempre esteve.

Jota pegou.

Segurou contra a luz do painel.

— Você escolheu primeiro — disse baixo.

— E agora eu também.

Fechou o punho em volta do metal.

As marcas nas palmas latejaram forte, como se reconhecessem o toque.

Lá fora, um caminhão passou na pista contrária, luzes brancas cortando a escuridão.

Curitiba seguia.

Sempre seguia.

Jota guardou o ímã de volta na caixa.

Fechou.

Guardou no porta-luvas.

Ligou o carro de novo.

Voltou pra cidade.

Chegou no sobrado já depois das duas.

Entrou.

Trancou.

Foi direto pro quarto.

Deitou de roupa.

Olhou o teto que não via.

Pela primeira vez em anos, não abriu a caixa de novo.

Porque não precisava mais.

O chamado já tinha vindo.

Ele já tinha respondido.

Agora era só esperar.

Um dia o galpão vai chamar de novo.

Ou o bosque.

Ou o mar petróleo.

Ou uma carta sem remetente.

E ele vai ter que ir.

Porque guardiões não escolhem carregar.

Carregam até sumir.

Jota fechou os olhos.

Lá fora, Curitiba seguia.

E ele ficou ali, marcas nas mãos ainda quentes, esperando o dia em que será a vez dele.

Porque cinquenta estava completo.

E o Sistema, pelo que sabe, não falha.

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Sinopse Narrativa:

Jota recebe em casa uma convocação sem remetente assinada por "O Sistema", mandando-o ao galpão da Pedreira do Orleans. Lá, encontra um computador ligado sem fonte de energia exibindo uma planilha de seleção de 50 Guardiões. Forçado por uma pressão física invisível, ele seleciona 49 pessoas com habilidades de suportar cargas extremas — e descobre que o quinquagésimo nome na lista é o dele próprio. Clica. Aceita. Sai do galpão sabendo que foi escolhido para carregar até sumir, como seu pai antes dele.

Gênero Ficção Especulativa, Realismo Mágico
Tom Opressivo, Resignado, Sombrio
Timeline Curitiba
Versão Jota Guardião, Normal, Poderes
Categoria Destino, Poder, Responsabilidade
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Destino e resignação, herança paterna, peso de carregar o mundo
Locais acostamento, Café Alvorada, Capão da Imbuia, galpão, Pedreira do Orleans, sobrado
Palavras-Chave carregar até sumir, convocação, galpão, guardiões, herança, marcas nas palmas, O Sistema, planilha de seleção
O ímã é guardado em caixinha de madeira com veludo vermelho desbotado — detalhe de continuidade. O pai de Jota é evocado como alguém que também foi convocado e "escolheu o vazio". As habilidades dos 49 selecionados descrevem capacidades de suportar sofrimento extremo. O computador funciona sem tomada nem cabo. O portão trava sozinho durante a seleção e destrava ao fim. Primeira vez que Jota é nomeado explicitamente "Guardião" por uma entidade externa.
 

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