Capa do Capítulo

Aposta na Sombra do Baldur

Extensão: 3.381 palavras | Leitura: 17 min

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O céu é uma tampa de chumbo que nunca abre.

A Rui Barbosa fede a enxofre, borracha queimada e neve que se recusa a cair. Lojas carbonizadas, placas derretidas, postes tortos como ossos quebrados. O asfalto rachou tanto que parece pele de crocodilo.

Dentro do Gol Bolinha Cinza Urban 2003, cinco pessoas espremidas como sardinhas.

Sem ar, sem direção hidráulica, sem som, só o 1.0 16v gritando a 5.000 rpm quando precisa. Banco do motorista afundado pelos 110 kg eternos do Jota, toalha branca já cinza de suor em cima do tecido original, mochila laranja aberta no chão entre os bancos — canto do caderno marrom aparecendo pela fresta, ímã cinza fosco do Posto Esso colado na capa, isqueiro amarelo perdido lá dentro.

Jota no volante, camiseta regata vinho rasgada, barba cheia de poeira radioativa, olhos arregalados, tênis surrado nos pedais, cadarço direito solto batendo no acelerador.

Rosquinha no banco do carona, camisa florida aberta, peito peludo suado, bilhete dos céus tremendo na mão.

No banco de trás: Little Boobs (short desfiado, top preto, pernas cruzadas), Maju Kuzito (pernas intermináveis, tênis surrado, delineado ainda perfeito mesmo no apocalipse, olhando o retrovisor como se o mundo ainda fosse dela). E o famoso e único Zezitos, ou melhor Leandro Costa (camiseta regata preta rasgada, braços tatuados).

Jota desliga o motor.

O Gol desliza de ré, só na inércia, rua abaixo, calotas originais VW rangendo de leve.

Lá na frente, no meio da praça, ele.

Baldur.

Mais de dois metros, largo, descalço, pele tatuada brilhando como gelo negro, olhos brancos sem pupila.

Passos lentos que racham o asfalto.

Cada passo solta vapor frio que congela o ar.

Ele não sente dor.

Mas sente traição.

Rosquinha sussurra, voz tremendo:

— Mesmos seis números pra todo mundo. A benção não pode ser dividida, mas se ele perceber que marcamos todos igual, fodeu.

Jota engole seco, mão branca no volante de ferro.

— Cala a boca e segura o bilhete.

Maju revira os olhos no banco de trás, espremida entre Zezitos e Little.

— Se eu morrer por causa dessa palhaçada de vocês, eu volto como fantasma e fodo geral.

Little dá risada nervosa, aperta a coxa de Maju.

— Relaxa, alta. Se o Jota dirigir direito, a gente chega no santuário antes dele farejar.

Baldur para no cruzamento da André de Barros.

Levanta a cabeça devagar.

Funga o ar como cachorro.

Dentro do Gol, cinco corações param ao mesmo tempo.

Jota liga o Gol, engata a primeira.

O carro dá um solavanco quase silencioso, desce mais um quarteirão, para atrás de um ônibus queimado, esqueleto de ferro ainda fumegando.

— Agora — sussurra Rosquinha.

— Eu dirijo na volta — diz Jota, baixo. — Conheço cada desvio.

— Se der merda, Pedreira do Orleans — lembra aos outros. — Dizem que ele não entra lá.

Zezitos assente.

Saem do Gol em silêncio absoluto.

Rand Oliveira aparece na sombra de um muro quebrado, técnico fantasma como sempre.

Entrega duas facas de lâmina preta enroladas em pano velho, uma pra Jota, outra pra Maju.

— Podem funcionar numa emergência — sussurra ele. — Dizem que essas lâminas cortam até deus.

Jota pesa uma na mão, enrola de volta no pano, enfia tudo no cinto.

Maju faz o mesmo.

Rand desaparece no escuro.

Corpos colados nas paredes destruídas, passos leves entre vidro quebrado e ossos que ninguém quer identificar.

O santuário improvisado é uma tenda de metal torto, máquina antiga gravada com runas, protegida por arame farpado.

O guardião usa máscara de gás, olhos vermelhos, mãos tremendo.

Um por um, os bilhetes idênticos entram na máquina.

Bip.

Bip.

Bip.

Bip.

Bip.

Luz verde.

Rosquinha é o último a pegar o selo sagrado.

Mão suada, dobra o bilhete em quatro.

Mas o bilhete escorrega, cai no chão.

Quando toca o asfalto, emite um pulsar dourado — ondas invisíveis rasgando o ar frio.

Os cinco sentem o peso da condenação.

Baldur para no meio da Rui Barbosa.

Vira a cabeça devagar na direção deles.

Rosquinha se abaixa, pega o selo sagrado, enfia no bolso tremendo.

Mas Baldur já descobriu.

O pulsar entregou a traição.

E agora ele corre.

O chão treme.

Um rugido grave rasga o ar — som de gelo quebrando, montanha desmoronando.

Jota grita:

— PRO CARRO, PORRA!

E a corrida começa.


Baldur corre.

Não é corrida de gente. É avalanche com pernas.

Cada passo abre cratera no asfalto, vapor gelado sobe dos calcanhares descalços.

— CORRE, SEUS FILHO DA PUTA!

Os cinco disparam.

Zezitos na frente, 1,90 m de músculo puro abrindo caminho entre entulho.

Little logo atrás, peitos balançando, short desfiado rasgando mais ainda.

Maju xingando alto, tênis batendo no concreto rachado, pernas longas tropeçando em ferro retorcido mas não parando.

Rosquinha ofegante, culpa escorrendo pelo rosto.

Jota é o último a correr, 110 kg voando como nunca voaram na vida, tênis surrado batendo no chão, cadarço direito solto chicoteando.

O Gol Bolinha tá ali, 3 metros.

Portas abertas.

Baldur tá ganhando terreno.

Um grito agudo corta o ar — não é humano, é fúria divina congelada.

Zezitos chega primeiro, joga o corpo por cima do capô, entra pelo lado do motorista, gira a chave que Jota deixou ali.

Jota tá longe demais, não dá tempo — Zezitos assume.

O 1.0 16v tosse, engasga, pega na terceira tentativa.

— ENTRA, PORRA!

Little mergulha no banco de trás.

Maju entra logo atrás, cai em cima dela.

Rosquinha empurra o banco do carona pra frente, entra, fecha a porta batendo forte.

Jota chega bufando, abre o porta malas e se joga lá atrás, nem tenta fechar.

Baldur tá quase chegando.

Zezitos engata a primeira e pisa fundo.

O Gol Bolinha dá um urro de 1.0 16v a etanol, pneus cantando, levanta poeira radioativa.

A aceleração brusca faz o porta-malas bater violento — vidro traseiro do porta-malas explode em pedaços.

Jota se protege com o braço, cacos voam pra dentro do carro.

No banco de trás, um caco atinge o braço de Maju. Sangue começa a escorrer do corte.

Baldur salta.

Dedos cravando na abertura onde o vidro explodiu, agarra o metal retorcido.

O Gol afunda atrás com o peso, suspensão bate no chão, faíscas voam.

O carro desacelera.

Dentro, grito geral.

Jota pega algo do porta-malas e bate no braço de Baldur, era uma pé-de-cabra, Jota força o para-choque.

Maju, espremida no meio do banco de trás:

— ACELERA, CARALHO!

Zezitos pisa até o talo.

O Gol dá um pinote pra frente, para-choque se solta com um estalo metálico, fica na mão do Baldur.

O deus branco urra — som de geleira rachando, puro ódio.

O Gol dispara pela André de Barros rachada, 5.000 rpm, motor gritando como se fosse explodir.

No banco de trás, Maju segura o teto com as duas mãos, corpo espremido contra a lateral do carro.

Little tá agarrada no encosto, peitos espremidos no banco.

Jota espremido no porta malas, finalmente consegue fechar o porta malas.

Rosquinha olha pra trás, voz tremendo:

— Ele tá vindo… ele tá vindo mais rápido…

Baldur correndo numa velocidade impossível, pés descalços mal tocam o chão, corpo inclinado, braços abertos como asas de gelo.

E ganhando terreno a cada segundo.

Zezitos muda pra segunda, terceira, quarta (o Gol nunca viu quarta tão rápido).

O velocímetro marca 120 numa região que originalmente era para 40 km/h.

Baldur tá quase pegando de novo.

Jota grita do porta-malas:

— Vira AGORA!

Zezitos esterça o volante de ferro com os dois braços, o Gol Bolinha derrapa, calotas voam, entra na transversal cantando pneu.

Baldur segue reto, perde dois segundos, mas já tá corrigindo.

Little berra:

— ELE VAI PEGAR A GENTE!

Maju, pela primeira vez na vida, parece assustada de verdade:

— EU NÃO QUERO MORRER POR CAUSA DESSE GORDO FILHO DA PUTA!

Rosquinha, quase chorando:

— Foi mal, foi mal, eu deixei cair o papel…

Jota olha pelo vidro traseiro quebrado, vê Baldur fechando distância.

E agora o deus tá sorrindo.


O Gol Bolinha voa a 70 km/h nas curvas, motor 1.0 16v gritando como se tivesse alma.

Sem direção hidráulica, Zezitos vira o volante com os dois braços, músculos saltando, o carro balança inteiro a cada curva.

Baldur tá perto demais.

Dois metros e meio de músculos cobertos de tatuagens, mãos do tamanho de raquetes.

A mão dele rasga o ar, falta pouco pra agarrar o que sobrou do para-choque.

Um rugido mais alto — raiva pura congelada.

Jota berra do porta malas:

— ESQUERDA, AGORA!

Zezitos joga o volante.

O Gol derrapa, duas rodas levantam, bate de volta no asfalto com estrondo.

Baldur dá um soco que rasga o ar, se não tivesse virado pegaria em cheio.

Little grita, segura Maju pelo braço sangrando.

Maju xinga alto, mão apertando o corte:

— EU VOU MORRER POR CAUSA DE VOCÊS, SEUS FILHOS DA PUTA!

Rosquinha tá encolhido no banco do carona, rezando em voz alta:

— Meu Deus do céu, eu só deixei cair o papel…

Baldur salta de novo.

Agarra o metal retorcido do porta-malas com as duas mãos, começa a puxar o carro pra trás.

O Gol começa a morrer.

Zezitos pisa até o fundo, o motor berra 6.000 rpm, temperatura no vermelho.

Baldur começa a se equilibrar, nisso Jota e Maju aparecem, cada um com uma das lâminas negras que Rand entregou. As facas cortam a pele tatuada como se fosse papel. Pela primeira vez, Baldur grita — não de raiva, de dor real. Sangue dourado jorra. Ele solta o carro, recua.

Maju grita:

— SAI DAQUI, SEU FILHO DA PUTA!

Baldur olha pra ela.

Olhos brancos sem emoção.

E sorri.

O Gol avança, Baldur perdendo terreno pela primeira vez.

Zezitos vê outra saída, ramal bloqueado por caminhões queimados, o viaduto da Linha Verde.

— SEGURA!

Ele joga o Gol pro meio-fio, sobe na calçada, passa entre dois postes tortos.

Baldur não consegue passar entre os postes, mas sabe onde aquilo vai dar.

Salta do viaduto — quatro metros de queda direto no asfalto rachado.

Aterrissa de pé, mas algo quebra dentro dele.

Um grito que faz o ar vibrar — pela primeira vez, dor.

O Gol reduz um pouco, passa pela Ponte Preta na João Negrão numa velocidade nunca vista em um Gol: 142 km/h.

No banco de trás, Maju segura o braço sangrando, rosto pálido, mas ainda xingando:

— EU DISSE QUE NÃO QUERIA VIR NESSA PORRA!

Little pega um dos panos velhos do bolso de Maju, faz torniquete no braço dela.

— Cala a boca, alta! A gente tá vivo ainda!

Rosquinha olha pra trás, voz tremendo:

— Ele tá vindo… ele tá vindo mais rápido…

Baldur não parece ter mais a mesma velocidade. O Gol Bolinha vai ao máximo que consegue ali: 80, 100 km/h.

E tá ganhando distância.

Eles chegam na Linha Verde, viaduto meio destruído, mas pista limpa.

Baldur ainda atrás, mas mais lento, meio que mancando.

Parece que algo entrou no corpo dele no salto.

— VAMOS POR ALI, ZEZITOS!

Zezitos esterça tudo.

O Gol derrapa, bate de lado, amassa a lateral inteira, mas passa.

Baldur segue reto, perde três segundos, mas já tá corrigindo.

O Gol entra na Linha Verde e chega nos 120 km/h, motor tossindo fumaça azul.

No banco de trás, Maju olha o corte no braço, olha pro Rosquinha, olhos cheios de ódio puro:

— Quando isso acabar, eu te mato.

Rosquinha só chora.

E Baldur fecha distância.


Chegam no Contorno Sul e pegam em direção ao norte.

O Gol Bolinha 2003 tosse fumaça azul, temperatura no vermelho, óleo vazando, mas ainda vivo.

Zezitos sabe que precisam chegar na Pedreira do Orleans.

— Dizem que ele não entra lá. É nossa única chance.

Jota assente, mão branca no painel:

— Entra e mata o motor. A gente se esconde pelo local.

Maju, braço sangrando, voz rouca:

— Se eu morrer aqui, eu volto e mato vocês primeiro.

O Gol entra cantando pneu na estrada de terra, levanta uma nuvem de poeira branca.

A pedreira está abandonada há anos, várias edificações. Algo naquele lugar enfraquece Baldur, mas nenhum deles sabe o que é.

Zezitos coloca o carro em um dos galpões.

Silêncio absoluto.

Cinco pessoas descem de um Gol Bolinha fedendo a etanol queimado, sangue e medo.

Sentem que Baldur finalmente chegou, o barulho que estava alto, finalmente tem seu estrondo final e cessa.

Baldur olha ao redor.

Funga o ar como lobo.

Rosquinha tá tremendo.

— Ele vai sentir… ele vai sentir o papel…

Little tapa a boca dele com a mão.

— Cala a boca, porra.

Baldur dá o primeiro passo dentro da pedreira.

O chão congela onde ele pisa.

Jota sussurra:

— Quando eu mandar, todo mundo sai e corre pros fundos. Tem acesso à mata.

Maju olha pra ele, olhos arregalados pela primeira vez:

— Mata? Eu é que vou te matar. Tu tá louco?

Baldur dá mais um passo.

Olha direto pro galpão onde o Gol está.

Cinco segundos de silêncio absoluto.

Depois ele corre.

Direto para o local onde eles estão.

Jota berra:

— AGORA!

Correm para o fundo do galpão.

Zezitos na frente, puxa Little.

Jota empurra Maju pra frente (ela tropeça mas não cai).

Rosquinha é o último, tropeça, cai de cara no chão de concreto.

Baldur salta.

Aterrissa em cima do galpão e cai em cima do capô do Gol.

O carro se amassa por completo como lata de cerveja.

Rosquinha ainda tá no chão, a 3 metros, tênis surrado tentando ganhar tração na brita.

Baldur olha pra ele.

Olhos brancos sem emoção.

Levanta o pé.

Rosquinha tenta rastejar, selo sagrado ainda no bolso.

— Não… por favor…

O pé desce.

O corpo do Rosquinha explode como melancia.

Sangue, roupa florida e pedaços voam em todas as direções.

Little solta um grito que não parece humano.

Maju congela no lugar.

Jota agarra o braço dela, puxa com força:

— CORRE!

Os quatro restantes disparam na mata, tênis do Jota batendo no chão (cadarço direito arrastando, quase tropeça).

Baldur dá um passo em cima do que sobrou do Rosquinha, esmaga mais ainda, e começa a caminhar.

Devagar.

Porque agora ele sabe exatamente onde estão.

E não tem mais pressa.


Jota entra na boca de um túnel.

Cheiro de diesel velho, água parada e morte.

Jota entra primeiro, 110 kg voando como se pesasse 50.

Zezitos atrás, segurando Little pelo braço.

Maju tropeça, sangue pingando do corte, mas corre.

O túnel é estreito, teto baixo, canos furados gotejando ácido.

Luz só vem do reflexo fraco das tatuagens do Baldur lá na entrada, já aparecendo.

Jota berra sem olhar pra trás:

— DIREITA NA BIFURCAÇÃO, TEM SAÍDA PRO OUTRO LADO!

Little ofega:

— E se não tiver mais saída?

— Então a gente morre correndo!

Eles viram na bifurcação.

Baldur começa a destruir o túnel.

Solta algum tipo de poder, mas parece cansado, mais lento que antes.

O que seja que enfraquece ele naquela pedreira, funciona ainda mais aqui dentro.

O ar começa a congelar.

As paredes ficam brancas de gelo instantâneo.

O chão vira pista de patinação.

Zezitos escorrega, cai de joelho, levanta rápido.

Maju cai de cara, bate o rosto no concreto, sangue do nariz agora.

Jota para, volta, agarra ela pelo braço, levanta com força.

— ANDA, CARALHO!

Ela olha pra ele, rosto sujo de sangue e poeira, pela primeira vez sem deboche:

— Me solta, gordo… eu não corro mais.

Jota não solta, sabia que não podiam ficar ali.

Arrasta ela.

Baldur está ali na entrada.

Little vê a saída no fim do corredor, uma grade enferrujada com luz cinza do lado de fora.

— ALI!

Zezitos chega primeiro, chuta a grade com força, a grade voa.

Os quatro saem correndo pro descampado do outro lado da pedreira.

O terreno é aberto, céu de chumbo.

Sem esconderijo.

Baldur surge na frente deles.

Para.

Olha pros quatro.

— Achei que soubessem o que tem naquele túnel — a voz sai como vento gelado.

Mas não sabem de nada.

Ele dá um passo.

E então fala.

Não mais como quem zomba.

Como quem julga.

Voz como gelo quebrando, cada palavra uma sentença:

— Vocês marcaram igual.

A benção não pode ser dividida.

Vocês profanaram o acordo dos céus.

Jota para de correr, tênis surrado finalmente quieto.

Os outros param também.

Maju cai sentada no chão, pernas moles.

— Eu avisei… eu avisei que isso ia dar merda…

Baldur dá um passo.

Zezitos se coloca na frente de Little.

— Fica atrás de mim.

Baldur dá outro passo.

Jota dá um passo à frente, peito estufado, 110 kg de quem já perdeu tudo menos a raiva.

— Vem, seu filho da puta.

Baldur sorri.

E começa a andar.

Devagar.

Porque agora é pessoal.

E a aposta foi perdida.

A traição tem preço.

Jota dá um passo à frente.

— Então cobra de mim, filho da puta.

Eu dirigi. Eu trouxe eles. Eu deixei o Rosquinha foder com tudo.

Baldur inclina a cabeça.

— Todos escolheram.

Todos pagam.

Zezitos rosna:

— Vem então.

Baldur dá o primeiro passo.

Zezitos avança, 1,90 m de músculo puro, soco de direita com tudo.

Baldur vê Jota e Maju segurando as facas.

Num movimento rápido, arranca as duas lâminas das mãos deles, quebra no joelho, joga longe.

— Não de novo.

Baldur nem levanta a mão.

O punho do Zezitos bate no peito dele, faz um som de metal batendo em pedra.

O braço do Zezitos volta quebrado, osso saindo pra fora.

Ele cai de joelhos, urro de dor.

Little grita, corre pra ele.

Baldur pega ela pelo pescoço com uma mão só, levanta do chão como se fosse boneca.

A mão dele envolve o pescoço dela por completo, dedos grossos como cabos de aço.

Os pés dela chutam o ar.

Maju tenta se levantar, cambaleia, cai de novo.

— Para… por favor…

Baldur aperta.

O pescoço da Little estala.

O corpo cai mole no chão.

Jota sente o mundo sumir.

Maju chora alto, rasteja pra trás.

— Eu não queria… eu só vim junto…

Baldur olha pra ela.

Levanta o pé.

Desce.

A cabeça da Maju afunda no chão com um som úmido.

Silêncio.

Só Jota de pé, tênis surrado firme no chão.

Baldur vira pra ele.

— Tu dirigiu.

Jota cospe sangue e poeira.

— Eu dirigi.

Baldur dá um passo.

Jota não recua.

— Então me mata logo, seu puto.

Baldur para a um metro.

Olha nos olhos do Jota.

E sorri.

— Não.

Levanta a mão, toca o peito do Jota com dois dedos.

O frio entra como faca.

Jota sente o coração congelar dentro do peito.

Mas não morre.

Baldur fala baixo, quase carinhoso:

— Tu vai viver.

Vai lembrar.

Vai ver eles toda vez que fechar os olhos.

E vai saber que foi por seis apostas iguais.

Essa é a benção que receberá.

Memória eterna.

Até o último suspiro.

Tira a mão.

O gelo sai.

Jota cai de joelhos, respirando vapor branco, tênis afundando.

Baldur vira as costas.

Caminha devagar pra longe, passos deixando pegadas de gelo que nunca derretem.

Jota fica ali.

Sozinho.

Entre os corpos dos amigos.

O selo sagrado, sujo de sangue, ainda no bolso do que sobrou do Rosquinha.


O julgamento dos céus sai naquela noite.

Os seis números batem.

A benção é dele.

Toda dele.

Mas ninguém vai buscar.

Porque a verdadeira benção já foi dada:

lembrar,

para sempre,

de todos que morreram por seis apostas iguais.

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Sinopse Narrativa:

Em Curitiba apocalíptica, Jota e quatro companheiros marcam apostas com os mesmos seis números, traindo o acordo dos céus. Baldur, um deus de dois metros com pele tatuada e olhos brancos, os persegue após descobrir a traição quando Rosquinha deixa cair o bilhete. Após fuga intensa no Gol Bolinha, todos morrem brutalmente exceto Jota, que recebe como "benção" a memória eterna do que aconteceu. Os números batem, mas ninguém busca o prêmio.

Gênero Distópico, Terror Apocalíptico
Tom Desesperador, Tenso, Violento
Timeline Apocalíptico, Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Perseguição sobrenatural com consequências fatais
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Perseguição sobrenatural, Sobrevivência como punição, Traição e consequências
Locais André de Barros, Contorno Sul, Descampado, João Negrão, Linha Verde, Pedreira do Orleans, Ponte Preta, Rui Barbosa, Túnel
Palavras-Chave apostas idênticas, Baldur deus vingador, benção dos céus, memória eterna como punição, perseguição no Gol, todos morrem, traição do acordo
Curitiba apocalíptica: céu de chumbo, fede enxofre/borracha queimada/neve que não cai, lojas carbonizadas, placas derretidas, postes tortos, asfalto rachado como pele de crocodilo, poeira radioativa. Baldur: mais de 2 metros, largo, descalço, pele tatuada brilhando como gelo negro, olhos brancos sem pupila, mãos tamanho de raquetes, dedos grossos como cabos de aço, passos congelam ar/racham asfalto. Bilhete dos céus com selo sagrado emite pulsar dourado ao cair. Facas de lâmina preta de Rand cortam Baldur (sangue dourado). Velocidades: 120, 142 km/h. Rosquinha esmagado explode como melancia. Little pescoço quebrado. Maju cabeça afundada. Zezitos braço quebrado osso pra fora. Jota 110 kg, barba cheia de poeira radioativa.
 

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