O calor já é de rachar quando Jota abre o portão.
Nove e meia e a Rua do Professor parece um forno aberto. O asfalto novo brilha como se tivesse óleo, o ar tremendo em ondas que distorcem o fim da rua.
O Gol Bolinha Cinza Urban 2003 tá parado exatamente onde ele deixou há dois dias: calotas originais VW sujas de poeira, capô quente. Banco do motorista afundado no formato exato dos 110 kg que sempre voltam pro mesmo lugar.
Jota tá de camiseta regata vinho velha, short de moletom cinza, pé descalço no cimento que queima.
Leite quente na caneca, sem açúcar, já esfriando na mão esquerda.
A barba cheia coça de suor.
O cabelo ondulado grisalho nas laterais tá bagunçado do travesseiro.
E o jardineiro tá lá.
Chapéu de palha surrado, camiseta desbotada grudada no corpo magro, calça rasgada no joelho, facão na mão direita.
Parado diante da árvore morta no meio-fio, olhando pra cima como quem avalia um velho conhecido que finalmente se rendeu.
O jardineiro não olha pra Jota. Não pede licença. Não explica nada.
Veio fazer o que precisa ser feito.
A árvore.
Quarenta e poucos anos de vida torta.
Nasceu na fresta entre o meio-fio e o asfalto, quando ali ainda era a casa azul de madeira.
Cresceu inclinada, galhos invadindo a calçada, raízes rachando o concreto como se dissessem “eu fico”.
A prefeitura nunca veio.
O pai do Jota dizia que ia cortar, mas nunca cortou.
A mãe dizia que dava sombra, mas a sombra era pouca.
Depois veio o sobrado, a casa azul foi pro chão, o terreno virou muro alto e garagem.
Mas a árvore ficou.
Teimosa.
Feia.
Deslocada.
Até que morreu.
Primeiro as folhas amarelaram.
Depois caíram.
Depois os galhos secaram.
A casca descascou.
O tronco virou cinza por dentro.
Ficou meses ali, esqueleto vegetal, ocupando espaço que não era mais dela.
Jota entra e sai de casa, abre o portão do Gol, passa todo dia ao lado daquele cadáver e pensa:
“Um dia eu corto isso.”
Mas nunca cortou.
Até hoje.
O jardineiro não olha pra ele.
Levanta o facão.
O primeiro golpe é seco.
O galho cai com som de osso velho quebrando.
Jota fica parado na varanda, leite esfriando.
E, do outro lado da rua, onde só tem muro alto e mato seco, a casa azul tá lá.
Inteira.
Pintura desbotada, janelas brancas fechadas, portão branco enferrujado, telhado de telha colonial, garagem onde a mãe dele sentava pra tomar chimarrão.
Exatamente como era antes de virar pó.
Jota pisca.
Não some.
O leite esfria de vez.
O facão desce outra vez.
E a árvore começa a perder o que ainda fingia ter de vida.
O facão desce de novo.
O som é seco, ritmado, quase musical:
tac… tac… tac…
Cada golpe arranca um galho seco que cai na calçada como osso de defunto.
Lascas voam, finas como cinza, pousam no asfalto quente e desaparecem no calor tremendo.
O jardineiro trabalha sem pausa.
Suor escorrendo do chapéu de palha, pingando no chão, formando pequenas manchas escuras que evaporam em segundos.
A camiseta desbotada agora é um pano molhado colado nas costelas.
Os braços magros sobem e descem com precisão de máquina: corta na base, gira o pulso, puxa, joga pro lado.
A pilha de galhos mortos cresce na beira do meio-fio, organizada, quase bonita.
Jota não se mexe da varanda.
A caneca de leite já tá vazia na mão, esquecida.
Os pés descalços queimam no cimento, mas ele nem sente.
Porque do outro lado da rua a casa azul tá viva.
A porta da frente está entreaberta.
A mesma porta marrom que ele abria com 12 anos pra entrar correndo depois da escola.
A garagem onde a mãe estendia as roupas quando chovia. E onde tomavam chimarrão, olhando ele e o irmão brincar na rua.
O portão branco com a tranca enferrujada que rangia toda vez que alguém abria.
E no quintal da casa azul, a outra árvore.
Não a do meio-fio.
Outra.
Inteira, arrancada pela raiz, deitada de lado como corpo largado.
Raízes grossas expostas pro céu, terra seca ainda grudada, galhos apontando pro nada.
Alguém começou o serviço e desistiu no meio.
Deixou ali pra apodrecer.
O cheiro chega até Jota.
Madeira morta, seca, sem seiva.
Mistura com o cheiro de etanol velho do Gol Bolinha, com o cheiro de suor dele mesmo, com o cheiro de memória que não pediu pra voltar.
O jardineiro muda de ferramenta.
Larga o facão, pega uma serra que aparece do nada (ou tava ali o tempo todo, Jota não viu).
A serra morde o tronco na base.
O barulho é mais grave, mais lento, mais definitivo:
zrrrr… zrrrr… zrrrr…
Cada passada arranca lascas maiores.
O tronco range como se doesse.
Jota lembra.
Lembra de quando soube que a casa azul tinha ido pro chão.
Jota estava viajando.
O pai desmontou madeira por madeira, a mãe vendeu tudo pra uma conhecida.
A mãe dele sentada no sobrado ao fundo, assistindo o marido desmontar a casa.
Jota não lembra quantos anos tinha — trinta e poucos, talvez.
Só agora entende a nostalgia que aquela casa trazia.
A vida era mais fácil quando ela existia.
Lembra que a família decidiu que a árvore da frente nunca seria cortada.
Era o que sobrava da casa azul.
O pai morreu há cinco anos.
A árvore morreu há dois.
E agora tá sendo cortada por um homem que não a conheceu.
O tronco range mais alto.
O jardineiro dá um passo pra trás.
A árvore inclina.
Devagar.
Como quem ainda tá decidindo se quer cair mesmo.
Jota sente o peito apertar.
A casa azul tá olhando.
As janelas brancas como olhos fechados de quem já se foi há muito tempo.
E a árvore cai.
O tronco inclina mais um grau.
Range como porta velha que não quer abrir.
As raízes que seguraram por quarenta anos soltam um estalo seco, quase um suspiro.
E a árvore cai.
Não é estrondo.
É um baque surdo, pesado, definitivo.
O tronco bate no asfalto quente, racha no meio com som de madeira velha se partindo.
Galhos se espalham, alguns quicam, outros quebram de vez.
Uma nuvem de poeira branca sobe, mistura com o calor tremendo do meio-dia e some.
Silêncio.
O jardineiro para.
A serra ainda na mão, lâmina suja de pó cinza.
Olha pro que sobrou da árvore como quem olha um trabalho bem feito.
Dá um passo pra trás.
Começa a cortar os galhos caídos em pedaços menores, empilhando com calma, sem pressa.
Jota desce os degraus da varanda.
Devagar.
Pés descalços no cimento queimando, mas ele não sente.
A caneca vazia ainda na mão esquerda, esquecida.
Cruza a calçada, para na beira do meio-fio.
O espaço onde a árvore esteve por quatro décadas agora é só um buraco vazio.
As raízes expostas, quebradas, ainda agarradas a pedaços de concreto.
O asfalto rachado em volta, cicatrizes que vão ficar pra sempre.
Do outro lado da rua, a casa azul continua lá.
Inteira.
Porta entreaberta.
Garagem vazia.
Janela do quarto da mãe fechada, cortina branca parada no tempo.
Jota dá um passo à frente.
O asfalto queima a sola do pé.
Ele não liga.
Outro passo.
A poeira da árvore caída ainda paira no ar, entra no nariz, na garganta.
Outro passo.
Está no meio da rua agora.
O Gol Bolinha à esquerda, capô quente, refletindo o céu.
A casa azul à frente, sólida, real, impossível.
O jardineiro continua cortando atrás dele, serra zrrrr… zrrrr… zrrrr…
Não olha.
Não para.
Jota para a dois metros do portão branco enferrujado.
A casa azul tá silenciosa.
Mas ele sente.
Sente o cheiro do café que a mãe fazia.
Sente o barulho da TV ligada na sala.
Sente o cheiro de madeira recém-lixada do chão que o pai nunca trocou mas todos na casa ajudavam a encerar.
Sente a casa respirando.
A porta da frente range sozinha, abre mais um palmo.
Dentro, escuridão fresca.
Jota dá mais um passo.
O pé pisa numa pedra solta.
Ele para.
Olha pra baixo.
É uma das raízes da árvore que caiu.
Mas não é.
É uma raiz da árvore que tá deitada no terreno da casa azul.
A árvore arrancada que ninguém terminou de tirar.
A raiz tá viva.
Um fio verde, quase imperceptível, saindo da terra seca.
Crescendo.
Devagar.
Na direção da casa dele.
Jota olha pra cima.
A casa azul pisca.
Uma vez.
E começa a desbotar.
Como foto antiga queimando no sol.
As bordas primeiro, depois o meio.
A porta, a garagem, as janelas, o telhado.
Tudo vira pó azul claro que o vento leva.
Em dez segundos, não tem mais nada.
Só o terreno vazio, mato seco, muro alto do sobrado novo.
A árvore arrancada também sumiu.
O meio-fio continua rachado.
A pilha de lenha tá lá, organizada, esperando alguém que nunca vai vir buscar.
O jardineiro termina o último corte.
Guarda a serra.
Guarda o facão.
Vira as costas.
E vai embora pela rua, chapéu de palha na cabeça, sem olhar pra trás.
Jota fica parado no meio da rua.
Sozinho.
O sol queima as costas.
O silêncio é absoluto.
Ele olha pro buraco onde a árvore esteve.
Olha pro terreno vazio onde a casa azul morou por um instante.
Quebrou a promessa.
Deixou o jardineiro fazer o que a família jurou que nunca faria.
E aceita.
Porque tem coisa que a gente não corta.
Tem coisa que a gente só vê cair.
E depois vive com o buraco.
E tem promessa que não dá pra manter pra sempre.
Jota atravessa a rua de volta devagar.
O asfalto queima a sola dos pés, mas ele anda como se não sentisse.
A pilha de lenha tá lá, organizada, quase bonita na beira do meio-fio.
Ninguém vai buscar.
Ele sabe.
Abre a porta do motorista do Gol Bolinha.
O calor acumulado dentro do carro bate no rosto como tapa.
Cheiro de etanol velho, banco quente, tecido cinza escuro cozinhando há horas.
Ele entra.
Senta.
O banco afunda exatamente no formato do corpo dele, 110 kg que conhecem cada centímetro daquele lugar.
A toalha branca que ele sempre coloca pra não suar direto já tá cinza de tanto uso, dobrada no encosto.
Fecha a porta.
Vidro elétrico dianteiro desce devagar.
O braço sai pra fora, cotovelo apoiado na janela, mão pendurada.
O motor não liga.
Só fica ali.
Olhando.
O para-brisa empoeirado reflete o terreno vazio onde a casa azul morou por um instante.
O meio-fio rachado.
A pilha de lenha que parece um túmulo pequeno.
Jota apoia a testa no volante.
Fecha os olhos.
Jota lembra.
Queria estar presente no dia que a casa foi ao chão.
A mãe dele sentada no sobrado ao fundo, assistindo o marido desmontar madeira por madeira.
Às vezes a mãe fala que sabe pra onde a madeira foi.
Lembra da promessa de nunca cortar a árvore.
Porque cortar seria admitir que o tempo passou.
Porque deixar morrer era castigo por não ter salvado a casa.
Jota abre os olhos.
Volta pro presente.
O retrovisor mostra o sobrado atrás: pintura nova, portão automático, tudo que o dinheiro comprou depois que a casa azul virou pó.
Ele dá partida.
O 1.0 16v tosse, engasga, pega na terceira tentativa.
Rádio não tem, então o barulho é só do motor e do coração.
Engata a ré, sai do meio-fio devagar.
Passa pela pilha de lenha.
Para.
Desce.
Pega um pedaço pequeno de galho seco.
Volta pro carro, coloca o galho no banco do carona, ao lado da mochila laranja aberta — canto do caderno marrom aparecendo pela fresta, tênis surrado jogado em cima com cadarço solto.
Engata a primeira.
E vai embora.
Sem destino.
Sem pressa.
O Gol Bolinha anda devagar pela cidade.
Sem destino, sem pressa.
Jota mantém 40 km/h, vidro aberto, braço pra fora, vento quente batendo no rosto.
O pedaço de galho seco tá no banco do carona, em cima da mochila.
Pequeno, quebradiço, quase pó.
Mas ainda é madeira.
Ainda é o que sobrou.
Ele se vê passando pelo Parque Barigui, lago cheio, gente correndo, cachorro latindo.
De repente está no Centro Cívico, prédios altos refletindo o céu que agora tá ficando cinza de verdade.
Olha e nota que dirige pela Marechal, trânsito lento, buzinaço, vida normal.
Curitiba inteira continua existindo.
O rádio não tem, então o único som é o 1.0 16v cantando baixo e o barulho do vento entrando.
Jota acaba parando no local onde pensa que a casa azul foi.
Desce e admira o que ela virou.
E pensa na árvore que tirou hoje.
Na árvore que ele deixou morrer pra não ter que matar.
Volta pro carro.
Engata a primeira.
E segue.
Volta pro Capão da Imbuia quando o sol já tá baixando.
Estaciona o Gol na frente do sobrado, no mesmo lugar de sempre.
Desce.
A pilha de lenha ainda tá lá.
Ninguém veio buscar.
Talvez nunca venha.
Jota entra em casa devagar, pés descalços no chão frio da sala.
Vai direto pra cozinha.
Abre a geladeira, pega um guaraná gelado.
O ímã cinza fosco do Posto Esso tá ali no centro da porta, segurando um papel velho com telefone de pizzaria. Beiradas descascando, logo quase apagado.
O ímã pisca uma vez, luz azul pálida, quase imperceptível.
É, a mãe está em casa.
Jota para.
Olha novamente pro ímã.
Lembra do pai colando ele em outra geladeira quando o Jota era criança.
Lembra da mãe usando ele pra segurar recados, listas de compra, fotos da família.
O ímã pisca de novo, mais fraco.
Jota toca ele com a ponta do dedo.
Morno.
Depois frio de novo.
Só um ímã velho.
Mas ainda ali.
Sempre ali.
Ele abre o guaraná, bebe metade de uma vez.
Senta no chão da cozinha, encostado na parede.
Olha pra parede da sala onde tem uma foto antiga: ele com 12 anos, de short, sorrindo, em pé na garagem da casa azul.
Família toda ali, a mãe ao lado, mão no ombro dele, sorrindo também.
A árvore ao fundo, verde, viva, teimosa.
Jota bebe o resto do guaraná.
Levanta.
Pega um vaso pequeno de cerâmica que a mãe trouxe de algum artesanato.
Enche de terra do quintal.
Pega o pedaço de galho seco que tava no carro junto da mochila.
Enterra a ponta dele na terra.
Abre a mochila laranja, procura o isqueiro amarelo entre as dobras do caderno marrom.
Acha.
Acende a chama — na primeira, sobrevivente como sempre.
Segura perto do vaso pra ver melhor na penumbra da cozinha.
A chama ilumina o galho seco, a terra úmida, as mãos dele tremendo de leve.
Apaga.
Guarda de volta.
Coloca o vaso na janela onde bate sol da tarde.
Senta de novo no chão.
Olha pro vaso.
Olha pra foto.
E pela primeira vez em muito tempo,
não dói.
Porque a árvore caiu.
A casa azul voltou e foi embora.
O jardineiro fez o que ele nunca teve coragem.
E o que sobrou agora cabe num vaso.
E vive dentro de casa.
Onde sempre deveria ter estado.
O céu escurece de vez.
Primeiro um trovão baixo, depois outro mais perto.
A luz da tarde vira crepúsculo de repente.
Jota tá sentado na cozinha, guaraná já vazio na mesa, olhando o vaso na janela.
O pedaço de galho seco, enterrado na terra úmida, parece menos morto.
Primeira gota bate no telhado.
Depois segunda.
Depois é só barulho.
Chuva forte, daquelas que Curitiba guarda pra quando decide lembrar que é Curitiba o ano inteiro.
O som enche o sobrado inteiro: calhas enchendo, água escorrendo, rua virando rio.
Jota levanta, abre a janela da cozinha.
O ar fresco entra de uma vez, cheiro de terra molhada, asfalto lavado, fim de dia.
Olha pra rua.
A pilha de lenha tá lá, tomando chuva, madeira escurecendo, ficando pesada.
O meio-fio rachado vira riacho.
A casa azul não voltou.
O terreno continua vazio.
O jardineiro não vai voltar.
O ímã na geladeira pisca uma última vez, luz azul suave, como se dissesse adeus.
Depois apaga.
Frio de novo.
Só um ímã.
Jota fecha a janela só até a metade.
Volta pro sofá.
Pega o controle, liga a TV num volume baixo, só pra ter companhia.
Deita.
Fecha os olhos.
Ouve a chuva caindo.
Ouve o Gol Bolinha lá fora tomando banho depois de dois dias de poeira.
Ouve o pedaço de galho dentro do vaso, quietinho, aceitando a terra nova.
E agora, finalmente,
dorme.
Sem sonho.
Sem peso.
Só o barulho da chuva dizendo que tudo que precisava cair,
caiu.
E o que sobrou,
agora tem raiz.
