O Gol Bolinha Cinza Urban estaciona na rua de terra batida, poeira subindo quando os pneus param. Jota desliga o motor, pega a mochila laranja do banco do carona. Pesada. Cheia de cabos RCA, adaptadores P10, conectores banana, fita isolante. O tipo de mochila que diz “vim trabalhar, não vim beber”.
A camiseta regata vinho já gruda nas costas. Curitiba, noite quente, ar parado. Ele desce do carro, tranca a porta, olha pro galpão na frente.
Pedreira do Orleans. Estrutura abandonada que virou point. Paredes de tijolo à vista, teto de zinco furado em alguns pontos, portão de ferro escancarado. Luz de LED colorida vaza pelas janelas quebradas. Grave batendo tão forte que o chão vibra.
A festa já começou faz tempo.
Jota atravessa o portão, mochila no ombro. O galpão é enorme por dentro. Deve ter sido depósito de alguma coisa relacionada a algum minério. Agora é só espaço vazio com gente espalhada por todo lado. Umas duzentas pessoas, talvez trezentas. Caixas de som do tamanho de geladeira empilhadas nos cantos. DJ num tablado improvisado. Luzes de LED penduradas em cabos de aço que cruzam o teto como teias.
Cheiro de cerveja, suor e cigarro.
Alguém acena de longe.
Beagá. O cara que organizou tudo. Camisa preta, boné virado pra trás, walkie-talkie na mão.
— Jota! — Ele grita por cima da música. — Valeu por vir, mano! Preciso de você no som!
Jota levanta a mão, acena de volta. Atravessa a multidão. Corpos dançando, copos levantados, gente rindo alto. Ele reconhece uns rostos. Galera de Curitiba. Pessoal da infância. Gente que sempre aparece nesse tipo de rolê.
Beagá tá no canto onde ficam os geradores. Dois motores grandes, um ligado, ronronando baixo, o outro desligado ao lado. Cabos grossos como braço saindo deles, correndo pelo chão, subindo pelas paredes.
— E aí, Jota. — Beagá dá um tapa no ombro de Jota. — Lembra da festa do mês passado?
Jota lembra. Todo mundo lembra. Apagão no meio da madrugada. Música cortou. Luzes apagaram. Caos. Gente tropeçando no escuro. Briga começando do nada. A festa morreu ali.
— Dessa vez a gente se preparou. — Beagá aponta pros geradores. — Esse aqui é o principal. Se cair, tem o backup lá nos fundos. Sistema automático. Três segundos e a luz volta.
— Esperto.
— Não quero merda de novo. — Beagá olha pro walkie-talkie. — Bom, preciso que você instale umas caixas lá no anexo. Quarto 3. Tem gente pagando extra por som privado.
Jota assente. Trabalho é trabalho.
Leandro Costa, vulgo Marrakech aparece do outro lado, cabo enrolado no ombro, sorriso tranquilo.
— Jota, meu irmão. Precisa de ajuda?
— Tranquilo. Só instalar essas caixas nos fundos.
Marrakech tira um cigarro do bolso, coloca na boca, procura isqueiro. Jota enfia a mão no bolso da calça, puxa o isqueiro amarelo. Acende. Marrakech se inclina, puxa a fumaça, acena agradecido.
— Valeu. Qualquer coisa, me chama.
Jota guarda o isqueiro, pega duas caixas de som médias que estão encostadas na parede. Uma em cada mão. A mochila laranja pesa nas costas. Ele vira pra sair.
Rosquinha passa rebolando no meio da galera, copo na mão, sorriso largo.
— Ô, Chô! Ô, Chô! — Ele grita, voz aguda, teatral. — Depois me ensina a mexer nesse cabo aí, hein!
A galera em volta ri. Jota ri junto, balança a cabeça, continua andando.
A música bate mais forte perto das caixas grandes. Grave que sobe pelas solas dos tênis surrados, atravessa os ossos, faz o coração bater no ritmo errado.
O anexo fica separado por um corredor estreito. Porta de metal que range quando ele empurra com o ombro. Do outro lado, espaço menor, mais escuro. Devem ser os antigos escritórios. Quatro portas alinhadas, numeradas com spray preto na madeira.
Música abafada vaza de dentro de algumas. Luz vermelha embaixo das portas. Movimento discreto.
Jota para na frente do quarto 3.
A porta tá entreaberta. Luz vermelha forte. Ele empurra com o pé, entra.
O quarto é pequeno. Colchão no chão, lençol vermelho amassado. Abajur improvisado no canto jogando sombra na parede. Mesa dobrável com garrafa de vodka pela metade e dois copos.
E ela.
Jota reconhece o corpo antes do rosto.
Cavala.
1,70 de pura destruição. Pernas grossas, coxas que se juntam no topo, bunda redonda e empinada marcando o shortinho jeans curto. Cintura fina, barriga chapada, blusinha branca sem alça que mal segura os peitos. Cabelo castanho ondulado caindo nos ombros.
Ela tá encostada na parede, braços cruzados, sorriso de canto.
— Oi, Jota.
Ele para na porta, caixas de som ainda nas mãos.
— Oi.
— Veio instalar ou veio aproveitar?
Jota não responde na hora. Coloca as caixas no chão, devagar. A mochila laranja escorrega do ombro, bate no piso de cimento.
Cavala se descola da parede. Três passos. Para na frente dele.
— As caixas podem esperar.
Jota olha pra porta aberta. Olha pra ela. Fecha a porta com o pé.
Cavala pega uma das caixas de som, arrasta pro canto. Volta. Ajoelha.
As mãos dela sobem pelas coxas de Jota. Desabotoam a calça. Puxam o zíper devagar, dente por dente.
Jota encosta na parede. Respira fundo. As mãos dele ainda sujas e com um cheiro de borracha e metal. Ele passa uma delas no cabelo dela, segura a nuca.
Cavala puxa a calça pra baixo. A cueca junto.
E começa.
A boca quente. Úmida. Movendo devagar no começo, depois mais rápido. A língua trabalhando, os lábios apertando na medida certa.
Jota fecha os olhos. A cabeça bate na parede de tijolo. A música lá fora pulsa através da parede, grave batendo no mesmo ritmo. A luz vermelha do abajur pisca quando alguém passa no corredor.
As mãos de Cavala seguram firme. Ela olha pra cima uma vez, olhos escuros, sorriso discreto antes de voltar. Mais rápido agora. Mais fundo.
Jota sente o corpo inteiro travar. As pernas cedem. Os dedos se fecham em punho contra a parede.
Ele não segura.
Cavala não para. Engole. Limpa. Levanta devagar, limpando a boca com as costas da mão.
— Pronto. — Ela sorri, ajusta a blusinha. — Agora pode instalar as caixas.
Jota respira fundo. Puxa a calça de volta. Abotoa. A mão ainda tá instável.
Cavala já tá sentada na beirada do colchão, pegando o copo de vodka, cruzando as pernas.
— Quer um gole?
— Não, não bebo lembra? E ainda tenho trabalho.
— Sempre tem trabalho. — Ela bebe, faz careta. — Por isso que eu gosto de você, Jota. Não enrola.
Ele pega a mochila laranja do chão. Abre o zíper. Tira os cabos, adaptadores. Conecta as caixas na tomada improvisada na parede. Testa o som. Funciona.
Cavala observa, copo na mão, pernas balançando devagar.
— Vai ficar por aqui depois?
— Talvez. — Jota fecha a mochila. — Depende do Beagá.
— Se ficar, volta aqui. — Ela morde o lábio. — Próxima vez você instala mais devagar.
Jota ri. Baixo. Balança a cabeça.
— Valeu, Cavala.
Ela não responde. Só sorri, bebe a vodka, e olha pra porta.
Jota sai do quarto. A porta fecha atrás dele.
O corredor tá vazio. Música abafada dos outros quartos. Ele ajusta a mochila no ombro, começa a voltar.
E então a luz pisca.
Uma vez.
Duas.
Apaga.
Escuridão total.
Gritos. Alguns nervosos, outros já rindo. A música corta no meio do drop. Silêncio pesado por dois segundos.
Beagá grita de algum lugar lá na frente:
— CALMA! BACKUP JÁ VAI!
Jota para no corredor. Não adianta andar no escuro.
As mãos dele ainda têm o cheiro dela. Suor, vodka, perfume barato. A mochila puxa o ombro pra baixo. O corpo ainda tá mole, pernas bambas, respiração funda.
Três segundos parado no escuro.
A luz volta.
LED colorido piscando de novo. Música recomeça exatamente de onde parou. A galera aplaude, grita, levanta os copos. Alívio coletivo.
Do galpão principal, a voz de Beagá estoura no walkie-talkie, mais aguda que o normal:
— CONFIRMADO! BACKUP ENTROU! TÁ TUDO OKAY!
Um segundo de silêncio estático.
Depois, mais baixo:
— Puta que pariu…
O sistema funcionou.
Jota continua andando. Quando chega no galpão, já tá de pé direito de novo.
A festa continua igual. Corpos se mexendo. Luzes piscando. Som batendo firme.
Beagá tá perto dos geradores, faz joinha de longe quando vê Jota. Rosquinha passa rebolando, grita alguma coisa que se perde no grave, pisca o olho.
Jota caminha até a beira do galpão. Encosta na parede fria. Tira o isqueiro amarelo do bolso. Acende. Olha a chama dançar. Apaga. Guarda.
O gerador principal ronrona no canto. O backup segura firme.
A festa continua foda.
