Capa do Capítulo

Cabo de Garganta

Extensão: 1.360 palavras | Leitura: 7 min

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Jota entrou no Bosque do Capão da Imbuia às quatro e vinte da tarde de uma primavera que uma hora esquentava e outra esfriava, enfim Curitiba.

44 anos, 1,83 m, 110 kg, camiseta regata vinho rasgada nos ombros e grudada no corpo de suor frio, tênis surrado com o dedão direito aparecendo pelo buraco gasto, marcas nas palmas latejando desde que estacionou o Gol bolinha 2003 cinza na rua de terra ao lado do portão.

Motor roncando feito tosse de fumante antes de desligar, cheiro de etanol velho grudado no estofado.

O ímã de geladeira do Posto Esso, no bolso do casaco, frio como sempre.

O cadarço direito soltou na terra batida.

Jota se abaixou pra amarrar.

Quando levantou, a trilha já não era a mesma.

Ele precisava andar.

Porque ficar em casa era pior.

Porque ficar parado era ouvir o nome dela na cabeça o tempo todo.

Três semanas desde o último encontro.

Três semanas desde o beijo que não durou nem cinco segundos e ainda queimava mais que qualquer coisa que ele já tinha sentido.

A trilha era a mesma de sempre: portão de madeira gasta, chão de terra batida, bichos taxidermizados pregados nos troncos como guardiões mortos.

Cheiro de folha podre, pinhão apodrecendo, ar frio que entrava pelos pulmões e ficava.

Mas hoje estava errado.

As árvores estavam mais altas.

Mais densas.

O caminho parecia não ter fim.

Jota continuou andando.

Dez minutos.

Quinze.

O chão deixou de ser terra.

Virou algo liso.

Quase plástico.

Olhou pra trás.

A trilha sumiu.

No lugar da mata, corredor branco.

Paredes lisas.

Luz fluorescente no teto.

Cheiro de tinta fresca e desinfetante.

Jota não parou.

Já conhecia o padrão.

Pensou nela.

Uma porta apareceu à esquerda.

Madeira escura.

Sem maçaneta.

Empurrou.

Entrou.

Satogos Cruel estava de costas.

No meio da sala branca, iluminada por luz fria que vinha de lugar nenhum.

Cabelo longo, liso, castanho-escuro, caindo até o meio das costas.

Blusa preta justa marcando a cintura fina, quadril largo, bunda redonda e durinha que parecia desafiar a gravidade.

Calça escura abraçando as pernas grossas, fortes, que não acabavam nunca.

Ela não virou.

Jota deu um passo.

As marcas nas palmas pulsaram como coração.

Outro passo.

Ela virou o rosto.

De lado.

Olhos verdes claros, gélidos, que atravessavam.

Sorriu.

Pequeno.

Como quem esperou tempo demais.

Jota não falou.

Chegou perto.

Mãos no rosto dela.

Dedos nos cabelos longos.

Polegar roçando a maçã do rosto.

Encostou a boca na dela.

Beijo urgente.

Necessário.

Sem licença.

Ela correspondeu.

Por um segundo.

Talvez dois.

Lábios quentes.

Gosto de café amargo e algo doce que não explicava.

Língua dela roçando a dele.

Mão dela na nuca dele, puxando mais forte.

No bolso, o isqueiro amarelo – o sobrevivente – faiscas apareceram rapidamente enquanto o beijo continuava.

A mão dela apertou mais forte a nuca.

Os lábios dela ficaram quentes demais.

O ar ao redor vibrou.

Primeiro suave.

Depois intenso.

As paredes começaram a tremer.

Ela se afastou um centímetro.

Olhos verdes fixos nos dele.

— Não é hora — sussurrou.

— É sempre hora — Jota respondeu, voz rouca.

Ela sorriu de novo.

Dessa vez triste.

O tremor virou terremoto.

A sala branca rachou no meio.

A luz explodiu em faíscas brancas.

O chão abriu.

Jota caiu.

Não sentiu o impacto.

Só o peso da queda.

E então a escuridão.

E o cheiro de pipoca rançosa.

Jota abriu os olhos sentado.

Viu mesas redondas, espaço, pessoas realizando pedidos.

Shopping.

O octógono do prédio que se via pela janela estava lá, escadas rolantes paradas, cheiro de pipoca rançosa e carpete úmido, mas tudo errado.

Corredores mais longos.

Paredes marrom-sujas.

Luz fraca, azulada, de madrugada mesmo com o relógio digital acima da bilheteria marcando 11:00.

11:00 de manhã.

Mas parecia três da madrugada.

Ele caminhou até o cinema, parou onde indicava fila da Sala 3.

Ingresso na mão, papel amassado, sem nome de filme.

Entrou.

Sala vazia quase toda.

Poltronas vermelhas desgastadas, tela amarelada, silêncio pesado.

Sentou no meio.

Longe das paredes.

Longe da saída.

Olhou o relógio de pulso.

11:00.

Pensou nela.

De novo.

Sempre.

Ela não estava lá.

A luz diminuiu.

Não apagou.

Só baixou o suficiente pra deixar tudo cinza.

A tela continuou branca.

Nada começou.

E então começaram.

Saíram das paredes como se sempre tivessem estado ali.

Cabos de madeira bruta, retorcida, cheia de nós e farpas.

Grossos como braço.

Flexíveis como cobra.

Ignoraram as poucas pessoas borradas na sala.

Foram direto nele.

O primeiro bateu no peito como martelo.

Ar saiu dos pulmões num só golpe.

O segundo entrou pelo lado do pescoço, rasgando carne, músculo e traqueia.

Dor branca, absoluta.

O terceiro — o pior — enfiou-se direto pela boca.

Jota tentou gritar.

Não saiu som.

A coisa era grande demais.

Grossa demais.

Casca áspera raspando céu da boca, língua, garganta.

Gosto de terra molhada, serragem, sangue.

Ele levou as mãos à boca.

Segurou o cabo exposto.

Puxou.

Puxou com tudo.

A madeira começou a sair.

Metro por metro.

Galhos se enroscando na traqueia como raízes vivas.

Sangue escorreu pelo canto da boca.

Olhos lacrimejaram.

Alguém apareceu ao lado.

Homem sem rosto definido.

Pegou o cabo que já tinha saído.

Correu pra saída arrastando.

O cabo continuava saindo.

Infinito.

Jota puxava.

Garganta queimando.

Respiração impossível.

Sentiu os pés da coisa.

Anzóis de madeira cravando na carne macia.

Deu o último puxão.

Violento.

Desesperado.

Arrancou.

Os pés rasgaram, saíram.

O cabo caiu no chão com som seco de árvore morta.

Jota cuspiu.

Sangue e serragem.

Líquido viscoso escorrendo pelo queixo.

Olhou pra frente.

A poltrona três fileiras à frente estava vazia.

Como se nunca tivesse existido.

Olhou o relógio.

11:01.

A sessão nem começou.

Chão se abriu, caiu novamente.

Teto do quarto do Capão da Imbuia.

Cobertor no chão.

Travesseiro molhado de suor.

Garganta queimando.

Gosto de terra molhada, serragem, sangue.

Cuspiu na mão.

Sangue vermelho vivo misturado com fiapos marrons de madeira.

Passou a língua no céu da boca.

Corte fundo.

Farpa real.

Latidos.

Belinha e Mel na sala, latindo como se tivessem visto fantasma.

Jota levantou cambaleando.

Foi até a cozinha.

Acendeu a luz.

Pote d’água vazio.

Encheu na torneira.

Mãos tremendo.

As cachorras vieram correndo.

Beberam desesperadas.

Jota cuspiu na cuba.

Mais sangue.

Mais madeira.

Olhou no reflexo do micro-ondas desligado.

Garganta marcada com linhas vermelhas finas, como arranhões de galho.

Passou o dedo.

Doía.

As cachorras pararam de beber.

Belinha encostou o focinho na perna dele.

Mel deitou no chão, olhando pra cima.

Jota foi até o banheiro.

Acendeu a luz.

Espelho.

Boca inchada.

Lábios rachados.

Corte fundo no céu da boca.

E na garganta, três linhas vermelhas profundas, como se galhos tivessem passado por ali.

Cuspiu na pia.

Sangue e serragem.

Gosto de terra molhada.

Abriu a boca.

Olhou com o celular.

Farpa pequena, marrom, cravada na carne macia.

Arrancou com a unha.

Doeu pra caralho.

Cuspiu de novo.

O ímã de geladeira do Posto Esso, na caixinha da cabeceira, continuava frio.

A mochila laranja, jogada no chão do quarto, tinha escapado o caderno marrom e o isqueiro.

Ele chutou de lado.

Voltou pra cama.

Deitou de roupa.

As cachorras subiram na cama com ele.

Belinha deitou no peito.

Mel no pé.

Silêncio.

Garganta ainda queimando.

Gosto de madeira que não saía.

Pensou nela.

Cabelo longo castanho-escuro.

Olhos verdes gélidos.

Beijo de dois segundos que durou três semanas.

Jota fechou os olhos.

Lá fora, um biarticulado desceu a Afonso Camargo, buzina longa, motor roncando.

Curitiba seguia.

E ele ficou ali.

44 anos.

Garganta rasgada.

Boca sangrando.

Na próxima vez que entrasse na trilha do Capão da Imbuia, ela estaria esperando?

Porque ele sempre estava.

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Sinopse Narrativa:

Jota entra no Bosque do Capão da Imbuia para andar e não pensar nela, mas a trilha se transforma num corredor branco onde encontra Satogos Cruel e a beija brevemente antes de cair numa dimensão de shopping degradado. Num cinema vazio, cabos de madeira viva atacam sua garganta — ele arranca a coisa metro a metro, sangrando. Acorda no quarto com marcas físicas reais na garganta, sangue e serragem na boca, e uma farpa de madeira cravada na carne.

Gênero Realismo Mágico, Terror Onírico
Tom Melancólico, Perturbador, Visceral
Timeline Curitiba, Onírico
Versão Jota Normal
Categoria Horror Físico, Obsessão, Sonho
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Fronteira entre sonho e realidade, Horror físico manifestado do onírico, Obsessão amorosa
Locais Avenida Afonso Camargo, Bosque do Capão da Imbuia, Capão da Imbuia, cinema Sala 3, corredor branco, dimensão onírica, quarto do sobrado, shopping degradado
Palavras-Chave beijo, Belinha e Mel, bosque, cabos de madeira, dimensão onírica, farpa real, garganta rasgada, Satogos Cruel
Jota está com 44 anos — versão mais velha. O texto descreve o buraco no tênis no dedão "direito", divergindo do padrão estabelecido (esquerdo) — registrado como escrito. O dano onírico se manifesta fisicamente ao acordar (sangue real, serragem, farpa cravada na carne, linhas vermelhas na garganta). O isqueiro amarelo produz faíscas espontâneas durante o beijo com Satogos. Cachorras Belinha e Mel presentes no quarto. O ímã aparece em dois locais: bolso do casaco na ida ao bosque e caixinha da cabeceira ao acordar.
 

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