Capa do Capítulo

Calo Vivo

Extensão: 1.366 palavras | Leitura: 7 min

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Jota estacionou o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 duas portas perto da entrada da Pedreira do Orleans às três e quarenta e sete de uma tarde de sábado de primavera que só esquentava.

44 anos, 1,83 m, 110 kg, camiseta regata vinho rasgada nos ombros e suada no peito, bermuda de tactel preta, tênis surrado com o buraco no dedão esquerdo grande o suficiente pro frio de Curitiba entrar.

Caminhou pela trilha de terra vermelha. A pedreira estava cheia de gente.

Alguns anos depois de bombear tudo pra fora, a água estava voltando. Chuva após chuva, temporal após temporal, Curitiba enchendo o buraco que o homem deixou aberto. Cinquenta metros de profundidade, trezentos de diâmetro — a imensidão daquele buraco transformado em lagoa era de tirar o fôlego. Água azul petróleo, densa, quase sólida, transparente só nas beiradas.

Agora eram a metade ainda do que foi.

Jota desceu a trilha de terra batida até a margem. Tirou a camiseta regata vinho, a bermuda, os tênis, as meias. Ficou só de calção de banho preto. Dobrou tudo, deixou na mochila laranja junto com a caixinha de madeira que guardava o ímã do Posto Esso.

Entrou na água. Fria nos primeiros passos, morna depois. Nadou.

Braçadas longas, ritmo constante, 110 kg cortando a água azul petróleo com facilidade surpreendente. A margem cheia de gente ficou pra trás. Vozes, risadas, música alta — tudo virando eco distante conforme ele avançava pro lado oposto da pedreira.

A pedra estava lá, encostada no paredão vertical de rocha. Lugar isolado, inacessível sem nadar — ou descendo pelo paredão de cima, o que ninguém faria. Lado oposto à entrada, longe de onde as pessoas ficam. Resto da extração, plataforma natural que a água ainda não cobriu — mas vai cobrir, conforme a pedreira enche dia após dia. Jota subiu, sentou na beirada de pedra lisa ainda quente do sol.

Silêncio.

Só o som da água batendo devagar na pedra, o vento quente de Curitiba, e lá longe, bem longe, o barulho da multidão na margem.

Enfiou os pés na água.

Água morna. Azul petróleo envolvendo tornozelos, transparente o suficiente pra ver cada dedo, cada curva, cada calo.

Memória veio sem aviso.

Num galpão, anos atrás. Jota mais novo, barba rala, olhos vivos. Seu pai ao lado, braço no ombro do filho, apontando o primeiro protótipo.

— Esse carro vai voar, filho. Tu é bom com número. Confia.

Jota olhou pra água.

O calo na lateral do pé direito estava solto. Pele grossa, branca, descamando.

Sacudiu o pé devagar.

Um peixe pequeno, prateado, surgiu do azul. Mordeu. Puxou. Levou o pedaço de pele morta.

Jota nem sentiu dor. Só surpresa. E alívio.

Sacudiu o pé direito de novo.

Outro peixe veio. Mordeu. Levou mais um naco de pele morta.

Não doía. Era como se a água tivesse anestesiado tudo. Ou como se o que estava sendo arrancado nunca tivesse pertencido a ele de verdade.

Sacudiu o esquerdo.

Dois peixes ao mesmo tempo. Um de cada lado. Mordidas precisas, puxões suaves.

Em minutos eram dezenas. Silhuetas prateadas dançando na transparência, mordiscando, puxando, levando embora cada lasca de calo como se fossem migalhas.

Jota deixou. Só ficou ali, balançando as pernas devagar, sentindo a água morna, o sol no pescoço. Cheiro de terra molhada misturado com ozônio velho — como se a pedreira lembrasse dos ímãs do pai.

Os peixes trabalhavam em silêncio. Laterais, calcanhares, dedões. Cada mordida tirava um pedaço de peso que ele carregava há anos. Sem dor. Só alívio.

Jota riu. Baixo. Quase sem som. Primeira vez em muito tempo.

Olhou pros pés. A pele estava lisa. Perfeita. Como se nunca tivesse andado quilômetro nenhum.

Os peixes não paravam. O cardume crescia ao redor dos tornozelos, girando devagar, metódico. Cada mordida leve, precisa, tirando pele morta que ele nem lembrava que carregava.

A água ficava cheia de pedacinhos brancos boiando, como flocos de neve suja na superfície perfeita.

Jota tirou os pés da água por um segundo. Olhou. Pele perfeita. Macia. Nova.

Riu de novo. Alto dessa vez. Ecoou na pedreira.

Porque era absurdo. Porque era lindo. Porque pela primeira vez na vida algo estava sendo tirado dele sem doer, sem cobrar, sem deixar marca.

Os peixes continuaram. Subiram um pouco mais. Mordiscaram a canela, as panturrilhas. Cada mordida tirando mais um calo invisível.

Jota deixou. Fechou os olhos. Sentiu o sol no rosto, o vento quente de Curitiba batendo no suor, a água morna abraçando as pernas.

E entendeu.

Todo peso, todo calo, todo passo dado carregando mais do que devia — tudo aquilo tinha sido escolha ou falta dela.

Mas agora, naquela água que não existia em nenhum outro lugar, alguém estava tirando isso dele. Sem pedir. Sem explicar.

E ele aceitou. Porque podia. Porque pela primeira vez não precisava carregar sozinho.

Jota tirou as pernas da água devagar. Os peixes se afastaram, sumindo no azul petróleo como se nunca tivessem existido.

Ele ficou sentado na pedra, pés pingando, olhando. Pele lisa. Perfeita. Sem um calo. Sem uma marca.

O sol batia forte agora. Secava as gotas. Secava o suor.

Levantou. Mergulhou.

Nadou de volta. Braçadas mais lentas, corpo mais leve, como se tivesse deixado quilos na pedra do paredão. A margem cheia de gente foi crescendo conforme ele se aproximava. Vozes, risadas, música alta voltando.

Saiu da água. Pegou a toalha da mochila laranja, secou o corpo, o cabelo. Vestiu a bermuda, a camiseta regata vinho ainda úmida de suor. Calçou as meias. Calçou o tênis. O pé deslizou fácil. Sem pressão. Sem dor. Primeira vez em anos.

Pegou a mochila laranja. Subiu a trilha de terra vermelha. Passo leve.

Entrou no Gol Bolinha. Jogou a mochila laranja no banco do carona. Tirou a caixinha de madeira da mochila, guardou no bolso.

Ligou o motor. O 1.0 tossiu, pegou.

Saiu da pedreira.

Curitiba seguia cinza, trânsito leve, biarticulado buzinando na Afonso Camargo.

Chegou no Capão da Imbuia. Entrou em casa.

Sala cheia de barulho. Sheldon e Enaldinho corriam de um lado pro outro, os dois gritando algo sobre controle de videogame. Belinha e Mel latiam atrás deles.

Popó gritava da cozinha:

— Sheldon, devolve isso agora!

Pistolinha estava sentado no sofá, mexendo no celular, ignorando o caos.

Jota sentiu o bolso esquentar de leve — o ímã do Posto Esso reagindo à presença dos sobrinhos, dos filhos do Popó, do irmão, da casa cheia de família.

Passou por eles. Foi pra cozinha.

Mesa posta. Arroz, feijão, bife acebolado, salada.

Sentou. Serviu. Comeu.

Popó entrou correndo, parou do lado.

— Jota, onde tu tava?

— Fui dar uma volta.

— Na pedreira?

— É.

Popó ficou pensativo.

— Temos que ir um dia lá, nunca fui, seria legal levar as crianças.

Jota balançou a cabeça.

— Sim, seria. É azul. Azul petróleo. A água mais bonita que tem.

Popó saiu correndo para evitar mais uma confusão entre as crianças.

Jota terminou o prato. Lavou. Secou as mãos.

Foi pro quarto. Tirou o tênis. Sentiu o aperto voltando — o couro apertando de novo nos mesmos lugares de sempre.

Olhou pros pés.

A pele ainda estava lisa. Mas nas laterais, bem de leve, começava a engrossar de novo. Os calos voltaram. Devagar. Como sempre voltavam.

Jota sorriu. Pequeno. Quase triste. Mas verdadeiro.

Porque por duas horas naquele buraco cheio de água azul petróleo os pés tinham sido perfeitos. Porque por duas horas ele não carregou nada.

E isso era o bastante.

Pegou o caderno marrom da cabeceira, rabiscou “azul petróleo, pés lisos” na margem rasgada, e largou de lado.

Deitou na cama. Olhou o teto.

O ímã do Posto Esso, na caixinha da cabeceira, estava frio de novo.

Jota fechou os olhos.

A lagoa ainda estava lá. Água azul petróleo. Peixes prateados. Pés lisos.

E enquanto a lembrança durasse, o peso era menor.

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Sinopse Narrativa:

Numa tarde de sábado de primavera, Jota nada até uma pedra isolada na Pedreira do Orleans e mergulha os pés na água. Um cardume de peixes prateados aparece e remove, sem dor, todos os seus calos. Ele aceita o alívio passivamente, entende algo sobre o peso que carrega, e nada de volta. Em casa, entre a família, os calos começam a voltar — mas a experiência de leveza, mesmo breve, já foi o suficiente.

Gênero Realismo Mágico
Tom Contemplativo, Melancólico, Sereno
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Cura, Memória
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas aceitação, Alívio e impermanência, peso emocional e físico
Locais Afonso Camargo, Capão da Imbuia, Casa de Jota, Curitiba, Pedreira do Orleans
Palavras-Chave azul petróleo, calos, cura temporária, família, ímã, leveza, pedreira, peixes prateados
O ímã do Posto Esso é guardado em uma caixinha de madeira — detalhe de continuidade relevante. Memória do pai aparece: braço no ombro de Jota jovem, apontando um protótipo num galpão. Os calos voltam ao final, reforçando a impermanência da cura. Único conto até agora com descrição de Jota sem camiseta e em traje de banho.
 

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