O apartamento 812 cheira a cigarro velho e pizza fria. A porta está aberta. Música baixa. Vozes. Risadas. Gente circulando.
Jota entra carregando a caixa. PC novo. Placa de vídeo brilhando no plástico. Mochila laranja no ombro. Camisa vermelha. Camiseta regata vinho por baixo. Tênis surrado, cadarço direito solto.
O rapaz aparece. Sorriso enorme.
— Chegou! Obrigado demais!
Outras pessoas no apartamento. Umas seis. Sete. No sofá. Na parede. Conversando. Fumando. Bebendo.
Jota estranha. Achava que seria só o rapaz.
— Quer água? Refrigerante?
— Não precisa.
Mas o rapaz vai pegar e traz mesmo assim. Jota bebe rápido. Coloca na mesa.
— Tá tudo aqui. Só ligar.
— Senta. Relaxa.
Jota hesita. Olha ao redor. O ambiente pesa.
O rapaz puxa ele pro sofá. Mão no braço. Firme.
Jota senta. Mas não relaxa. Mochila ao lado.
— Preciso ir. — Jota fala rápido. — Só preciso da placa de vídeo. Tem uma integrada, fica funcionando.
O rapaz muda. Sorri diferente.
— A placa? — Pausa. — Relaxa. Não precisa ir já.
A mão toca o braço de Jota. Sobe pro ombro.
Jota se afasta. Educado.
— Só queria te mostrar como ficava num jogo, mas volto outro momento, agora vejo que está ocupado.
O rapaz aproxima de novo. Insistente. Mão na coxa de Jota.
— Fica mais um pouco. A gente conversa.
Jota levanta. Empurra de leve.
— Cara, lembra que falei que seria somente para um teste e que iria precisar dela.
O rapaz levanta também. Bloqueia a saída. A mão segura o braço de Jota. Firme demais.
— Que pressa?
Jota puxa o braço, já desconfortável.
— Preciso ir. É rápido para tirar.
— Calma. — Mão subindo pelas costas. — Você veio aqui. Trouxe o PC. Nem conversamos direito.
As outras pessoas olham. Alguns sorriem. Outros fingem não ver. Ninguém fala.
Jota finalmente entende. Não é amizade. É tática. E ele caiu feito um patinho.
— A placa? — Jota tenta novamente.
— A placa fica. — O rapaz sorri. Sem esconder mais.
Jota respira fundo. Armadilha.
Com a porta entreaberta, surge uma pessoa:
— Com licença.
Uma senhora. Cabelos grisalhos. Blusa florida. Bolsa no braço.
Para na porta. Vê Jota.
Olhos arregalados.
— Eu te conheço.
Jota não conhece a senhora, mas aproveita a distração. Empurra o rapaz. Passa pela porta. Corre pro corredor.
Jota estranha. Fácil demais.
Continua correndo. Precisa sair.
As luzes apagam.
Todas. De repente.
Escuridão completa.
Jota para. Olhos tentando se ajustar. Nada. Só preto.
Atrás dele, a voz da senhora:
— Peguem ele!
Outras vozes. Do apartamento. Dos corredores.
— Ele saiu!
— Tá no corredor!
Passos. Muitos.
Jota entende tudo agora. A armadilha era maior. Muito maior.
Começa a correr.
Mão na parede. Seguindo o corredor. A mochila batendo nas costas.
Vira à esquerda. Ou direita. Não sabe mais.
O prédio virou labirinto. Corredores se multiplicam. Portas iguais. Sem luz. Sem saída.
A camisa vermelha brilha no escuro. Um brilho estranho. Vinho difuso sob o vermelho. Pouco. Mas o suficiente pra ser visto. Como alvo.
Jota continua correndo. Mão na parede. Escuridão completa.
O cadarço direito do tênis se solta.
Completamente.
Jota tropeça. Quase cai. Segura na parede.
Para.
Abaixa. Vai amarrar.
E toca.
Cabelo.
Alguém tá ali. No chão. Encostado na parede. Encolhido.
— Calma! — voz feminina, assustada. — Calma! Por favor!
— Desculpa. — Jota recua. — Tô perdido. Me ajuda a sair.
Silêncio. Ela respira fundo.
— Você… você tá fugindo deles?
— Tô.
— Eu também. — A voz muda. Menos medo. — Perdi o que iluminava. Me perdi dos meus amigos. Não via mais as setas.
— Setas?
— Cinza. No chão. Levam até o elevador. Mas sem luz… não dava pra ver.
— E agora?
— Você brilha. — Ela aponta. — Vermelho. Com sua luz, consigo ver as setas de novo.
Jota entende. A camisa que o delata também ilumina o caminho.
Jota olha. E vê. Pequenas marcas no chão. Cinza brilhando fraco sob a luz vermelha dele.
— Vem. — A garota levanta. — Juntos é mais seguro. Mas… você vai chamar atenção deles também.
— Eu sei.
Eles caminham. Devagar. Seguindo as setas.
Jota na frente, a garota logo atrás. Mão na parede.
— Por que você tá fugindo? — ela pergunta.
— Um cara. Apartamento 812. Armou pra mim. E você?
— Mesma coisa. Mas por causa da senhora do 812.
Viram um corredor. Outro. Mais setas.
Vozes atrás. Ecoando.
— Tem alguém aqui!
— Procura!
A garota acelera. Jota também.
Chegam num espaço maior. Meio do prédio. Elevador ao fundo. Botão vermelho brilhando.
Três pessoas ali. Amigos da garota. Se abraçam.
— A dica realmente era de verdade! — ela fala. — E ele também tá fugindo.
Os amigos olham Jota. Desconfiados. Mas aceitam.
— Aperta o botão.
Jota aperta.
Nada.
Aperta de novo.
O elevador não vem.
Esperam.
E então.
Passos. Muitos. Vindo de todos os corredores.
Rapazes aparecem. Cinco. Seis. Sete.
Olham pra garota. Pros amigos.
Olham pra Jota.
— É ele.
— O grandão de vermelho.
A camisa. Sempre a camisa.
A garota e os amigos se prendem perto da porta do elevador. Só esperando que ele chegue.
Os rapazes riem.
— Grande demais. Vermelho demais. A gente vê ele de longe.
Mais rapazes chegam. Cercam o elevador.
A garota aperta o botão. De novo. De novo.
Nada.
Jota olha ao redor. Sem saída. A senhora aparece num corredor. Aponta pra Jota.
— Ali! O de vermelho!
Os rapazes bloqueiam todas as saídas.
Não tem mais pra onde correr.
Jota respira fundo.
Olha a garota. Os amigos dela. A senhora.
Coloca todos em perigo. Só por estar perto dele. Só pela camisa vermelha.
— Sai — ele fala pra garota.
— Não.
— Sai. Eles me querem. Não vocês.
— Não vou deixar—
— VAI!
A voz sai mais alta que pretendia.
A garota recua. Assustada.
Os rapazes avançam. Devagar. Cercando.
— Agora sim. Sem lugar pra correr.
Jota fecha os punhos.
Sente algo. Embaixo da pele. Familiar.
Azul. Fraco. Mas acordando.
— Se é pra enfrentar — ele fala baixo. — Que seja agora.
Levanta as mãos. Palmas abertas.
A aura começa.
Azul elétrica. Pulsando. Subindo pelos braços. Cobrindo o peito. A camisa vermelha brilha mais. Mistura com o azul. Fica roxa. Violeta. Luz preenchendo o corredor.
Os rapazes param. Olhos arregalados.
— Que porra é essa?
Jota não responde.
Só empurra.
A aura explode. Pra fora. Como onda.
Bate nos rapazes e na senhora. Joga eles pra trás. Contra as paredes. Contra o chão.
Não machuca. Só empurra. Afasta.
Jota caminha pra frente. A aura pulsando. Protegendo. Criando espaço.
— Ninguém toca neles — ele fala. Olhando a garota. — Nem nos amigos dela.
Os rapazes tentam levantar. A aura empurra de novo.
— NINGUÉM.
O elevador chega.
Ding.
Porta abre.
Jota olha pra trás.
— Entra. Todos.
A garota hesita. Depois corre. Os amigos também. Entram.
Jota fica. De costas pro elevador.
— Vem! — a garota grita.
Jota recua. Devagar. Entra no elevador.
A porta começa a fechar.
Os rapazes avançam.
A aura pulsa. Uma última vez. Forte.
Joga eles de volta.
A porta fecha.
O elevador desce.
Silêncio.
Jota encosta na parede. A aura desaparece. Cansaço toma conta.
A garota olha pra ele. Olhos brilhando.
— Obrigada.
Jota balança a cabeça.
— Desculpa. Te coloquei em perigo.
— Você me salvou.
— Depois de te ferrar.
Ela sorri. Triste.
— Estamos quites.
O elevador para. Térreo.
Porta abre.
Rua. Noite. Ar fresco.
Jota sai. A mochila laranja pesa. A camisa vermelha gruda de suor.
O Gol Bolinha tá ali. Estacionado na rua. Sozinho. Esperando.
A garota sai atrás.
— Você vai ficar bem?
— Vou. — Jota olha o prédio. — E vocês?
— Também. Acho.
Silêncio.
— Valeu pela ajuda — Jota fala.
— Valeu por não me deixar morrer.
Jota sorri. Cansado. A garota e os amigos vão para longe.
Jota caminha até o Gol. Abre. Entra. Joga a mochila no banco.
No banco do carona, a mochila laranja aberta. O caderno marrom de capa dura escorregou, uma página solta balançando no vento do vidro entreaberto.
Ele pega o caderno. Abre no colo. Pega a caneta que sempre tá perdida entre os bancos.
Escreve uma linha só, com letra grande e cansada:
“A camisa vermelha hoje era alvo. Mas virou escudo.”
Fecha o caderno. Joga de volta na mochila.
Liga o motor.
Olha no retrovisor. A garota ainda ali. Acenando.
Jota acena de volta.
Sai devagar.
A camisa vermelha reflete no vidro. Vermelha de novo. Sem azul. Sem luz.
Só tecido suado. Marcado. Que quase custou tudo.
Mas que no fim. No fim salvou quem precisava.
Mesmo sendo alvo. Mesmo sendo armadilha.
A camisa vermelha brilhou. E protegeu.
