Capa do Capítulo

Catapulta Azul

Extensão: 2.261 palavras | Leitura: 12 min

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A estrada é poeira e pedra. O Gol Bolinha Cinza Urban range a cada buraco. Motor 1.0 16v reclamando da subida. Jota segura o volante com as duas mãos. Mochila laranja no banco do passageiro. Camiseta regata vinho grudada de suor. O isqueiro amarelo no bolso da calça. O ímã de geladeira no outro bolso, cinza fosco, beiradas descascando.

Chega no estacionamento improvisado. Terra batida. Carros espalhados sem ordem. Gente circulando. Conversando. Esperando algo.

Jota estaciona. Desliga o motor. Pega a mochila. Sai.

Três pessoas se aproximam. Rostos que ele meio conhece. Meio não.

— Deixa o carro com a gente — um deles fala. — Não vai demorar?

— Só um minuto. Já volto.

Jota entrega a chave. Caminha até um barraco de madeira no canto do estacionamento. Entra. Pega algo. Guarda na mochila. Volta.

Dois minutos no máximo.

Quando volta:

Little Boobs está no Gol.

Sentada no banco do motorista. Mãos no volante. Sorriso pequeno. Óculos de sol escondendo os olhos.

Jota para.

Um eco. Voz própria na cabeça. Como lembrança que não é sua.

“Se a Little aparecer, deixa ela levar o carro.”

Ele pediu isso? Pra quem? Quando?

Não lembra. Mas a voz é dele. Tem certeza.

— O carro tava com vocês.

— Ela pegou — um dos caras fala. Encolhe os ombros. — Disse que você tinha deixado com ela.

Jota olha pra Little Boobs. Ela sorri mais.

— Problema?

Não era pra ser com ela. Não combinou isso. Não faz sentido.

Mas o eco insiste.

“Deixa ela levar.”

Jota engole seco.

— Não. Sem problema.

Little Boobs acena. Liga o motor. Sai devagar. O Gol desaparece na poeira.

Algo aperta no peito de Jota. Desconfiança. Raiva. Ele quer gritar. Quer correr atrás.

Mas o eco pediu isso.

E Jota confia. Mesmo sem entender.

Só fica ali parado. Vendo o carro que é dele. Nas mãos dela.

O grupo se aproxima. Quatro pessoas.

Leandro Costa na frente. Magro, alto, óculos redondos. Camiseta preta com estampa de dragão. Todo mundo chama ele de Mestre dos Magos desde que ganhou um torneio de RPG há cinco anos. O apelido grudou.

— Vem com a gente, Jota — Mestre dos Magos fala. — Nosso carro é maior.

Ao lado dele, Rand Oliveira. Macacão azul. Ferramentas no cinto. Cabelo bagunçado. Olhar distante como sempre.

E duas mulheres que Jota não conhece bem. Uma loira. Outra morena.

Jota assente. Entra no banco de trás. Mochila no colo.

O carro é velho. Sedan marrom. Banco rasgado. Cheiro de cigarro. Motor barulhento.

Mestre dos Magos dirige. Rand no banco do passageiro. As duas mulheres no banco de trás com Jota.

Saem do estacionamento. Entram na estrada de terra. Depois na asfaltada. Trânsito pesado. Carros parados. Buzinas. Demora.

Muito demora.

Jota olha o relógio. Quinze minutos. Vinte. Trinta.

Ainda longe.

Ele respira fundo.

— O trânsito está complicado.

— Vai levar uns vinte minutos ainda — Mestre dos Magos responde.

Jota olha pra própria mão. Abre. Fecha. Sente algo vibrando embaixo da pele. Azul. Fraco. Mas ali.

— Deixa comigo.

Os outros olham pra trás. Franzem a testa.

— O quê?

Jota levanta a mão direita. Palma aberta. Dedos esticados.

A aura começa a aparecer.

Azul elétrica. Pulsando ao redor dos dedos. Subindo pelo braço. Espalhando pelo corpo. Depois pelo carro. Cobrindo o metal. Os vidros. O motor.

A luz azul enche o interior. Reflete nos rostos assustados.

— Que porra é essa? — uma das mulheres grita.

— Silêncio — Jota fala. Firme.

Ele fecha os olhos. Concentra. Empurra o poder pra frente. Pro motor. Pras rodas.

O carro acelera.

Sozinho.

Mestre dos Magos tira o pé do acelerador. Mas o veículo continua. Mais rápido. Mais. Mais.

E então a energia vacila.

A luz pisca. Treme. Como lâmpada velha. Fica instável. Fraca. Forte. Fraca de novo.

Jota aperta os dentes. Tenta segurar. Controlar.

Mas não consegue.

Falha.

No meio do caminho.

E batem.

Não tem outro carro. Não tem poste. Não tem nada.

Apenas batem no ar.

Como se tivessem atingido parede invisível.

O impacto sacode o carro inteiro. Vidros tremem. Bancos rangem. Corpos são jogados pra frente.

Mas não machuca. Não quebra. Não sangra.

Porque a aura ainda está ali. Fraca. Mas protegendo.

E então:

O carro é arremessado.

Pra frente.

Como se tivesse sido chutado por gigante.

Voa. Literalmente voa. Rodas no ar. Motor desligado. Silêncio absoluto dentro.

Jota abre os olhos.

Vê o céu pela janela. Depois a rua. Depois o céu de novo.

Giram no ar. Lento. Como bailarina de caixa de música quebrada.

E aterrissam.

Suave. Quase delicado.

As rodas tocam o asfalto. O veículo balança. Para.

Silêncio.

Depois:

— PUTA MERDA! — Mestre dos Magos grita.

Jota respira fundo. A energia desaparece. A luz azul some. Só cansaço fica.

Olha pela janela.

Estão exatamente onde precisavam estar.

Rua estreita. Dois prédios. Um de cada lado.

À direita:

Monstro.

Edifício cinza. Enorme. Dez andares no mínimo. Mas feio. Muito feio. Concreto sujo. Rachado. Janelas quebradas. Algumas tapadas com tábuas. Outras só buracos negros. A estrutura parece que vai desmoronar a qualquer momento. Paredes cobertas de pichação. Lixo acumulado na entrada. Cheiro de mofo e abandono.

Jota olha.

E sente.

Algo errado. Podre. Perigoso.

A energia azul ainda lateja fraca. Como segundo coração. E detecta. Avisa.

Não entre aí. Nunca.

À esquerda:

Imponente.

Prédio branco. Limpo. Moderno. Vidros espelhados refletindo o céu. Paredes que brilham sob o sol. Entrada com portas de vidro automáticas. Jardim pequeno na frente. Árvore grande marcando o caminho.

Jota olha.

E sente diferente.

Seguro. Limpo. Certo.

Confirma.

É ali.

Saem do carro. Devagar. Pernas tremendo. Corações batendo forte.

Mas vivos. Inteiros.

Jota olha ao redor. Conta.

Três pessoas com ele. Mestre dos Magos. As duas mulheres.

Rand sumiu.

Estava no banco da frente. Agora não está mais.

Ninguém comenta. Como se fosse normal. Como sempre é com Rand.

A mochila laranja ainda no ombro de Jota. A camiseta regata vinho encharcada de suor. O tênis surrado com cadarço direito solto arrastando no chão.

Eles olham os dois prédios. O contraste violento. Feio e bonito. Morto e vivo. Errado e certo.

E então.

Entre os dois prédios. No meio da rua.

Maju Kuzito.

Cabelo curto. Quase rapado nas laterais. Olhos fixos em Jota.

Ele para. Suspira.

Vai falar. Já sabe o que vai falar. Sempre fala.

Mas ela levanta a mão. Para ele.

E fala primeiro:

— Você já falou isso. — A voz sai cansada. — Três vezes.

Jota pisca.

— O quê?

— Sobre o cabelo. — Ela aponta pra própria cabeça. — Você não gosta. Eu sei. Você já disse. Três vezes. Em três lugares diferentes. Sempre a mesma frase.

Silêncio.

Jota franze a testa.

— Como você…?

— Ecos. — Ela dá de ombros. — Loops. Não sei explicar direito. Só sei que você continua dizendo. E eu continuo ouvindo. E isso precisa parar.

Ela dá um passo à frente. Olha nos olhos dele.

— Então vou facilitar: eu também não gostei. Cortei por impulso. Me arrependi no dia seguinte. Tá crescendo de novo. Satisfeito?

Jota abre a boca. Nada sai.

Maju sorri. Cansada. Mas sorri.

— Pronto. Agora acabou.

Ela olha os dois prédios. O feio. O bonito.

Hesita.

— E em um desses ecos… — pausa. — Você me pediu algo. Disse: se nos encontrarmos de novo, me lembra qual é o prédio certo.

Olha Jota nos olhos.

— É o branco. O da esquerda. Sempre o branco.

Jota pisca. Processando.

Ele pediu isso? Em outro loop? Quando?

Maju dá de ombros.

— Você parecia ter certeza. Então. — Aponta. — É aquele.

E desaparece.

Não como fumaça. Não como fantasma.

Apenas… sai. Caminha pra trás. Vira a esquina. Some.

Normal. Real.

Jota fica parado. Processando.

Mestre dos Magos olha pra ele. Confuso.

— Quem era?

— Alguém que eu conheço — Jota responde. — Ou vou conhecer. — Olha o prédio branco. — Vamos.

Eles caminham até a entrada do edifício branco.

A árvore grande marca o caminho. Galhos grossos. Folhas verdes. Sombra fresca.

Jota empurra a porta de vidro.

Abre fácil.

Dentro: lobby. Mármore branco. Luzes frias. Elevador no fundo. Escadas à esquerda.

O grupo entra. Olha ao redor.

— Onde a gente vai? — alguém pergunta.

— Décimo andar — Mestre dos Magos responde.

— Elevador ou escada?

— Escada. Mais seguro.

Eles começam a subir. Degraus de mármore. Corrimão de metal. Eco dos passos.

Jota vai na frente. Mochila nas costas. A energia azul lateja fraca. Quase apagada. Mas ainda ali.

Primeiro andar. Segundo. Terceiro.

O cadarço direito do tênis de Jota se solta.

Completamente.

Arrasta no chão. Ele sente. Olha pra baixo.

— Puta merda. De novo.

Para. Se abaixa.

Os outros continuam subindo. Passam por ele.

Jota amarra o cadarço. Nó duplo. Firme.

Olha pra cima.

E vê.

Dois degraus acima. Exatamente onde ia pisar.

Uma placa de metal. Fina. Quase invisível. Camuflada no mármore.

Alarme. Eles sabem que estamos aqui.

Ele não pisou, mas os companheiros que foram na frente pisaram.

Parou. Pra amarrar o cadarço.

E evitou.

Jota respira fundo. Olha o tênis. O cadarço agora firme.

— Valeu — ele sussurra.

Levanta. Pula a placa. Continua subindo.

Alcança o grupo no quinto andar.

Décimo andar.

Porta pesada. Madeira escura. Maçaneta de bronze.

Jota empurra.

Do outro lado:

Corredor. Longo. Porta no final. E na frente da porta:

Cachorro.

Enorme. Rottweiler ou algo parecido. Preto com manchas marrons. Músculos tensos. Dentes à mostra. Rosnando baixo.

O grupo para. Recua.

O cachorro avança.

Direto pra Jota.

Popó aparece do nada. Vindo do corredor lateral. Braços abertos.

O ímã no bolso de Jota começa a brilhar.

Fraco. Azul pálido. Quase imperceptível. Mas ali.

Família. Família presente.

— PARA! — Popó grita.

O cachorro ignora. Pula.

Popó se joga na frente. O bicho bate nele. Dentes agarram o braço. Rasgam. Sangue jorra.

Popó grita.

Mas Jota já estava se movendo.

Mãos agarram a cabeça do cachorro. Firme. Forte. Os dedos afundam no pelo. Sentem o crânio quente.

A mandíbula do bicho tenta fechar. Quer mais carne. Mais sangue.

Jota segura. Afasta. Centímetro por centímetro.

O cachorro rosna. Saliva voa. Raiva pura nos olhos.

Mas Jota não solta. Não cede.

Empurra a cabeça pra trás. Mais. Mais.

Os dentes se afastam do braço de Popó.

O cachorro tenta avançar de novo. Jota empurra mais forte.

A energia azul pisca nos dedos dele. Fraca. Instável. Mas ali.

Parte do poder transfere. Passa pra Popó sem querer.

O braço rasgado começa a se curar. A pele se fecha. O sangue para. Devagar. Mas fecha.

Popó olha o próprio braço. Olhos arregalados.

— Que porra…?

Jota continua empurrando o cachorro. Passo a passo. Metro a metro.

Até a porta.

Até fora.

Fecha a porta. Rápido.

O cachorro late do outro lado. Arranha. Rosna.

Mas não entra.

Silêncio.

O grupo respira. Devagar. Aliviado.

Popó olha o braço. Cicatrizado. Só uma linha fina vermelha. Nada mais.

— Como você fez isso? — ele pergunta.

— Eu não fiz. — Jota olha a própria mão. A luz azul sumiu. — Você ainda tinha um pouco do poder. Resíduo. Funcionou sozinho.

— Ainda tenho?

Jota balança a cabeça.

— Não mais.

Popó assente. Olha o braço de novo. Toca a cicatriz. Sorri.

— Valeu.

— Valeu você. Pulou na frente.

— Instinto.

Jota sorri também.

Olha Popó nos olhos. Hesita.

Depois fala. Devagar.

— Se a gente se encontrar de novo… — pausa. — Antes disso tudo. Noutro lugar. Outro momento.

Popó franze a testa.

— O quê?

— Avisa do cachorro. — Jota aponta pro corredor. — Diz pra eu ter cuidado. Diz que vai ter um cachorro no décimo andar.

Popó olha pra ele. Confuso.

— Como você sabe que vamos nos encontrar de novo?

Jota dá de ombros.

— Não sei. Mas se acontecer… só avisa.

Silêncio.

Popó assente. Devagar.

— Tá. Se a gente se cruzar antes… eu aviso.

Jota sorri. Pequeno.

— Obrigado.

O ímã no bolso apaga. Volta ao cinza fosco normal.

Jota olha ao redor.

Corredor vazio. Porta no fundo. Silêncio absoluto.

O prédio branco os engoliu.

E agora resta descobrir o que tem lá dentro.

Mas primeiro.

Jota olha ao redor. Conta.

Catapulta que falhou mas funcionou. Maju e os loops. Armadilha na escada. Popó. O cachorro.

História. Eventos reais. Suficiente.

Pode recarregar.

Jota tira a mochila. Abre. Pega o caderno de capa dura marrom. O ímã de geladeira cai no colo. Cinza fosco. Frio. Sem brilho nenhum. Ele pega. Olha. Coloca de volta no bolso. Abre o caderno no colo. Pega a caneta.

Escreve:

“Catapulta azul. Poder falhou no meio. Jogou a gente onde precisava. Maju quebrou o loop (cabelo, 3 vezes, acabou). Popó salvou. Cadarço salvou (armadilha no 3º andar). Poder instável = perigoso mas funciona. Little Boobs levou o Gol. Desconfiança. Rand sumiu (como sempre). Ímã brilhou com Popó.”

O caderno pulsa. Azul pálido nas bordas. Aceita.

Fecha o caderno. Guarda.

O isqueiro no bolso esquenta.

Recarregado.

Jota guarda a mochila. Levanta.

Respira fundo.

Olha o corredor.

O cadarço do tênis continua amarrado. Firme.

A mochila laranja pesa nos ombros.

E Jota dá o primeiro passo.

Pro corredor.

Pro desconhecido.

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Sinopse Narrativa:

Jota chega a um estacionamento improvisado e tem o Gol levado por Little Boobs — orientado por um eco de voz própria que não recorda ter dito. Entra num carro com Mestre dos Magos, Rand e duas mulheres, usa uma aura azul elétrica para acelerar o veículo no trânsito, mas o poder falha e o carro bate numa parede invisível antes de ser arremessado e pousar suavemente no destino exato. No local, Maju o intercepta revelando que estão num loop e o orienta ao prédio branco. Dentro do edifício, o cadarço solto do tênis o faz parar e evitar uma armadilha na escada. No décimo andar, Popó se joga na frente de um cão de guarda para protegê-lo, é ferido e curado involuntariamente pelo resíduo da aura de Jota.

Gênero Ação Sobrenatural, Fantasia
Tom Misterioso, Onírico, Tenso
Timeline Loop, Paralelo
Versão Jota Poderes, Sobrenatural
Categoria Missão, Poder Instável
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Confiança sem compreensão, Loops e ecos temporais, Poder instável e consequências
Locais corredor, escadas, Estacionamento improvisado, Estrada de pedra, estrada de terra, lobby, Prédio, rua estreita, Ruas
Palavras-Chave armadilha, aura azul, cadarço, catapulta, cura involuntária, ecos, loop, poder instável
O caderno apresenta comportamento sobrenatural: pulsa azul pálido ao aceitar o registro. O isqueiro esquenta como sinal de recarga de poder. O ímã brilha azul pálido na presença de Popó, confirmando vínculo familiar. Rand desaparece do carro sem explicação e ninguém comenta — tratado como normal. Jota opera dentro de uma lógica de loops: recebe ecos de instruções que ele mesmo teria dado em iterações anteriores. O cadarço solto, item recorrente, funciona aqui como elemento protetor diegético. Little Boobs aparece brevemente — Jota sente desconfiança mas obedece ao eco.
 

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