A água não era água. Era azul petróleo derramado sobre o mundo, tão denso que parecia ter peso próprio. A luz vinha de cima, filtrada por quilômetros de oceano, quebrando em feixes grossos que morriam antes de alcançar qualquer chão. Não havia chão visível. Só a borda: cinquenta metros de reino iluminado, e depois o abismo. Negrume absoluto que engolia som, luz, memória.
O reino inteiro vivia nessa faixa estreita entre o que ainda podia ser visto e o que nunca deveria ser encontrado.
Jota caminhava pela avenida principal, pés descalços na pedra lisa e fria. O tênis surrado tinha ficado na borda, junto com a camiseta regata vinho e o resto do mundo de cima. Aqui ele usava o manto negro, que pesava nos ombros como se tivesse bebido a própria água; caía reto, desafiando a ausência de gravidade, roçando o chão sem levantar sedimento.
Quando passava, os habitantes se afastavam com respeito automático. Pele pálida com reflexo azulado, alguns com guelras finas abrindo e fechando, outros com olhos sem pálpebra que pareciam buracos de petróleo. Ninguém perguntava de onde vinham. Só viviam.
A mochila laranja pendia no ombro esquerdo, desbotada, alças gastas. Dentro, o caderno marrom com a capa dura rachada, páginas cheias de anotações que ele nem lembrava de ter escrito. E no bolso do manto, sempre, o isqueiro amarelo. O sobrevivente. Já tinha caído em água, fogo, concreto. Sempre voltava. Sempre acendia na primeira. Jota não fumava, mas carregava o isqueiro como quem carrega amuleto — não por fé, mas por hábito de quem já perdeu tudo menos aquilo.
Parou diante de uma construção recém-erguida. Paredes retas, telhado plano, quarenta e três metros exatos da borda onde o chão desaparecia no abismo. Sete metros dentro do proibido.
O construtor esperava ao lado, guelras nervosas, mãos cruzadas nas costas.
— Quantos metros?
— Quarenta e três, meu rei.
— A lei diz cinquenta.
— Eu sei. Mas o terreno—
— A lei diz cinquenta.
O homem abaixou a cabeça. Virou-se e começou a desmontar a parede com as próprias mãos. Outros vieram ajudar. Em vinte minutos a casa tinha sido arrastada sete metros para trás. Cinquenta exatos. Nem um centímetro a menos.
Jota acenou uma única vez. Seguiu.
No jardim de coral, vermelho-sangue e roxo-escuro, crianças brincavam. Uma delas, humana, cabelo grudado na testa por algas, tropeçou e arrancou um ramo do tamanho de um punho. Congelou. Olhou o pedaço na mão. Olhou para ele.
Jota esperou.
A menina se abaixou, pegou um fragmento morto do chão, plantou no buraco. Pressionou. O coral brilhou fraco, aceitou. Regra cumprida.
— Desculpa — sussurrou.
Ele não respondeu. Continuou andando.
Mas enquanto andava, a lembrança veio sem aviso.
Rodoferroviária, chuva fina. Daslu com a mala de rodinha, cabeçinha pendendo. Ela com os olhos âmbar fundos, brilho dourado apagado pelo cansaço: “Obrigada, nos falamos, Jota.” Ele ali parado, mãos nos bolsos do moletom, chuva batendo. Não respondeu. Só viu ela virar e sumir no portão.
Jota piscou. O gosto de chuva velha ainda queimava a língua, mesmo quilômetros abaixo do céu.
Sacudiu a cabeça. O manto pesou um pouco mais.
Chegou à praça central, a maior cúpula de ar respirável do reino. O vidro grosso refletia tudo em tons de petróleo. Lá fora, as algas bioluminescentes pulsavam verde-fraco. De vez em quando passava um som grave, abafado, que lembrava biarticulado descendo a BR-277. Ninguém ali embaixo sabia o que era, mas Jota sabia.
Olhou para cima, através da cúpula.
Três quilômetros ao norte, cravada na montanha submarina, a torre.
Agulha negra subindo até quase tocar a zona onde a luz ainda ousava chegar. No topo, a plataforma vazia. Janelas como olhos apagados. Lá havia morado o Voador. O que veio antes. O que segurou enquanto aguentou. O que um dia simplesmente não voltou.
Jota sentiu o gosto metálico na boca. A pressão na base do crânio aumentou um grau.
As algas pulsavam irregular. Correntes entravam por fendas que não deviam existir.
O equilíbrio rachava.
E ele sabia onde precisava ir.
Virou-se para a torre distante.
Três quilômetros de água aberta.
Território sem lei.
Onde as criaturas do abismo circulavam famintas.
Nenhum habitante ousava.
Mas ele não era habitante.
Era rei.
E reis não tinham escolha.
Jota saiu ao “anoitecer”, quando a luz filtrada virava azul petróleo quase preto, mochila laranja no ombro.
Dois guardas de guelras largas tentaram acompanhá-lo até a porta norte.
— Fico sozinho.
— Meu rei, as criaturas—
— Fiquem.
Obedeceram. Sempre obedeciam.
Cruzou a soleira e o reino acabou.
A planície de lama fina e rocha negra se estendia até a base da montanha.
Caminhou.
A cada passo, uma memória antiga subia sem licença.
Apartamento no Centro, madrugada. Daslu dormindo de lado, respiração lenta, cabelo loiro espalhado no travesseiro. Ele deitado acordado, olhando o teto rachado. Ela murmurou no sono: “Fica…”
Ele ficou. Abraçou ela por trás, nariz no cabelo que cheirava a xampu de ervas. Dormiu assim. Acordou feliz.
Aquilo durou três dias.
Depois ela ficou estranha novamente, drogas, remédios, bebidas, ele, não saberá ao certo.
Jota sentiu o eco da voz dela ecoar na água ao redor, como se o oceano guardasse tudo que ele tentava esquecer.
Sacudiu a cabeça. O manto pareceu pesar mais um quilo.
Chegou à base da montanha.
Rochas cortadas como lâmina, fendas verticais exalando frio.
Jota encostou a palma na sombra entre duas lajes.
O corpo dissolveu-se.
Escuridão líquida engoliu tudo — gosto de sangue e ferro explodindo na boca, frio subindo pela espinha como agulha de gelo atravessando vértebra por vértebra. Por um segundo não havia corpo, não havia peso, não havia nada. Só ausência pura, como afogamento ao contrário.
Reapareceu vinte metros acima, ar voltando pros pulmões num soco.
Repetiu.
Deslizar, emergir, deslizar.
Cinco minutos e estava no topo.
A torre erguia-se negra, cilíndrica, sem emendas.
Porta de aço selada.
Encostou a mão.
A porta deslizou para dentro sem ruído.
Dentro, ar seco, pressurizado, respirável. O silêncio mudou: ficou denso, quase sólido. Luzes LED azul-petróleo acenderam sozinhas, fracas, reconhecendo o novo rei.
Jota tirou a mochila laranja do ombro, largou na entrada. A alça rasgou um pouco mais. Dentro, o caderno marrom com páginas amassadas, o ímã do Posto Esso preso na capa com fita adesiva velha, frio como sempre.
Corredor estreito.
Primeira sala: cama militar arrumada, lençol frio. Ninguém dormia ali há séculos.
Segunda sala: mapas antigos do reino, borda sempre marcada em vermelho a cinquenta metros exatos.
Terceira sala: troféus do mundo de cima. Pedaço de hélice de navio, placa enferrujada onde ainda dava pra ler “CURITIBA” em letras tortas. O Voador trazia pedaços da superfície como quem traz lembranças que não quer esquecer.
Última sala do segundo andar.
A capa.
Pendurada na parede, tecido vivo, ondulando sozinho.
Azul profundo nas bordas, preto no centro, costurado em pontos onde algo rasgou e nunca cicatrizou de verdade.
Jota tocou.
Ainda estava quente, como se o corpo tivesse saído há cinco minutos.
No bolso do manto, o isqueiro amarelo roçou a coxa e acendeu sozinho. Chama azul que durou três segundos, depois morreu. Mas tinha acendido. Como sempre. O sobrevivente não desistia nem quando o mundo desistia dele.
Ao lado, o diário de couro rachado.
Abriu na última página escrita.
Caligrafia que começava firme e terminava tremendo:
“Dia 12.319 (ou 12.320, já não importa).
Eles obedecem porque sempre obedeceram. Não por mim. Por hábito.
Eu ajusto corrente, movo casa, conserto rachadura. Cada ajuste tira um pedaço que não volta.
Estou cansado de ser necessário e invisível.
Se alguém ler isso: o trono não é poder. É prisão disfarçada de dever.
Um dia você vai olhar pros cinquenta metros e desejar dar um passo a mais.
Não dê. Ou dê. Tanto faz.
Eu vou tentar o passo.
Se não voltar, é porque o abismo era mais honesto que o trono.
Boa sorte.”
Página seguinte em branco.
Jota fechou o diário devagar.
Colocou de volta na prateleira.
Subiu a escada em espiral para o terceiro andar.
O peso já começava a se instalar na base do crânio, latejando baixo, constante.
O terceiro andar era só uma sala circular.
Paredes de vidro grosso, azul petróleo tão denso que parecia sólido.
No centro, a cadeira.
Simples, sem encosto alto, sem ornamento.
Só metal frio e estofado gasto.
Diante dela, o painel de controle: telas rachadas, alavancas corroídas, botões sem legenda.
Ele se sentou.
No segundo em que o peso do corpo assentou, as telas acordaram.
Mapas do reino apareceram em vermelho vivo.
Cúpulas com micro-rachaduras.
Jardins de coral morrendo em setores inteiros.
Correntes girando errado, empurrando as bolhas de ar como dedos invisíveis.
Fendas novas se abrindo na borda, centímetros por dia.
Era pior do que ele sentia lá embaixo.
Muito pior.
Um botão piscava, insistente.
Jota apertou.
A voz do Voador explodiu nos alto-falantes, cansada, rouca:
“Se você tá ouvindo isso, eu já fui.
O reino não precisa de herói. Precisa de alguém que aguente o peso até o próximo.
No começo é leve. Depois vira pedra. Depois vira âncora.
Você vai sentir ele te comendo por dentro. Primeiro a vontade de rir. Depois a vontade de chorar. Depois as duas juntas. No final só fica o silêncio.
Eles nunca vão te perguntar se você tá bem. Porque pra eles você não é gente. Você é função.
Se um dia você quiser largar, larga. Ninguém vai te julgar.
Mas se largar, tudo cai.
Então escolhe: afunda com o reino ou afunda sozinho.
Eu escolhi sozinho.
Boa sorte.”
A gravação morreu com um estalo seco.
Jota ficou olhando os pontos vermelhos piscando.
Cada ponto era uma rachadura que ele teria que consertar.
Cada conserto tiraria um pedaço dele.
Levou a mão ao cabelo.
Uma mecha inteira, na têmpora esquerda, tinha embranquecido.
Não grisalha.
Branca pura.
Como se a cor tivesse sido sugada em minutos.
Olhou as palmas.
Linhas finas, quase imperceptíveis, começando a se desenhar.
Levantou devagar.
As telas continuavam piscando, implorando.
Podia sair dali agora.
Deslizar pelas sombras até o reino, anunciar que a torre estava vazia, deixar o lugar desmoronar enquanto tentava nadar pra cima.
Podia fazer o que o Voador fez.
A mão foi até a maçaneta.
Dedos roçaram o metal frio.
Um segundo.
Dois.
Três.
O gosto de sangue voltou à boca.
A pressão na nuca latejou mais forte.
E então viu.
Não uma imagem. Uma sensação.
A menina do coral plantando o fragmento morto.
O homem desmontando a própria casa sem reclamar.
As crianças brincando como se o mundo nunca fosse acabar.
Eles não pediram pra ele ficar.
Mas se ele largasse, eles afundariam sem nem entender por quê.
Jota soltou a maçaneta.
Virou as costas pra porta.
Desligou o painel.
As telas morreram uma a uma.
Desceu a escada.
No segundo andar parou diante da capa pendurada.
Tocou o tecido mais uma vez.
Ainda quente.
Ainda esperando.
Pegou a mochila laranja da entrada. Abriu o caderno marrom. Arrancou uma página em branco. Pegou o isqueiro amarelo do bolso.
Não acendeu.
Só segurou.
Escreveu com a caneta que encontrou na prateleira do Voador:
“Dia 1.
Eu fico.
Não porque sou herói.
Porque alguém tem que ficar.
E dessa vez, alguém vai lembrar que ficou.”
Guardou a página dobrada no bolso do manto.
Saiu da torre.
A porta selou atrás com som de tumba.
Deslizou pela montanha.
Atravessou o leito aberto.
Entrou no reino quando a luz começava a clarear.
Os guardas curvaram-se.
— Encontrou algo, meu rei?
Jota passou por eles sem parar.
— Encontrei o que precisava.
E seguiu andando.
Os dias seguintes foram todos iguais.
Jota acordava antes do “amanhecer”.
Caminhava o reino inteiro.
Cinquenta metros da borda.
Sempre cinquenta.
Uma casa avançara dois centímetros: mandava desmontar e recuar.
Um ramo de coral quebrara: a criança plantava outro antes mesmo dele falar.
Uma corrente girava errado: erguia a mão, a água obedecia.
E o peso crescia.
Não era dor.
Era ausência.
Uma cavidade que se abria no peito e ia engolindo pedaços dele: a vontade de rir de algo idiota, a lembrança do cheiro de chuva no Capão da Imbuia, o som da voz da pequena chamando “Jotaaa” numa tarde qualquer que nunca mais voltaria.
Uma tarde, sentado no chão da praça central (não havia trono, nunca houvera), a mesma menina loirinha aproximou-se outra vez.
— Você tá sumindo já?
Olhou pra ela.
— Ainda não.
— Quando?
— Quando não aguentar mais.
Ela deu de ombros.
— Tá bom.
E voltou correndo.
Jota sorriu.
Um sorriso pequeno, seco, que doeu na cara.
Mas verdadeiro.
Foi até uma das cúpulas menores, onde a água batia direto no vidro.
Encostou a testa no vidro frio.
No reflexo, viu.
A mecha branca tinha se espalhado.
Metade da cabeça agora era cinza-chumbo.
As linhas das palmas subiam pelos antebraços.
A voz, quando testou, saiu oca.
— Quanto tempo ainda?
O reflexo não respondeu.
Voltou à praça.
Sentou no chão de pedra polida.
A própria sombra se esticou atrás dele, mais escura que o normal, viva, quase líquida.
De vez em quando erguia a mão.
Uma corrente se corrigia.
Uma rachadura se fechava.
Um pedaço dele sumia.
A capa do Voador ainda pendia na torre, esperando.
Um dia a dele penduraria ao lado.
Mas hoje não.
Hoje ele ainda segurava.
Porque alguém tinha que segurar.
E dessa vez, ele não ia sumir sem deixar rastro.
Puxou do bolso a página dobrada.
Leu de novo:
“Eu fico. Não porque sou herói. Porque alguém tem que ficar. E dessa vez, alguém vai lembrar que ficou.”
Guardou de volta.
As sombras dançaram ao redor dele, lentas.
Jota fechou os olhos.
Cinquenta metros era lei.
E a lei era ele.
Mas ao contrário do Voador, ele não ia apagar sozinho.
Ia gravar o próprio nome na pedra antes de virar cinza.
Mesmo que ninguém lesse.
Mesmo que ninguém lembrasse.
Pelo menos ele saberia:
Ele escolheu ficar.
E isso fazia diferença.
