Capa do Capítulo

Coragem que Ninguém Estava Tendo

Extensão: 1.443 palavras | Leitura: 8 min

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Jota estava no quarto, tarde da noite, camiseta regata vinho amassada no corpo, caderno marrom aberto na cama. Caneta na mão, página meio preenchida com letra miúda, anotações do dia que não levavam a lugar nenhum. Pensamentos soltos, frases incompletas, tentativa de organizar o que não tinha organização.

O celular vibrou na mesinha.

Ele olhou de canto. Tela acesa, notificação no topo.

Maju Kuzito.

Largou a caneta. Fechou o caderno devagar, como quem guarda algo inacabado que sabe que não vai terminar tão cedo. Pegou o celular.

A conversa começou leve.

Daquelas que fluem sem esforço, sem pensar muito, sem pesar. Ele mandava mensagem, ela respondia, ela ria, ele ria junto. O tipo de troca que fazia a noite passar mais rápido, que fazia esquecer o silêncio do quarto, da casa, da rua lá fora.

Até que às 00:56 veio a mensagem diferente.

Jota leu uma vez. Voltou pro começo. Leu de novo.

“Tem mais uma coisa que eu queria conversar contigo e espero que entenda. Eu gosto muito de você como amigo, você é uma pessoa muito boa e divertida. Não sei exatamente quais são suas intenções comigo mas com maturidade e tendo cuidado com o seu coração te digo que da minha parte seremos só amigos. Não quero jamais te magoar e nem alimentar nenhum sentimento que não seja de amizade dentro de você. Sinto muito se não posso corresponder alguma expectativa, mas realmente é apenas isso que tenho pra te oferecer.”

O isqueiro amarelo estava na mesinha, ao lado do caderno. Pegou. Acendeu. Chama tremeluzente, pequena, amarela pálida. Apagou. Ficou olhando pro celular. Acendeu de novo.

Dedos travados no teclado.

Digitou: “Hummm…”

Apagou. Digitou de novo. Enviou.

Três pontinhos apareceram na tela indicando que ela estava digitando.

Digitou “Ok” e enviou sem pensar mais.

Respirou fundo. Ar entrou gelado, saiu pesado.

“Não sei o que dizer…”

Enviou.

O isqueiro ainda na mão esquerda, polegar no gatilho, acendendo e apagando sozinho enquanto o outro polegar digitava no celular. Movimento automático, nervoso, necessário.

“Eu só sei que gosto de conversar contigo.”

Pausa.

“Se isso é ter interesse ou não na pessoa.”

Enviou as duas de uma vez.

Ela respondeu rápido: “Tudo bem.”

Jota olhou pro teto. No chão, o tênis surrado jogado de lado, cadarço direito solto como sempre. A mochila laranja encostada na parede, alça enrolada, zíper entreaberto.

Digitou: “Então, não sei o que dizer novamente.”

Ela: “Nem precisa dizer nada sobre isso.”

Ele: “Se eu estou te fazendo sentir isso, não sei o que fiz… Só pensei demonstrar respeito e querer sua atenção.”

Ela: “Só senti de deixar esclarecido.”

Ela: “Fique tranquilo.”

Tranquilo.

Jota soltou o isqueiro na cama. Ficou olhando a tela, luz azulada iluminando o rosto no escuro.

“Bem… Ok…”

Ela mandou um emoji sorrindo.

Ele digitou: “Mas se vc está dizendo isso e deixando claro, bem…”

Pausa.

“Obrigado então.”

Ela: “Espero que não me leve a mal.”

Ele: “Eu não vou levar a mal.”

Outro emoji dela. Sorriso de novo.

Jota respirou fundo. Tentou organizar o pensamento. Falhou.

“Mas sei lá…”

Enviou.

“Desculpa…”

Ela: “Não tem nada do que se desculpar.”

Ele: “Não foi minha intenção você julgar a isso…”

Ela: “Só cautela.”

Ele: “Ou não deixar claro, que queria te conhecer e etc…”

Ele: “Mas ok.”

Ela: “Pra que não haja mal entendidos.”

Ela: “Acredito que somos pessoas maduras.”

Ela: “E está tudo bem.”

Jota fechou os olhos. Abriu. Digitou mecânico, resposta automática de quem já aceitou mas ainda não processou.

“Ok.”

“Entendido.”

Ela: “Obrigada.”

Fixou o olhar nessa mensagem por uns dez segundos. Obrigada. Como se ele tivesse feito um favor. Como se tivesse facilitado algo pra ela.

Digitou: “Bem… Agora ficará todo aquele clima ahhaahh.”

Ela respondeu rápido: “Claro que não.”

“Não da minha parte.”

Jota soltou um riso curto, sem som, só ar saindo pelo nariz.

“Pois é uma linha tênue que você atingiu…”

“E colocou pra falar…”

“Então, não sei…”

Ela: “Sou muito direta sabe.”

Ele: “Bem… Só me desconcertou.”

Pausa longa.

Ele digitou: “Ok.”

Apagou.

Digitou de novo: “Ok.”

Enviou.

Ela: “Desculpa.”

Ele: “Que é isso, vc só atribuiu o que estava sentindo.”

Ele: “Deixou isso claro.”

Ele: “Ok.”

Ela: “Não fiz isso pra afastar nem nada.”

Ela: “Só separar as coisas.”

Fixou o olhar nessa mensagem. Separar as coisas. Como se antes estivesse junto. Como se tivesse algo pra separar.

“Entendi, entendendo…”

Enviou.

Ela mandou outro emoji de mãos juntas.

Silêncio.

Jota jogou o celular na cama. Ficou olhando pro teto. Barulho de carro passando lá fora, motor diesel, longe. A casa quieta. O quarto quieto. Tudo quieto demais.

Pegou o celular de novo.

Olhou a hora. 01:20.

Digitou: “Bem… Boa noite! Fica bem!”

Ela demorou dois minutos pra responder.

“Boa noite.”

“Bom descanso.”

Emoji de mãos juntas de novo.

Jota trancou o celular. Colocou na mesinha, tela pra baixo.

O isqueiro parado ao lado, sem acender mais.

Ficou deitado, olhando o teto. Respiração pesada. Tentou dormir. Não conseguiu.

Porque como continuar agora?

Ela disse que nada ia mudar. Que não ia ter clima estranho. Que eram pessoas maduras.

Mas mudou tudo.

Como puxar conversa todo dia depois de ouvir “você não tem chance”?

Sem nem ter tentado de verdade.

Como fingir que não fica um silêncio esquisito toda vez que o celular vibra?

Ela queria que ele continuasse ali: presente, engraçado, disponível. Só que agora sem expectativa nenhuma. Sem risco. Sem nada em troca.

Jota sabia viver naquele clima estranho. Já tinha carregado esse peso antes.

Maju Kuzito, pelo jeito, achava que não ia pesar, mas quem sabe, ela tinha mais experiência em relacionamentos que ele.

Virou de lado. Olhou pro caderno fechado na beira da cama. Pensou em abrir. Em anotar algo. Em tentar colocar no papel o que estava sentindo.

Não abriu.

Olhou fixo.

O tênis no chão, cadarço solto. A mochila na parede, imóvel. O isqueiro na mesinha, frio.

Tudo no lugar. Tudo quieto.

Menos ele.

Jota fechou os olhos.

Tentou respirar devagar. Contar até dez. Esvaziar a mente.

Não funcionou.

Porque a frase não saía da cabeça: “Ela teve a coragem que ele não estava tendo.”

Era isso.

Ela tomou a frente. Disse o que pensava. Cortou antes que crescesse. Fechou a porta com educação, com maturidade, com cuidado.

E ele?

Ele ia fazer o quê?

Continuar mandando mensagem todo dia como se nada tivesse acontecido? Fingir que estava tudo bem? Rir das piadas dela, curtir as fotos, estar sempre disponível… sabendo que não levava a lugar nenhum?

Não.

Não dava.

Percebeu então que o limite tinha sido atingido, mesmo ela dizendo que não. E agora que ela teve a coragem de dizer, não dava mais pra voltar. O limite foi ultrapassado.

Jota abriu os olhos. Olhou pro celular na mesinha, tela ainda apagada.

Sabia que ela nunca mais ia procurar, na verdade nunca tinha procurado. Nem um “ei, sumiu?”, nem um meme aleatório, nada. Nem pra manter a amizade que ela jurava que queria preservar.

Até com o Rosquinha, amigo em comum, sabia que um dia ouviria dele dizendo que Maju falava que Jota “tinha sumido”, mas ela não estava nem aí pra procurar.

Ela ia seguir a vida dela. Tranquila. Consciência limpa. Fez a parte dela. Avisou. Foi honesta. Pra ser sincero algo que Jota não entendia, pois para ele, ele tinha sido descartado.

E ele ia ficar ali, sozinho, processando o que acabara de acontecer.

Não por orgulho.

Mas porque entendeu que lugar era aquele: um lugar que não era bem-vindo, mas também não era importante o suficiente pra ela sentir falta.

Jota virou pro outro lado.

Puxou o cobertor até o ombro.

Fechou os olhos de novo.

Pensou em levantar, descer, entrar no Gol Bolinha Cinza Urban estacionado lá fora e dirigir sem rumo. Rodar a cidade inteira até o tanque secar, até o sol nascer, até esquecer.

Mas não levantou.

Ficou ali, quieto, tentando processar.

Lá fora, outro carro passou. Motor ronco, distante, sumindo na curva.

Dentro do quarto, silêncio absoluto.

E nesse silêncio, Jota finalmente entendeu:

Às vezes, a honestidade mais bonita é só o jeito mais educado de fechar a porta.

Ele respirou fundo.

E tentou dormir.

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Sinopse Narrativa:

Tarde da noite, Jota conversa com Maju pelo celular. Às 00:56 ela manda mensagem longa dizendo que só quer amizade, que não pode corresponder expectativas. Conversa tensa segue até 01:20. Ela diz que nada vai mudar, que são pessoas maduras. Jota percebe que tudo mudou. Ela teve coragem de dizer o que ele não estava tendo coragem de ouvir. Entende que foi descartado educadamente. Sabe que ela nunca vai procurar, que vai "sumir" sem sentir falta dele. Tenta dormir processando: "a honestidade mais bonita é só o jeito mais educado de fechar a porta".

Gênero Realismo, Slice of Life
Tom Introspectivo, Melancólico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Rejeição, Slice of Life
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Amizade unilateral, Limite ultrapassado, Rejeição educada
Locais casa, Quarto, Rua
Palavras-Chave "só amigos", 00:56, conversa pelo celular, friendzone, honestidade cruel, limite ultrapassado, Maju Kuzito, Mensagem noturna, rejeição educada
Horários: conversa começa antes de 00:56, termina 01:20. Mensagem-chave de Maju às 00:56: "gosto muito de você como amigo, pessoa muito boa e divertida, da minha parte seremos só amigos, não quero magoar nem alimentar sentimento que não seja amizade, sinto muito se não posso corresponder expectativa". Frases marcantes dela: "Só cautela", "Pra que não haja mal entendidos", "Somos pessoas maduras", "Sou muito direta", "Não fiz isso pra afastar, só separar as coisas", "Obrigada". Jota percebe: ela teve coragem que ele não tinha, ela tomou frente/disse/cortou/fechou porta com educação. Limite atingido mesmo ela negando. Sabe que ela nunca vai procurar (nem "ei sumiu", nem meme, nada). Rosquinha: amigo em comum. Jota sabe que um dia vai ouvir dele que Maju disse que Jota "sumiu" mas ela não procurou. Conclusão: "a honestidade mais bonita é só o jeito mais educado de fechar a porta". Sons: carro diesel passando longe, motor ronco distante sumindo na curva.
 

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