Eu a deixo na porta de casa.
Ela desce do banco do carona sem dizer nada.
Passos decididos.
Dessa vez mais decididos que nunca.
Abre o portão, entra, fecha sem olhar pra trás.
Não desaba na minha frente.
Nunca desabaria.
Prefere sofrer sozinha ou contar pra qualquer outro, menos pra mim.
Fico parado um segundo.
O Gol Bolinha ronca baixo, esperando.
Engato a primeira.
Dirijo.
Rua com buracos, sem asfalto.
Desvio deles, como desviei de tudo que podia ter salvado a gente.
Como passou o tempo.
Foram várias idas e vindas, brigas, inseguranças, sexo que curava ou destruía.
Tempos de esperança que eu achei que era amor.
Chega.
Mas agora tenho que continuar. Tentar.
Tenho que pensar em mim.
Tenho que ser definitivo.
Não voltar mais.
Chego na encruzilhada.
Lembro quando passei aqui e sempre pensei que poderia usar esse lugar para algo. Esse dia finalmente chegou.
Ninguém por perto. Bem, era um local vazio, nunca avisa mesmo.
Mas a vergonha queima o peito — e se alguém aparecer?
E se alguém vir o que estava pensando em fazer?
Mas tomei coragem.
Espero que não apareça ninguém.
Rebato o banco do passageiro.
Começo a pegar algumas coisas do banco de trás.
A mochila laranja atrapalha.
Deixo ela de lado.
Pego tudo que sinto que tenho que deixar.
Tudo que me faria voltar.
Tudo que levaria a pensar.
Tudo que cogitaria a ligar.
Saio do carro.
Olho em volta.
No meio da encruzilhada, o chão tem um ponto mais fundo.
Uma deformação preta. Que não parecia que estava ali antes. Mas parecia que sempre esteve ali. Um lugar propício.
E que já tivesse recebido muito fogo antes.
Jogo tudo ali.
Pego o isqueiro amarelo do bolso.
O sobrevivente.
Eu não fumo.
Mas ele sempre tá aí e me salvou tantas vezes. Penso na ironia dele ser parte das lembranças que estou descartando. E agora ele pode ser consumido também. Acendo.
A chama dança azul.
Toco o fogo no monte.
O fogo pega rápido.
Primeiro uns papeis.
Depois a meia.
Depois o batom.
Algum frasco.
Um líquido que espalha cheiro doce.
Um bilhete.
E então vejo.
O caderno.
O caderno não devia estar ali no meio. Eu não tinha jogado ele.
Tento pegar.
Uma língua de fogo me afasta.
O vento vem do nada.
Forte.
O caderno sobe.
Páginas batendo como asas.
O redemoinho começa.
O relógio do carro marca 23:59.
O fogo sobe mais alto.
O caderno gira no centro.
23:59:59…
Flash branco.
Calafrio desce pela espinha.
00:00.
O vento para de repente.
O fogo apaga.
O rádio do Gol liga sozinho — estática, uma frequência que não existe, e cala.
Silêncio absoluto.
Não sobra nada.
Nem cinza.
Só o isqueiro amarelo na minha mão.
Chama ainda acesa.
O cadarço do tênis direito solto.
A camiseta regata vinho grudada de suor.
Olho pros lados.
Ninguém.
Olho pro céu.
A lua está cheia.
Olho pro chão.
A encruzilhada tá limpa.
Como se nunca tivesse acontecido nada.
Caralho. Para onde foram as coisas que queimei?
Sinistro.
O lugar não parece mais o mesmo. A deformação no chão não existe mais. Ao me virar para o carro, encontro o caderno e a mochila laranja na porta.
O coração bate na garganta. Pego a mochila, quase esperando que ela queime a mão. Olho para o banco de trás. Nada.
Jogo a mochila no banco do passageiro.
Fecho a porta.
Ligo o motor.
O 1.0 tosse.
Pega.
Engato a primeira.
E dirijo.
Sem nem saber o que tinha ativado ali.
