Capa do Capítulo

Drogas e Ingratidão

Extensão: 3.418 palavras | Leitura: 18 min

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Geraldo acordou com a sensação de que alguma coisa dentro dele tinha achado o caminho de volta.

Não era vontade de viver, não era paz, nada bonitinho assim. Era um formigamento nas pontas dos dedos, um zumbido atrás dos olhos, como se o mundo inteiro tivesse virado uma gaveta bagunçada e só ele soubesse onde estava cada treco perdido.

Na cozinha, achou a chave do carro em cima da geladeira sem nem procurar. O ímã cinza fosco do Posto Esso tá ali no centro da porta, segurando um papel velho com telefone de pizzaria. Beiradas descascando, logo quase apagado. Sempre ali, desde que o pai colou.

No banheiro, o controle remoto apareceu dentro do armário de remédios, coisa que ele jurava ter virado a casa de cabeça pra baixo na semana passada.

No espelho, olhou pra si mesmo e pensou: hoje eu encontro até o que eu nem sabia que tinha perdido.

Tomou leite em pé, camiseta regata vinho surrada grudada no corpo, mochila laranja nas costas, tênis surrado com cadarço direito amarrado, rumo ao aeroporto. Voo das 10h20 pra Guarulhos. Assento 17A, corredor. Nada de janela — Geraldo nunca gostou de olhar pra baixo. Preferia olhar pras pessoas esperando que alguém olhasse de volta, pedisse ajuda, percebesse que ele existia. Nunca admitiria isso em voz alta. Querer atenção era fraqueza.

O avião decolou normal. Turbulência leve, bebê chorando duas fileiras atrás, comissária com sorriso de propaganda de pasta de dente. Geraldo fechou os olhos e deixou o zumbido crescer. Sentiu o metal da fuselagem como se fosse pele. Sentiu cada parafuso, cada fio, cada gota de combustível. Achou estranho, mas não estranhou. Fazia parte do dia.

Às 11h07 o inferno desceu.

Primeiro o barulho — um estalo seco, como osso quebrando. Depois o silêncio pior, aquele silêncio que vem antes do grito. O piloto ligou o intercomunicador com a voz já tremendo:

— Senhoras e senhores, estamos com uma falha hidráulica no trem de pouso dianteiro. Vamos tentar um pouso de emergência no Aeroporto Campo de Marte. Por favor, mantenham a calma e sigam as instruções da tripulação.

As máscaras caíram. Uma senhora idosa começou a rezar alto em espanhol. Um cara de terno vomitou no saquinho. A criança que tava chorando agora gritava como se estivessem arrancando a alma dela. O cheiro de medo era tão forte que dava pra mastigar.

Três fileiras à frente, Rand Oliveira — aquele conhecido da faculdade que virou engenheiro aeronáutico e vivia sumindo e reaparecendo quando menos esperava — desceu o corredor correndo, macacão azul impecável mesmo dentro do avião, gritando:

— Eu entendo de avião, sou engenheiro aeronáutico, me deixa entrar na cabine!

As comissárias tentaram barrar, mas Rand já mostrava cartão de identificação, já argumentava, já empurrava. O piloto gritou lá de dentro autorizando. Rand sumiu atrás da cortina como fantasma.

Geraldo não se mexeu.

Fechou os olhos com mais força ainda. Sentiu o zumbido virar trovão. Desceu com a mente até debaixo do avião, até o trem de pouso travado. Sentiu o metal retorcido, o fluido hidráulico vazando, o mecanismo engripado como mandíbula travada.

E aí ele desejou.

Não pediu. Desejou. Com raiva, com fome, com aquela força que a gente só usa quando não tem mais nada a perder.

O metal obedeceu.

Ele sentiu, centímetro por centímetro, o trem destravando. Parafusos girando sozinhos. Cilindros enchendo de novo. O trem desceu com um clang que ninguém ouviu porque o avião inteiro ainda tremia de pavor.

Três minutos depois o piloto voltou ao intercomunicador, voz agora aliviada:

— Senhoras e senhores… o trem de pouso foi restaurado. Vamos pousar normalmente.

O avião tocou a pista tão suave que parecia mentira.

Aplausos. Choro. Abraços. Rand saiu da cabine suado, cabelo grudado na testa, sorriso de quem acabou de salvar o mundo. Passageiros apertavam a mão dele, batiam nas costas, agradeciam chorando. Alguém abriu o champanhe que era pra ser servido só no destino. O piloto abraçou ele. Uma repórter que tava no voo já filmava com o celular: “O herói de bordo!”.

Geraldo esperou todo mundo descer.

Quando passou pelo saguão, ouviu os cochichos. Que Rand na verdade não tinha feito nada, de repente o trem de pouso soltou.

Geraldo sorriu de canto. Pegou a mochila laranja na esteira, bilhete de embarque rasgado no bolso, e saiu andando como se nada tivesse acontecido. Ninguém parou ele. Ninguém tirou foto. Ninguém pediu autógrafo.

No táxi pra casa, o motorista ligou o rádio:

— …milagre no céu em São Paulo! Passageiro engenheiro salva o dia…

Geraldo pediu pra desligar o rádio.

Resolveu as coisas em São Paulo, pegou um outro voo à noite para casa. Nesse não aconteceu nada demais.

Chegou em casa às 21h12. Casa vazia, como sempre. Ninguém pra receber, ninguém pra perguntar como foi a viagem. Só o silêncio que ele já conhecia de cor.

Abriu a geladeira, pegou uma água. O ímã cinza fosco ainda ali, segurando o mesmo papel velho. Geraldo olha pra ele por três segundos. Lembra da família que nem ligou pra saber se ele pegou aquele voo. Ninguém perguntou. Ninguém nunca pergunta.

Sentou no sofá. Aí veio o segundo estalo do dia — mais forte que o do avião.

O sofá subiu.

Não: ele subiu.

Os pés deixaram o chão. Devagar, como se alguém tivesse desligado a gravidade só pra ele. Subiu até encostar a cabeça no teto. A garrafa de água caiu e não quebrou — ficou flutuando do lado dele, girando lenta.

Geraldo não gritou. Não riu. Só abriu a janela da sala e saiu.

Voou.

Primeiro devagar, rente as casas. Depois mais alto, acima das nuvens. O vento batendo na cara como tapa de amigo. A cidade inteira lá embaixo, luzes piscando como se estivessem aplaudindo só pra ele, finalmente. Passou do lado de um avião que decolava e acenou pro piloto — o cara nem viu.

Duas horas voando. Testando curva, mergulho, loop. Sentindo o corpo leve como nunca tinha sido na vida inteira. O zumbido agora era música. O poder não era mais só achar coisa perdida.

Era ser livre pra caralho.

Quando voltou, pousou no meio da sala com os pés descalços no chão frio. Cabelo parecendo que tinha tomado choque. Olhos arregalados. Coração batendo tão forte que dava pra ouvir do outro lado da casa.

E aí ele viu: alguém já tava sentado no sofá.

Corrente de ouro grossa, sorriso de quem nunca perdeu uma parada, tatuagem de santa no braço. Feliciano Droga, o traficante mais burro e mais sortudo do bairro inteiro, balançava as pernas como criança.

— Caralho, Geraldo! — Feliciano arregalou os olhos. — Tu tava… voando?

Geraldo parou na porta, ainda ofegante.

— Como tu entrou aqui, porra?

Feliciano abriu os braços, mostrou o grama na mão como se fosse troféu.

— Porta tava aberta, irmão. Vim trazer um presentinho. Mas pera aí… tu tava VOANDO MESMO?

Geraldo respirou fundo. Sorriu de canto.

— Tava. E hoje de manhã eu salvei um avião.

— QUE?!

— Avião caindo. Cento e setenta e cinco pessoas. Eu consertei o trem de pouso com a mente.

Feliciano ficou de boca aberta por cinco segundos. Depois pulou do sofá, gritando:

— HERÓI! TU É UM HERÓI, CARALHO! — Abraçou Geraldo como se fosse irmão de guerra. — E ninguém sabe?

— Ninguém. Deram o crédito pro Rand, um cara que tava no voo.

— Foda-se o Rand, irmão. EU SEI. — Feliciano bateu duas carreiras na mesa de centro. Linhas perfeitas, brancas como neve que um dia dizem caiu em Curitiba. — Hoje a gente comemora VOCÊ, porra. Ninguém mais vai fazer isso por tu. Vem.

Geraldo olhou pras linhas. Olhou pro Feliciano. Olhou pro céu escuro lá fora.

E sorriu de verdade pela primeira vez no dia.

— Bota o som no último, vai.

O som explodiu antes mesmo da primeira carreira tocar no nariz.

Feliciano já tinha ligado o paredão que ele carregava no porta-mala do Gol quadrado: um funk proibido até pro Spotify, grave tão pesado que os copos na pia começaram a andar sozinhos. Aquela batida que parece que o coração vai sair pela boca.

Geraldo nem trocou de roupa. Regata vinho suada do avião, meia furada, cabelo ainda voado do vento lá de cima. Sentou na mesa de centro como se fosse trono. Feliciano empurrou o prato de vidro riscado:

— Primeira do herói. Pode mandar ver.

Duas linhas grossas, perfeitas, brancas como neve que um dia dizem caiu em Curitiba. Geraldo enrolou o papel que tava no bolso desde o aeroporto, encostou na mesa e aspirou tudo de uma vez.

O mundo deu um giro de 180 graus e parou de pé de novo, só que agora mais nítido, mais vivo, mais dele.

— Caralho, Feliciano.

— Sim, ótimo né? Puro. Na verdade, puro é pouco, irmão. Isso aqui é o que o piloto devia ter te dado de agradecimento.

Riram alto, riso de quem não precisa explicar nada pra ninguém.

Segunda rodada. Terceira. O sangue correndo tão rápido que parecia que ia rasgar as veias. Feliciano tirou a camisa, corrente de ouro balançando no peito suado, e começou a dançar no meio da sala como se tivesse 15 anos e o baile fosse na laje.

Geraldo só olhava, sorrindo. Sentia o poder subindo junto com o bagulho. Sentia o corpo querendo sair do chão de novo.

O isqueiro amarelo tava na mesa de centro. Geraldo olhou pra ele. Desejou. O isqueiro levantou sozinho, acendeu no ar, chama dançando sem ninguém segurar.

— Quer ver uma parada? — perguntou.

— Manda.

Geraldo fechou os olhos por meio segundo. Quando abriu, já estava a um metro do chão, flutuando de pernas cruzadas como se tivesse colchão invisível. O isqueiro amarelo flutuava do lado dele, chama acesa, girando devagar.

Feliciano parou de dançar. Boca aberta. Olhos arregalados.

— Puta que pariu, Geraldo. Tu é o Super-homem com cocaína?

— Super-homem seu tobias. Eu sou melhor.

Feliciano deu um grito de criança que ganhou Playstation no Natal e pulou. Geraldo segurou ele pelo braço no ar. Os dois subiram até o teto, batendo cabeça na lâmpada barata que balançava louca. O isqueiro amarelo subiu junto, chama iluminando os rostos deles.

— VOAAAAAAAA, PORRA! ISSO É MELHOR QUE BALADA VIP!

Eles voavam pela casa inteira. Corredor, cozinha, quarto. Feliciano tentando cheirar mais uma voando, aí o cartão escorregou da mão e metade do grama caiu no chão.

— NÃÃÃÃO! Minha buchina! — ele gritou, quase chorando.

Geraldo riu tanto que quase caiu do ar. Desceu, catou a bucha do chão e entregou ao Feliciano.

— Relaxa, traficante. Hoje até o pó perdido eu acho.

E acharam mais. Muito mais.

O funk não parava.

Conversavam e riam. Riam e conversavam. Riram e conversaram tanto até doer a barriga, até lágrima escorrer, até o mundo virar borrão branco e dourado.

Em algum momento Geraldo levou o Feliciano pra fora. Pela janela. Noite de Curitiba inteira embaixo deles.

— Olha isso aqui, Feliciano. Olha essa porra toda.

A cidade brilhava. Alguns carros no viaduto, luzes de ambulância piscando como sempre. Feliciano abraçou o pescoço dele, olhos vidrados.

— Mano… tu pode roubar qualquer banco agora.

— Banco? Voando? Talvez, sei lá… na verdade quero que olhem para mim.

— Eu tô vendo, porra! Eu tô vendo!

E viu mesmo. Durante horas.

Voaram por cima do Jardim Botânico, por cima da Ópera de Arame, por cima do Parolin onde o Feliciano morava. Passaram tão baixo que as antenas de TV arranhavam a barriga deles. Feliciano gritava “É O HOMEM-ARANHA DO MORRO!” e as crianças lá embaixo olhavam pro céu, apontando, sem acreditar.

Voltaram pra casa quando o sol começou a raiar. Feliciano já não conseguia nem ficar de pé direito. Geraldo pousou com ele no sofá, suave como pluma.

O traficante inesperadamente apagou em dois segundos. Cabeça caída, baba escorrendo no estofado, corrente de ouro subindo e descendo devagar no peito. Roncos que pareciam motor de moto.

Geraldo não dormiu.

Flutuou até a cozinha. Deitou no ar, de barriga pra cima, a meio metro do chão. Pegou o caderno marrom da mochila laranja que tinha deixado ali, abriu numa página em branco e escreveu, letra tremida:

“ninguém agradeceu.”

O isqueiro amarelo flutuava do lado, chama apagada agora, girando lento.

Olhava pro teto rachado como se fosse mapa do universo.

Pensou no avião. Nas cento e setenta e cinco pessoas que nunca iam saber o nome dele. A TV disse cento e sessenta. Mas ele tinha sentido todas. Cento e sessenta dentro. Quinze embaixo. No Rand dando entrevista de macacão azul no Jornal Nacional. No piloto virando herói. No mundo inteiro agradecendo o cara errado.

Rand nem olhou pra ele no saguão. Nem um aceno. Sumiu como sempre some, levando o crédito inteiro.

Mas como saberia né? Pois só fiquei sentado e senti o avião e abri o trem de pouso.

E aí olhou pro Feliciano roncando.

O cara mais burro, mais quebrado, mais perdido do bairro inteiro tinha sido o único que falou “parabéns”. O único que viu. O único que veio sem ser chamado, sem pedir nada em troca além de uma carreira e um voo.

Geraldo sorriu no escuro.

Deu mais um tirinho. Sentiu o coração ainda disparado. Sentiu o corpo leve, leve pra caralho.

Pela primeira vez na vida, alguém tinha olhado pra ele de verdade. Mesmo que fosse um traficante com dois neurônios e meio grama perdido no tapete.

E isso, porra… isso valia mais que qualquer aplauso no saguão do aeroporto.

Valia mais que o dia inteiro.

A noite tinha sido dele. Só dele e do Feliciano Droga.

E amanhã? Amanhã era outro dia.

Mas agora, naquele momento, Geraldo flutuava na cozinha, feliz pra caralho, sem dever explicação pra ninguém.

E ele não pretendia tocar no chão tão cedo.

O sol entrou pela janela como tapa na cara.

Geraldo desceu do ar devagarinho, tênis surrado com cadarço solto tocando o chão frio pela primeira vez em horas. Dor de cabeça latejando, nariz entupido, boca com gosto de metal e remorso. Feliciano ainda roncava no sofá, uma poça de baba no estofado, corrente de ouro embaçada de suor seco.

Na TV que ninguém lembrou de desligar, o jornal reprisava a matéria da tarde anterior:

“Herói de bordo: engenheiro aeronáutico salva 160 vidas em pleno voo.”

Rand Oliveira de macacão azul limpo agora, sorriso ensaiado, falando sobre “trabalho em equipe” e “procedimento padrão”. O piloto do lado, condecoração no peito.

Feliciano acordou com um grunhido, ainda meio grogue no sofá, apontou pra TV com os olhos semicerrados:

— Mano… que horas são?

— Nove e meia.

— Ó lá… tão falando do teu avião. Mas eles tão dizendo cento e sessenta…

Geraldo desligou a TV com o controle que achou flutuando no chão.

— Foram cento e setenta e cinco.

— Como assim?

— Quinze pessoas no chão. Onde o avião ia cair. A TV não sabe disso.

Feliciano arregalou os olhos, agora bem acordado.

— Caralho, Geraldo. Tu salvou gente que nem tava no avião?

Geraldo não respondeu. Só foi até a cozinha, abriu a torneira, jogou água no rosto. Olhou pro espelho: olhos vermelhos, narinas ainda brancas, cara de quem envelheceu cinco anos numa noite só. A casa fede a cigarro apagado, suor e funk velho.

Olhou pro ímã na geladeira. Ainda ali. Sempre ali. O papel velho com telefone de pizzaria ainda preso. Ninguém da família ligou. Ninguém perguntou se ele pegou aquele voo. Ninguém nunca pergunta.

Feliciano levantou cambaleando.

— Caralho, minha mãe vai me matar.

Pegou o celular rachado, viu 27 chamadas perdidas, jogou no bolso. Deu um tapa no ombro do Geraldo.

— Valeu pela melhor noite da minha vida, herói. Qualquer coisa grita. Tô devendo um lotezinho do bom.

Geraldo só acenou com a cabeça. Feliciano saiu porta afora, corrente tilintando.

Silêncio de novo. O de sempre.

Geraldo abriu a janela, respirou o ar quente de Curitiba, cheio de fumaça de escapamento e cheiro de pão na chapa. Olhou pra rua: movimento normal de sábado, passando.

Na garagem, o Gol Bolinha Cinza Urban 2003. Duas portas, banco do motorista afundado. Esperando. Sempre esperando.

Geraldo olha pro carro. Podia entrar nele. Ir embora. Viver.

Não vai. Tinha uma maneira nova.

Subiu.

Voou baixo primeiro, rente aos telhados, depois mais alto. Passou pelo Centro Politécnico. Viu uma pessoa varrendo a porta, outra varrendo a calçada e xingando o filho pro mundo inteiro ouvir. Viu criança apontando pro céu, outra mãe puxou o filho pelo braço: “Para de inventar coisa, menino.”

Passou pelo centro. Baixada vazia, polícia revistando moleque na praça. Ninguém olhava pra cima. Ninguém nunca olhava.

Decidiu testar até onde ia o tal poder de “encontrar o que estava perdido”.

Fechou os olhos e desejou.

Primeiro achou uma aliança de casamento jogada num terreno baldio. Desceu, pegou e sabia exatamente a quem pertencia, deixou em cima de um muro. Ninguém viu.

Depois achou um revólver enferrujado no fundo do Rio Belém. Fez ele afundar ainda mais.

Depois achou um carregamento de cocaína pura escondido num caminhão no contorno sul. Fez o caminhão desviar antes de ir pra uma blitz armada para pegar ele mais pra frente.

Depois achou uma menina de 12 anos que tinha sumido há três dias. Estava trancada num quartinho no fundo de um bar no Alto da XV. Quebrou a porta com a mente, deixou aberta, subiu antes que alguém visse.

Ninguém olhou pra cima.

Voltou pra casa no fim da tarde. O céu já laranja, calor abafado, cheiro de chuva que não vem.

Pousou na laje de um prédio qualquer. Sentou na mureta. O cadarço direito do tênis se soltou sozinho. Geraldo olhou, mas não amarrou de volta. Tênis surrados com cadarço solto balançando no vazio.

O celular vibrou no bolso — o único que ainda tinha bateria. Notícia no WhatsApp do grupo da família que ele nunca responde:

“Aquele voo que quase caiu ontem? O herói é amigo do primo do tio! Olha a entrevista!”

Ninguém perguntou se ele tinha pegado aquele voo. Ninguém lembrava que ele tinha viajado.

Geraldo deixou o celular cair. Caiu vários andares e explodiu na calçada. Uma senhora gritou. Ninguém olhou pra cima.

Ficou ali até escurecer.

A cidade acendeu as luzes uma por uma. Milhares de janelas, milhares de vidas que ele poderia salvar de novo se quisesse. Mas ninguém estava pedindo.

Pensou no avião.

Pensou no Feliciano roncando.

Pensou no Rand sumindo com o crédito como fantasma.

Pensou que, no fim das contas, a única pessoa que tinha dito “valeu” era um traficante burro que nem sabia o próprio CPF.

Riu sozinho. Riso seco, sem graça.

Levantou devagar, limpou o nariz na manga da regata vinho que ainda não tinha trocado.

Olhou pra cidade inteira lá embaixo.

O Gol Bolinha ainda tá lá. Esperando.

— Salvei cento e setenta e cinco pessoas ontem. Hoje nem precisei.

Abriu os braços.

Subiu.

Não mergulhou, não fez curva, não deu loop. Só subiu reto, cada vez mais alto, até os prédios virarem caixinhas de fósforo, até o barulho da cidade sumir por completo.

Não olhou pra trás.

Não olhou pro Gol Bolinha.

Não desceu mais.

O céu ficou escuro, as estrelas acenderam, o vento gelou.

E Geraldo continuou subindo.

Sem tocar no chão.

Sem dever explicação pra ninguém.

Nunca mais.

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Sinopse Narrativa:

Geraldo acorda com poder de encontrar coisas perdidas. Durante voo para Guarulhos, avião sofre falha no trem de pouso. Geraldo conserta telepaticamente salvando 175 pessoas (160 dentro + 15 no chão), mas crédito vai para Rand Oliveira. Descobre poder de voar. Feliciano Droga o visita, é o único a reconhecê-lo como herói. Usam cocaína e voam juntos pela cidade. Geraldo salva mais pessoas no dia seguinte mas ninguém nota. Sobe ao céu e não volta mais.

Gênero Drama Existencial, Realismo Mágico
Tom Amargo, Catártico, Desesperançado
Timeline Curitiba
Versão Jota Poderes
Categoria Poderes Sobrenaturais, Tragédia
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Autodestruição e fuga, Heroísmo não reconhecido, Ingratidão e invisibilidade
Locais Aeroporto, Aeroporto Campo de Marte, Alto da XV, Avião, banheiro, casa, centro de Curitiba, Centro Politécnico, Céu noturno de Curitiba, Cozinha, Jardim Botânico, Laje de prédio, Ópera de Arame, Parolin, Quarto, Rio Belém, Sala, São Paulo, Táxi
Palavras-Chave 175 vidas, ascensão final, avião, cocaína, encontrar coisas perdidas, Feliciano Droga, heroísmo invisível, ingratidão, Rand Oliveira, voar
Geraldo salva 175 pessoas (160 no avião + 15 no chão onde cairia). Rand recebe crédito. Família não liga para saber se pegou o voo. Poderes: encontrar coisas perdidas telepaticamente, consertar mecânica com mente, voar. Voo: 10h20 para Guarulhos, assento 17A, falha às 11h07, pouso emergência Campo de Marte. TV reporta 160 vidas. Feliciano único a reconhecer. Noite de cocaína e voo juntos. Dia seguinte: acha aliança, revólver, carregamento de droga, menina desaparecida de 12 anos. Celular cai e explode. Sobe ao céu e não volta.
 

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