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Drones que Encontrei

Extensão: 1.914 palavras | Leitura: 10 min

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Jota abre a caixa nova no meio da sala e o cheiro de plástico quente invade tudo. Camiseta regata vinho colada no corpo pelo calor de Curitiba que insiste em fingir que é verão, mochila laranja jogada no canto, caderno marrom aberto na mesa com folhas espalhadas ao redor — anotações sobre frequências, rotas, especificações técnicas. Isqueiro amarelo segurando uma pilha delas, impedindo que voem. Tênis surrados jogados perto da porta, cadarço direito solto como sempre. Letra dele nas folhas. Mas ele não lembra de ter escrito aquilo.

São quatro mini drones na caixa. Todos menores que a palma da mão, hélices quase silenciosas, corpo de plástico leve mas resistente. Ele pega o primeiro, azul-cobalto, liga o botão lateral. O bicho levanta sozinho, paira na altura dos olhos, pisca uma luz suave como se cumprimentasse.

— Precoce — Jota fala baixo, testando o nome na boca.

O drone gira devagar, como se reconhecesse. Sobe até o teto, desce, faz um círculo em volta da cabeça dele. Conhece a sala. Conhece o corredor. Passa devagar pela estante, contorna a TV, desce até a cozinha e volta. Projeta um caminho de luzes azuis no chão, como se dissesse “é por aqui, não tropeça”.

Jota franze a testa.

Quando foi que ensinou isso pra ele?

Ele não lembra. Não lembra de programar. Não lembra de testar. Só lembra que Precoce sempre soube fazer isso. Ou será que não sempre? Será que só agora? A memória fica estranha, borrada nas bordas, como foto velha que pegou sol demais.

Pega o segundo drone. Preto, LEDs vermelhos piscando na base. Mais pesado que Precoce. Ele liga.

— Zubazuba.

O nome sai automático, como se sempre tivesse sido esse. O drone não sobe. Desce. Pousa na mesa, transforma as hélices em algo parecido com hovercraft, plana horizontal, vira lanterna de leitura. A luz vermelha ilumina as folhas espalhadas do caderno.

Jota pega uma das folhas. Lê:

“Zubazuba – modo lanterna ativado. Sensor de proximidade ajustado. Bateria: 4h contínuas.”

Letra dele. Data de três semanas atrás.

Ele não lembra de três semanas atrás.

Para.

Olha pra folha de novo. Três semanas. Vinte e um dias. Completamente em branco na memória. O que ele fez? Onde foi? Com quem falou? Programou drones. Escreveu anotações técnicas. E não lembra de nada disso.

O peito aperta.

E se continuar? E se daqui a três semanas ele esquecer dos drones? E se um dia acordar e Precoce estiver voando, mas ele não souber quem é Precoce, não souber que deu esse nome, não lembrar de ter colado LEDs, de ter ensinado rotas?

E se a memória continuar apagando?

Respira fundo. Guarda a folha de volta. Olha pra cima. Precoce continua voando em círculos lentos, vigiando, esperando. Zubazuba ilumina a mesa.

Jota pega o terceiro drone. Branco, menor ainda, sem LEDs. Ele olha pra caixa de ferramentas no chão, pega tiras de LED coloridos — azul, verde, vermelho, amarelo — e começa a colar na barriga do drone. Os dedos se movem sozinhos, sabem onde colar, como conectar, qual fio vai onde.

Em dois minutos tá pronto.

Dois minutos.

Ele olha pros próprios dedos. Como é que sabia fazer isso?

Liga o drone.

— Otebate.

O nome vem do nada. Ridículo. Perfeito.

Otebate sobe devagar, testa as luzes, pisca em sequência: azul, verde, vermelho, amarelo. Jota pega o celular, abre o app que já tá instalado (desde quando?), configura: “Toda vez que o celular tocar, Otebate sobe até o teto, gira, joga luz colorida nas paredes.”

Testa.

O celular toca.

Otebate dispara pro alto, chega no teto, começa a girar como bola de discoteca. As luzes coloridas explodem nas paredes, no chão, no rosto de Jota. O vento das hélices desce forte, bate na mesa.

O isqueiro amarelo tomba.

Solta uma faísca.

As folhas do caderno voam.

Papéis girando no ar, caindo, subindo de novo com o vento circular de Otebate. Azul, verde, vermelho, amarelo projetando nas folhas enquanto dançam. O quarto inteiro vira festa caótica.

Precoce e Zubazuba param, observam o caçula fazer show.

Jota desliga o alarme. Otebate desce devagar, pousa no braço do sofá, luzes piscando satisfeitas. As folhas caem no chão. O isqueiro parado de lado, ainda fumegando.

— Show-off — Jota ri, juntando as folhas.

Pega uma. Lê:

“Ferreirinha – ajuste de altitude. Testar modo silencioso. Verificar se ainda funciona a câmera frontal.”

Ferreirinha.

Jota para.

Quem é Ferreirinha?

Ele olha ao redor. Precoce no teto. Zubazuba na mesa. Otebate no sofá.

Cadê Ferreirinha?

A memória puxa algo. Drone verde-musgo, pequeno, rápido. Câmera frontal. Sumiu? Quebrou? Tá guardado?

Ou…

Entregou pro Rand.

A lembrança vem turva, incompleta. Rand apareceu. Pegou Ferreirinha. Guardou no bolso do macacão junto com as chaves do Gol, junto com o isqueiro amarelo que Jota deu antes de viajar. Rand cuida das coisas. Rand sempre cuida.

Mas quando foi isso? Por que entregou? Ferreirinha quebrou? Ou só quis que Rand guardasse, como guarda tudo que importa?

Não lembra. Só lembra que Ferreirinha existe. Ou existiu. Ou existe com Rand agora, voando em algum lugar que Jota não consegue alcançar.

O tempo fica estranho quando se trata dos drones.

Jota sacode a cabeça, guarda a folha de volta. O quarto ainda tem resquícios de luz colorida dançando nas paredes. Ele olha pra caixa. Tem um quarto drone lá dentro. Menor. Cinza. Sem nome ainda.

— Ridículo — ele decide, mas não tira da caixa ainda. — Você fica aí até eu descobrir o que fazer contigo.

Ridículo não responde. Óbvio.

Jota se levanta, vai até a janela. Lá fora, o Gol Bolinha Cinza Urban 2003 está estacionado no meio-fio, duas portas, janelas abertas porque o calor não dá trégua. Lataria fosca brilhando fraco no sol da tarde.

Precoce passa por ele, roça no ombro — quase acaricia — e vira na direção da janela aberta.

— Vai explorar? — Jota pergunta.

O drone pisca a luz azul uma vez. Sim.

Sai voando pela janela, desce a fachada do prédio, paira na altura do Gol. Jota se inclina pra fora, observa. Precoce entra pela janela do motorista, desaparece dentro do carro.

Jota sorri.

Precoce explorando. Faz parte.

O drone reaparece pelo outro lado, sai pela janela do passageiro, sobe de volta. A luz azul pisca diferente agora. Mais rápida. Irregular. Como se tivesse visto algo que não devia.

Entra pela janela do apartamento e pousa no ombro de Jota. Vibra baixinho, inquieto.

— Achou alguma coisa interessante lá dentro?

Precoce não responde. Mas a luz continua piscando estranha. Como se carregasse segredo.

Jota volta pra sala. Zubazuba continua na mesa, iluminando o caderno. Ele senta, olha as folhas espalhadas.

Precoce decola do ombro dele, vai até a mochila laranja no canto, circula ao redor, desce, entra dentro. Sai com a alça presa em baixo do corpo, tenta levantar. Não consegue. Pesado demais.

— Idiota — Jota ri. — Cê não é guindaste.

Precoce desiste, larga a alça, sobe de volta. Parece envergonhado. Luzes piscando mais devagar.

Jota pega o caderno, anota:

“Ridículo – pensar numa função. Talvez sensor de fumaça? Ou só companhia mesmo.”

Para. Lê o que escreveu.

Companhia.

É isso, né?

Não são ferramentas. Não são só gadgets. São companhia. Precoce que explora. Zubazuba que ilumina. Otebate que faz festa. Ridículo que ainda tá descobrindo quem é. Ferreirinha que foi entregue pro Rand mas ainda tá na memória, como pessoa que mudou de cidade mas você ainda pensa nela de vez em quando.

A noite cai devagar. Curitiba esfria. Jota fecha a janela, acende a luz pequena da cozinha, deixa a sala no escuro. Os drones continuam voando. Precoce fazendo ronda. Zubazuba iluminando o caderno (que ninguém tá lendo). Otebate piscando colorido de vez em quando, só porque pode.

Jota pega a caixa de novo. Abre. Pega Ridículo.

Cinza. Pequeno. Sem LEDs. Sem programação.

Liga.

Ridículo sobe.

Sozinho.

Sem comando. Sem gesto. Sem nada.

Flutua até o teto e fica lá. Parado. Observando. Como se sempre soubesse o que fazer.

Jota sorri.

— Ridículo mesmo.

Ele deita no sofá. Apaga a luz pequena da cozinha. Só ficam os pontinhos de LED dançando no escuro. Azul de Precoce fazendo círculos no teto. Vermelho de Zubazuba piscando baixo na mesa. Colorido de Otebate projetando arco-íris na parede. Cinza de Ridículo flutuando silencioso, observando tudo.

A casa inteira respira com eles.

Jota levanta a mão direita, faz um gesto mínimo: dedo pra cima. Precoce sobe. Dedo pra baixo. Precoce desce. Círculo no ar. Precoce gira. Não precisa controle remoto. Não precisa app. Só a mão. Só o gesto.

Para.

Olha pra própria mão.

Não programou isso. Não existe sensor de gesto nos drones. Tecnicamente impossível. Mas funciona.

Como o isqueiro amarelo que sempre acende na primeira. Como o cadarço direito que sempre solta no momento exato. Como Ferreirinha que sumiu mas ainda existe. Como os drones que obedecem gesto sem sensor.

Há coisas que funcionam sem explicação.

Há coisas que ele sempre soube fazer, mesmo quando não lembra de ter aprendido.

A pergunta fica sem resposta. E talvez seja melhor assim. Talvez não importe se os drones são novos ou antigos, se ele comprou ontem ou comprou há meses e esqueceu. Importa que agora estão aqui. Importa que Precoce conhece cada canto da casa. Importa que Zubazuba ilumina quando precisa. Importa que Otebate transforma o teto em festa toda vez que o celular toca. Importa que Ridículo descobriu sozinho que sua função é observar.

Importa que Ferreirinha foi entregue pro Rand. E Rand cuida. Rand sempre cuida.

Jota fecha os olhos. Precoce desce devagar, pousa na mesa de centro, apaga as luzes. Zubazuba faz o mesmo. Otebate pisca uma última vez — azul, verde, vermelho, amarelo — e desliga. Ridículo continua no teto. Observando. Sempre.

Silêncio.

Só a respiração dele. E o zumbido baixíssimo das hélices em stand-by, vibrando quase imperceptível, como coração eletrônico que nunca para de bater.

Jota abre os olhos de novo. Olha pro teto escuro. Ridículo lá em cima, invisível, mas presente.

Amanhã vai procurar Ferreirinha. Ou aceitar que Ferreirinha tá com Rand, seguro, guardado, junto com o Gol e o isqueiro e tudo que importa. Rand cuida. Rand sempre cuida das coisas que Jota esquece mas não pode perder.

Amanhã vai adaptar mais um.

Porque os drones — Precoce, Zubazuba, Otebate, Ridículo, Ferreirinha com Rand — são a prova de que dá pra fazer qualquer coisa levitar, se você souber onde colar os LEDs e acreditar que sempre soube fazer isso, mesmo quando não lembra de ter aprendido.

Jota dorme sorrindo.

Lá fora, o Gol Bolinha espera, janelas abertas, segredos guardados no banco traseiro, pronto pra ser explorado de novo amanhã.

E no teto, invisíveis no escuro, os drones descansam.

Mas nunca dormem de verdade.

Só esperam o próximo gesto da mão.

O próximo celular tocando.

A próxima faísca do isqueiro.

A próxima função a ser descoberta.

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Sinopse Narrativa:

Jota abre uma caixa com quatro mini drones que ele não lembra de ter comprado ou programado, mas que obedecem seus comandos e têm funções específicas. Descobre anotações técnicas na sua própria letra sobre eles, datadas de três semanas atrás, mas não tem memória desse período. Os drones respondem a gestos sem sensores programados. Lembra vagamente de um quinto drone, Ferreirinha, que entregou ao Rand.

Gênero Realismo Mágico
Tom Inquietante, Nostálgico, Onírico
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Tecnologia Mística
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Companhia e solidão, Perda de memória, Tecnologia e magia
Locais Apartamento, Curitiba, Sala
Palavras-Chave drones, Ferreirinha, memória, Otebate, Precoce, programação inexplicável, Rand, Ridículo, Zubazuba
Cinco drones nomeados: Precoce (azul-cobalto, projeta caminhos de luz, explora), Zubazuba (preto com LEDs vermelhos, modo lanterna), Otebate (branco com LEDs coloridos, responde a toques do celular), Ridículo (cinza, observador silencioso), Ferreirinha (verde-musgo com câmera frontal, entregue ao Rand). Drones respondem a gestos sem sensores programados. Jota descobriu ter três semanas de memória apagada. Isqueiro sempre acende na primeira.
 

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