Jota estava no ar.
O corpo flutuava no centro exato do Dolby Theatre, braços abertos, regata vinho esticada no peito largo, tênis surrado balançando solto oito metros acima da plateia. O elástico vermelho grosso pendia do cinto até o púlpito lá embaixo, fingindo tensão, simulando física, prometendo sustentação que nunca deu. Mas não sustentava nada. Nunca sustentou.
Ele rodopiava devagar no ar, dono do céu dentro daquele espaço fechado. As luzes douradas do teatro batiam no corpo grande, no rosto barbudo, nos olhos que brilhavam com aquela mistura de triunfo e ironia que só quem sabe que está trapaceando o mundo inteiro consegue ter. A plateia inteira prendia o fôlego. Milhares de pessoas em silêncio absoluto. Câmeras em todos os ângulos. Tapete vermelho lá embaixo parecendo sangue seco.
Jota sorriu de canto.
Ele sabia.
O elástico era mentira.
Três horas antes.
Backstage do Dolby Theatre cheirava a perfume caro, nervosismo e ambição. Jota estava sentado numa cadeira de plástico branco, mochila laranja jogada no chão ao lado, caderno marrom aberto no colo. Escrevia, pressionando a caneta com força:
“Lembrar: 8 metros. Nem um centímetro a mais, nem a menos.”
Fechou o caderno, guardou na mochila. Do bolso da calça preta tirou o isqueiro amarelo, o sobrevivente, aquele que sempre acendia na primeira. Girou a rodinha. Chama pequena e firme apareceu. Jota ficou olhando por alguns segundos, como se estivesse lendo algo no fogo. Ritual de sorte. Sempre fazia isso antes de entrar em qualquer lugar importante.
— Vai dar certo, Gera — a voz veio de trás.
Jota virou. Mama estava encostada na parede, braços cruzados, sorriso discreto no rosto. Mama sempre teve aquele jeito de aparecer na hora certa, dizer pouco, acertar tudo.
— Você sempre soube voar — ela disse, se aproximando. — Só esqueceu disso algumas vezes.
Jota apagou o isqueiro, guardou de volta no bolso.
— O elástico é só pro show, né? — Mama perguntou, mas já sabia a resposta.
— É só teatro — Jota confirmou. — Mas precisa parecer real. Senão ninguém acredita.
Ela assentiu. Abraçou ele rápido, apertou o ombro largo com força.
— Vai lá e voa, Gera. Eu vou pra coxia assistir.
Ficou mais um tempo no camarim. Deixou a produção terminar o trabalho dele. Prenderam um microfone sem fio na regata antes de ele se levantar. Pegou a mochila laranja, jogou nas costas. O peso do caderno e do isqueiro era quase nada, mas ele gostava de sentir. Ajustou a regata vinho por baixo do smoking preto impecável que a produção tinha deixado no camarim. Olhou pro espelho. 1,83 de altura, 110 quilos de presença, barba cheia, cabelo bagunçado. Parecia um urso vestido pra casamento.
Perfeito.
Saiu do camarim. Corredor cheio de gente correndo, gritando no ponto, ajustando microfone. No meio da confusão, um cara de macacão azul apareceu do nada ajustando uma caixa de som. Rand Oliveira. O técnico fantasma. Jota nem se assustou mais. Rand sempre aparecia e sumia assim, como se tivesse porta secreta em todo lugar.
— Tá tudo certo no palco — Rand disse sem olhar, apertando parafuso invisível. — Elástico tá firme. Não que você precise, mas tá firme.
— Valeu, Rand — Jota respondeu.
Rand sumiu virando a esquina. Literalmente. Um segundo estava lá, no outro já não estava mais.
Jota continuou andando.
Chegou na coxia. Mama já estava lá, acenou. Respirou fundo. Tirou o paletó do smoking, pendurou num cabide torto encostado na parede. Deixou o smoking preto ali, sozinho, enquanto ele ficava só de regata vinho. Encostou a mochila laranja na parede do lado. Músculos grandes marcados no tecido suado. Podia ouvir o apresentador no palco anunciando a próxima categoria. “Melhor Efeito Visual”. Olhou e viu alguém gesticular no canto da plateia. Espremido na parede, Rosquinha acenava feito louco. Estava próximo a duas atrizes famosas, todo produzido, camisa brilhante, sorriso gigante.
— VAI CHÔ! — Rosquinha gritou, e algumas pessoas riram.
Jota não escutava nada ali, mas entendeu com uma leitura labial. Acenou de volta. Sorriu.
O apresentador chamou:
— Com vocês, para apresentar a categoria de Melhor Efeito Visual… Jota!
Aplausos explodiram.
Jota entrou no palco.
As luzes bateram nele com força. Calor imediato. Olhos grudados. Câmeras em todos os ângulos. O púlpito no centro do palco parecia pequeno, frágil. Jota caminhou até lá com passos pesados, tênis surrado fazendo barulho surdo no chão de madeira envernizada. O cadarço direito já estava meio solto. Sempre ficava.
Parou no púlpito. Olhou pra plateia. Imaginou alguns rostos entre a multidão. Daslu estaria na quinta fileira, loira impecável, vestido preto justo, braços cruzados embaixo dos seios, olhar gelado. Jota sentiu aquela pontada conhecida no peito, mas ignorou. Hoje não era dia de sofrer por Daslu.
Na décima fileira, Little Boobs estaria sentada ao lado de uma atriz mais velha. Cabelo ruivo caindo nos ombros, decote generoso, sorriso curioso.
Ligou o microfone.
— Boa noite — a voz saiu grave, segura. — Vim aqui apresentar a categoria de Melhor Efeito Visual. Mas antes… preciso mostrar uma coisa.
Silêncio curioso tomou conta do teatro.
Um elástico vermelho desceu do urdimento, já amarrado no púlpito. Grosso, uns quatro metros, balançando devagar. A plateia murmurou confusa.
— O segredo de qualquer efeito especial — Jota disse, pegando a ponta solta — é a tensão.
Prendeu o elástico no cinto da calça. Ficou esticado, vermelho vibrante contra as luzes douradas do teatro.
— Oito metros pra cima — Jota continuou, sorrindo de canto — é o ponto perfeito.
Ele puxou o elástico pra trás, como se fosse estilingue gigante. A plateia prendeu o fôlego. Rosquinha estava de pé, mão na boca. Mama na coxia, sorriso contido.
Jota soltou.
E subiu.
O corpo disparou pro alto. O elástico esticava, esticava, esticava… mas na verdade Jota estava voando sozinho. O elástico só fingia que trabalhava. Ele flutuava natural, sem esforço, braços abertos, regata vinho colada no peito suado, tênis surrado balançando solto no ar.
A plateia explodiu.
Aplausos tímidos viraram trovão. Gritos. Câmeras girando feito loucas tentando acompanhar. Jota rodopiava devagar oito metros acima do chão, dono absoluto daquele espaço. Fez um looping completo, desceu até quase tocar o púlpito, subiu de novo. O elástico vermelho balançava solto, fingindo tensão, fingindo física.
Jota sorria.
Ele sabia que não precisava de nada.
Voou sobre outras fileiras. Rostos conhecidos olhavam pra cima de vários pontos — cada um do seu jeito, cada um torcendo à sua maneira. Alguns ele nem sabia que carregava.
O primeiro que reconheceu de verdade foi Leandro Costa. Changeman. Câmera no ombro, sorriso discreto, filmando de um ângulo impossível — como sempre fazia. Quando Jota passou por cima dele, Changeman virou fumaça. Câmera e tudo.
Voou em direção à décima fileira — onde havia imaginado Little Boobs. A figura estava lá, sorriso curioso, cabelo ruivo, exatamente como ele tinha projetado. Quando o vento do voo chegou nela, desfez. Fumaça. Sem barulho.
Jota continuou.
Foi até a quinta fileira. Daslu estava lá, imóvel, olhar âmbar gelado apontado pra cima — a projeção perfeita, como sempre. Quando Jota passou por cima dela, ela inclinou levemente a cabeça, como quem finalmente reconhece algo que já sabia há muito tempo, e sumiu. No segundo antes de ir, havia um sorriso pequenininho no canto da boca. Quase invisível.
Jota viu.
— OITO METROS! — gritou lá do alto. — Nem um centímetro a mais, nem a menos!
A plateia vibrava. Rosquinha pulava feito criança. Mama batia palma devagar na coxia, sorriso orgulhoso no rosto.
E então aconteceu.
O cadarço direito do tênis surrado soltou.
Ele olhou pra baixo. O cadarço pendia solto, balançando no ar como segunda cobra vermelha.
E no exato mesmo instante—
O elástico se rompeu.
SNAP.
Som seco. Borracha vermelha se partindo ao meio. A ponta amarrada no cinto chicoteou pro lado. A outra ponta caiu no púlpito feito cobra morta.
Silêncio.
A plateia inteira congelou.
Jota parou de rodar. Ficou flutuando imóvel no centro do teatro. Sem elástico. Sem suporte. Sem nada.
Só ele. No ar. Oito metros acima do chão.
O teatro inteiro percebeu.
Ele nunca tinha precisado do elástico.
Nunca.
O silêncio durou três segundos eternos.
E então—
A plateia explodiu de novo. Mas dessa vez era diferente. Não era aplauso de show. Era aplauso de revelação. De choque. De não-acredito-no-que-estou-vendo.
Jota abriu os braços. Sorriu largo. Regata vinho esticada no peito, tênis surrado com cadarço solto balançando.
Ele rodopiou uma última vez. Lento. Majestoso. Dono do céu.
Jota desceu devagar. Pousou no palco com leveza surpreendente pros 110 quilos. O impacto foi quase nenhum. Tênis surrado tocou o chão sem barulho.
— Melhor Efeito Visual — disse, voz firme — é aquele que você não percebe que é efeito.
A plateia levantou inteira. Standing ovation. Aplausos ensurdecedores. Luzes piscando. Câmeras captando tudo. Lá fora, o mundo aplaudia também.
Rosquinha chorava de tanto rir. Mama batia palma com força.
Jota olhou pra cima. O teto do Dolby Theatre parecia mais baixo agora. Como se ele tivesse crescido. Como se o mundo inteiro tivesse encolhido só pra caber na palma da mão dele.
Ele acenou. Abriu o envelope que estava no púlpito desde o início. Leu o nome em voz alta — uma nota de rodapé mundana depois de ter tocado o céu. Alguém subiu no palco para buscar o troféu. Jota nem viu direito. Saiu enquanto os aplausos ainda trovejavam.
Backstage, Rand Oliveira apareceu do nada de novo, macacão azul, chave de fenda na mão.
— O elástico rompeu na hora certa — Rand disse, sorrindo. — Timing perfeito.
— Não foi o elástico — Jota respondeu, pegando a mochila laranja do chão. — Foi o cadarço.
Rand deu risada. Sumiu de novo.
Jota enfiou a mão no bolso. Pegou o isqueiro amarelo. Girou a rodinha. Chama acendeu na primeira. Sempre acendia.
Olhou pro fogo por alguns segundos.
Sorriu.
Guardou o isqueiro de volta.
E foi embora.
Lá dentro do teatro, os aplausos ainda não tinham parado.
