O bosque do Capão da Imbuia era denso, quase impenetrável. Árvores altas com troncos grossos e galhos entrelaçados formavam um teto verde que filtrava a luz do sol, deixando apenas clarões difusos iluminarem o chão coberto de folhas mortas e raízes expostas. O cheiro de terra úmida e musgo impregnava o ar, pesado, sufocante. Jota abriu caminho entre os arbustos, mochila laranja nas costas balançando a cada passo, tênis surrado afundando na terra fofa. O cadarço direito estava solto, como sempre, se arrastando no chão.
Atrás dele, Popó seguia em silêncio, corpo grande movendo-se com cuidado entre os galhos baixos. Rakami vinha por último, olhos atentos a cada movimento na vegetação. Nenhum dos três falava. Não precisavam. Sabiam pra onde iam e por quê, mesmo sem conseguir explicar.
A casa apareceu no centro do bosque como aparição fantasmagórica.
Velha. Descascada. Paredes de madeira com tinta morta revelando camadas de cores antigas, cada uma memória de morador que já não existia. O telhado estava parcialmente desabado, telhas quebradas espalhadas pelo chão ao redor. Janelas trancadas com tábuas pregadas de forma torta, porta da frente entreaberta rangendo sozinha com o vento que não existia. A casa parecia ter sido construída pra ser esquecida, escondida no meio do bosque, esperando por quem soubesse procurar.
Jota parou na frente da varanda rangente, olhou pra trás. Popó assentiu uma vez. Rakami fez sinal com a cabeça. Entraram.
O cheiro de mofo e madeira úmida os engoliu assim que cruzaram a porta. A sala era pequena, chão de tábuas soltas estalando em lugares específicos, móveis cobertos por lençóis empoeirados, teias de aranha nos cantos. Luz entrando pelas frestas das janelas trancadas desenhava linhas douradas na penumbra. Silêncio pesado, como se a casa respirasse devagar, esperando.
Popó olhou pro teto. Jota apontou pra escada estreita que subia pro sótão. Popó subiu sem fazer barulho, passos leves apesar do tamanho, desaparecendo na escuridão do andar de cima.
Rakami olhou pro chão. Jota apontou pra porta embaixo da escada, entrada do porão. Rakami desceu, engolido pela escuridão fria que subia como respiração gelada.
Jota ficou no meio.
Atravessou a sala, passou pela cozinha onde panelas enferrujadas pendiam de ganchos como sinos mudos, entrou no quarto do fundo. Cama velha com colchão rasgado, armário de madeira escura encostado na parede lateral. Ele se aproximou do armário, empurrou com força. A madeira gemeu, mas se moveu, revelando uma porta falsa atrás. Estreita, baixa, pintada da mesma cor da parede pra não ser vista.
Jota se agachou, passou pela porta falsa, fechou atrás de si. O espaço era apertado, claustrofóbico, cheirando a mofo concentrado. Ele se encolheu no canto, costas contra a parede úmida, mochila laranja no colo, respiração controlada.
Esperou.
Silêncio absoluto.
Foi quando a sensação chegou.
Déjà-vu.
Não o déjà-vu comum, aquele que passa rápido como arrepio. Era denso, pesado, como lembrança física atravessando a pele. Jota olhou ao redor no espaço escuro, coração acelerando.
Ele já tinha estado ali.
Mesma casa. Mesmo esconderijo. Mesma posição.
Popó no sótão. Rakami no porão. Ele atrás do armário, porta falsa fechada.
Já tinha acontecido antes.
Mas quando?
Jota abriu a mochila laranja devagar, mãos tremendo levemente. Pegou o caderno de capa dura marrom de dentro, folheou as páginas amassadas na penumbra. O ímã de geladeira do Posto Esso estava grudado na capa, cinza fosco, logo quase apagado.
E estava brilhando.
Azul pálido.
Fraco, mas visível.
Jota congelou, olhando pro ímã. Ele nunca brilhava. Nunca esquentava. Ficava inerte, testemunha muda. Mas agora brilhava, pulsando devagar como coração luminoso.
Popó.
O irmão estava no sótão, bem acima, atravessando as tábuas velhas. Família próxima. O ímã reagia, deduziu.
Jota fechou os olhos, respirou fundo. A sensação de déjà-vu não passava. Crescia. Enchia o espaço apertado como água subindo devagar. Ele sabia o que vinha agora. Já tinha vivido isso. Já tinha se escondido ali. Já tinha ouvido os passos chegando.
E então ouviu.
Galhos quebrando na borda do bosque.
Vozes baixas.
Passos pesados se aproximando da casa.
A porta da frente se abriu com rangido longo que ecoou pela casa inteira.
Jota prendeu a respiração.
Passos entraram. Vários. Mais de uma pessoa. Mais de duas. Um grupo.
Voz grave, calma, autoritária:
— Eles estão aqui. Eu sei que estão.
Rand Oliveira.
Jota reconheceu a voz imediatamente. O macacão azul, as ferramentas no cinto, o jeito de aparecer e desaparecer. Mas agora Rand não estava ajudando. Estava caçando.
— Tem certeza? — outra voz, mais baixa, quase sussurrada. Movendo-se como fumaça entre as palavras.
Sandman.
Leandro Costa, mas transformado. Roupas escuras, capuz cobrindo metade do rosto, movimentos silenciosos como sombra deslizando.
— Tenho. — Rand respondeu. — Procurem cada cômodo. Sótão, porão, quartos. Eles não saem daqui.
Mais passos. Mais vozes.
— Esse lugar é nojento. — voz feminina, debochada, rindo baixo.
Maju Kuzito.
Alta, pernas longas, corpo magro mas forte. Jota imaginou ela andando pela sala, olhos cor de mel brilhando na penumbra, sorriso arrogante no rosto.
— Foca, Maju. — outra voz feminina, baixa, séria.
Cavala.
Corpo de predadora, silenciosa, eficiente. Movendo-se sem fazer barulho, cada passo calculado.
— Eu vou pro segundo andar. — voz aguda mas firme.
Little Boobs.
Baixinha, mas perigosa. Surpreendentemente mortal quando precisava.
Jota ouviu os passos se dividirem. Alguém subindo a escada pro sótão. Alguém descendo pro porão. Alguém andando pelo corredor em direção aos quartos.
Popó. Rakami.
Eles iam ser encontrados.
O ímã na mão de Jota brilhou mais forte, azul pálido pulsando rápido. Popó estava perto. Muito perto. Alguém tinha subido pro sótão.
Jota apertou o ímã contra o peito, como se pudesse enviar aviso silencioso pro irmão. Fica quieto. Não se mexe. Fica quieto.
Passos no corredor.
Pesados. Firmes.
Pararam na porta do quarto.
Jota congelou. Respiração presa. Coração batendo tão alto que parecia ecoar no espaço apertado.
A porta do quarto rangeu ao abrir.
Passos entrando.
Devagar.
Sandman.
Jota sabia sem ver. Reconhecia o silêncio dele, o jeito de se mover como se flutuasse. Sandman parou no meio do quarto, Jota ouviu o tecido da roupa escura roçando.
Silêncio.
Eternos segundos.
O cadarço direito do tênis surrado de Jota estava solto, cordão se arrastando no chão de madeira.
E bateu.
TAC.
O som foi baixo, quase imperceptível.
Mas Sandman ouviu.
Jota sentiu o corpo inteiro gelar.
Passos se aproximando do armário.
Devagar.
TAC. TAC.
O cadarço continuou batendo no chão conforme Jota tentava encolher o pé.
Sandman parou na frente do armário.
Jota ouviu a respiração dele do outro lado da madeira. Calma. Controlada. Esperando.
Uma mão tocou o armário.
Empurrou.
A madeira gemeu alto, som agudo ecoando.
O armário se moveu alguns centímetros.
A porta falsa atrás ficou visível.
Sandman empurrou de novo.
RANGE.
A madeira velha protestou, mas não abriu.
Jota estava do outro lado, costas pressionadas contra a parede úmida, mão apertando o ímã brilhante, outra mão na boca pra abafar a respiração.
Sandman inclinou a cabeça, Jota ouviu o tecido do capuz roçando.
— …
Silêncio.
Voz de Rand gritando de outro cômodo:
— Achou algo?
Sandman ficou parado por mais três segundos.
Depois respondeu, voz baixa:
— …Não. Nada aqui.
Passos se afastando.
Saindo do quarto.
Jota soltou o ar devagar, corpo tremendo, suor escorrendo pelas costas, grudando a camiseta regata vinho na pele. O isqueiro amarelo no bolso da calça moletom estava quente, esquentando em reação ao ímã brilhante.
Quase.
Quase foi descoberto.
Ele olhou pro ímã na mão. Brilhava ainda mais forte agora, azul elétrico pulsando rápido.
Popó.
Vozes na sala.
Jota encostou o ouvido na madeira da porta falsa, tentando escutar.
— Não tem ninguém no porão. — Cavala.
— Sótão vazio também. — Little Boobs.
— Impossível. — Rand, voz firme. — Eles entraram aqui. Eu vi.
— Talvez saíram pela janela. — Maju, debochada.
— As janelas estão pregadas. — Sandman, calmo. — Eles estão aqui. Só estão bem escondidos.
Silêncio.
Passos andando pela casa de novo.
Mais devagar agora.
Atentos.
Jota fechou os olhos. O ímã continuava brilhando. Popó continuava vivo. Rakami continuava escondido.
Esperem. Só esperem.
Minutos passaram.
Ou horas.
O tempo esticou como elástico prestes a romper.
Finalmente, a voz de Rand:
— Não estão aqui. Devem ter ido pra outra casa no bosque.
— Tem outras casas? — Little Boobs.
— Tem. Três, quatro. Vamos procurar as outras.
Passos saindo.
Porta da frente abrindo.
Fechando.
Silêncio voltou.
Jota esperou. 1 minuto. 2 minutos. 5 minutos.
Nada.
O ímã parou de brilhar devagar, azul pálido desaparecendo até voltar ao cinza fosco normal.
Jota abriu a porta falsa, empurrou o armário, saiu do esconderijo.
O quarto estava vazio. Penumbra silenciosa. Cheiro de mofo.
Ele atravessou a casa, voltou pra sala.
Popó estava descendo do sótão, rosto suado, mas tranquilo. Rakami estava subindo do porão, olhos brilhando na penumbra, respiração controlada.
Os três se olharam.
Nenhum falou.
Popó fez aceno com a cabeça.
Rakami sorriu de canto.
Jota assentiu.
Continuavam vivos.
Jota caminhou até a janela da frente, olhou pelas frestas das tábuas pregadas.
O bosque do Capão da Imbuia escurecia devagar. Sol se pondo entre as árvores altas, luz dourada sumindo, sombras crescendo.
A sensação de déjà-vu voltou.
Mais forte.
Mais pesada.
Ele olhou pra casa velha ao redor. Paredes descascadas. Chão que estalava. Móveis cobertos de pó.
Já tinha estado ali.
Já tinha se escondido.
Já tinha ouvido Rand procurando.
Já tinha…
A escuridão caiu.
Como cortina.
Abrupta.
Total.
Jota piscou.
Estava de volta na borda do bosque.
Árvores densas à frente. Luz do sol filtrando pelas folhas. Cheiro de terra úmida.
Popó ao lado esquerdo. Rakami ao lado direito.
Os três olhando pra casa velha no centro do bosque.
Como se acabassem de chegar.
Popó olhou pra Jota.
— Vamos.
Jota congelou.
— …Já fizemos isso antes.
Popó franziu a testa.
— Fizemos?
— Já estivemos naquela casa. Já nos escondemos. Já…
Rakami olhou pra ele, confuso.
— Do que você tá falando, Jota?
Jota olhou pros dois.
Eles não lembravam.
Só ele lembrava.
Só ele sabia que já tinham vivido isso. Que já tinham se escondido. Que Rand e os outros já tinham procurado. Que já tinham escapado.
E que ia acontecer de novo.
Popó começou a andar.
— Vamos logo. Eles vêm atrás.
Rakami seguiu.
Jota ficou parado por mais dois segundos, olhando pra casa velha no centro do bosque. Paredes descascadas. Telhado desabado. Porta entreaberta.
Loop.
Ele sabia o que ia acontecer.
Ia entrar. Ia se esconder atrás do armário. Popó no sótão. Rakami no porão. O ímã ia brilhar. Sandman ia empurrar o armário. Eles iam escapar.
E depois a escuridão ia cair de novo.
E eles iam voltar pra borda do bosque.
E ia recomeçar.
De novo.
E de novo.
E de novo.
Jota respirou fundo, ajeitou a mochila laranja nas costas, e começou a andar.
Popó e Rakami já estavam na varanda da casa, entrando.
Jota os seguiu.
A casa os engoliu.
Mofo. Madeira úmida. Silêncio pesado.
Popó subiu pro sótão sem falar nada.
Rakami desceu pro porão.
Jota atravessou a sala, passou pela cozinha, entrou no quarto do fundo.
Empurrou o armário.
Porta falsa.
Entrou.
Fechou atrás de si.
Escuridão apertada.
Cheiro de mofo concentrado.
Ele abriu a mochila laranja, pegou o caderno marrom, olhou pro ímã do Posto Esso grudado na capa.
Ainda não brilhava.
Mas ia brilhar.
Daqui a pouco.
Quando Popó estivesse no sótão.
Quando os perseguidores chegassem.
Jota fechou os olhos, encostou a cabeça na parede úmida, e esperou.
De novo.
Sons na borda do bosque.
Galhos quebrando.
Vozes baixas.
Porta da frente abrindo.
Voz grave, calma, autoritária:
— Eles estão aqui. Eu sei que estão.
Rand.
De novo.
Jota apertou o ímã contra o peito, sentindo o brilho azul começar a pulsar através dos dedos.
O loop continuava.
Ele sabia como terminava.
Mas não conseguia sair.
Nunca conseguia sair.
