Capa do Capítulo

Eu Fico

Extensão: 2.273 palavras | Leitura: 12 min

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A garoa fina de Curitiba escorria pelo para-brisa do Gol Bolinha Cinza Urban 2003, estacionado torto na calçada da rua. O motor ainda tiquetaqueava, esfriando o etanol, enquanto Jota, 110 kg de camiseta regata vinho rasgada e suor frio, descia com a mochila laranja pendurada num ombro só. O cadarço do tênis esquerdo, óbvio, já estava solto, arrastando no asfalto gelado como se soubesse que ia precisar salvar ele mais tarde.

Popó desceu do carona bufando.

— Jota, tá frio pra caralho, fecha esse vidro — resmungou, batendo a porta com força demais. O alarme Positron apitou três vezes, ecoando no quarteirão inteiro.

Jota só riu, baixo, porque já tinha tomado meia bala laranja no caminho. O gosto ainda queimava a garganta.

A casa era a de sempre: dois andares, garagem aberta, luz amarelada escapando pelas frestas da persiana. Pertencia ao primo de um amigo de Beagá, mas ninguém nunca lembrava o nome do primo. Só sabiam que os pais dele eram evangélicos e desciam a escada de chinelo de vez em quando oferecendo suco de laranja. Era exatamente por isso que a gente marcava ali.

Entraram. Leandro Costa, o Barão Vermelho, já estava largado no sofá de veludo cotelê marrom, pernas abertas, celular na mão. Beagá mexia no som, mãos tremendo. Era a primeira vez dele. Jota sabia. Mas ninguém ia falar nada. Rosquinha, de short jeans rasgado e regata cavada, dançava sozinho no canto, tentando não pensar no pai que tinha expulsado ele de casa três dias atrás. A bala laranja ajudava a esquecer.

— Chegaram os reis do Capão — anunciou Rosquinha, abrindo os braços. — Trouxe a lista, Chô?

Jota jogou a mochila laranja no chão. Ela caiu de lado, abriu sozinha, e o caderno de capa dura marrom rolou até parar perto do pé da mesa de centro. Abriu com o pé. Página em branco, caneta bic azul caindo do elástico.

— Lista de quê? — perguntou, já sabendo que ninguém ia responder direito.

— De quem vai pro céu e quem vai pro inferno, óbvio — disse Beagá, rindo nervoso. — Hoje a gente cadastra.

Na mesa de centro: montinhos de pó branco tortos, cartelas de comprimidos prateados, um prato com umas dez balas laranja brilhando como pirulitos do capeta. Caveirinha estampada em relevo. Na TV de tubo, Star Wars Episódio IV, volume alto demais. Era o disfarce oficial: se os velhos descessem, a gente fingia que tava maratonando.

Popó sentou no chão, costas na parede, olhando tudo com cara de quem já quer ir embora.

— Vamos fazer isso rápido — ele murmurou. — Eu dirijo depois.

Jota riu. Pegou uma bala laranja com dois dedos, como quem pega hóstia.

— Relaxa, irmão. Hoje eu fico.

Colocou na língua. Derreteu rápido. Gosto de metal quente, verão queimado, promessa de merda. Engoliu seco.

Rosquinha já estava na segunda.

— Essa aqui bate diferente, Chô. É de laranja mesmo ou é só marketing do capeta?

Barão Vermelho esticou a identidade na mesa, sorrindo. Engraçado: vendia o dia inteiro, nunca tinha provado. Até hoje.

— Começa por mim. Nome completo, RG, tudo. Quero entrar na lista VIP.

Jota abriu o caderno. A caneta falhou duas vezes. Riscou o nome dele torto. A letra saiu grande, tremida, como se já soubesse que aquilo ali não ia prestar pra porra nenhuma.

Rand Oliveira apareceu na porta da cozinha, de macacão azul sujo de graxa, segurando uma chave de fenda.

— Tem movimento lá em cima — falou, seco.

Beagá virou a cabeça.

— Que tipo de movimento?

Mas Rand já tinha sumido. Ninguém perguntou pra onde. Rand era assim: aparecia, soltava meia informação, evaporava.

Popó cutucou Jota com o pé.

— Tá ouvindo? Vamos embora logo.

Jota só sorriu, os dentes já começando a ranger de leve. Pegou outra bala. A segunda desceu mais fácil.

Lá fora, a garoa engrossava. O cadarço do tênis esquerdo arrastava no chão, cada vez mais solto, como se soubesse que a noite ainda ia precisar dele.

O pó branco parecia neve suja. Jota tentava separar carreiras com um cartão de crédito velho, mas a mão já não obedecia. O cartão escorregava, o pó espalhava. Ele ria sozinho, baixo.

— Jota, para de brincar e separa logo essa porra — disse Beagá, nervoso, olhando pra escada toda hora.

— Tá separando, tá separando — respondeu, espalhando mais ainda.

Rosquinha caiu sentado do lado dele, olhos vidrados na TV.

— Olha o Darth Vader, Chô… parece o teu pai quando tu chegava destruído em casa.

Jota riu junto. A bala laranja não liga pra detalhes.

Popó levantou do chão, puto.

— Vocês são uns idiotas. Eu vou embora. Quem vem comigo fica vivo hoje.

Ele já estava com o celular na mão, dedo no aplicativo do Uber. A tela iluminava o rosto dele de azul frio.

Barão pegou mais uma bala, colocou na boca como se fosse chiclete.

— Relaxa, Popó. Aqui é área nobre. Ninguém chama polícia no Capão da Imbuia.

Foi aí que Jota viu. Pela fresta da persiana, dois olhos. Depois quatro. Depois um rosto inteiro colado no vidro. Vizinho de pijama, cabelo de dormir, olhando direto pra mesa. Outro apareceu do lado. Uma senhora de robe, celular na mão.

Jota deveria ter sentido medo. Deveria ter escondido tudo.

Em vez disso, o riso veio. Começou no peito, subiu engasgando, explodiu alto, incontrolável.

— Jota, cala a boca, caralho! — Popó tentou tampar a boca dele com a mão.

Jota empurrou ele, ainda rindo, lágrimas escorrendo.

— Tá tudo bem… tá tudo bem… — conseguiu falar entre os espasmos. — Eles só querem entrar na lista também.

O cartão escorregou da mão dele, voou, bateu no chão. O pó virou nuvem branca no ar. Rosquinha riu junto, agudo, histérico. Beagá tentou cobrir a mesa com uma almofada. Barão só olhava, boquiaberto, a bala derretendo entre os dentes.

Popó pegou Jota pelo braço, forte.

— Levanta, Jota. Agora. Pensa no pai. Pensa na mãe. Pensa no Deco, porra.

Quando ele falou “pai”, alguma coisa mexeu no bolso da calça de Jota. O ímã de geladeira do Posto Esso — que tinha arrancado do caderno antes de sair de casa, vai saber por quê — aqueceu de repente. Peso estranho contra a coxa, quente demais pra ser real.

— Eu fico — falou Jota, ainda rindo, mas agora com a voz molhada. — Eu sempre fico, irmão.

Popó soltou ele. Olhou pra Jota como quem olha um carro que já decidiu bater.

— Então fica e se fode.

Ele virou as costas, abriu a porta da frente. A garoa entrou junto com o vento frio. O Uber já estava parado na calçada, pisca-alerta ligado.

Rand Oliveira apareceu de novo, do nada, na porta do corredor.

— Lá fora — disse, apenas isso.

Beagá virou.

— O quê que tem lá fora?

Mas Rand já tinha evaporado mais uma vez.

Jota ainda tentava separar o pó. A mão tremia tanto que o cartão parecia vivo. O cadarço do tênis esquerdo — o místico — desamarrou de vez. Jota tropecou pra frente, quase caiu de cara na mesa.

E foi exatamente aí que o cadarço salvou a vida dele.

O tropeão jogou ele de joelhos. O cadarço solto enrolou no pé da mesa de centro, segurou ele exatamente quando ia cair com a cara no prato de balas laranja. Se caísse, teria engolido meia dúzia de uma vez e provavelmente apagado ali mesmo. Em vez disso, ficou ajoelhado, rindo mais ainda, o rosto a dez centímetros do pó, lágrimas pingando na madeira.

— Olha o Jota rezando pro santo do bagulho! — gritou Rosquinha, agora deitado de costas no sofá, pernas pro alto, batendo palma.

Beagá já estava enfiando o resto das cartelas no bolso da calça jeans, suando frio. Barão tentava fechar a persiana com uma mão só, mas o cordão enganchou e a cortina abriu mais ainda. A rua inteira agora assistia ao vivo.

Do lado de fora, luzes vermelhas e azuis começaram a dançar na garoa. Duas viaturas, devagarinho, como se soubessem que ninguém ali ia correr. O som da sirene ainda estava desligado, só o giroscópio cortando o silêncio do bairro.

Popó parou na porta, uma mão na maçaneta, olhando pra trás.

— Última chance, Jota.

Jota levantou a cabeça. O ímã no bolso queimava agora, pesado e quente contra a perna. Pegou o isqueiro amarelo — aquele que sobreviveu a enchente, incêndio e até uma lavagem na máquina — e tentou acender só pra ver a chama. Clique. Clique. Na terceira vez acendeu forte, uma labareda azul quase meio metro. Iluminou o rosto barbado dele, suado, os olhos injetados e o sorriso de quem já perdeu tudo e ainda tá ganhando.

— Eu fico — repetiu Jota, agora quase sussurrando, mas com uma certeza que fez o próprio Popó hesitar.

Ele balançou a cabeça, entrou no Uber e bateu a porta. O carro deu ré, faróis iluminando a casa inteira por um segundo. Jota viu o rosto do irmão pela janela traseira: puto, triste, aliviado, tudo ao mesmo tempo. Depois sumiu na esquina.

Dentro da sala, o tempo desacelerou.

Rosquinha ainda ria, mas agora era um riso nervoso, quase choro. Beagá e Barão já estavam na cozinha, procurando a porta dos fundos que ninguém sabia se existia. Jota continuou ajoelhado, o cadarço enrolado no pé da mesa como âncora, o isqueiro na mão esquerda, o caderno marrom aberto na frente dele.

Pegou a caneta bic. Escreveu, com letra grande e torta, na última página em branco:

“Jota – fica.”

Fechou o caderno. Guardou no bolso de trás, junto com o ímã que ainda queimava contra a pele.

Passos na varanda. Três toques fortes na porta.

— Polícia! Abre aí!

Jota riu uma última vez, baixo, quase carinhoso, como quem ri de uma piada muito antiga que só ele entende.

A porta abriu antes mesmo dele levantar. Dois policiais entraram com lanternas fortes — tinham visto tudo pela janela antes de bater. Feixes cortando a fumaça doce que ainda pairava no ar. O cheiro de bala laranja queimada, etanol velho e medo misturado.

— Mãos na cabeça! No chão, todo mundo!

Rosquinha ainda tentava se levantar do sofá, rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Boa noite, seus lindos… quer um suquinho?

Um dos PMs empurrou ele de volta com o coturno. Beagá e Barão já estavam de cara no chão na cozinha, braços abertos, sem resistência. Jota continuou ajoelhado, o cadarço do tênis ainda enrolado na mesa como se fosse coleira.

O policial mais velho, bigode grisalho, abaixou a lanterna na cara dele.

— Levanta devagar, gordão.

Jota levantou. Devagar mesmo. 1,83 m, 110 kg, camiseta regata vinho colada no corpo, suor e pó laranja grudado no peito. O isqueiro amarelo ainda quente na mão direita. O caderno marrom saindo meio bolso de trás.

O policial viu a mesa. Viu o prato com as balas que sobraram. Viu o pó espalhado como neve de Natal.

— Isso tudo é teu?

Jota sorriu. Um sorriso largo, tranquilo, quase educado.

— É da casa, seu guarda. Eu só vim cadastrar o pessoal.

O outro PM já virava ele de costas, algema fria mordendo os pulsos. O ímã de geladeira escorregou do bolso, caiu no chão com um toc seco. O policial mais novo pegou com a bota, olhou o logo apagado do Posto Esso, as bordas descascando, e jogou de volta no chão.

— Traste velho — murmurou.

Quando puxaram ele pra fora, o cadarço solto do tênis finalmente se soltou de vez da mesa. Jota tropeçou no degrau da varanda, quase caiu de cara no capô da viatura. O mesmo policial segurou ele pelo braço.

— Cuidado, chefe. Vai machucar esse sorriso bonito.

Jota riu. Riu alto, rouco, com a garganta queimando bala laranja. A garoa caía fina no rosto dele, lavando o suor, o pó, as lágrimas que ele nem sabia que estavam lá.

Na rua, alguns vizinhos ainda filmavam com o celular. Luzes dos postes tremiam na água. O Gol Bolinha estava lá, quieto, vidro embaçado, banco do motorista afundado com o formato exato do corpo dele.

Levaram Rosquinha primeiro, ainda cantando a trilha de Star Wars. Depois Beagá e Barão, cabeça baixa. Jota foi o último.

Antes de entrar na viatura, olhou pra casa. A TV ainda ligada, sabre de luz azul e vermelho piscando na parede vazia. O caderno marrom ficou lá dentro, aberto na página onde ele tinha escrito “Jota – fica”.

Parou de rir.

Só por um segundo.

Pensou no Popó no Uber. No Deco em casa. No pai que ia receber ligação da delegacia.

Pensou em tudo que tinha escolhido deixar pra trás.

E então o riso voltou.

Porque era tarde demais pra mudar de ideia.

O policial empurrou a cabeça dele pra dentro do carro.

— Última chance de falar alguma coisa inteligente, gordo.

Jota respirou fundo o cheiro de borracha quente e desinfetante da viatura.

— Eu fico — falou, baixo, quase carinhoso.

Ele bateu a porta.

As luzes giraram. A sirene finalmente ligou, rasgando a noite fria do Capão da Imbuia.

E Jota ainda estava rindo quando o carro virou a esquina e levou embora o rei que escolheu o próprio inferno.

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Sinopse Narrativa:

Garoa em Curitiba. Jota e Popó chegam em casa no Capão da Imbuia (primo de amigo de Beagá, pais evangélicos). Mesa com pó branco, comprimidos, balas laranja (caveirinha estampada). Jota tomou meia bala no caminho, depois mais duas. Rosquinha na segunda bala (expulso de casa pelo pai 3 dias atrás). Barão Vermelho (vendedor) prova pela primeira vez. Beagá primeira vez. Vizinhos olham pela janela filmando. Popó tenta tirar Jota, vai embora de Uber. Cadarço esquerdo solto enrola na mesa impedindo Jota de cair com cara no prato de balas (teria engolido meia dúzia). Ímã no bolso queima. Polícia chega (duas viaturas), prende todos. Jota continua rindo, escreve "Jota – fica" no caderno. Viatura leva ele embora ainda rindo.

Gênero Drama, Realismo contemporâneo
Tom Autodestrutivo, Tenso
Timeline Curitiba
Versão Jota Normal
Categoria Drogas, Queda pessoal
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Gol Bolinha Cinza Urban 2003, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Autodestruição, Escolhas irreversíveis, Lealdade distorcida
Locais Capão da Imbuia, casa de dois andares, delegacia, garagem aberta, Rua
Palavras-Chave autodestruição, bala laranja, Barão Vermelho, cadarço salvador, Capão da Imbuia, drogas, escolha fatal, prisão
Jota 110kg, 1,83m, barba, bala laranja com caveirinha em relevo, gosto de metal quente/verão queimado, meia bala no caminho, depois segunda e mais, pó branco, cartelas de comprimidos prateados na mesa, Star Wars Episódio IV na TV (volume alto, disfarce), pais evangélicos desciam de chinelo oferecendo suco de laranja, Rosquinha expulso de casa pelo pai 3 dias atrás, Barão Vermelho vendia mas nunca tinha provado até hoje, Beagá primeira vez, cartão de crédito velho pra separar carreiras, vizinhos olhando pela fresta (vizinho de pijama, senhora de robe com celular), duas viaturas, luzes vermelhas e azuis, sirene desligada primeiro, três toques fortes na porta, dois policiais com lanternas (mais velho bigode grisalho, mais novo), algemas frias, Rosquinha cantando trilha Star Wars, cheiro borracha quente e desinfetante da viatura, "rei que escolheu o próprio inferno", cadarço SALVOU Jota de engolir meia dúzia de balas de uma vez
 

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