Capa do Capítulo

Fim de Fase

Extensão: 2.212 palavras | Leitura: 12 min

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Os degraus rangiam como ossos velhos sob o peso coletivo.

Cada pisada devolvia um estalo seco, madeira velha reclamando do esforço de Jota e do grupo que subia atrás, ombro a ombro no escuro úmido da estrutura abandonada no Centro de Curitiba — prédio que parecia crescer infinito pra dentro, andares que não existiam no mapa. O cheiro era poeira antiga acordada às pressas, sangue seco nas paredes, e aquela podridão agridoce que só zumbis deixam — mas ali havia algo pior que caos. Havia método. Como se alguém tivesse programado o apocalipse em ondas, níveis, fases que se ajustavam ao erro humano.

A camiseta regata vinho colava no peito largo de Jota, suada de esforço apesar do frio que subia dos andares inferiores como hálito morto. Rasgada na lateral de lutas antigas, marcava a barriga dura de mais de cem quilos de músculo e cansaço acumulado ao longo de fases que pareciam não acabar. Os tênis surrados pisavam firme na madeira escorregadia, dedão esquerdo aparecendo pelo buraco gasto, cadarço direito meio solto roçando o tornozelo a cada degrau — pronto pra salvar ou complicar, como sempre. No bolso da calça moletom cinza, o isqueiro amarelo sobrevivente batia contra a coxa, fiel como poucos. A mochila laranja balançava nas costas, zíper entreaberto, caderno de capa dura marrom dentro com anotações rabiscadas em noites sem sono — “Fase 7: onda organizada”, “Fase 8: porta vermelha?”, desenhos rápidos de zumbis em formação, rotas que levavam sempre ao mesmo lugar.

No pescoço, pendurado como dog tag, o ímã de Posto Esso. Cinza fosco batendo no peito a cada passo. Retangular, plástico barato anos 90, logo quase apagado. Cada um do grupo tinha seu objeto pendurado. Rosquinha, algo que Jota imaginava ser um biscoito petrificado — combinava com ele. Popó, uma manopla de bicicleta surrada. Leandro, uma pequena anilha de academia. Rand, quando aparecia do nada na retaguarda, tinha uma chave inglesa enferrujada balançando no peito.

A horda bloqueava a escadaria inteira. Degrau por degrau. Não vinham em desordem selvagem de mortos-vivos famintos. Moviam-se em blocos coordenados, subindo e descendo como ondas sincronizadas em um videogame cruel. Olhos brancos fixos nos alvos. Rosnados baixos, ensaiados, quase respeitosos. Esperando o erro. Calculando o momento exato pra fechar o cerco.

Rosquinha, ao lado esquerdo de Jota, voz aguda cortando o silêncio tenso como faca no escuro:

— Caralho, Chô, esses zumbis tão mais organizados que fila de banco no fim do mês. Parece que tão jogando no hard mode só pra foder a gente.

Popó, do lado direito, faca na mão, olhos fervendo pro vazio abaixo, pronto pra explodir:

— Deixa eu cortar um. Só um, porra. Pra ver se desorganiza essa merda toda e a fase avança.

O ímã no peito de Jota esquentou de leve. Popó bem ao lado. Sempre esquentava perto de sangue familiar. Irmão ali, vivo, lutando junto. O calor sumiu rápido quando Popó se afastou dois passos.

Leandro Costa, apelido que colou nesse apocalipse infinito: NoPainNoGame, ria rouco atrás, arma no ombro, recarregando com calma irônica:

— Sem dor sem jogo, brothers. Essa fase tá pedindo headshot em sequência.

Rand Oliveira surgia do nada na retaguarda, macacão azul sujo de sangue seco e graxa velha, chave inglesa balançando no peito, ajustando a mochila de munição como se fosse ferramenta de oficina:

— Calma. Segue o ritmo deles. Eles esperam erro. Não erra. Eu cubro as costas.

E sumia de novo na penumbra entre os degraus, fantasma técnico que aparecia quando a coisa apertava e desaparecia quando não precisava mais.

Jota apertou a arma contra o peito, cano quente de tiros recentes. Respirou fundo o ar podre. Acelerou o passo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas apesar do frio.

O grupo seguiu no mesmo compasso. Qualquer quebra na sincronia e a horda fechava o cerco como algoritmo se ajustando.

Chegaram a um patamar mais amplo, respiração ofegante ecoando nas paredes descascadas. A primeira leva avançou com precisão milimétrica. Bocas abertas, dentes quebrados brilhando na luz fraca, membros rígidos movendo-se em uníssono — precisos, como se alguém invisível comandasse o timing exato.

Jota girou o corpo. Mirou na testa do primeiro. Tiro seco. Cabeça explodiu como saco de tinta preta, miolo espirrando na parede. Outro veio logo atrás, ajustando o ângulo pra evitar o corpo caído. Dois tiros rápidos no peito, terceiro na nuca. Golpe com a coronha no crânio do próximo que chegou perto demais. Cada corpo caído era substituído imediatamente por outro que subia do degrau abaixo, olhos brancos recalculando o caminho.

Rosquinha atirava ao lado, voz cantando piada negra no meio do caos pra afastar o medo:

— Headshot, headshot, zumbi sem teto! Essa fase tá fácil, Chô!

Popó cortava um que chegou perto demais, lâmina entrando no pescoço podre, riso sangue-quente explodindo:

— Finalmente cortei um! Valeu a espera, porra. Próximo!

Leandro, NoPainNoGame, recarregava rindo nervoso, tiro preciso derrubando dois de uma vez:

— Sem dor sem jogo, brothers.

Rand surgiu de novo ao lado de Jota, ombro a ombro no patamar apertado, atirando preciso na onda que subia do andar de baixo:

— Mais uma leva ajustando. Segue o padrão. Eu cubro o flanco.

A última criatura da onda tombou com um tiro na nuca que fez o corpo rolar degraus abaixo, batendo nos que vinham. Silêncio caiu pesado de repente. Mais perigoso que os rosnados coordenados.

À frente, na penumbra do corredor que parecia não pertencer ao prédio, a porta corrediça enorme. Vermelha. Enferrujada como casco de navio afundado, recolocado ali como peça de um level que ninguém pediu.

Jota se aproximou devagar. Arma levantada. Respiração entrecortada ecoando no vazio. O grupo esperou alguns passos atrás, dedos no gatilho, olhos varrendo as sombras que pareciam se mover sozinhas.

Ele agarrou a maçaneta com as duas mãos. Metal frio mordendo as palmas, áspero de ferrugem. Pesado demais pra uma porta comum.

Puxou com força. Músculos tensionando. Camiseta esticada.

A porta resistiu por um segundo que pareceu eternidade. Depois cedeu de uma vez. Grito metálico ecoou como alarme de game over.

Uma força invisível agarrou o peito dele. Puxou pra dentro como mãos gigantes escondidas. Jota voou pelo ar. Bateu no chão duro do outro lado, costelas reclamando. Arma quicou na parede metálica fria. Caiu longe, fora de alcance.

Rolou pra reagir. Procurou brecha na escuridão. Nada. Outra porta idêntica surgiu atrás, vermelha corrediça, fechando sozinha com estrondo final. Selando tudo.

Gritos abafados do outro lado. Rosquinha batendo furioso:

— Chô! Abre essa merda, porra!

Popó cortando o ar com a faca, lâmina batendo no metal:

— Vou cortar essa porta se não abrir agora!

Leandro rindo nervoso, voz tremendo pela primeira vez:

— New level solo, brothers… sem save point. Caralho, isso é cheat.

Rand voz calma do outro lado, abafada:

— Ele tá sozinho agora. Fase final. Eu… ajustei pra isso.

Jota ficou de pé devagar, costas doendo. Cômodo abafado. Lâmpadas fracas pulsando nas paredes como respiração artificial de máquina velha. Cheiro de mofo pesado, impregnado com odor agridoce de podridão organizada.

Zumbis esperavam ali dentro. Parados em formação. Pacientes. Olhos brancos fixos nele. Respirando lento, sincronizado.

Avançaram devagar. Respeitando o momento. Como se soubessem que era fase solo.

Jota correu pra arma caída. Pegou. Mirou no primeiro. Tiro na cara. Crânio explodiu. Passou por cima do corpo. Golpeou outro com coronha na têmpora. Afundou. Empurrou terceiro contra a parede.

O cadarço direito soltou de uma vez. Pé pisou em falso. Jota tropeçou, corpo caindo pro lado. Evitou por centímetros a mordida que vinha na altura do pescoço — dentes fecharam no ar, rangendo. Rolou no chão. Levantou. Cadarço arrastando solto.

Atravessou o cômodo lutando. Sensação de algoritmo se ajustando a cada movimento. Cada zumbi reagindo ao dele. Adaptando ao medo. Não aleatório. Programado.

Chegou ao cômodo menor. Paredes descascadas rachando como tela quebrada. Escrivaninha velha no centro, madeira podre. Abajur sem lâmpada iluminando fraco uma silhueta sentada. De costas. Corpo inclinado. Ombros curvados sob peso que Jota conhecia bem.

O ar mudou de vez. Mais pesado. Mais frio. Como fim de run.

O homem virou o rosto devagar.

Rand Oliveira.

Macacão azul. Chave inglesa no peito. Olhar calmo. Técnico. Como sempre.

Jota sentiu o mundo desabar inteiro.

— Logo você…

Voz saiu rouca. Quebrada. Sem força.

Mas os pés já se moviam. Jota avançou. Arma levantada. Dedo no gatilho. Cem quilos de músculo e raiva lançados contra a escrivaninha.

Rand não se mexeu.

Apenas levantou a mão direita. Gesto mínimo. Dedos se movendo como quem ajusta controle.

Os zumbis explodiram em movimento. Dois agarraram os braços de Jota. Outro golpeou as pernas. Quarto mordeu o ombro por trás. Jota gritou, tentou se soltar, golpeou com a coronha. Inútil. Seguravam firme demais. Coordenados demais.

A arma escorregou da mão suada. Bateu seco no chão.

As pernas cederam. Jota caiu de joelhos. Depois sentou. Braços moles no colo. Olhos fixos em Rand.

Rand apenas observou. Sem surpresa. Sem culpa. Mãos cruzadas na escrivaninha. Chave inglesa balançando de leve no peito.

Os zumbis se aproximaram. Lentos. Pacientes. Como se obedecessem comando silencioso dele.

Entre eles, Larissa.

Corpo alto ainda perfeito na morte. 1,75 de curva letal. Pernas grossas marcando a calça rasgada. Blusa destruída deixando piercings nos mamilos à mostra. Olhos brancos fixos nele. Boca aberta devagar.

Avançou. Quase carinhosa.

Mordeu o braço primeiro. Dentes afundando na carne. Dor quente subindo rápida. Distante, como se o corpo já desistisse.

Outro zumbi mordeu o ombro.

Pele deles começou a apodrecer acelerado ao tocar. Carne escurecendo. Rachando. Virando mingau preto pegajoso. Escorrendo. Pingando. Poças fedorentas no chão enquanto ainda mordiam.

Larissa mordeu o pescoço. Devagar. Dentes rasgando a camiseta vinho. Carne cedendo.

Jota fechou os olhos. Pensamento obcecado invadindo tudo.

Larissinha. Bucetinha perfeita. Deliciosa. Quente — chave de buceta inesquecível que ela deu nele. Calor que agora voltava como dor queimando o pescoço rasgado. Prazer perdido virando podridão. Noites de suor limpo apagadas por sangue sujo. Marcada só pra ele em fases que agora pareciam outra vida. Perdida pra sempre nessa.

Abriu os olhos. Larissa ainda ali. Mordendo. Apodrecendo devagar. Carne escorrendo como mingau. Poça no chão.

Jota pegou o isqueiro no bolso com a mão livre. Acendeu na primeira. Chama azul dançando.

Aproximou de zumbi perto. Pele pegou fogo fácil. Apodreceu mais rápido. Fumaça preta subindo.

Larissa olhou a chama. Olhos brancos sem expressão. Mordeu mais fundo.

Jota deixou o isqueiro cair. Chama apagou na poça viscosa.

Mão bateu na mochila. Caderno caiu. Páginas abertas na poça. Jota olhou antes de borrar. “Fase 8: porta vermelha? Rand?” escrito três noites atrás. Ele já sabia. Já desconfiava. Rand tinha plantado tudo desde o começo. Anotações virando manchas ilegíveis.

O ímã no pescoço de Jota brilhou fracamente. Cinza fosco virando azul pálido. Logo apagado. Brilho sutil ecoando Popó lá fora — irmão batendo na porta selada, gritando nome que não chegava mais.

Brilho morreu.

— Não aguento mais… — murmurou Jota. Olhou Rand. — Não com você aqui. Traindo no fim. Ajustando as fases todas.

Rand inclinou a cabeça. Primeira reação.

— Você achou que eu subia com vocês? — disse calma. Técnica. — Eu já estava aqui antes de abrirem a porta. Vocês subiram devagar demais. Conhecia cada corredor, cada parede falsa, cada atalho. Tive tempo de ir e voltar antes de chegarem na porta.

Pausou. Olhos vazios percorrendo Jota como se lesse relatório.

— Grupo se tornou previsível. Rosquinha com piadas. Popó com raiva. Leandro com frases. Você com hesitação. Padrões identificados, catalogados, explorados. Nível de dificuldade estava baixo demais. Grupo muito confortável. Precisava de evento de ruptura pra calibrar.

Do outro lado da porta, Leandro voz tremendo ao ouvir o eco abafado de Rand:

— Traição no boss final? Porra, Rand…

Rand não respondeu.

Apenas olhou Jota embranquecendo devagar.

Corpo esfriando inteiro.

Formigamento virando rigidez.

Larissa última mordida. Pescoço rasgado.

Pensamento final fixo na Larissinha perdida.

Corpo levantou rígido.

Rosnado baixo saiu da garganta.

Rand na escrivaninha acenou. Gesto técnico. Trabalho concluído.

Porta vermelha rangeu. Abriu sozinha.

Grupo viu Jota sair. Olhos brancos. Boca aberta. Passo lento.

Popó levantou a faca. Mão tremendo. Olhos enchendo. Irmão ali. Mas não era mais irmão. Não era mais Jota. Era corpo corrompido usando pele dele.

Rosquinha voz sumida pela primeira vez:

— Chô… — sussurrou. Som nem saiu.

Leandro baixou a arma. Não conseguia mirar. Dedo travado no gatilho.

Jota avançou.

Rand na escrivaninha, lá dentro, já ajustando próxima fase.

Nova fase começando.

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Sinopse Narrativa:

Jota e grupo (Rosquinha, Popó, Leandro/NoPainNoGame, Rand) enfrentam apocalipse zumbi organizado em fases como videogame, em prédio abandonado no Centro de Curitiba. Porta vermelha puxa Jota sozinho para fase final. Rand Oliveira é revelado como traidor que controla/ajusta as fases: "Você achou que eu subia com vocês? Eu já estava aqui". Jota é mordido por zumbis (incluindo Larissa zumbi). Vira zumbi. Grupo vê transformação.

Gênero Ação, Ficção Científica, Terror
Tom Desesperador, Tenso, Traição
Timeline Tech
Versão Jota Normal, Zumbi
Categoria Apocalipse zumbi, Game over, Traição
Itens Essenciais Caderno marrom de capa dura, Camiseta regata vinho, Ímã (posto Esso), Isqueiro amarelo (o sobrevivente), Mochila laranja, Tênis surrado
Temas Apocalipse programado, Traição, Transformação em zumbi
Locais centro, Curitiba, escadarias, porta vermelha, Prédio abandonado
Palavras-Chave apocalipse em fases, dog tags, game over, Larissa zumbi, porta vermelha, Rand traidor, transformação, zumbis organizados
CRÍTICO: Rand Oliveira revelado como TRAIDOR que controla/ajusta as fases do apocalipse. Ele estava na sala antes do grupo chegar, conhecia atalhos: "Tive tempo de ir e voltar antes de chegarem na porta". Explica que grupo ficou "previsível", "nível de dificuldade estava baixo demais", precisava de "evento de ruptura pra calibrar". Primeira vez que Jota VIRA ZUMBI. Cada membro tem objeto pendurado como dog tag: Jota (ímã Posto Esso), Rosquinha (biscoito petrificado), Popó (manopla de bicicleta), Leandro (anilha de academia), Rand (chave inglesa). Zumbis apodrecem ao tocar/morder, pele escurece, racha, vira mingau preto. Jota pensa obsessivamente em "Larissinha, bucetinha perfeita" antes de morrer. Calça moletom cinza. Mais de 100kg, barriga dura.
 

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