Jota rola o feed no escuro do quarto, camiseta regata vinho amassada no corpo, luz fria do celular iluminando o rosto. A mochila laranja está jogada no canto, caderno marrom fechado na mesa de cabeceira, isqueiro amarelo ao lado, caneta em cima como quem parou no meio de algo e esqueceu. Tênis surrados jogados no chão, cadarço direito solto como sempre. Três da manhã. Insônia de sempre. Ele desce pelo Instagram sem pensar muito, só deslizando o dedo, vendo story de gente que mal conhece, propaganda de coisa que não precisa.
Chega no perfil da mãe e para.
Uma foto antiga dele, postada há duas horas. Rosto sem barba, pele lisa, cabelo cheio caindo na testa, sorriso aberto que ele quase não reconhece mais. Camisa branca simples, luz natural batendo de lado, fundo desfocado. Deve ter uns vinte e cinco anos essa foto. Talvez mais. A legenda é só um coração vermelho.
Ele amplia a imagem. Passa o dedo sobre o próprio rosto antigo. Quem era esse cara? O que ele pensava? O que ele queria?
Desce até os comentários.
E aí vê.
O nome que faz o peito apertar: Satogos Cruel.
“De onde a senhora conhece esse gato???”
Satogos Cruel. Eles se conheceram há dez anos, trocaram algumas palavras, olhares, mas nunca passou disso. E agora ela tá ali, comentando na foto dele — uma foto de antes, de muito antes, de quando ele tinha dezenove e ela ainda nem existia na vida dele.
Jota lê uma vez. Duas. Três. O coração começa a bater mais rápido, sangue subindo quente até as orelhas. Ele segura o celular com as duas mãos agora, como se a tela fosse escorregar.
A resposta da mãe já está lá, postada há uma hora:
“Esse aí é meu filho mais bonito, óbvio 😂😂😂❤️”
O sorriso cresce devagar, sem querer, até doer as bochechas. Jota lê de novo. E de novo. E mais uma vez. Filho mais bonito. Ela diz isso de todos os filhos. Mas hoje é comigo. Satogos Cruel perguntou.
Será que ela lembra dele? Do encontro há dez anos, da conversa rápida, do olhar que trocaram e nunca virou nada? Ou será que apagou completamente, e agora está ali perguntando pra mãe dele sem a menor ideia de que aquele menino sem barba da foto cresceu, encheu, deixou a barba brotar e virou o homem que ela cruzou uma vez na vida?
Elas não são amigas no Instagram. Não se seguem. Então como a foto apareceu pra ela? Algoritmo? Acaso? Ou ela foi procurar? E se foi procurar… por quê? Será que lembra? Será que conectou os pontos — a mãe, o sobrenome, aquele encontro de dez anos atrás que mal durou cinco minutos mas que pra ele nunca saiu da cabeça?
Ou será que realmente não faz ideia, e só achou bonito um desconhecido numa foto antiga?
Não tem como saber.
E talvez seja melhor assim.
O coração bate tão alto que parece que vai acordar a casa inteira.
Ele levanta da cama, vai até a janela. Lá fora, o Gol Bolinha cinza estacionado sob o poste, lataria brilhando fraco na luz amarela da rua. Mundo parado. Silencioso. Curitiba dormindo.
E ele aqui dentro, segurando um celular, rememorando.
Quando foi que tirou essa foto? Não lembra exatamente. Lembra que tinha menos peso. Menos cicatriz. Menos história. O cabelo era cheio, ondulado, caía nos olhos e ele vivia empurrando pra trás. A barba? Aos dezenove nem pensava nisso — não crescia direito, falhava, desistia no meio. Aos trinta e poucos, quando conheceu Satogos, ainda era rala, irregular. Hoje, aos quarenta e quatro, é cheia, protuberante, com fios grisalhos nas laterais que ele aprendeu a aceitar como escudo, como máscara, como parte da identidade que construiu depois.
Quem é o Jota de agora?
1,83m, 110kg, barba cheia marcando o rosto, cabelo curto, olhos cansados de quem já viu demais. Camiseta regata vinho que vive suada, Gol Bolinha que range nas curvas, mochila laranja que carrega caderno e memórias.
E quem era o Jota da foto?
Magro. Liso. Aberto. Sorrindo como se o mundo fosse lugar seguro.
Qual dos dois ela gostaria mais?
A pergunta bate com força.
Ela achou AQUELE cara bonito. Não esse. O de vinte e cinco anos atrás, sem barba, sem peso, sem cansaço nos olhos. Será que acharia o de agora bonito também? Barba e tudo? 110 quilos e tudo? Experiência nos olhos e tudo?
Ou será que a magia está exatamente aí — na foto antiga, na versão que não existe mais, no menino que ela nunca vai conhecer de verdade porque ele já não é mais aquele?
Outro comentário aparece logo abaixo.
Satogos Cruel de novo.
“kkkkk que lindo esse menino”
Jota lê. Relê. Sente o calor subir do estômago até a garganta. Os dedos pairam sobre o teclado. Começam a digitar.
“kkkkk sou eu mesmo”
Para. Apaga.
Muito direto. Muito óbvio. Vai parecer desesperado.
Tenta de novo.
“mainha exagerou né kkkk mas obrigado”
Para. Apaga.
Pior ainda. Falsa modéstia. Ela vai achar forçado.
Tenta mais uma vez.
“obrigado”
Só isso. Simples. Sincero.
Para. Apaga.
Simples demais. Seco. Vai parecer que não ligou.
Jota joga o celular no colchão, passa as mãos no rosto. Por que é tão difícil responder uma coisa boa? Por que felicidade vem com essa ansiedade colada, esse medo de estragar, de falar errado, de transformar um momento perfeito em constrangimento?
Ele pega o celular de novo. Volta pra foto. Aumenta. Olha o próprio rosto sem barba, o cabelo cheio, o sorriso aberto.
Satogos Cruel achou aquele cara bonito.
Não o de agora. O de antes.
E se ela soubesse? E se visse ele barbudo, pesado, cansado? Será que ainda acharia bonito? Ou será que o encanto quebraria na hora, como espelho caindo?
Jota deita de costas, celular no peito, olhos abertos no escuro. A mochila laranja continua no canto. O caderno marrom continua fechado. O isqueiro amarelo continua na mesa. Lá fora, o Gol Bolinha continua estacionado. Tudo parado. Tudo esperando.
Menos o coração dele, que continua batendo acelerado.
Ele volta pro Instagram. Lê os comentários de novo. A pergunta dela. A resposta da mãe. O segundo comentário. Tudo ainda lá, sólido, real, não foi sonho.
Satogos Cruel achou ele bonito.
Nem importa qual versão dele. Nem importa se foi o de antes ou se seria o de agora. Importa que ela perguntou. Que ela quis saber. Que o nome dele passou pela cabeça dela, mesmo sem saber que era ele.
Jota digita de novo.
“esse menino aí cresceu mas continua por aqui”
Olha a frase. Gosta. Quase manda.
Apaga.
Não. Ainda não. Deixa a felicidade durar mais um pouco. Deixa o momento respirar. Deixa a pergunta dela ecoar sem resposta imediata, porque às vezes a melhor parte não é a resposta, é a sensação de ser visto, de ser notado, de ser achado bonito por alguém que você acha a mulher mais linda do planeta.
Ele fecha o Instagram. Não apaga a mensagem dela. Só fecha. Guarda. Deixa ali, pulsando, viva, esperando.
Coloca o celular na mesa de cabeceira, ao lado do caderno marrom, da caneta e do isqueiro amarelo. A tela apaga. O quarto volta ao escuro completo. Só o som da respiração dele e o silêncio da madrugada curitibana lá fora.
O sorriso não sai.
Nem quer que saia.
Jota vira de lado, puxa o lençol até o ombro, fecha os olhos. E mesmo sem ver, ainda sente a luz fria do celular iluminando aquele rosto antigo, aquele cabelo cheio, aquele sorriso aberto.
E sente também o nome dela, escrito em letras pequenas embaixo da foto, perguntando, querendo saber, achando bonito.
Dorme sorrindo.
08h47.
Acordou com o sol batendo na cara, suor grudando a camiseta regata vinho nas costas. Pegou o celular. Bateria em 23%. Abriu o Instagram.
O comentário dela ainda lá.
“kkkkk que lindo esse menino”
Releu. O coração acelerou de novo. Mas não era mais três da manhã. Era dia. Luz clara entrando pela janela. Curitiba acordada. O Gol Bolinha ainda lá embaixo, esperando.
Digitou a resposta no comentário, sem pensar muito.
“cresci mas ainda tô por aqui”
Olhou. Respirou fundo.
Postou.
A notificação de mensagem direta apareceu quase na hora.
Satogos Cruel.
Jota largou o celular na cama como se queimasse. Levantou. Foi até a janela. Olhou pra rua. Voltou. Pegou o celular.
Abriu o DM.
“kkkkk para. você????? serio??????”
Ele sorriu.
Digitou no DM:
“sério”
Mandou.
Os três pontinhos apareceram.
Ela tá digitando.
E então:
“caralho que plot twist tipo você tá MUITO diferente mas continua lindo”
Jota leu.
Releu.
Releu mais uma vez.
Continua lindo.
CONTINUA.
Presente. Não passado.
O barbudo. O pesado. O cansado.
Continua.
Ele sentou na beirada da cama, celular nas mãos, sorriso aberto que nem tentou esconder.
Digitou:
“obrigado”
Mandou.
Simples. Sincero. Suficiente.
E dessa vez, não apagou.
Porque às vezes felicidade é isso: não a resposta que você dá, mas a pergunta que fazem sobre você quando acham que você não está ouvindo.
E descobrir que, mesmo sem barba, mesmo com barba, mesmo com vinte e cinco anos a mais e quarenta quilos a mais, você ainda é o filho mais bonito da mãe.
E que alguém que você admira de longe há tanto tempo acha que você continua lindo.
Continua.
E isso, por enquanto, é tudo.
